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Minha mente esta em seu caos por Tamires Marinho

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Palavras: 3748
Acessos: 1338   |  Postado em: 01/02/2020

Notas iniciais:

Amores, 

Me atrasei porque estava revisando. Mas, postarei semanalmente. 

Capitulo 2 - Anjo mal

 


Notava que meu nome emergia vez ou outra, com vozes em plano de fundo, quase como trilhas sonoras. Certamente era mamãe animada e orgulhosa deliberando sobre a tão importante conquista de sua filha ostentação. No entanto, eu estava para o além do verbo, de modo que, parecia que falavam de outra Ana. Estava maior e depois menor. No agora e nos momento anteriores, os olhos perdidos a esmo espreitavam imagens que se revelavam caducas, como se estivessem o tempo todo escondidas atrás das cortinas do subconsciente, e apenas agora pudesse olhá-las assim sem o véu de uma tola incompreensão. Antes de mergulhar definitivamente nas lembranças que minha mente arquivava em gavetas seguras, eu tomei um gole da cerveja quente que segurava, como se precisasse daquilo para dar um passo de coragem e me imaginar nua em posição fetal com as mãos metidas em uma poça de sangue, a procura de resposta. Sem saber verdadeiramente qual eram as perguntas.

Sempre questionei se a minha realidade era de verdade um limite. Favelada, contei com a caridade da burguesia para ter a oportunidade de estudar numa boa escola do sistema privado. Mas, deitada num quarto escuro cada vez menos eu era capaz de fazer sentido e ignorar as palavras de ódio que vazavam das paredes e dos corredores. E eu me perdi. Após a fria estacada de uma humilhante expulsão do melhor colégio particular de São Paulo e ver lágrimas nos olhos daquela que torcia por mim, mais que eu mesma. Eu caí num poço sem fundo, que de tão fundo, nem fundo tinha. E temo que esteja presa nele até os dias presentes. Mesmo após chegar bem próximo ao fim, a desistência e ser salva pelas mãos carinhosas de mamãe. Ela não precisava me compreender, só me amar. E sobre se doar ela entendia, era feita inteira de amor por mim. 

De volta para as escolas da favela, graças a um projeto assistencialista  que visava a transformação da massa em mão de obra especializada eu consegui o primeiro emprego, e com o salário mínimo, eu conseguia ajudar mamãe e estudar em pré-vestibulares. Durante anos, passei no ENEM para várias universidades em cursos que não queria cursar. A federal era um sonho interrompido. O sonho de cursar medicina com a Mari ficou preso na infância. Eu sabia que a educação do ensino médio não garantiria minha entrada no curso mais disputado da federal do São Paulo. 

Me recusava a desistir. Trabalhava durante o dia e estudava a noite. Dormia em pé e muitas noites fui acordada no final pelos cobradores e motoristas. Vencida pelo cansaço, prestei pela quarta vez a fuvest e consegui uma vaga para o curso de odontologia. E ali estávamos agora, comemorando meu aniversário de 30 anos e minha entrada na universidade. 

A Mari me olhava emocionada, algo naquele olhar me adormecia, deixava demente. Pássaros agitavam as asas na gaiola do peito, queriam abrir caminho pela garganta e escapar pela boca, rasgar a minha pele, varar meus ouvidos. Ela já era residente. Varou noites estudando comigo, e eu sentia quase que fisicamente o quanto ela sofria comigo todos aqueles anos que meu nome nao se encontrava entre a lista de aprovados. 

Uma tia, chamou-me a atenção. Me tirado do devaneio. 

--- Tudo bem minha filha. Basta aprumar os ombros e tudo ficará bem -- Disse ela. Não seja boba e preste atenção no que vou te segregar. Não importa se você quer ficar com homem ou com mulher.  Só não se esqueça de construir sua família. O Eduardo era um bom rapaz. 

