8. Às vezes, até as pessoas de bem sentem um pouco de simpatia pelo diabo
Juliana
Alívio. Foi o que senti quando vi o Edgard entrar novamente no escritório e dizer que não havia encontrado o projeto. Eu precisava correr dali rápido. Normalmente não sou tão vulnerável, mas não sei dizer o que estava havendo comigo.
Entrei no carro completamente eufórica, parecendo uma adolescente. Tive que respirar fundo e contar até dez para me acalmar. Não tinha o menor sentido perder a cabeça daquele jeito, ainda mais por causa daquela doida. Precisava tirar aquela ideia absurda da cabeça, pois a fusão com a Blanchard era um negócio muito importante para mim e qualquer deslize poderia pôr tudo a perder.
Ainda faltavam vinte minutos para as quatro da tarde, mas eu não tinha condição para mais nada aquele dia. Estava a flor da pele, uma sensação de sufocamento, uma vontade de fazer algo que eu não sabia o que era.
Passei rapidamente na empresa, apenas para assinar alguns documentos importantes. Entrei na minha sala seguida pela Kelly, que enquanto me aguardava conferir tudo, repassava os meus recados.
— Ah, e a doutora Andreia ligou quatro vezes. Disse que precisa falar com você urgente. Até quis vir aqui, mas avisei que não tinha hora pra voltar.
A sensação de sufocamento virou angústia.
Por que essa mulher simplesmente não me deixa em paz?
Decidi apenas ignorar a informação, mas a Kelly não pareceu entender que eu não queria falar sobre aquilo.
— Devo retornar e transferir para você?
— Não! Pode deixar que resolvo isso depois. Cadê o Hugo, já chegou? — perguntei para desconversar.
— Ainda não, mas avisou que daqui a pouco me envia a minuta do contrato da Blanchard pra você assinar.
— Eu estou indo embora, Kelly, preciso resolver umas coisas. Por favor, quando ele enviar, imprima e deixe na minha mesa. Amanhã, assim que chegar, eu assino. Preciso ler tudo e hoje não dá tempo. — avisei e comecei a arrumar as minhas coisas.
Ela insistiu:
— Juliana, desculpa, mas é que o Hugo me disse que era urgente. Pediu até pra que eu só te deixasse sair daqui depois de assinar.
— Amanhã, Kelly. Agora eu tô indo. — falei séria, indicando que a minha decisão não estava aberta a negociação.
— Ok... — assentiu me vendo passar por ela rumo ao elevador.
Entrei no elevador pensando na Andreia. Suspirei profundamente. Sabia que não podia adiar aquele problema por muito tempo.
A assessoria jurídica da Zéfiro era terceirizada. Para mim era mais cômodo dessa forma. A Andreia era a advogada responsável pela Zéfiro dentro do escritório que prestava os serviços. Foi assim que nos conhecemos. Eu não achava certo misturar as coisas e resisti enquanto pude, mas acabei cedendo. Havia uma afinidade forte entre nós. Ela era linda, divertida, envolvente!
Ficamos juntas por dois anos e se eu não tivesse descoberto que ela, na verdade, não passava de uma tremenda pilantra, teríamos casado e tido filhinhos.
Depois de um tempo, a paixão me cegou e passei a confiar demais nela enquanto advogada da Zéfiro. Acabei ficando displicente, apenas passava os olhos por cima dos contratos, antes de assiná-los. Por causa disso, quase caí numa tremenda armadilha arquitetada por ela e pelo Maurílio, um escroto, que depois descobri que era amante dela.
O infeliz tentou me vender a patente do protótipo de uma torre geradora de energia que, de acordo com o projeto apresentado, era extremamente eficiente. Só que a parte que ele não contou foi que a energia gerada era altamente tóxica para o meio ambiente e para quem quer que se aproximasse do local, sem contar que era proibido. E tem mais, a patente nem era dele. Pertencia a um britânico, que não fazia ideia do que estava acontecendo.
Onde a Andreia entra nisso? Ela redigiu um contrato que omitia todas essas informações. Até aí, tudo bem. Ela poderia estar sendo enganada também. E eu teria assinado, se tivesse confiado apenas no trabalho dela. Mas acontece que não fui com a cara do tal Maurílio e senti que devia investigar aquele projeto mais a fundo antes de fechar negócio, mesmo com toda a insistência da Andreia para que eu assinasse.
