Capitulo 3 -
Saímos atrasadas e enquanto dirigia Mariana carregava um sorrisinho de satisfação irritante nos lábios pela façanha de conseguir me arrastar para a primeira semana de aula da faculdade -- olhou pra mim e piscou rapidamente para logo em seguida voltar o olhar para a frente -- atenta pois dirigia -- Percebi uma folha branca amassada, não de modo comum, era um amassado característico. Me arrepiei inteira e pensei na maior impossibilidade que eu poderia imaginar: como aquilo foi parar ali; justamente aquele papel amassado daquele jeito, naquele devido lugar (pensava e meus olhos enchiam de lagrimas, enquanto eu disfarçava para a Mari não perceber , por sorte ela estava distraída acelerando e eu pensando : “ Como ela pode me encontrar mesmo após todos esses anos?
Um carro nos cortou e Mariana freios bruscamente, ela xingou e eu em tom de epifania penso que mesmo após a distancia de tantos anos eu não me sentia forte o bastante pare enfrenta-la. Em cada semáforo tem um trauma guardado; eu nem me recordava com precisão da suas feições, apenas dos seus cabelos vermelhos e das suas palavras de ódio. Não me recordo da cor dos seus olhos ou a espessura dos seus lábios, mas, me lembro do seu nome ecoando através da voz da professora “Raquel, deixa a Ana em paz”.
‘Não era ela, era apenas mais um pedaço de papel. Apenas uma folha amassada exatamente idêntica a qual ela me atirava do fundo da sala todos os dias. ‘ “Não podia ser ela, ela tinha ido embora, precisava recomeçar em outro lugar. Recomeçar uma vida nova. Não antes de destruir a minha. Não antes de destruir meus sonhos. Mas, ela tinha ido embora, para bem longe. Mas, ele me disse que ia voltar, olhou bem nos meu olhos e me disse que iria voltar. “ Estava nesse momento ja no auge de uma crise de ansiedade. Grito, Mariana freia o carro. Parada. Buzinas --- Alguém nos xinga -- mais buzinas.
--- Amor, se acalma -- Fala Mariana.
Pego o papel e percebo: era apenas um envelope. Eu o solto. Consigo ver meu pânico pelo reflexo dos olhos de Mariana. Desço e vomito.
Abro o papel amassado e penso sobre o que minha mae falava de ter coragem: como eu precisava ter coragem, ser forte.
Abri o papel amassado --- Era uma folha em branco. Leio. Espero palavras de ódio. Meus olhos enchem de lagrimas, Choro e não me atrevo a parar. Leio a data e o local de alguma festa --- Era um convite para alguma balada da universidade. Mariana tinha me convidado e eu me esqueci completamente. Respiro fundo, mas sem alivio. eh nesse fim de semana, penso que deveria ir. Mas, ha muito não me dou tão bem com festas.
Contudo, mesmo em meio a toda aquela desgraça -- eu estava desgraçada. Eu estava quase morta. Quase, pois o otimismo era o meu alicerce. Estava alem de tudo, cega! Cega de medo, de ansiedade, de ingenuidade: Ainda tinha pesadelos com ela. Ha quem queria enganar. Contudo percebia que alguns sonhos não foram feitos para se realizar. ha tempestades que não podem ser previstas, por um momento eu sonhei que seria diferente: mas não. Fui tola; ingênua. E a vida de costume, me matou, e eu sei que continuara me matando, ate que eu pare de acreditar. As coisas não são fáceis para quem nasce com cor na pele.
-- Passou, passou --- Disse Mari enquanto me abraçava.
Com Mariana me sentia como um órfã que subitamente adquiriu uma irma mais velha, também órfã e comecei a me sentir menos ansiosa... Meu amor por ela era inteiramente puro e pensava nisso como se ela fosse o alicerce onde eu poderia me agarrar... Gostava da paz que seu toque me trazia e por vezes ela me apertava nos
braços e me fazia repousar a cabeça em seu colo... Quando estava em crise, ela vinha sempre acalmar-me e beijava-me a testa.