Eduardo era meu ex. Namorei-o  durante 5 anos, tempo o bastante para que a minha família acredita-se que meu interesse pelo sex* igual durante a adolescência tivesse se curado, mesmo que eu sempre afirma-se que os meus desejos iam para além das genitálias. Tínhamos terminado a poucas semanas, existia da parte dele uma esperança de reconciliação, mas eu sinceramente não tinha mais nada para dizer. Algumas coisas ficam muito melhores guardadas dentro da gente. Não adianta gritar, não adianta espernear, não adianta, às vezes, conversar, dar uma segunda, terceira chance. O amor é o grande e único, talvez, responsável por suportar e sustentar certas coisas, por isso é a maior arma de opressão já construída, mas até o mais denso e resistente dos sentimentos, também chega ao fim. Se quebra. Se parte e nada mais consegue juntar as metades. É cada um para o seu lado

Começamos e fomos felizes durante muito tempo como poucos casais. Diziam que nós tínhamos nascido um para o outro. “Casal chave” tipo Willian Bonner e Fatima Bernardes. Confesso que, algumas vezes, acreditei nisso. Mas parece que depois, alguma coisa se perdeu. Alguma coisa se quebrou. Desandou. E eu já não sei onde errei, já não sei o que poderia ter feito diferente.... Agora tanto fazia, parecia que ele havia cumprido seu papel na minha vida. Que eu já tinha aprendido minha lição. Eu, simplesmente, decidi que não podia mais continuar. Levantei, caminhei em direção à porta, desliguei a luz para que a saudade não conseguisse ver para que direção seguir e fui embora. Abandonei a parte do meu coração que guardava a nossa história. O cômodo dessa casa que o abrigava dentro de mim, hoje é só um vão vazio. Um mausoléu de histórias que ficaram para trás.

Ir embora, às vezes, dói menos que ficar. Que insistir. Que dar mais um voto de confiança, que persistir num relacionamento que já foi fadado ao fim. A gente se poupa muito mais quando aceita logo a dor de um amor que precisou morrer, que precisou partir, do que remoer toda uma história, gastar tempo, lágrimas, sorrisos e vontades com alguém que, no fim das contas, não faz o mesmo esforço de volta. Ou ainda, talvez nem ache que precise fazer esforço algum para continuar com a gente.

Num amor que está chegando ao fim, sempre tem um assim, não é? Um que acha que tem razão, enquanto o outro, o errado da vez, está com o coração sangrando. Com os pulmões se comprimindo. Sem ar, sem fôlego, sem forças para continuar. Essa foi eu. Eu quase morri asfixiada por amar tanto o Duda, que não me dava afagos, mas sim, me pressionava a garganta. Talvez não tenham ficado as marcas dos dedos, mas no coração.... Ah, essas impressões digitais vão custar a passar. Eu quero ficar longe disso tudo, tão melhor assim. 

Em certo momento eu parei de escutar o que minha tia falava e apenas barulho da geladeira velha indicava que eu estava viva, acordada, de pé, naquela sala cheia de pessoas amadas que estavam mais felizes que eu, pela minha própria felicidade. Justo eu que sempre gostei do canto da cigarra, que me emocionava com o som do mar, ou com os pássaros levantando voo no cume da madrugada. Que me assustava com o coaxar em coral dos sapos, pus-me surda para os burburinhos de alegria daquela noite. Na minha mente desfilavam os acontecimentos dos últimos anos que me levavam ao momento que vivia agora, as caixas eram revisitadas por olhos vacilantes e as feridas se abriram e se desenhavam num painel sem cores, tomando os cantos mais recônditos da consciência, e eu cada vez mais imersa. No susto de me descobrir ja nao tao jovem que era maior que o espanto das olheiras escuras e da ansiedade de enfim pisar na universidade, que ficava a duas horas de distância, pois devido ao acúmulo de duplicatas, as contas nos convidaram a procurar endereço mais modesto para fazer morada. Os impostos alcançaram nossos capachos, multiplicados, cada vez com mais dígitos. 


-- O quanto se paga para viver? -- Mamãe repetiria se adivinhasse o que estava pensando. -- Trate de desfazer essa cara de bunda, não fique tão preocupada. Juro que se preocupa demais, com os dígitos, com o real. Minha virgem mãe santíssima, eu não cuidei sempre de você sozinha? Só se preocupa com os estudos, você não está sozinha no mundo. 