Nem me esforcei muito para descobrir o golpe. Só precisei fazer algumas ligações e pesquisar um pouco. Fervi de ódio do desgraçado quando descobri, mas ele era tão cara-de-pau que ainda tentou me convencer a fechar negócio. A minha negativa o enfureceu.
— Você é a típica garota sortuda, Juliana. — falou quando expus minhas descobertas. — Essa empresa tem um potencial do caramba, mas você tem o pensamento muito pequeno e com esse pensamento mesquinho, logo você vai voltar pra sarjeta, porque não vai ter mão de ferro para conduzir algo desse porte com essa mente tão minúscula.
— Você está enganado, Maurílio. Nunca foi sorte. Foi estudo, trabalho, talento... palavras que não devem existir no seu vocabulário. Você foi ingênuo por achar que eu não iria analisar essa história. Não cheguei aqui porque sou boba, não, Maurilio.
Ele riu com escárnio. Foi aí que me deu o golpe:
— Ingênuo, eu? Tá legal, você me pegou. Eu realmente não consegui aplicar o golpe que queria em você, mas cheguei bem perto. Você se acha inatingível, inabalável, mas mal sabe que suas vulnerabilidades estão sendo expostas por aí por muito pouco.
Fiquei confusa com o que ele disse. Como assim, as minhas vulnerabilidades estavam sendo expostas? Ele só podia estar blefando.
— Maurílio, não me venha com subterfúgios...
— Você confia cegamente na sua namoradinha, né? — interrompeu-me.
— O quê? Do que está falando?
— Otária! Como acha que cheguei tão perto de arrancar essa grana de você?
Eu não quis acreditar naquilo... e não teria, se a própria Andreia não tivesse me confirmado.
— Ele estava me chantageando, Juliana. Eu juro. Tentei encontrar um jeito de evitar que acontecesse, fiquei feliz quando você resolveu investigar, mas eu...
— Some daqui, Andreia.
— Meu amor, por favor, me deixa explicar? — pediu chorando.
— "Meu amor" é o caramba, sua cínica. Fora! E não me procure nunca mais, ou acabo com a sua carreira. — gritei, transtornada.
— Não, você não seria capaz... — Tentou falar, mas não deixei que continuasse.
— Você não sabe do que eu sou capaz. Por enquanto, só vou exigir a sua demissão. Mas se me procurar, te denuncio pro conselho de ética da Ordem dos Advogados e pra polícia, sua mau-caráter. Então eu vou ser legal e te dar outra chance: saí daqui, agora!
Ela saiu, e eu desabei. Chorei convulsivamente por longo tempo. Eu estava com ódio de mim mesma, havia aberto uma porta no meu coração para a Andreia que costumava ficar fechada a sete chaves e me ferrei. Meu coração estava estraçalhado.
Passei dias para me recompor. Andreia realmente não me procurou mais, e isso foi bom, mas também foi terrível, pois a despeito da raiva que eu sentia dela, uma saudade desumana queimava o meu peito. Demitiu-se no dia seguinte, nem esperou que eu pedisse sua cabeça. Depois não tive mais notícias por quase seis meses, até que ela apareceu naquela noite, na quadra de vôlei.
Saí do escritório no meu carro e fui direto para casa. Ao entrar, dei de cara com a Mariana rodeada de livros. Ela estudava na mesa de jantar. Tínhamos escritório, mas ela preferia ficar ali. Manias de Mari.
— Ué, já em casa?
— Dia estressante, precisei encerrar mais cedo. — falei caminhando na direção do meu quarto e fui seguida por ela.
— O que houve?
— Cadê a mãe e o Enzo? — Tentei desconversar.
— Expulsei os dois, preciso terminar um trabalho. Acho que estão no play. Mas, anda conta, você não vai fugir.
Respirei fundo. Ela não me deixaria em paz.
— Andreia está louca atrás de mim, não sei o que fazer...
— Não acredito! Ela voltou quando?
— Apareceu na quadra ontem. Tomei um susto.
— Cara-de-pau! Juli, você não é doida de voltar com ela, né?
— Claro que não.
— Que bom! Mas, e aí? O que conversaram?
— Nada. Eu fugi dela. Só que hoje deixou um monte de recados com a Kelly, dizendo que precisava falar comigo com urgência.
— E você vai retornar?
— Ah, Mari! — suspirei. — Não sei.
