Velório
Na manhã seguinte, nos primeiros horários do dia Paulo estava indo em direção a casa dos Nogueiras, carregava sua maleta médica e com a vantagem de morar praticamente encostado foi caminhando.
Seu braço estava bom, com ajuda dos medicamentos não sentia dores, daí a vontade de caminhar, seguia pela areia calmamente apreciando o momento, passou pelo píer e pode ver seu iate parado, sentiu uma pontada no peito, mas rapidamente mudou sua atenção, quando mais adiante ouvia a balbúrdia de alguns garotos na beira da areia, enquanto outros surfavam.
O homem pode sentir algo lhe acertando a cabeça, apenas um incômodo, olhou ao chão e viu o que lhe atingiu, uma Bolacha-do-mar, com o sol nós olhos Paulo não conseguia reconhecer ninguém, não sabia quem lhe havia atirado essa pequena espécime de nome e aparência peculiar, sentiu falta de seus óculos de sol nesse momento. Porém era notado que veio de um dos garotos reunidos na praia.
Resolveu ignorar e passou a andar novamente.
O calor era brando, pois ainda era cedo, ele sabia que isso mudaria logo mais.
De longe já via a casa de Vitor.
“Uma bela casa, porém, simples demais pela quantidade de dinheiro que ele tem, eu teria feito com mais glamour, aliás eu fiz”
Paulo riu de si mesmo e passou a subir as escadas, enquanto se segurava ao corrimão sentiu uma farpa entrando na pele, levou a mão a boca, puxando o intruso com os dentes.
“O dia mal começou e sinto que devia ter ficar na cama”
Por fim tocou a campainha.
Isabela foi atende-lo, estava sozinha na casa com Anne, Vitor e Leticia tinham saído assim que o sol apontou.
Vitor com a desculpa de revisar os carros, abastecer e deixar tudo pronto para saírem do arquipélago.
Leticia apenas acompanhava o pai, não estava muito à vontade com Anne desde que virá aquele beijo no dia anterior.
Sua vontade era ter dormido ao lado da garota, mas não o fez, achou melhor deixar mãe e filha se curtirem um pouco, porém seus pensamentos ficavam toda hora voltando no momento do tal “selinho” se ficasse perto de Anne iriam discutir, a única saída de Leticia era esfriar a cabeça.
Leticia se mantinha em conflito.
“Ela poderia ter desviado”
“Leticia deixa de ser cabeça dura, se afastar da Anne por ciúmes bobo só vai ser pior”
Paulo assim que entrou, passou pela cozinha sentindo o aroma do café, provavelmente Isabela teria feito com as próprias mãos, não entendia como Vitor não mantinha uma empregada naquela casa.
Como se estivesse adivinhando os pensamentos do homem Leticia lhe ofereceu:
— Aceita um pouco de café Paulo?
O cheiro era delicioso aguçou o desejo por um pouco, havia saído de casa sem ao menos se servir de um bom café, não faria isso ali.
— Obrigado querida, já tomei. – Mentiu o homem.
Com a resposta ambos seguiram até a sala, Paulo pode ver Anne sentada no sofá.
— Deveria estar deitada mocinha, descansando.
—Já descansei muito doutor eu realmente só quero viver agora.
Anne riu para o médico que retribuiu se aproximando ainda mais dela.
Abriu sua maleta sobre a mesa de centro, a garota desviou os olhos curiosa na quantidade de coisas dentro da pequena maleta.
Pensou por um momento bobo ser uma maleta mágica como de desenhos animados do qual pode se tirar algo enorme e desproporcional.
Isabela se convence que a filha parece estar animada e feliz apesar de tudo, começa a conhecer o olhar da filha novamente.
Paulo examinou a garota que se recuperava notavelmente, em seguida preparou uma dose de injeção, Anne analisava cada movimento com um ar infantil.
— Fica tranquila é só uma picadinha. – Diz o medico divertido com as caras da garota.
O doutor segura firmemente o braço bom da jovem e aplica o medicamento em Anne, que cerra os olhos para não ver a agulha, em seguida solta um “aí” curto e rápido assim como a dor da picada.
Dr. Paulo entregou a Isabela mais alguns remédios e os horários para toma-los.
