Capitulo 1 - Uma estranha no ninho,
Numa noite cotidiana, de um dia qualquer, do mês de fevereiro. Em uma casa comum, cheia de pessoas normais. Eu, Ana, mulher banal contemplava as 30 velas distribuídas no bolo sabor floresta negra, enquanto ouvia os parabéns repetitivos adentrando meu aparelho auditivo. E de repente me afundei numa crise existencial digna de Sofia Amundsen ao ler num papel branco a pergunta “ Quem é você?” quem sou? Sinceramente não sei. Sei que meu nome é Ana, mas também sei que poderia me chamar Maria, Júlia ou Clarice. Sei que quando nasci, me deram um nome e me alienaram de mim. Esta sou eu, mas também poderia ser qualquer outra pessoa. Quem sou eu? Eu sou meu cabelo black? Minha pele escura? Meu gênero? Minha Sexualidade? Só sei que nunca fui alguém satisfeita com a minha aparência. Não gostava do nariz, dos braços cumplidos, dos lábios grossos e carnudos e os cabelos? Há os cabelos. Eu odiava os cabelos que teimavam em crescer para cima. Horas no salão e toneladas de produtos químicos, os disciplinavam contra sua natureza. E principalmente odiava o meu tom café la creme da tonalidade seca da minha pele. E se no meio do meu aniversário, eu pensava nisso enquanto sagitário passava por júpiter e eu aguardava a passagem das horas, dos dias, dos anos e pensava que quando criança olhava para as minhas mãos escuras, e as desejava alvas. A minha pele negra me aborrecia, queria que fossem claras, como as da senhora para quem mamãe trabalhava, cujo a pele de tão clara quase brilhava. Mas, eu não tive a sorte daquela senhora e de sua filha, que nasceu com a mistura da branqueza do pai e os olhos cor de mar da mãe. Eu era negra, um pouco mais clara que mamãe, mas negra. E todos que eu conhecia, antes de irmos morar na casa grande de muitos quartos, tinham a pele em tonalidades diferentes, alguns mais e outros menos, mas todos eram bem mais escuros que os patrões de mamãe, a cor da periferia tendia para tons mais escuros. Quando os vi pela primeira vez, admirei profundamente sua branquitude pois nem sabia que existiam pessoas tão claras, a questionei numa curiosidade ingênua e ela logo me respondeu que eles eram de um lugar onde a cor das pessoas não precisava ser tão escura quanto a nossa, pois o sol não ardia tão fortemente quanto aqui em terras tupiniquins. Mamãe sempre repetia que nossa cor escura fora nos dada por Deus para nos proteger do sol escaldante do sertão. Não moravamos mais no sertão, então eu desejei nascer no mesmo lugar para ter a pele quase transparente como a deles, e os seus cabelos lisos e sedosos que balançavam contra o vento. Os meus cabelos, esses não eram escorridos e corriam apontando para o chão, tinham a tendência de crescer subindo e eram enrolados e sem movimentação. As comparações eram constantes em meu imaginário, os comparava constantemente aos artistas da TV pequena que assistia trancada no quarto de empregada, onde eu e mamãe dormíamos.
Mariana e seus pais eram bastante atenciosos comigo. Apesar de nossos diferentes mundos, eu e a pequena Mari nos tornamos inseparáveis. Em compensação suas amigas costumavam ser cruéis, como toda criança costuma ser, numa reprodução tácita de tudo aquilo que a sociedade lhes condiciona a dizer, Mari sempre me defendia, e confortava, aparentemente ela nos via como iguais. Sempre senti que Mariana era alguém diferente, e que via nas pessoas algo que ia muito alem de cor, etnia ou gênero.
Eu achava que quando cresce-se minha pele iria clarear e meus aspectos iriam mudar. E aquilo que a natureza não modifica-se naturalmente eu o faria, o primeiro ato sonhado seria a o alisamento do cabelo crespo. E as lágrimas que desceram na primeira progressiva, demonstravam a emoção de conseguir pertencer a um padrão. Não estava satisfeita sonhava em quando poderia mexer no nariz e nos lábios, que para mim, tinha uma melodia oposta ao resto do rosto, eram enormes, e não harmonizavam com minhas feições delicadas. Achava lindo o nariz delicado de Mariana e seus lábios finos. Eu admirava-a em silêncio enquanto observava-a em seus afazeres diários. Mamãe trabalhavam por horas a fio, e era com ela que eu passava a maior parte do meu dia. Tornou-se minha única e melhor amiga, no sentido mais controverso da palavra melhor. Não era a melhor porque chegava em primeiro, porque me atendia em tudo, muito pelo contrário. Era a melhor porque se descabelava, apontava o dedo na minha cara, gritava quando tinha convicção de que estava certa, batia na mesa, quebrava o pau. Era expansiva, ansiosa, neurótica, queria saber das histórias com todos os detalhes, ficava puta por qualquer coisinha, e por qualquer coisinha também ria, amava. Ela fervia, pelava como o sol, conviver com ela sem protetor era certeza de bronzeamento na alma. Só o que eu não imaginava é que sua ausência, sim, provocaria queimaduras. Antes de Mariana eu nunca antes havia visto outras crianças. Acreditava que era adulta compacta, pequena por desvio de natureza. Recordo-me: a menina entre um buquê de pernas alongadas, ajoelhada debaixo de mesas e metida dentro de arbustos – arrancava as ervas daninhas comigo no quintal enorme de cabeça baixa, séria – seríssima, parecia fazer algo de profunda importância para o bem mundial. Eu tinha medo de falar errado, arredondar consoantes, emendar vogais, confundir palavras, tão parecidas que eram, tão poucas que conhecia. Ela me ajudava, me ensinava e corrigia pacientemente. Às vezes me doía o estômago e inventava de chorar, dava vexame, procurava em vão outro alguém a reclamar sono, fome, cansaço, ou que, como eu, sofresse de felicidade. Existir era coisa séria.