— Juli, essa mulher não presta.
— Eu sei que não, mas a verdade é que a gente nunca conversou. Eu fiquei furiosa e apenas pedi que sumisse da minha vida. Nunca ouvi a versão dela, entende?
— E você acha que pode existir alguma justificativa plausível pro que ela fez?
— Acho que não, mas todo mundo tem direito a defesa, não acha? — falei e comecei a me trocar, precisava ir para a quadra gastar aquela energia toda.
— Bom, você é quem sabe. Mas toma cuidado com ela, tá? Essa mulher não presta, não a deixe te levar na conversa. Ela é ardilosa. — disse e me abraçou.
— Eu não vou deixar. Não vou cair no mesmo golpe duas vezes.
— Acho bom! E como foi a reunião com o pessoal da construtora? Fecharam negócio?
Ouvir aquilo me fez esquecer momentaneamente da Andreia e pensar na Caterine. Sorri sem querer ao ver uma compilação de todas as cenas dela passando na minha cabeça como um vídeo bem editado.
— Que cara é essa, Juli? É bipolar, agora? Há poucos segundos você tava com cara de choro por causa da Andreia, e agora esse sorriso bobo aí... será que preciso me preocupar?
— Não! — falei sorrindo enquanto vestia o top. — É que você falou da reunião e lembrei de uma coisa.
— Anda, seja objetiva, porque ainda tenho que terminar o meu trabalho e não posso morrer de curiosidade.
— Você não vai acreditar! — falei enquanto procurava uma camiseta. — Ontem, no Detran, uma doida tentou comprar a minha senha pra passar na frente e acabamos discutindo. E essa mesma doida acabou me livrando da Andreia, na praia, depois de quase ser atropelada por um patinador.
Ela gritou e começou a saltitar e bater palmas.
— Que é isso? — perguntei sorrindo, olhando para ela pulando igual pipoca.
— Ah, romance à vista.
— Nem à vista, nem a prazo. Não se iluda, mas não se iluda mesmo. — Sorri e vesti a camiseta.
— Fala, Juli. Por favor. Eu só tenho estudado, preciso de um pouco de emoção na minha vida, mesmo que seja através da sua.
— A doida do Detran é a noiva cadáver. — disse olhando para ela, como se aquilo fosse o auge do assunto.
Mari é intensa. Adoro contar as coisas para ela e vê-la curtindo como se fosse a conquista de um prêmio Nobel.
— O quê? — gritou já gargalhando. — Não acredito.
— Pois pode acreditar. E tem mais! — falei já saindo do quarto e indo na direção da cozinha para tomar água.
— Sério? Mais o quê, pelo amor de Deus? Conta logo, Juli, anda! Espera! — suplicou correndo atrás de mim.
— Ela é Caterine Blanchard. — falei como se aquela informação explicasse tudo, mas ela fez cara de que não entende. Enfatizei: — Blanchard.
— Blanchard? Como a construtora? Ah, não... sério? — gritou de olhos arregalados.
— Sim. Ela é filha do dono da Construtora Blanchard, que está se fundindo à Zéfiro.
Ela parou de rir e me analisou por um momento. Eu terminei de tomar a água da garrafa e vi um sorriso malicioso se formar no rosto dela, que me cutucou com os dedos indicadores.
— E você está querendo se fundir a ela, né? Entendi tudo agora.
— Para, claro que não. Volta pro teu estudo, tá chata já. — Empurrei-a para fora da cozinha.
— Só vou te deixar em paz porque tenho que terminar meu trabalho, mas já vou avisando que vou querer mais detalhes. Hoje durmo no seu quarto.
— Obrigada por avisar. Vou trancar a porta, sua fuxiqueira.
Mari era minha melhor amiga e me conhecia como ninguém. Por mais que eu tentasse esconder, ela era a única que sabia quando eu não estava no meu normal. E não descansava até descobrir o que estava se passando.
Coloquei a garrafa sobre a bancada de mármore e quando olhei para baixo, vi Julius com a coleira na boca, já me esperando.
— Fala a verdade, Julius, você é um ET disfarçado de cachorro, não é? — agachei e fiz um carinho nele, depois coloquei a coleira. — vem, vamos!
— Quero ver romance na sua vida, Juli! Senão vai acabar casada com o seu cachorro. — Mari gritou de dentro, pouco antes de eu fechar a porta.