A mãe fala um pouco mais baixo para filha não a ouvir.
— Eu estou um pouco preocupada, sobre a travessia.
— Fique tranquila, esses medicamentos que lhe entreguei possuem a capacidade de tranquilizar e diminuir a ansiedade do indivíduo, mesmo que seja por um período pré-estabelecido esse remédio causa sonolência e relaxamento, mantenho ela com os olhos fechados durante a viagem.
Anne que a minutos atrás estava disposta agora sentia uma leve sonolência, piscou algumas vezes para se manter atenta, já que suas ideias pareciam se perder, estava se desligando facilmente de suas linhas de pensamentos.
— Nossa Doutor esse remédio é realmente forte, ele é mesmo necessário?
Isabela também encara o medico com o questionamento da filha.
— Vai discutir com seu médico agora minha jovem?
— Claro que não - A garota forma uma linha tênue em sua face — Mas o senhor tem de autorizar que eu vá no velório do Rafael, por favor, eles não querem que eu vá.
Paulo foi pego de surpresa.
— Minha cara eu acho melhor que fique aqui descansado até a hora de voltarem para casa.
— Eu preciso me despedir é importante.
Paulo pensa por alguns minutos e por fim, coloca a decisão nas mão de Isabela, ele realmente não queria que a garota ficasse exposta a tantas pessoas, principalmente a imagem de Rafael, não queria trazer lembranças ruins para Anne, porém sabia que o medicamento que lhe havia aplicado, assim como os comprimidos deixados com Isabela a manteria em estado mais tranquilo, eles eram psicotrópicos.
— Ela está medicada, fiquem de olho nela, preferia que não fosse, mas se é tão importante, bem você decide querida Isabela.
Paulo beija as duas mulheres se despedindo, preferia sair antes que Leticia ou Vitor volta-se.
Assim que Paulo cruza a porta Anne encara sua mãe.
— Mãe?
— Okay, tudo bem! Nós todos iremos.
Anne respira satisfeita, porém no fundo não está certa de sua decisão Seu estomago começa a embrulhar, ter de ver Rafael não seria fácil, ele estaria ali inerte sem vida. Talvez fosse melhor manter a imagem do garoto vivo, feliz em sua mente.
Ela balança a cabeça levemente, sentia-se confusa e com os pensamentos lentos. Se aconchegou no sofá deixando seu corpo esvaecer.
Um tempo depois Paulo está sentado à mesa em sua casa e uma mulher de apareça tímida está a lhe servir café, quando ela visualiza os olhos fumegantes de Priscilla, pede licença e se retira o mais rápido possível.
Priscilla atravessa o hall de entrada de sua casa, gritando.
— PAPAI!
— Porque tanto mau humor logo cedo Priscilla, vai matar a empregada do coração.
— Precisamos conversar.
— Outra viagem ou quer trocar de carro novamente? Apesar que não podemos sair do país não é mesmo, deve ser um carro novo, ah não, vai comprar outro presente a filha do vizinho com o meu dinheiro.
Priscilla revira os olhos.
— Quero falar você, tudo está tão errado papai.
Paulo respira fundo e se levanta alterado, agarra os braços da filha e arrasta lhe até o escritório.
Trancando a porta atrás de si.
— Você está ficando louca, primeiro não sente remorso algum, depois agi como se nada tivesse acontecido, agora se lembrou dos seus problemas que eu tenho que resolver e quer gritar ao mundo suas burradas?
— Minhas burradas? Eu não fiz nada!
— O que você quer Priscilla?
—Quero que você a deixe em paz, todos eles.
— Não é tão simples assim, tenho que seguir o plano por você mesma e isso leva tempo. E o pior por sua causa nem sei se vai funcionar.
— Não sei que plano é esse pois para mim você só complicou mais as coisas.
— Você pediu ajuda.
O pai com ironia olha para filha.
— Eu pedi ajuda para um pai, não para um...
— É melhor não dizer isso.
— Eu sei muito bem o que aconteceu naquele dia!
— Pois você vai esquecer e se lembrar apenas da versão que irá nos salvar.
— Eu...eu gosto muito dela, ela é irresistível, não sei explicar.