Enquanto que eu trancada numa rotina e empenhada em evitar espelhos era fácil esquecer da minha idade. Convivia tanto com a Ana dos meus pensamentos - Que era feita de brisa, pura abstração, matéria para poucos sopros -- que passei a me sentir tão mais velha, imaginando-me com a pele enrugada , a desempenhar as tarefas cotidianas no automático, cansada e desatenta aos giros do relógio e as marcações do calendário, despreocupada com as trapaças do tempo. Num acordo de coexistência pacífica, onde eu nao fujo dele e ele nao corre atrás de mim, e no fim a gente se encontra. 

Mamãe não era boba . Com o queixo levantado, podia adivinhar meus pensamentos e prever meus limites, podendo me conter antes que eu pudesse ultrapassá-los. Era boa com repreendas. Assim foi quando dois meses depois que o meu nome estava entre a lista de aprovados, ela me soltou um sorriso e depois enfatizou que o esforço só havia de começar. Mamãe não foge ao estereótipos de  mulher nordestina, maiúscula; daquelas que a gente admira de longe sabe? 

Diferente do que muitos dizem, ela não faz necessariamente questão de ser difícil, mas tem uma mania, pentelha, convenhamos, de sempre querer dar a última palavra. Desistir? Ela desconhece esse verbo. Quando determinada, esquece que já fez aula de meio termo, e se joga de cabeça na certeza de ser boa no que faz. Vê-la na luta é algo lindíssimo! Gosta de vencer e corre, como se estivesse em uma maratona

É verdade que ela tem os seus, peculiares, impulsos agressivos, mas, sejamos sinceros, por outro lado, carrega consigo um otimismo e uma fé no futuro que são inspiradores. Enfrenta os desafios como poucos, tem esperança no olhar e não abandona o barco facilmente. Uma gigante batalhadora, fiel no amor e nas malucas guerras da vida. Dona Célia carrega consigo uma linda maleabilidade de se amar intensamente, mas poucas vezes chega a se colocar em primeiro plano. Ela como eu, nem queria ser mãe. 

Pois é bem verdade o que já disseram antes de mim – que o melhor lugar do mundo nunca foi um lugar. Não é. Nunca será. Porque nenhum lugar tem aquele cheirinho de amor, aquele calor que vem do coração, aquele aconchego de ninho. Porque nenhum lugar tem o nosso tamanho, o nosso número. Nenhum lugar no mundo nos veste melhor que o abraço de quem a gente ama. Nenhum lugar do mundo faz o tempo parar de uma forma tão mágica, única, singular e, ao mesmo tempo, tão plural. Plural e diversa de sentimentos. Uma sinestesia. Uma anestesia para o que insiste em pesar na vida, mas nem diante da menor hipótese consegue adentrar a redoma de um abraço. Minha mãe  parece lar. Tem abraço que faz a gente se sentir em casa. Tão bom. Tão ela. Tão verdade.

Na época Mariana era residente numa maternidade daquelas estatais, tres vezes por semana. Independente da especialidade que de fato escolhesse. Mariana tinha uma perspectiva social para a sua profissão. Era assim que defendia suas militâncias antes de entrar na universidade. Não que precisasse trabalhar, era de sua escolha se no tempo livre se matriculava em outras matérias, ou se preferisse podia vagabundear. No entanto, escolheu ter que se reportar diariamente a um ponto e embarcar num ônibus e ir trabalhar. A rotina não mudava. O carro que o pai lhe dera após ingressar na faculdade ela preferia não usar devido ao trânsito agressivo de São Paulo. Então à revelia dos pais, utilizava o coletivo. Para Mariana a vida sorria com uma facilidade boba. 

A profundidade de meus pensamentos me causava demência, ficava ofegante, o corpo hesitava, uma certa vertigem me envolvia. Talvez não devesse ter bebido sentada, levantei bruscamente da poltrona e terminei numa queda lenta, coberta por um desmaio pequeno. Na minha mente, balbuciava com os corpos preocupados que vinham ao meu encontro e me arrastaram até o sofá da sala, de onde me lançariam feito uma boneca de porcelana, peso pena. 