— Tchau, Mari.
Saí e caminhei cerca de 50 metros com o Julius até a faixa de pedestre mais próxima para podermos atravessar a Beira-Mar. A quadra de areia onde eu costumava jogar ficava quase em frente ao meu prédio, mas naquele horário era praticamente impossível atravessar fora da faixa, pois o trânsito ali era intenso.
Já no calçadão, caminhando na direção da quadra, precisei me esquivar dos patinadores malucos que transitavam por ali sem o menor respeito por ninguém. Aquilo sempre me irritava, odiava o fato de não haver uma legislação que regrasse aquela prática, mas naquela noite, ao invés de xingar o patinador mentalmente, como sempre fazia, lembrei da maluca da Caterine.
E assim, comecei a aquecer com o Julius ao meu lado e a mente repleta de pensamentos inoportunos, protagonizados ora pela Caterine, ora pela Andreia.
Depois de queimar dois saques e levar uma bolada na cara, cheguei à conclusão de que precisaria tomar providências urgentes sobre as duas situações, ou enlouqueceria.
Sobre a Caterine, era fácil de resolver. Não havia nada demais, só atração. Fazia muito tempo que eu estava sozinha. Desde que terminara com a Andreia, para ser mais precisa. Então o corpo estava clamando por contato. Mesmo assim, ficar com ela não seria bom para os negócios, então precisava tirar aquela ideia da cabeça. Para isso, bastava encontrar outra para pôr no lugar. Nada que uma noitada em uma boate ou um bar não resolvesse.
Amanhã penso nisso.
Mas o caso Andreia era mais complicado. A desgraçada simplesmente sumiu da minha vida sem deixar rastros quando terminei com ela. E de repente, quase seis meses depois, resolveu aparecer e exigir atenção. Felizmente não foi na minha casa, acho que por medo de enfrentar a dona Aurora, que sempre implicou com ela. A relação das duas era tão tensa que eu jamais levei a Andreia para dormir lá em casa. Sempre nos encontrávamos na casa dela.
E por falar no diabo... é, ela nem me deu tempo para pensar no que fazer. Depois de uns quarenta minutos de jogo, apareceu na quadra. Sentou ao lado do Julius e ofereceu água de coco a ele, que bebeu.
Traidor.
Eu até tentei ignorar, mas me desconcentrei total, então resolvi acabar logo com aquilo. Fiz sinal para que alguém entrasse no meu lugar e fui até ela. Sentei ao seu lado ofegando de cansaço e recebi uma garrafa de água de suas mãos. Não fiz objeção, estava morrendo de sede. Bebi quase tudo de uma só vez.
— Pra quem sumiu por seis meses sem dar a mínima pro que eu estava pensando, você tá bem insistente em falar comigo agora, né? Anda, fala o que quer, vamos acabar logo com isso. — falei irônica, sem encará-la. Mantive os olhos fixos na quadra.
— Para com isso! Eu tive os meus motivos.
— Ah, sei! Imagino quais.
— É sério, Juliana. Eu juro pra você que tenho uma boa explicação pra tudo. Por favor, só me ouve.
A verdade era que eu queria ouvir, mesmo fazendo aquele jogo duro. Então dei qualquer resposta desaforada e desci com ela para praia, depois de pedir a uma amiga para ficar de olho no Julius.
Paramos a alguns metros do mar. As ondas vez ou outra molhavam os nossos pés. Ela ficou de frente para mim e vi seu rosto mal iluminado pela luz da lua. Aquilo mexeu mais do que devia comigo, mas respirei fundo e desviei o olhar.
— Ok, sou toda ouvidos.
— Senti saudades de te ver sob essa luz! — disse num fio de voz, referindo-se às diversas vezes que namoramos bem ali, naquele mesmo lugar.
— Teu cinismo me surpreende, sabia? É isso que tem pra falar depois de tudo o que aprontou? — Ela tentou falar algo, mas não deixei. Estava enfurecida e cuspi as palavras: — Eu te amei, droga! Confiei em você cegamente enquanto você me traia com aquele desgraçado, e agora vem me falar de saudade? Acha que sou idiota?
— Não, claro que não. Eu te amo... te amei desde que te conheci e nunca deixei de amar.
— Quem ama não trai, quem ama não engana...
— Eu não te traí, foi mentira dele.
— Ah, agora você diz que é mentira, mas naquele dia assumiu que o ajudou a me enganar.
