2. Os ricos também pegam fila no DETRAN
Juliana
O dinheiro e o poder têm um papel engraçado na vida do ser humano. Eles dão uma sensação de invencibilidade e imponência, que fazem com que você sinta como se tivesse uma espécie de superpoder. Mas não ache que sou o tipo de pessoa que se permite ser subjugada por essa sensação. Não é isso que estou querendo demonstrar aqui. Só estou compartilhando uma reflexão que martela na minha cabeça dia a dia: algumas pessoas falam que dinheiro não traz felicidade, que o materialismo empobrece a alma, mas será que é bem assim? Afinal, quais as diferenças entre ter e não ter dinheiro? Não preciso elencar para você, né? A lista é imensa. Mas uma coisa é fato incontestável: existem alguns momentos na vida em que, seja lá qual for o saldo da sua conta bancária, você vai precisar enfrentar como qualquer reles mortal.
— 354, moça? É sério isso?
— Sim, senhora! É isso. Pode aguardar ali, nas cadeiras...
— Mas o painel ainda está na 289! Quer dizer que tem 65 pessoas na minha frente.
— Olha só, a senhora sabe fazer conta, né? Sinal que não vai perder a sua vez, quando for chamada. Próximo? — falou irônica e tentou chamar o próximo da fila imensa, mas a garota que reclamava não permitiu que ele se aproximasse.
— Sua abusada! Isso é jeito de falar com uma cliente? — A recepcionista riu de um jeito muito sarcástico, e maluca que reclamava com ela continuou: — Isso é absurdo, não posso esperar esse tempo todo, tenho um compromisso importante.
— Então melhor a senhora voltar outro dia.
— Não, eu preciso da minha habilitação hoje. Cadê o seu superior? Quero falar com ele. — pediu num tom bem arrogante, e ri sem acreditar que aquela cena era real.
Eu estava sentada a uns 10 metros de distância da cena, esperando a minha senha ser chamada. Já estava ali havia mais de duas horas e só não morri de tédio porque, enquanto esperava, ouvi toda a minha playlist do celular e fiz uma faxina na minha caixa de entradas do e-mail do trabalho.
Situações como aquela não estavam se mostrando incomuns ali. Eu mesma senti vontade de xingar uns três funcionários, no mínimo. Mas de que adiantaria? Antes daquela maluca, várias outras pessoas já haviam reclamado do atendimento também. Normal. Tanto que nem me dei ao trabalho de olhar em nenhuma das vezes, exceto aquela, pois foi impossível ignorar a empáfia e arrogância da menina. Surreal demais, ela estava se achando a dona do mundo.
Uma grande confusão se formou depois que ela pediu para ser atendida pelo superior da recepcionista, e depois de muito toma-lá-dá-cá, ela não teve outra opção além de enfiar o rabinho entre as pernas e aguardar sua vez. Tentei controlar a risada ao vê-la limpando o acento para se sentar, mas não deu. Precisei abafar a boca com a mão e virar o rosto para que ela não notasse. A criatura era muito... mas muito dondoca mesmo. Linda demais, de encher os olhos, mas tão patricinha que enjoava.
Mesmo assim não consegui evitar de observa-la. Não me pergunte o motivo, mas foi mais forte que eu. Fiquei olhando de soslaio e não deu nem dois minutos para que ela começasse a se agitar de novo. Começou a olhar para o senhor ao lado dela e logo, de um jeito bem descarado, olhou para o pequeno pedaço de papel amarelo na mão dele. Falou algo que não pude ouvir e ao receber o que pareceu uma negativa dele, revirou os olhos e levantou. Endireitei-me na cadeira para ver melhor o que ela aprontaria depois, não perderia aquilo por nada.
Minha diversão com aquela situação deu lugar a uma grande indignação ao vê-la ultrapassar, sem aparentar a menor culpa, todos os limites da cara-de-pau, quando passou a abordar as pessoas, de cadeira em cadeira, perguntando a numeração de suas senhas.
— Que sem vergonha, cara! — pensei alto e atraí a atenção do rapaz ao meu lado.
— Ela tá tentando comprar a senha de alguém, é isso mesmo?