--- Faça-me um favor --- Dizia mamãe --- Vá tomar banho. Tem toalha limpa em cima da sua cama, tira esse cheiro horrível de cerveja e cure esta bebedeira. Vou passar um café bem forte e você irá tomar junto com um chá que a vizinha disse ser muito bom pra curar bebedeira, sabia disto?

Eu responderia que não iria, que não queria, e deixava as lágrimas escaparem mesmo lutando, mas, sem chance de prendê-las. Os convidados, profundamente apreensivos com o rompante tentaram intervir ao meu favor, enquanto me ouvia murmurar ensandecida, picotando minha própria dignidade, engolindo-a e vomitando-a em meu carpete recém aspirado. Ouvia Mari pronunciar meu nome enquanto segurava meu cabelo, mas era em vão, porque eu já estava fora da caixa. Finalmente externava meu lamento pelo futuro gigante que sonhei na infância, mas que me escapou, primeiro por ser demasiado distante da minha realidade, depois por me descobrir uma menina atraída por outras meninas. 

Eu chorava nos ombros da Mari, enquanto lamentava e o sol nascia janela afora soberano, me levaram ao quarto e eu me vi sozinha em uma redoma de concreto ao olhar para cada extremidade e não ver saída. Lugares fechados me lembravam salas de aula e eu me sentia sem ar como que se precisasse estar em outra consciência, em outras Anas. Então fechava os olhos e me transportava a um lugar seguro, e a falta de ar cessava. 

Um truque aprendido quando o mesmo desespero me batia a porta, e eu me sentia sozinha, mesmo que ao meu redor, centenas de crianças marchassem com mochilas desenhadas nas costas, alguns pais as puxavam pelas mãos, outros já haviam entrado dentro de seus carros blindados. A pressão sobre a minha cabeça era um indicativo de imenso pavor. Estagnei e Mariana me puxava adiante, queria dividir seu entusiasmo comigo, sabia que não faltava muito para que eu desatasse a chorar, ou fugisse mesmo sem o carro que era a minha carona já houvesse desaparecido no interior de um carro blindado. Ela tentava me orientar naquele fuzuê de pequenos corpos, seguindo os passos daqueles cujo tamanho se igualava ao meu -- caminhava sob os olhares sem ter certeza que eles me estranhavam mais do que eu estranhava eles. O pátio foi-se esvaziando enquanto eles se dispersaram corredores adentro. Menos Mariana - ela me agarrava com a gana de proteção. Meus olhos ardiam como um câimbra lenta de quem segura o choro e a manhã escorria calorosa. A primeira gota de suor despencou testa abaixo. Mariana devidamente me posicionou na sala e só saiu com a certeza de um razoável conforto meu. Depois seguiu para a sua sala, um ano depois da minha. Eu tinha a idade igual de Mariana, então pesava-me mais me ver entre os pequenos.

A professora entrou falando em um rompante, era um senhora e tinha os cabelos curtos, olhou para mim primeiro, com olhos curiosos e doces. Eu destoava daquela paleta de cores pastéis, pediu para que eu me apresenta-se aos demais e eu a odiei mentalmente. Falei, enquanto ouvia baixos burburinhos e risadinhas. Ela seguiu com sua aula sempre olhando em minha direção, as crianças também me olhavam curiosas e cochichavam . Um menino loiro com os botões da camisa rigorosamente pareados, virava vez ou outra para olhar em minha direção , desviava o olhar para encontrar uma menina de olhos verdes conversando com as amigas enquanto olhavam pra mim. Era Raquel. Meu pesadelo de cabelos ruivos.

Uma curiosidade nada carinhosa emergia frequentemente, como pequenos dedos numa ferida emergida em poças de sangue, como se estivesse diante de um precipício e icasse voo. Esta curiosidade, logo aprofunda-se do campo das confabulações para o toque, e Raquel, cortou um fio dos cachos de meus cabelos. 

