XIII
Talvez o amor seja aquilo que relata na bíblia... "Tudo crê e tudo suporta".
Nunca em toda sua existência até aquele dia, Verena teve uma relação tão sólida e ao mesmo tempo tão delicada como tinha com sua aluna. Tudo que estavam vivendo não dava vazão para pensar nesse detalhe "aluna", tudo que a professora mais queria era que tudo aquilo pudesse passar, toda tensão esvair para que pudesse soltar o ar que a sufocava, sobre os dias tensos que estavam vivendo.
Se me encontro assim... imagina a cabeça dessa menina. Pensou a professora.
O caminho fora todo em silêncio, o hospital ficava há uns 35 minutos de onde morava, então ainda haviam um restinho de tempo e a cabeça da mais velha fermentava os pensamentos.
Vez ou outra os olhos da professora iam de encontro com os da menina, que mantinha a cabeça recostada no banco do carro e olhava silenciosamente a chuva amena, deixando rastros de gotículas no vidro. Aline estava longe, os pensamentos, não se sabia por onde se encontravam.
Ja passava das 17h, haviam resquícios de neve, fazia frio. A estrada molhada, Aline vestia uma blusa de mangas compridas de lã, cor-de-rosa e uma calça moleton na cor cinza. Os cabelos estavam em um rabo de cavalo frouxo, o rostinho ora pálidos, estavam avermelhados, o nariz rosado, indicando o tempo que passou chorando, os olhos fechados, parecia cochilar.
Verena mantinha a atenção na estrada e na menina, dirigia devagar, com as chuvas e o gelo, a estrada ficava escorregadia, então todo cuidado era pouco, ja estava escurecendo, por conta do tempo invernado, estacionou degavar e pôs sua mão na coxa de Aline, suavemente, despertando-na.
-- Chegamos meu amor, acorde! - virou-se, alcançando um beijo no alto da cabeça da menina.
-- Desculpe, eu estava cansada, estava com uma dor na cabeça, eu lembrei que não almoçamos - esfregava os olhos enquanto tentava sair da posição em que dormira.
-- Verdade, eu nem me atentei a isso, não senti fome e ainda não sento até agora, vamos saber sobre seu pai e se quiser, lancharemos, você precisa comer meu amor.
***
Hospital não era o que agravada a menina, lembrou das vezes que precisava ir e sempre remetia frio, solidão, talvez essa fosse o lugar preferido da morte e isso causava arrepios pelo corpo de Aline. O ambiente parecia calmo, poucas pessoas ali circulavam, a recepção estava vazia, apenas uma recepcionista de meia idade postava-se séria e concentrada e o único som que ouvira eram conversas distantes por entre as portas e o som das teclas sendo digitadas.
- Boa noite! Sou Verena Bolder, vim a respeito do paciente - pausou para recodar o nome mas foi interrompida.
- Túlio, não se fala mais em outro nome aqui. O médico logo virá.
- Eu posso ver meu pai? - a menina estava ansiosa e tremula.
- Não posso permitir até o médico estar presente, são autorizado familiares, e você não tem idade pra entrar sozinha.
As palavras da mulher causaram tristeza e dor, era notório a fragilidade da menina, perdera a mãe e pensar em não poder ver o pai, lhe revirava o estômago, toda cena estava fresca em sua memória.
A professora não mantinha nenhuma expressão, pegou Aline pela cintura e a conduziu para os assentos de espera, assim que a menina sentou, Verena agachou-se em sua frente e lhe acariciou o rosto.
- Ei, olha pra mim, vais ver seu pai eu lhe prometo, ele deve estar sedado, pra não sentir dor, o pior ja passou, eu vou resolver e logo venho, me espere aqui que estarei logo a frente.
Aline assentiu e sorriu fraco.
O tom de voz da mais velha estava mais baixo que o normal, aproximou-se da recepcionista afim de ajustar o que fora dito.
- Boa noite novamente, nós viemos saber do detetive que teve perfuração por arma de fogo, aquela é sua filha e eu sou responsável por ela...
Mais uma vez fora interrompida, o médico acabara de chegar na sala. Aline levantou e ficou ao lado da mais velha.
- Boa noite senhoritas.
- Boa noite, sou Verena...
- Bolder - disse o médico. - Quem não lhe conhece nessa cidade?
Verena sorriu educadamente
- Essa é Aline, filha do seu paciente, viemos ter informações sobre o seu estado de saúde, e a menina tem o aval de visitá-lo.