— É, parece que tá. — respondi no automático, sem tirar os olhos da doida, que ao me notar, deu um sorriso automático e acenou, antes de começar a caminhar na minha direção. — Ah, meu Deus, eu mereço!
Mal deu tempo de acabar de reclamar, e ela já estava de pé, na fileira de frente a minha, com uma simpatia mais falsa do que uma nota de três reais, querendo saber de mim:
— Tudo bem com você, moça?
— Tud...
— Poderia me dizer qual o número da sua senha?
— Du... duzentos e noventa e sete.
Não me pergunte o motivo de ter falado, por favor! Muito menos o de ter gaguejado. Sinto que mesmo que eu reflita a minha vida inteira sobre os motivos de ter feito isso, jamais vou entender.
— Sério?! — Foi mais uma exclamação do que uma pergunta. — Então hoje é o seu dia de sorte. Adivinha?
Para falar a verdade, eu preferi não tentar adivinhar. Estava com medo do que viria depois.
— Não, eu não faço ideia.
— Pois pode ficar feliz! Você vai ganhar cem reais sem nenhum esforço.
Sorri com ironia e resolvi dar o resto da corda para ela se enforcar.
— Ah, é? E como eu faço pra ganhar essa grana fácil?
— Simples, só trocar de senha comigo! — falou com uma naturalidade que para mim pareceu ridícula, como se aquela proposta fosse irrecusável.
Até senti vontade de continuar para ver até onde ela iria, mas eu já estava de saco cheio. Havia desmarcado três reuniões importantíssimas naquela manhã. Cheguei no Detran antes das 8h e já me deparei com uma fila quilométrica. Respirei fundo. Minha primeira vontade foi voltar, mas não podia. Era o último dia em que a minha CNH valeria, e como viajo muito para o interior do estado, devido ao trabalho — coisa que ela nem deve saber o que é —, com certeza acabaria parada em uma blitz muito em breve. Não havia outra opção.
— Não estou interessada, obrigada! — agradeci enquanto punha novamente os fones nos ouvidos e voltava a olhar para o celular.
Mas aquele, com certeza, não era o meu dia. A metida voltou a chamar minha atenção, dando exatas três cutucadas no meu joelho, que só serviram para me deixar com mais raiva do que eu já estava.
— O que é, garota? Já disse que não quero o seu dinheiro. Me deixa em paz, vai? — pedi impaciente.
— Minha filha, vamos ser práticas porque eu ainda tenho tanto o que fazer hoje! O negócio é o seguinte: eu tenho dinheiro, e você precisa de dinheiro. Tem cento e cinquenta aqui. É tudo o que tenho em espécie na minha carteira. Se você aceitar um cheque, posso te dar mais um pouco, só me fala um número que eu preencho... — disse e foi tirando um talão de cheques e uma caneta da bolsa.
Que preconceituosa filha da puta!
— E o que te faz achar que eu preciso da tua grana? — perguntei sem conseguir controlar meu tom de voz enfurecido e fervi de ódio quando, ao invés de me responder, ela passeou os olhos em mim, da cabeça aos pés, nitidamente me julgado pelas minhas roupas. — Quer saber o que eu acho que você deve fazer com esse dinheiro e o seu talão de cheques? Enfia no...
— Eu aceito a grana. — O rapaz ao meu lado me interrompeu antes que eu perdesse a cabeça e descesse completamente o nível. — A minha é a 295.
E como se a nossa discussão jamais tivesse acontecido, ela simplesmente se virou para ele e sorriu daquele jeito forçado, antes de dizer:
— Negócio fechado!
E trocou dinheiro pela senha do imbecil. Fiquei assistindo aquela cena sem acreditar na tamanha falta de senso do ridículo que aquela garota tinha. Pior de tudo foi o olhar de vitória que ela me lançou antes de levantar e dizer:
— Tchauzinho! Foi um prazer. Agora vou lá pra frente, porque sou a próxima. Até nunca mais! — cantarolou a última frase enquanto se virava e saía andando.
Fiquei tão zangada por ela ter saído por cima que se tivesse tido tempo de pensar, teria oferecido o dobro para que o moleque não aceitasse trocar a senha. Aquela patricinha preconceituosa, metida a besta foi chamada logo que saiu de perto de mim.
Que ódio!