-- O que está fazendo, Raquel? Enlouqueceu foi? Vamos largue essa tesoura. Onde já se viu cortar o cabelo da colega. Peça desculpas --- Repreendeu a professora. 

-- Eu não preciso pedir desculpas para a filha da empregada --- Respondeu a menina Ruiva.

Ao meu lado minutos depois esperávamos para conversar com a diretora da escola, mulher grande de voz aguda, a brandir ordens como general em solo povoado por explosivos. Por debaixo da nuvem de cabelos vermelhos Raquel sorriu satisfeita e se afastou para conduzir em retorno a sala, após, não ouvir sequer uma reclamação acerca do acontecido. A professora no entanto, ouviu que isto se tratava de bobagens de criança. A contrariedade da diretora com a minha presença entre seus preciosos miúdos era bastante transparente. 

Teimei em acreditar que a tal menina ruiva ficaria envergonhada por ter metido as mãos  entre os meus cabelos. Era um pensamento bonito na tola tentativa de lavar a brutalidade daquela cena na minha mente. Pisquei os olhos com força. Havia decidido que salvaria a mim da propria miseria. No corredor aquela pobre alma de cabelos vermelhos havia decidido que resumiria meus dias em pura miséria. Pensava nisto, enquanto de cócoras no chão com a pele do rosto molhada de lágrimas e os lábios travados, pegava o meu material derramado pelo chão. 

--- Deixa eu ver sua boca, seus dentes são podres como o da sua mãe ? Decerto que você nem sorri porque os dentes devem ter apodrecido dentro do armário da boca -- Dizia.

Raquel era prima de Mariana, alguns anos mais nova que eu, e pequena demais para portar tanta maldade. Ao sair do colégio público e ir estudar no particular tive que regredir  algumas séries para conseguir acompanhá-los. Aos oito anos, aquelas crianças já eram bilíngues, senão poliglotas. E eu mal tinha noção do que era um verbo. Como Raquel era da família Gaspar, além de indigestamente nos cruzarmos nos corredores da escola, e dividirmos a mesma sala, frequentemente, nos esbarravamos pelos quartos e salas da gigante casa da família. Lembro-me de que na primeira vez que estive naquela casa, me assustei com a quantidade de quartos e com a frieza dos vários cômodos espalhados num espaço tão gigantesco. Tanto quanto me causou estranheza que os três senhorios da casa, entravam e saiam, algumas vezes sem se encontrar, mesmo que habitando o mesmo teto. Compreendi mais tarde, que aquela casa nada mais era de uma tola necessidade: um abrigo contra o frio? um teto sob o qual dormir? Um entre tantos tetos, entre tantos bens. A casa de paredes brancas e quadros caros e coloridos, representava apenas a sede oficial, para onde o pai voltava depois de longas viagens e para onde a mãe vinha dormir depois de um dia de ocupações fúteis. E Mariana? Mariana era mantida ocupada entre atividades distintas. E temo que fosse verdadeiramente tão solitária quanto eu. 

Do extremo oposto a esta realidade estava o sonho de mamãe em ter sobre nossas cabeças um simples e único teto, que fosse de telha mesmo, que tivesse apenas um quarto e uma cozinha. Mas, que representasse um abrigo contra o frio, apenas um local para dormirmos. Outrora, moravamos na propriedade privada de outros, sob o pagamento de determinado dígitos, muitas vezes num quintal com outras várias casas. Até que patriarca da família Gaspar aceitou a doméstica que trazia consigo uma filha e nos permitiu dividir o pequeno quarto de empregada. E mamãe prometia  sempre quando vinha deitar, já bem tarde da noite, que um dia teríamos um teto, e que neste teto eu teria o meu canto. E eu adormecia com seu cafuné reconfortante enquanto sonhava com dias melhores.