Diz mamãe, quando a vi ainda criança como eu, emudeci. Tão pequena, tinha encontrado alguém com a mesma maleita dos ossos de que padecia, coisa mais minha. Chorei de pena dela por ser tão miúda, tão obtusa, e de alegria por mim, que não era mais anomalia única. Ruminava com as mãozinhas pousadas no joelho, em pose de retrato, e bolei a hipótese de que cientistas bipartiram nosso ser original, peludo e alongado como o resto dos humanos, e nos condenaram a meias existências. Em casa, porém, ainda desbravava solidão, porque em mim repousavam olhos maravilhados. Entao, passei a acreditar que éramos a unicas adultas miniaturas do mundo. E isso de certa forma, me confortou a alma.
Quando adentrei os portões da escola, no entanto, compreendi que éramos vários. A dor vazou dos pulmões tão logo mamãe me deixou a sós. Quis berrar um berro de que não era capaz, grave, rouco e exclusivo de gigantes. Se me transmuta se em gigante – pensava – poderia pisá-los um por um, esmagar todos os pequenos humanos. Depois, retomaria meu pouco tamanho e tudo voltaria aos devidos nichos, menina granular na mira de um mundo ampliado.
As classes nunca tinham mais que trinta de nós. Sentávamos em fileiras e aprendíamos a cantar músicas da pátria e a colorir a bandeira sem fraquejar o traço ou borrar as bordas. A professora – assim chamava-se a mulher que se sentava na cadeira maior, em imitação de mãe – dizia-nos que éramos especiais. Quando perguntamos o que significava especiais ela disse que éramos importantes. Indaguei ao garoto ao lado o que fazia a pessoa importante e ele disse que ela virava dona dos menos-importantes ou dos não-importantes, e todos deveriam obedecer o portador da importância, como quando os pais mandam os cachorros saírem dos sofás ou os avós sentarem nos sofás e eles obedecem, por serem pouco ou nada importantes.
Ressenti pesadamente o ambiente escolar. Por insistência dos senhores de minha mãe, passei a estudar no mesmo colégio que Mariana, e eles arcariam com as despesas impossíveis a uma empregada doméstica arcar. os professores nos chamavam de crianças. A primeira vez que ouvi a palavra achei-a engraçadíssima, mistura de cria e onça, ri com gula, os dentes de leite reluziam na boca. Com o tempo, porém, o som parou de fazer cócegas no ouvido, e entendi que essa mistura de cria e onça era eu, filhote de fera. Queriam-nos bem penteados, de cabeça baixa a desenhar o alfabeto com firmeza do pulso, alimentados e conhecedores das verdades dos livros.
Chorei!
Havia cruzado a linha entre minhas notas lógicas e as fantasias que vivia outrora. Gostava mais do mundo quando eram apenas eu e Mariana. Naquele momento minha voz se perdia entre outras vozes, que conversavam, riam, gargalhavam, cantavam, gritavam. Uma música leve tocava ao fundo, tentei ter ouvidos para ouvi-la, no entanto, não entendia o que dizia a canção tampouco a conhecia, mas sabia que ela se tornaria trilha sonora daquele momento de típica paralisia existencial. Eu destoava daquelas pequenas criaturas, minha pele cor de chocolate chamava a atenção e eu me sentia perdida enquanto não conseguia dar nenhum passo para atravessar aquele pátio coberto de crianças. Elas só não me causavam o mesmo estranhamento que eu lhe causava, afinal, todas se pareciam bastante com Mariana. Me perguntava, se elas nunca antes haviam visto uma criança de cor de bombom como eu. Descobri outrora que o estranhamento não era devido a minha tonalidade, nem pelos meu traços que tanto divergiam deles. Aquelas crianças, já conheciam crianças como eu em suas casas, filhos das suas cuidadoras, das suas mães emprestadas, das empregadas do seu lar. O estranhamento, vinha de me ver adentrar aquele ambiente. A pobreza tinha a cor negra.