A ansiedade me cortava a carne de dentro para fora, quase que diariamente. Em alguns dias ensolarados acordava me sentindo forte o bastante para derrotar o racismo velado, maquiado em tons e meio tons. Negra em um pais que foi o ultimo a libertar os escravos e prosseguiu como o campeão em desigualdade e praticando um racismo silencioso, disfarçado mas igualmente perverso, intolerante. A constituição criminalizou qualquer preconceito étnico do brasil com 54% de negros na sua população. Mas, os pretos sempre foram estatísticas do jornal nacional. Os que menos tem acesso a universidade ou a cargos mais qualificados. Queiramos admitir ou não a herança da escravidão condiciona as cores sociais. Queiramos admitir ou não quase sempre quem enriquece, eh quem embranquece e vice-versa. E por essa razão que entre altos e baixos, avanços e recuos. Na maioria dos dias me sentia pior do que menos adorado vilão.. Como se qualquer mordida de formiga fosse letal. Um bom dia atravessado. Um segurança que segue pelos corredores do mercado. Um olhar assediador. Algum conselho sobre o meu cabelo. Um sorriso amarelo do patrão que não aceita bem quem sai do padrão.
Se a escravidão ficou no passado sua historia continua a se escrever no presente. A experiencia de violência e dor se enraizou e eu a senti na pele. A fronteira de cor e de fato porosa e classificatória, num determinismo biológico difícil de vencer. O Brasil da capoeira, do candomblé, do samba, do carnaval eh o Brasil da exclusão. Que se expressou no meu dia a dia, no meu lazer, no emprego, saude e nas taxas de aborto e nascimento, ou mesmo nas intimidações e batidas da policia, mestra neste tipo de linguagem de cor.
Ha anos meus passos se puseram hesitantes demais para romper paradigmas, para me desdobrar, para franzir a tez na tentativa de fazer sentido. Eu rondava por entre as discrepância da desigualdade com certo devaneio acabrunhado. Dona Celia conhecedora do meu cansaço, içava-me numa esperança ingênua. A noite quando repousava meu corpo no colchão, sabida que só ela era capaz de tirar sarro da minha teimosia de menina mulher. Ignorar aquelas marcas da alma equivalia a lembra-las e esquecer as arestas.
Ana - Chamou. -- Ana a conta aumentou mais dois dígitos. --- A voz saiu da garganta como um pio de pássaro com as asas feridas, ilhado numa arvore sem folhas --- Mas, eu posso pegar algumas roupas para lavar ou alguma faxina para te ajudar --- Estava aflita, Dona Celia, acariciava os braços como se sentisse frio. Olhava para os lados com desconforto, a espera de um brilho maior que nos tomasse a refeição. As vezes era preciso decidir entre o almoço e a janta. Fui ate ela e segurei carinhosamente suas mãos, disse para que não se preocupasse, que eu trabalharia dobrado na padaria, meus punhos sovariam a massa em tal frenesi que os dígitos se tornariam pequenos. Uma despesa a mais, apenas isso.
E assim foi feito, sovei o pão ate que as mãos se pusessem vermelhas e inchadas. Fendas pequenas se abriam nos dedos quentes, calos antigos acordavam, o pulso vibrava em agonia. Mesmo assim fui capaz de sorrir. Pincelava gemas de ovo em cima dos pais, colocava-o ao forno e começava todo o processo de novo, por oito, dez, doze ou ate dezesseis horas. A noite que sempre encontrava seu fim prematuro e eu com pijama desgastado, os cabelos em desalinho, o corpo beirando a exaustão. Como eu conseguiria estudar? Diante dos clientes cuspidores de preconceitos, diante das propostas indecentes do dono da padaria. Como eu poderia estudar? Como eu manteria a casa iluminada? Diante dos carteiros cuspidores de conta, sacando de sua bolsa envelopes recheados de dígitos.