Sim, tenho ódio de gente assim. Talvez por trauma ou sei lá o quê. A minha vida inteira precisei conviver com essa gente ridícula, que acha que dinheiro e poder valem mais que tudo. Na escola, eu era bolsista. "Filha da zeladora" era o apelido menos ofensivo que os meus colegas usavam para se referirem a mim. Eu os ignorava o quanto podia, me recluía no meu próprio mundo e focava em um único propósito: ser a melhor da turma. Não sentia a menor necessidade de me encaixar nos padrões que eles julgavam "legal". Se havia alguém a quem eu gostaria de orgulhar, esse alguém era a minha mãe, que fazia das tripas, coração, para sustentar a mim e a minha irmã com o salário que ganhava na escola.
Na faculdade, as coisas melhoraram um pouco, mas não foi muito diferente. Mesmo sendo uma universidade federal, a quantidade de filhinho de papai que estudava lá era surpreendente. No meu curso, engenharia civil, acho que eu era única que não era filha de dono de construtora ou político... ou pior, de político dono de construtora.
Enfim... depois teve a pós-graduação, a especialização, o mestrado e o doutorado, que fiz nos Estados Unidos, além de todos os outros cursos que fiz e prêmios que ganhei por conta dos meus projetos acadêmicos. Mas mesmo em outro país, com outra cultura, o bullying me acompanhava. Era como se eu tivesse tatuado a palavra "POBRE" bem no meio da minha testa. Um estigma que eu carregava. Mas, segundo o Hugo, meu diretor executivo, eu era quem fazia questão de, mesmo depois de ter conquistado dinheiro e poder, parecer pobre.
De certa forma, talvez ele tivesse razão. Não que eu não goste das coisas boas que o dinheiro pode pagar. Eu gosto e muito, mesmo sem nunca deixar que isso subisse à minha cabeça, pois abominava a ideia de me parecer com os meus opressores da vida inteira. A questão é que sempre fui meio desleixada com a minha aparência, e mesmo depois de ganhar muito dinheiro, continuo me vestindo para ficar confortável e não elegante.
Depois de mais uns minutos de espera, fui atendida e finalmente pude ir embora. Entrei no carro suspirando aliviada por saber que só precisaria voltar naquele lugar de novo dali a 5 anos.
Manobrei e comecei a dirigir pelo estacionamento rumo à saída e logo me deparei com uma cena que me fez gargalhar.
— Não acredito, cara! Esse mundo dá voltas. — falei sozinha enquanto parava o carro ao lado da dondoca da senha, que tossia enquanto agitava as mãos no ar, tentando mandar para longe do rosto a fumaça do motor do carro dela, que provavelmente havia estourado.
Por que eu parei o carro? Acha mesmo que eu iria embora sem tirar sarro da cara dela?
Baixei o vidro e antes que ela notasse que era eu, perguntei irônica:
— Tá precisando de ajuda aí, madame?
Ainda tossindo, ela me olhou e revirou os olhos. Depois olhou para o meu carro e sacudiu a cabeça, incrédula. Mas mais uma vez fez uso daquele que parecia ser o seu maior atributo: a cara-de-pau:
— Você entende de motor? Pode dar uma olhadinha aqui pra mim?
— Ah, legal! Além de cara de pobre, acha que eu tenho cara de mecânica também.
— Por favor, moça, seja empática. Olha só a minha situação! — pediu com quase desespero.
— Como se você soubesse o significado da palavra "empatia". — Fui irônica.
— Tá bom, obrigada por nada! Pode ir. — respondeu a minha ironia bastante chateada e depois foi tentar abrir o capô.
A despeito da vontade que eu estava sentindo de me divertir, vendo-a tentando abrir aquela tampa e sabendo que, caso conseguisse, o máximo que aconteceria era ela engolir mais fumaça, senti um pouco de pena e decidi dar a dica:
— Não me parece uma boa ideia abrir esse capô. Já pensou em acionar o seguro? Acho difícil esse carro sair daqui sozinho.
Ela voltou a se aproximar da janela, tinha um olhar meio confuso quando perguntou:
— Seguro serve pra isso?
Deus! Em que mundo essa mulher vive?
Eu ri, mas respondi:
— Sim, serve. Liga, eles vão te enviar um reboque e um taxi.
— Mas eu nem sei pra que número ligar, não sei qual a seguradora.