Aos poucos ia emergindo do reino dos absurdos. Todos me olhavam, dizendo implicitamente com seus olhos que aquele ambiente não me pertencia. Tive vontade de chorar, e chorei. Mariana, segurou minha mão e me conduziu por entre o corredor, me levou até nossa sala e me sentou aos seu lado. Como quem dizia aos outros através de gestos que eu pertencia sim aquele ambiente. Quando curiosos lhe questionaram, ela dizia que éramos irmãs. Gostaria que fossemos mesmo, e sonhava com isso. Sim! Eu estava viciada em sonhar. A noite enquanto me metia nos lençóis, e as paredes daquele colégio suíço pareciam como limites bastante implícitos e adentrar seus muros representava quebrar barreiras e caminhar desimpedida por um caminho de resistências. Eu tomei gosto por essa sensação. E foi a primeira vez que me senti plena. Abandonei a sina de anomalia e percebi que meu tamanho me permitia traçar rotas inusitadas, como atravessar o buraco estreito na cerca no fundo do quintal e, do outro lado, deparar-me com uma figueira mágica, maior e mais antiga que todos os pais e professores do mundo. Vasculhava o mato, cavava buracos onde enterrava as colherinhas de metal que roubava dos armários ao alcance das mãos. Quando o desvario das louças perdia a graça, atentava-me aos insetos escondidos embaixo das folhas. Mirava cidades inteiras de cima, minha sombra escurecia as estradas das formigas, meu sopro derrubava suas construções mais engenhosas, meu polegar era ameaça de morte e esquecimento. Virava, enfim, gigante. A escola era um ambiente hostil, mas eu caminhava com Mariana e me sentia forte. Nem sempre ela estava por perto, tampouco poderia evitar que comentários maldosos e trotes constantes me atingissem.
Minha mãe que cantarolava feliz, pela sorte de ter uma filha matriculada num dos melhores colégios da cidade, tinha sonhos modestos, de uma simplicidade comovente. Certa vez, chorou até faltar o ar quando lhe contei que uma menina me disse que sua mãe lhe ensinara que pessoas negras eram castigadas por deus. Desde aquele dia, optei por enfrentar os obstáculos em silêncio. Durante todo o período escolar eu não fui capaz de dormir mais de três horas seguidas. Numa noite, porém deitei-me de bruços com a cabeça repousada embaixo do travesseiro, lutei para permanecer desperta. Temia as horas perdidas de sono e que o dia seguinte me pegasse desatenta com o corpo inerte, naquela quase morte que representava o sono. Fingia satisfação e inventava narrativa de amizades e aventuras que só vivia , além das ofensas e dos trotes dos quais tinha que desviar dia após dia para conseguir estudar e realizar algo de uma grandeza que pouco entendia com aquela idade. No entanto, não queria chatear mamãe. Alguns dias acordava me sentindo super-heroína. Derrotando esses monstros imaginários, vencendo essa guerra, que travava sozinha, salvando o mundo este maremoto de preconceitos e egos, resgatando meus colegas desse ataque de nervos que representa julgar aquilo que se aprende como verdade absoluta. Outros dias, me sentia pior que o menos querido verme rastejante. Culpada. Acusada. Acuada. Como se qualquer palavra de ódio dita, se cada ofensa ou comparação com macacos, ou do cabelo com bombril fosse como uma mordida letal. Um bom dia mal dado da professora. Um olhar atravessado das meninas mais populares do colégio. Um domingo de solidão sem mamãe, nem Mariana. Um sorriso amarelo no espelho. Todos os dias eram ruins. Minha estima só abaixava. Uma beleza que não enxergava no espelho, que não se revelava. Um cabelo que nunca tomava jeito. A vontade era ficar no quarto de empregada, onde eu e mamãe dormíamos. Largada em frente a TV. Com uma ressaca moral, puxando meus pés igual um bicho papão que mora embaixo da cama, mas neste caso, o bicho papão morava dentro da minha própria mente. Eu era sentimental e sentia todo esse ambiente como algo que me deixava pra baixo o tempo todo. Esperava ansiosamente pelas férias escolares, e no fim de cada ano letivo eu sentia um alívio na alma digno da sobrevivência de uma criança perdida dentro de um ninho burguês. O ambiente escolar me era hostil, desde a convivência com pessoas que não estavam habituadas com aquilo que se diferenciava (incluindo crianças e adultos) ao conteúdo que estava muito aquém daquilo que já tinha estudado nos primeiros anos da escola pública, passei com bastante dificuldade. Enquanto que o ambiente familiar se apresentava bastante solitária, mãe era responsável por todos os afazeres daquela casa e daquela família, e Mariana era mantida ocupada entre aulas de piano, latim e equitação. Me refugiava nos livros e me esforçava estudando para não desapontar mamãe. Nao entendia naquela idade a necessidade e a importância de mudar da antiga escola para aquele lugar tão odioso, com aquelas pessoas tão odiosas. Porque não podiam ser todos como Mariana?
Fim do capítulo
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Kairavieira
Em: 23/01/2020
Só peço que não pare. Essa história é muito boa.
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Adriana P Silva
Em: 23/01/2020
Uau! Super curti! Esperando os próximos! ;-)
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