Todos esses pensamentos me deixavam ofegante, o corpo vacilava, a vertigem me envolvia numa queda lenta, cobria-me de desmaios pequeninos. Na fila da escola ainda na puberdade os homens fardados que viriam ao meu encontro em claro sinal de suspeita e me arrastariam para fora do prédio, de onde me lancariam como uma boneca de trapos, peso mínimo. Enquanto eu gritava que não queria, que não iria, e deixava rolar lagrimas e lutaria sem chance de soltura. Neste dia mamãe ficou profundamente abalada, tentaria intervir a meu favor, gritando ensandecida, lutando com os próprios punhos, chamando meu nome em vão porque eu ja estaria fora do prédio rendida, humilhada, sob o domínio dos homens fardados, com os punhos fechados em torno dos meus braços. Ali pela primeira vez eu entendi com um lamento gigante que existiam espaços que não me cabiam, foi neste dia que o sonho de cursar medicina se desfez, primeiro por ser demasiado distante da minha realidade. Eu era pequena, fácil de ser engolida. Foi este o dia que eu me descobri como mulher negra. Como alvo.
A cada passo eu pedia misericórdia, a escola dos granfinos onde eu por caridade estudava teve alguns de seus itens roubados, e a suspeita imediatamente caiu sobre meus sonhos, barganhava minha sobrevivência.. Naquela delegacia ,fui liberada apenas após a escola retirar a queixa ao pedido do patrão de mamãe. Chorei de alivio. Sairia sem manchas, mas não poderia mais estudar na mesma escola. O pai de Mariana me olhou com desconfiança, eu nada disse, tomada pela vergonha. Vergonha sem culpa. Mariana e Mamãe me deram um perdão certeiro e silencioso, estancariam o assunto e eu caberia no meu corpo de novo.
Mariana me olhava de cima embaixo, a cabeça diminuída sobre os joelhos, a camisa da escola estava manchada de sangue. Meus olhos estavam fundos, ela balançava o tronco nervosamente, lagrimas escorriam lentamente. Um lamento meu cortou o silencio, veio em ondas, agudo e rasgado, ardia-me os olhos, o grito estava preso na garganta. Mariana marchou em passos rápidos em minha direção, ao menos eu tinha o seu perdão. Soltei um grito de dor, acompanhado da primeira onda de choro.
Mariana não sabia se os boatos sobre o roubo de aparelhos eletrônicos na escola eram verdadeiramente de minha autoria, e ela também nunca me perguntou. Aquele dia ela só me deu seus biscoitos, Mariana nasceu com fome. Comer era seu prazer,
refugio. Sua mae acreditava-a menos feminina por ser despudoradamente faminta, estava sempre acima do peso, era forte e bela. Uma vez tirou uma régua do estojo e quebrou em demonstração de forca. Depois do ocorrido nossa amizade desde a infância, ja não era tão bem vista. Mas, ela sabia bater o pe desde muito jovem e se recusou a abrir mão de mim. Minha amiga acreditava que para acalmar a dores, bastava se empanturrar de açúcares. Abria caixas de chocolate para lidar com as ausências, com as cobranças. O mínimo de amor se encontraria na casa branca de muitos quartos. Em contrapartida, Dona Celia, transbordava-nos amor. Naquela tarde, porem, ela não se mexeu, não se queixou, apenas me observou e me envolveu com seus braços grossos. Não era burra. Com o queixo levantado podia adivinhar que eu enfim tinha chegado ao meu limite e não conseguindo mais me conter antes de ultrapassa-lo, por isso, não lhe interessavam repreendas. Assim foi também quando dois anos depois com um envelope nas mãos Mariana, a quem considerava como filha, anunciou que estava gravida. Sua menina loira tinha sido aliciada. Feroz seu pai esquadrinhou os próximos anos para que não ultrapassasse a linha. A mesma linha cortante, suspensa na altura das moralidades -- Que eu havia ultrapassado. Anunciou que estava gravida aos 16 anos como se tivesse assinado feliz o acordo com os pais. Estava contente, integrada ao mundo, feita para atender as demandas e agora tinha total atenção do seus pais.
A barriga nem despontava e ela ja se gabava. Diferente de mim, Mariana tinha melhores sortes. Mesmo contrariados com a gravidez precoce, seus pais, cobriam-na de gentilezas e mimos, festejavam-na como se tivesse voltado da missão alem mar em cumprimento de tarefa honrosa. Uma criança era como um cachorro novo, nada que dona Celia não pudesse criar. Mariana estava perdoada. Depois de parir, aos quase 17 anos, minha amiga pois se lentamente amorosa. Uma vez a encontrei sentada no chão do quarto com o bebe seguro contra o peito, melodias conhecidas vazavam da boca entreaberta. Foi no ser pequeno entre seus braços que Mariana chamou de Andrezinho, que minha amiga reconheceu o mais profundo amor. A torneira estava aberta, prestes a transbordar amor. E eu seca. Eu a visitava toda semana e trazia presentes baratos para o Andrezinho, cujo interesses se limitavam a modelar bolas de baba e reclamar da fome e cólicas. Antes mesmo de abrir a porta sabia que a encontraria sozinha, ora posta em missão domestica salvatória, ora se descabelando com os gritos de Andrezinho.