- Sim, ela tem todo direito, o caso dele é delicado, o bala foi retirada, seu estado é grave mas está sob observação, hoje ainda não poderá receber visitas mas amanã ele será encaminhado ao quarto, pois precisamos verificar seus parâmentros e se tudo ficará bem com a reação dos procedimentos na sala de cirurgia.
- Meu pai vai ficar bem, Doutor?
- Estamos fazendo de tudo para que assim seja, hoje não poderá receber visitas. Espero que entenda, são os regulamentos e para a próprio cuidado de seu pai.
- Eu entendo, me desculpa, eu pensei que eu pudesse... v-vêlo.
- Magina, se cuide para dormir bem e amanhã vir aqui que você vai poder ver seu pai.
O abraço de sua professora a confortava e as palavras do médico lhe deixou mais calma em relação às duvidas que tinha sobre o risco de vida que o pai corria.
- Obrigada, amanhã estaremos aqui e agradeço pelas informações - a mulher estava mais séria que o normal.
***
Ja passava das 18h30 quando o carro cautelosamente corria pela estrada, havia neblina por conta do mau tempo, a noite se tornava inimiga dos motoristas. Ambas permaneceram caladas desde a saída do hospital. Cada uma dentro dos seus próprios devaneios. Mas Verena tirou Aline dos seus pensamentos ao estacionar quando notou que havia estacionado ao lado de um restaurante que mal podia enxergar pela dificuldade que a neblima impunha.
- Precisamos comer, e você precisa bem mais que eu. - a mulher tirava os cintos de segurança.
- Eu tô com muita fome, obrigada, eu não aguentava mais - Aline sorriu timidamente.
Agasalharam-se e saíram do carro apressadas para não ficar tanto tempo expostas ao frio.
O lugar era aconchegante, havia uma música lenta de fundo, decoração rústica e haviam poucas pessoas, o cheiro de comida invadiu a alma de Aline que passou tanto tempo sem se alimentar. A professora escolheu uma mesa próximo de uma grande vidraça que ficava no canto e mais distante das outras. Sentaram-se e logo atentaram-se a ler o cardápio, mas o que não sabia era que Verena foi acompanhada por um olhar surpreso que a seguiu até o momento em que sentou.
A menina ficou de frente para a mais velha que tinha as costas para o restaurante. A professora lia o cardápio quando sentiu um sussurro em seu ouvido.
Levantou a cabeça lentamente e seus olhos foram de encontro para Aline, a menina tinha os olhos fixados na dona do sussurro.
- Eu pensei que nunca iria ter a oportunidade te lhe ver de novo, e eis que no fim do mundo você aparece.
Verena virou lentamente para deparar-se com uma moça que aparentava ter seus 20 e tantos anos, ruiva, mantinha um sorriso estupefato e os olhos fixados na mulher. Usava uma toca de frio e seus olhos verdes cintilavam na figura que estava em sua frente, devorava Verena com os olhos.
- Eu não sei o que sinto, eu não sei se te odeio, ou se nunca te esquecerei. Verena. Ou como deve ser seu nome mesmo? É esse?
A expressão da professora ficava cada vez indecifrável, aquilo era a última coisa que queria naquele dia... Na verdade nunca cogitara isso em sua sã consciência.
- Me perdoe, boa noite! Acho que aqui não é hora...
Mais uma vez foi interrompida.
- Então você é mais canalha do que eu imaginava - a ruiva falava entre os dentes.
- Pelo amor de Deus, poderemos resolver essa conversa outro momento? Não estamos em lugar para isso e eu estou acompanhada.
Algumas pessoas notaram tamanho desconforto das mulheres e a atenção que se voltava a elas. Aline estava assustada e não sabia o que pensar. Sua fome passara e estava desconfortável com a situação.
- Faz muito tempo Verena, tanto que eu mal pude acreditar, mas eu peço desculpas por isso, eu fiquei em choque, eu vou me retirar, eu não quero saber de ti, demorei pra te esquecer e agora eu agi pelo impulso, nunca pude imaginar que um dia te veria na vida. Agora vi a bobagem que fiz, minha namorada deve tá olhando pra cá tentando entender e vou ter problemas, merd*!
Verena respirou fundo e olhou para Aline pedindo perdão com os olhos.