— São duas coisas diferentes. Eu o ajudei, sim, contra a minha vontade, porque estava sendo chantageada. Mas nunca deixei que ele encostasse em mim depois que começamos a namorar.
Que história era aquela? Que tipo de fuga estava tentando usar para me enrolar? Minha vontade foi de gritar, mandá-la para o inferno e sumir dali, mas ao mesmo tempo eu queria ver até onde aquela cara-de-pau dela iria. Por isso, perguntei em tom de desafio:
— Por que ele te chantageava?
Ela olhou para o chão em silêncio. Meneei a cabeça decepcionada e mencionei sair dali, mas antes de conseguir me afastar, ela me puxou.
— Eu fui namorada dele, sim. Bem antes de te conhecer, mas não sabia que não prestava. Na época, ele me pediu pra pôr uma empresa em meu nome. Disse que tinha uma dívida grande com o banco e caso pusesse no nome dele, perderia tudo. Eu sei que isso não é certo também, mas na época eu ainda estava na faculdade, era boba, ingênua. Acreditava demais nas pessoas.
— Como eu, né? — Fui irônica.
— Para com isso! — pediu frustrada e suspirou. Fiz sinal para que continuasse. — Depois de um tempo, eu descobri que ele era envolvido com uns milicianos, e que a empresa que estava no meu nome era usada para lavar dinheiro. Mas eu tive muito medo de denunciar. Esse povo é perigoso. Então apenas terminei o namoro e me afastei dele.
Semicerrei os olhos e fiquei analisando o que me dizia. Meu coração imbecil queria acreditar, mas felizmente a minha razão continuava firme, ao meu lado.
— Fazia anos que eu não o via, até que um dia ele simplesmente apareceu. Soube, não sei como, que eu estava namorando você e veio com essa ideia absurda. Neguei na hora, mas ele me ameaçou, disse que me entregaria à polícia. Eu não tinha como provar que havia sido vítima de um golpe dele, então fiquei com muito medo.
— Mesmo que isso fosse verdade, Andreia. Tudo teria sido muito simples de se resolver. Bastava ter confiado em mim e me contado. Teríamos resolvido juntas.
— E se ele te machucasse, o que eu faria? Eu morreria de remorso se qualquer coisa te acontece, Juliana. O Maurílio é perigoso. Quando promete algo, cumpre.
— Então teve medo de me machucar, mas me roubar, tudo bem, né?
— Claro que não. Mas entre um e outro... dinheiro, você já tem muito. Seria um golpe forte, mas não te quebraria. Eu sabia que iria se recuperar rápido.
Eu ri, sarcástica.
— E você ia levar quanto?
— Nada. Eu juro...
— Tá bom! Sei...
Ela suspirou e tocou o meu braço. Tentei me esquivar no primeiro momento, mas meu corpo me traiu e recebeu aquele toque de bom grado. Senti minhas pernas falharem e minha garganta secar, tanto que a minha voz foi quase inaudível quando perguntei:
— E por que não me contou isso na época? Por que só agora, depois de tanto tempo? Por onde andou? — Droga! Não era isso que eu queria falar. Era pra ter mandando catar coquinho.
Ela percebeu a minha fragilidade e chegou mais perto. Segurou meu rosto com as duas mãos e me fez encará-la.
— Eu estava limpando o meu nome com a justiça. Não podia simplesmente voltar aqui e arriscar ser presa por algo que aquele miserável fez. — Ela me olhou nos olhos quando falou aquilo. Tinha o rosto molhado de lágrimas.
— E conseguiu? — perguntei quase sussurrando, completamente afetada pela sensação de tê-la de novo tão perto de mim.
— Sim! — disse e sorriu. — Mas depois você checa essa história. Pode até contratar um detetive, se quiser. Só que agora eu não quero e nem vou explicar mais nada, porque não tô conseguindo lidar com você assim, linda, tão perto de mim. Estou morrendo de saudade. Vem cá.
Ela me puxou pela nuca e me beijou. Minha razão até tentou me fazer fugir, mas meu corpo inteiro reagiu àquele beijo, que logo virou muito mais. Ela me agarrou como se dependesse daquele contato para viver. Meu corpo suado, cheio de areia, arranhava o dela com urgência.