— É sério isso?
— É, eu nunca precisei lidar com isso. Na verdade, quase nunca saio dirigindo, ando com motorista. Enfim, mas meu pai ou meu irmão podem acionar pra mim, só preciso ligar pra um deles.
— Então liga!
— É que... eu perdi o meu celular ontem e... — falou muito sem graça e pela primeira vez a vi descendo do salto.
— Meu Deus, mulher! Você é inacreditável, sabia? — falei gargalhando e entreguei meu celular a ela. — Anda, liga logo pro papai vir te salvar.
Ela pegou e me lançou um sorriso irônico.
— Você é tão gentil!
Comentário que só me fez rir mais da cara dela enquanto ligava, sem sucesso.
— E aí? — perguntei depois de vê-la discar uns três números diferentes.
— O do meu pai tá desligado, o da minha mãe chama e não atende. Ela deve estar com a massoterapeuta. E o meu irmão está rejeitando a ligação, aquele inútil.
— E não tem mais ninguém pra quem possa ligar?
— Ninguém que eu saiba o número de cabeça.
— Então chama um táxi, ué! Depois você pede a algum empregado seu pra dar um jeito nisso. — falei irônica.
— Então... eu meio que fiquei desprevenida, porque...
— Porque burlou o sistema e comprou uma senha pra furar a fila lá dentro, né?
— É... tipo isso. — confirmou desviando o olhar do meu, nitidamente humilhada.
Lavei minha alma com aquela cena. E arrematei a minha vingança ao tirar a minha carteira de dentro da bolsa e entregar a ela exatos 150 reais, ao mesmo tempo dizendo:
— Bem que eu poderia te deixar plantada aqui, mas sou uma pessoa legal. Toma aí, paga o teu taxi. E da próxima vez, pensa duas vezes antes de ficar na rua sem celular e sem dinheiro, tá? — Ela segurou o dinheiro e me olhou incrédula. Mexeu a boca para falar algo, mas não deixei. — Não, relaxa! Não precisa agradecer e muito menos me pagar. Não vai me fazer falta, tá? — Pus os óculos escuros e antes de sair cantando pneu, cantarolei no mesmo tom: — Até nunca mais.
Ainda olhei pelo retrovisor e contemplei a cara de idiota dela observando o carro se afastar, parecendo ainda chocada com o que acabara de acontecer.
Naquele dia, ela aprendeu uma lição: os ricos também pegam fila no Detran.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Leticia Petra
Em: 04/02/2020
Sensacional, querida...
Ansiosa por mais. Não demore muito.
Abraços.
Resposta do autor:
Vou postar um episódio por dia até acomapnhar as postagens na outra plataforma, que está no 11. Depois, as postagem passarão a ser todos os domingos. Obrigada pela leitura!
cris05
Em: 03/02/2020
Cara, amei! Vou correndo na outra plataforma ler os outros capítulos.
Bom demais ter você de volta, autora!
Resposta do autor:
Aiiiiiiiiiiin... que coisa boa de se ler! Não importa se vai ler aqui ou lá, só quero saber a sua opinião, tá? Obrigada!
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Mille
Em: 03/02/2020
Rapaz essa Juliana colocou a madame no bolso kkkk gostei da atitude dela depois.
Foi querer ser esperta quase fica no prego caso a Ju não a ajudasse.
Bjus e até o próximo capítulo
Resposta do autor:
Juliana arrasou, né? Caterine ficou com a cara no chão. kkkkkk daria tudo pra assistir uma cena dessas ao vivo. Obrigada pela leitura <3 Abraços!
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NovaAqui
Em: 03/02/2020
Os ricos não pegam fila kkkk eles pagam despachante para resolver tudo.... Kkkk os ex ricos pegam fila, bebê
Já vi que essas duas vão ficar se provocando kkk será que teremos uma guerra silenciosa? Vamos ver! Vamos ver!
Estou me segurando para não ler os outros capítulos
Vou aguentar, eu acho ðŸ˜ðŸ˜ðŸ˜ðŸ˜‚
Resposta do autor:
Mas pra renovar a habilitação, não tem jeito. Tem que ir. kkkkkk Hoje a noite posto o terceiro. Obrigada pela leitura. <3
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