- Boa noite - disse olhando para a mulher - Mais uma vez, eu não quero problemas nem escandalo, eu peço que nos entenda, tá tudo bem.
Assim que estranha deixou a mesa, Aline soltou o ar preso e abaixou a cabeça tentando ler o cardápio mas não se concetrava no que lia, apenas queria desviar os olhos e não encarar sua professora.
- O que vai querer Aline?
- Eu quero uma sopa de legumes e uma tigela com pãezinhos - continuava olhando para o cardápio.
A prodessora acenou para o garçom e fez os pedidos.
Aline mirava muitas coisas, não sabia o que sentia em seu peito, Verena era mais velha e deve ter tido muitas mulheres, era o que passava pela cabeça da menina... Sentia-se tão menina, notou a beleza..da mulher que acabara de saber da existência e não entendia o que havia se passado com as duas, mas que alguma coisa elas tiveram, isso era nítido. O que sentia era apenas inferior em seu peito, devia ser cansaço, so queria se alimentar e ir para casa, haviam muitas coisas acontecendo em sua vida para dar espaço em seu coração para mais coisas estranhas que aquela situação remeteu a si.
Por outro lado, a mulher estava aflita, só queria conversar a sós com a menina, lembrava-se de Molly, a menina que ali ressurgiu, havia conhecido em uma de suas viagens, foi passageiro mas Molly nunca aceitou o fim. Queria se explicar para Aline, tinha necessidade disso, estava inquieta mas sabia disfarçar, seu estômago revirava, o dia não poderia ter sido pior, mas a noite foi um complemento para a desgraça do seu psicológico.
Comeram em silêncio, a mais velha não sentiu gosto nem apetite, apenas se alimentou no automático para não precisar ir ao hospital por negligência na alimentação. A menina saciou sua fome mas o desconforto no coração não fazia esquecer do que seu corpo sentia, do sentimento emaranhado fazendo com que sentisse um nó dentro do peito.
Chegaram na casa da professora e assim que entraram Verena enlaçou a menina em um abraço.
- Você quer conversar, Aline?
- Sobre mais cedo?
- Sim, eu preciso conversar, você quer?
- Vamos subir? Eu quero te abraçar está tão frio.
- Vem.
Pegou pela mão da menina e logo estavam juntas, havia necessidade em cada uma de assim o fazer.
- Aline, me perdoe por mais cedo, e-eu não imaginava, me perdoa por essa situação desagradável.
Verena estava recostada na cama com Aline sentada em sua coxa, abraçava a menina por trás.
- Eu não te julgo, você teve uma vida antes de mim, eu me senti estranha, eu fiquei imaginando vocês duas, ela é muito bonita, mas eu estou tão cansada por tudo que tá acontecendo que não quis pensar tanto nisso, eu assim como você também fui pega de surpresa, eu fiquei com vergonha, porque não sabia o que pensar. Eu me senti estranha mas não quero que isso atrapalhe nada, eu só quero ficar melhor.
A professora apertou ainda mais a menina em um abraço, e logo procurou a boca daquela que tanto amava.
- Verena, não precisa me explicar sobre seu passado, eu pareço boba em te dizer isso, mas é o que penso, meu pai sempre diz que tudo na vida tem seu tempo. E não posso ficar chateada nem te cobrar pelo o que o destino ainda não tinha para nós duas. Eu prezo tanto pelo presente porque eu sempre pensei no agora porque tudo que vivi foi rápido demais e curto por tantos lugares que passei. Eu senti uma dorzinha por te pensar com outra pessoa ocupando esse lugar no teu abraço. Mas eu não gosto de pensar nisso.
- Agora é teu e sempre vai ser minha pequena, não tenha medo, não gosto de imaginar te causando dor alguma, ai não sabes o quanto me deixa me sentindo péssima. Mas minha vida não foi nada boa nesse sentido também, mas são águas passadas. Vem aqui, deita que vou te fazer dormir, amanhã precisa acordar descansada, teu pai está esperando sua visita.
Abraçaram-se e Aline logo caiu no sono sentindo as mãos leves e caricias feito com cuidado em seus cabelos longos, Verena divagava enquanto cuidava da sua menina, ela era tão madura, que as vezes assustava-se em toda essa intensidade, acreditava que aquela menina havia salvo a sua vida, mostrando a ela o amor que nunca havia sentido por alguém em toda sua caminhada.
Vocês também gostariam de sentir isso por alguém?
Fim do capítulo
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