Decidi dissipar as  lembranças ruins e a crise de ansiedade que já me batia a porta  e curtir o que me restava da noite. Desci as escadas a tempo de encontrar meus meus amigos ainda conversando animadamente sob o efeito da cerveja barata, que tomavam indiscriminadamente.  Iniciamos um papo qualquer de bêbados existencialistas e nos perdemos madrugada a dentro. Quando encerramos a comemoração, o relógio já marcava as seis e os sol já dava seus sinais. E me encontrava em sinal de  profunda embriaguez, e fui dormir. Quando despertei, sentindo a cabeça pesar e o estômago embrulhar, e os ponteiros marcavam 16 horas. Fiquei deitada olhando para o teto, enquanto pensava que no dia seguinte começaria as aulas e eu ainda não tinha me decidido entre ir ou não para a primeira semana de aula. A ansiedade sempre me despertou momentos de profunda imaturidade. Me fazendo sentir perdida, insegura, sem saber muito bem o que fazer, tomando atitudes na impulsividade que me envergonhariam  nos momentos de lucidez. Procurando nas estatísticas variáveis de desastre que pudessem me ocorrer, mesmo sabendo que isto só serviria para me entristecer. Logo penso em desistir

‘Melhor nao ir, deixar pra lá. Ficar aqui no seguro deste quarto’ 

Com a mente fervilhando procuro no aparelho celular alguma distração, faco ligações que na inconveniência turística das chamadas não atendidas que caem na caixa postal. Vou no Wpp e em mensagens aleatórios faço um pedido de socorro, com a certeza de que os sinais não serão captados. Algo pergunta como me sinto, e eu respondo como me sinto ansiosa sem verdadeiramente transparecer o verdadeiro significado implícito na significação desta palavra, poupo-lhe das noites em claro, das crises de falta de ar. Minto e dou risada, furto sinais, sintomas e brinco de manter tolas as esperanças, enquanto tempo enxergar as possibilidades positivas que envolvem decidir pelo sim, para a primeira semana de aula. 

A simples ideia de estar num espaço público com outros estudantes desconhecidos já eram premissas fortes o bastante para me  deixar psicologicamente doente. Passar no vestibular não representou alívio algum, apenas serviu para me adoecer mais psicologicamente. Chegando a cogitar a possibilidade  de não frequentar as aulas, de desistir. Um simples começar ou não começar esta semana, seria o bastante para deixar minha saúde mental em cacos. E se não bastasse ainda tinha que lidar com o medo dos trotes que muito lembravam os bullyings transvestidos de brincadeiras, jogos que tanto representaram minha vida escolar. 

Os trotes em universidades federais são bastante comuns. Seguia no dilema, enquanto não sentia o ponteiro do relógio acusar que a noite logo terminaria. Era mais uma noite em claro, com a cabeça cheia de pensamentos. 

Já quase de manhã, decidida em me poupar na primeira semana. Tentei adormecer sendo despertada no primeiro estágio do sono pela vibração do celular. 

O visor marcava: 5h00

 

Notificacao: 


Whattsapp: Mari. 


[5:00]: Biscoitinho, carona para a faculdade?  Te pego no metrô e te deixo na frente do campus. Sei que deve estar uma pilha de ansiedade, então quero te acompanhar até a sala de aula. 

 

Mariana era minha cura.

Fim do capítulo

Notas finais:

Espero que apesar da escrita rebuscada que eu trago como caracteristica das minha preferências literarias. Fique claro, que, a historia não é linear. Não se passa só no agora, ou só no passado. Se passa na mente, nos traumas e nas feridas que a Ana carrega. 

 

Se ficar confuso, me digam. 

contos grandes são novidades pra mim. 


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Comentários para 3 - Capitulo 2 - Anjo mal:
Adriana P Silva
Adriana P Silva

Em: 01/02/2020

Lindona, pra mim, está muito boa! É um texto denso, mas carrega poesia na narrativa, muito, muito bom!

E não me mata do coração não??? Tenho um péssimo histórico de começar a ler e as escritoras sumirem. Não deixe isso se repetir hehehhee

Pergunta: o texto está completo? (digo o original)

 

Bjokassssssssss


Resposta do autor:

Amor,

Esse é um elogio e tanto viu. Ainda mais vindo de quem vem. 

O texto original não está totalmente completo não, eu tenho até o capítulo 5. Estou escrevendo o sexto.  

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