Mariana acendeu um cigarro enquanto puxava os pedaços de massa grudado no meu cabelo. Aquele dia a policia me tinha dado uma batida no bairro nobre. Estava com Andrezinho no carro de Mariana, a policia me parou por causa da lanterna queimada e viram que eu beirava aos vinte, o bebe no banco de traz. Duvidaram que era meu filho, estranharam o valor da minha pele dirigindo o valor do carro. Pensei que não iam me deixar ir, que me levariam a delegacia e me acusariam de roubo e sequestro. Absurdo? Sao os absurdos que costumam ser verdades. A intolerância e o único deus em que acredito, o resto todo eh questionável. Como duvidar, se todos os dias ela se provava real?
Eu não o sequestrei, mas o medo transbordou pelos olhos, pedi perdão sem ter cometido nenhum crime pela segunda vez. O policial mais novo era o que mais me causava medo, tinha nele algo de asqueroso, um nojo de gente como eu, coisa de gente branca, espirrava ruindade pelos olhos. Tive medo que me mandasse sair do carro, ele me parecia capaz de tudo. Era jovem, recém saído da puberdade, vestido de farda, distintivo alinhado -- Esse tipo em especifico nutre ódio insano por mulheres negras. No dossiê de algum criminologista do século XIX, estava claro o quanto éramos predispostas a vadiagem.
O Ana, Ana -- Mariana me despertou do meu devaneio -- Escuta, olha bem no fundo dos meus olhos. Ta me escutando? Pois bem: Expurga da memória o passado, apaga os resquícios do antes, das coisas que te aconteceram no arquidiocesano, daqueles que tem xingaram, das risadas, das luta que você tinha que travar diariamente. Não da pra pensar demais. Você finalmente foi aprovada, hoje você não eh mais apenas uma criança negra assustada. Nem a faculdade eh como a escola. A humilhação, a crueldade e principalmente a Raquel ficaram no passado.
Concordei tentando absorver suas palavras, mas no caminho só me restava ar entrando pelas narinas e um coração batendo. Preferi ficar o resto do percurso em silencio. Mariana me olhava de soslaio vez ou outra. Preocupada!
-- Surtei. -- Comentei num pedido de desculpa com o olhar.
-- Eu sei como situações novas te deixam ansiosa.-- Tocou minha mão carinhosamente.
Senti paz. Paz que só o toque dela me transmitia. Amor. A maior parte das filosofias tomou-a como admitida sem pretender toma-la como verdadeiramente explicada. Conhece-se o amor platônico como um mito: no principio cada ser possuía duas faces, quatro braços, quatro pernas e dois corpos colados um ao outro; foram um dia divididos em dois e desde então cada metade procura sua outra metade, Mariana era minha pessoa no mundo. Nosso amor de caráter acidental não passava do meu próprio empirismo, jamais seria infiel a nossa irmandade, para dar voz a delírios pouco racionais, onde mesmo que tentasse fundamentação lógica. A sexualidade pelo visto representava barreiras que ao meu ver, eram limites impossíveis de ultrapassar. Então ficou segregado no âmago mais profundo do meu subconsciente a ponto de me dar um forte convencimento deste amor não ser erótico. E se eu assim acreditava, era verdade.
A presença no implica rigorosamente a posição de um corpo que seja tanto uma coisa no mundo ou um ponto de vista nesse mundo. Eu era exatamente o que o mundo via de mim. Negra, mulher, lésbica e pobre. Mariana era para o mundo o que realmente se demonstrava através da pele alva e dos olhos claros, da heterossexualidade e dos dígitos. Eu estava a margem do padrão. Mariana era o padrão.
Fim do capítulo
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