Agarrei sua nuca e senti uma mão invadindo o meu top. Gemi ao sentir os dedos dela numa carícia torturante no meu mamilo. Aos poucos, ela afastou a peça de roupa e interrompeu o beijo, descendo a boca pelo meu pescoço, colo e seio desnudo. Sugou forte, e quase desfaleci, mas me afastei rápido ao ouvir uma voz feminina.
Ela também parou. Olhamos as duas na direção da voz, mas não vimos ninguém.
— Vem, vamos entrar no mar. — chamou sorrindo e me puxou.
Apenas me deixei ser conduzida, mas recobrei a razão no momento em que senti a mão dela invadindo o meu short. Foi como se uma descarga fizesse toda a merd* girar na minha mente de novo, e logo o tesão virou ânsia de vômito.
— Para! — pedi tentando me soltar dela sem sucesso.
— Eu te amo tanto, sabia?
— Para, Andreia, eu não quero. — falei firme, e ela me soltou imediatamente.
Ficou me olhando sem entender nada, e não fiz questão de explicar.
— Me deixa em paz!
Foi tudo o que disse antes sair da água e correr de volta para a quadra.
— Valeu, Duda! — agradeci à garota que havia cuidado do meu filho enquanto soltava a sua coleira do poste.
Corri dali sem olhar para trás. Sequer me despedir do pessoal. Entrei em casa sem encarar a Mari, que estava concentrada nos estudos e não notou o meu estado. Fui direto para a mesa de cabeceira e peguei meu celular, eu precisava descarregar aquela adrenalina. Liguei para o Hugo.
— E aí, chefe?
— Tá por onde?
O Hugo era um cara da noite. Típico cafajeste. Exatamente o tipo de companhia que eu estava precisando.
— Em casa ainda. Cheguei agora do escritório. Mas acho que vou dar uma volta. Por quê?
— Me diz onde vai, que encontro você. Tô precisando tomar umas hoje.
Eu não precisava explicar muito. Ele entendia muito bem aquele pedido. A Mari era a minha melhor amiga, mas ele era o meu parceiro de bar. O que não sabia era que meu objetivo real naquela noite não era beber, mas sim encontrar alguém para descarregar toda aquela energia acumulada dentro de mim.
Não, eu não sou cafajeste. Mas, quem nunca?
Uma hora e meia depois nos encontramos no estacionamento de uma das boates mais badaladas da cidade. Naquele dia, não me importei em abusar do que o dinheiro e o poder podiam proporcionar. A fila quilométrica denunciava que passaríamos no mínimo uma hora do lado de fora, se fôssemos fazer do jeito certo, mas o Hugo já havia cuidado de tudo, então, apenas caminhamos até a entrada e vimos o segurança afastar as pessoas para que passássemos.
Fomos direto para a área VIP, onde havia um lounge reservado para nós. Sentamos e imediatamente uma moça muito bonita, mas extremamente vulgar, apareceu. Hugo olhou para mim, mas meneei a cabeça negativamente e ele dispensou a garota depois de falar algo em seu ouvido. Aquilo era muito comum em ambientes como aquele.
— E então, chefe, o que se passa? — perguntou depois de pedir nossas bebidas ao garçom.
— Nada. Só tô precisando beber um pouco.
— E namorar um pouco, talvez, né? — disse e sorriu. — Soube que a Andreia voltou dos mortos.
— Voltou, mas já enterrei de novo. — retruquei e suspirei. — Vou ao banheiro, já volto.
Eu nem estava com vontade. Na verdade, havia me arrependido de ter ido para aquele lugar logo que entrei. Eu precisava extravasar, mas aquilo definitivamente não fazia meu tipo.
Molhei as mãos na pia e passei na nuca. Olhei no espelho e vi meu semblante abatido.
Já que vim, vou ao menos encher a cara.
Saí do banheiro e caminhei de volta, na direção do nosso lounge enquanto ouvia a introdução de Sympathy For The Devil, do Rolling Stones. Foi quando vi um rapaz acenar para o outro indicando a direção da entrada. Involuntariamente, olhei também... e paralisei ao ver aquela cena que parecia se passar em câmera lenta.
Era ela... Caterine... linda de morrer com aqueles cabelos louros, esvoaçantes, vestindo um vestido preto brilhoso, de mangas comprida e um decote que ia até perto do umbigo. Quase enfartei.
Às vezes, até as pessoas de bem sentem um pouco de simpatia pelo diabo.
Fim do capítulo
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