— Ela ser irresistível foi nossa perdição Priscilla.
Priscilla não imaginava que ainda poderia ficar surpresa com o pai, mas as últimas palavras lhe explicavam muita coisa, ele também por algum momento, mesmo que por pouco tempo se sentiu atraído por Anne.
Seu pai agora ganha toda sua atenção.
— Se troque, coloque uma roupa discreta, iremos até o velório do surfistinha.
Por volta das nove horas da manhã Anne descia do carro sendo aparada por Leh e Isabela.
Vitor fica no automóvel mais um pouco para encontrar um lugar para estacionar.
O dia estava lindo e calmo, o sol já estava a pino. Anne não sentia dor alguma, mas seus movimentos estavam um pouco lentos. Podia ver inclusive os pássaros quase estáticos como se alguém tivesse pausado um filme a sua frente para depois planarem como se nada tivesse acontecido, por um momento se esqueceu o que estava fazendo ali.
Pode ler no letreiro ao alto “Velório Municipal”, então se lembrou, Rafael, sua boca secou automaticamente.
Leticia atenta a cada movimento da garota, questiona
— Tudo bem?
— Só um pouco de sede.
Leticia encosta a boca nos ouvidos da madrasta e sussurra.
— Ela não me parece bem, está um pouco “desligada”, mais que o normal.
— São os medicamentos, infelizmente são necessários, até que ela se recupere.
Leticia não ficou muito feliz em saber que Anne estava ingerindo medicamentos fortes, mas se silencio.
Vitor vinha correndo logo atrás alcançando a família antes de entrarem no recinto. Bem na entrada Priscilla conversava com o comandante Carlos, os dois saíram em direção a família e alguns homens o seguiam.
— Vitor eu pedi alguns homens do regimento acompanhassem todos vocês discretamente, apenas para poderem entrar e sair do lugar, está repleto de repórteres e curiosos.
Nesse momento um fotógrafo se aproxima acompanhado de uma mulher com um celular apontando para Anne, rapidamente dois homens se lançaram formando uma barreira protegendo a garota e dessa forma todos andaram as pressas para dentro do velório onde apenas a família e conhecidos estavam a entrar.
Na confusão Anne solta-se das mãos de Leticia e passa a andar sozinha, a mulher se decepciona ao sentir sua mão sem o toque da mais nova. Leh demorou um pouco para reagir e passar a andar novamente.
Quando dá por si, vê Priscilla grudada a Anne, Vitor e Isabela um pouco mais atrás.
Um sentimento horrível tomou conta de Leticia, nunca tivera esse sentimento dentro si, era como se perdesse Anne pela segunda vez.
Uma mulher parou ao lado de Leticia, ela pode sentir o calor da jovem ao seu lado e isso a reconfortou de certa forma, a ira era mais branda.
— Olá Leh?
Leticia se volta para a jovem do seu lado, já tinha sentido o perfume e sabia quem era antes de se virar.
— Vivi, não esperava te ver por aqui.
Em seguida um rapaz um pouco mais jovem que Viviane encosta perto das duas mulheres.
Leticia conhecia o garoto, ele tinha abordado ela no café, dias atrás, depois o viu na praia perto da ambulância enquanto socorriam Anne.
— Eu te conheço, amigo do Rafael certo?
— E irmão da Vivi, a mulher da qual estava junto da senhora e Anne na sacada aquele dia.
— Não esquenta com meu irmão, ele é um detetive nato.
— E ele é muito bom, sabia que tinha mais alguém envolvido na tragédia.
— E ainda acho, Dona Leticia, não era Bruno que zarpou com os dois naquele dia, tenho certeza.
Leticia se perturbou um pouco com o rapaz, que ainda insistia naquela conversa, mesmo com o caso praticamente concluído.
A conversa terminou quando Leticia viu Vitor na porta fazendo um gesto para que a filha entra - se.
Leticia respondeu o pai com outro gesto, para que ele espera - se.
— Foi um prazer revê-los, vou buscar um pouco de água para Anne.
— Ela é muito mais que uma irmã não é mesmo? – Diz Vivi simpática.
— Me conhece bem Vivi – Leticia da um sorriso e sai em busca de um pouco de água.
Isabela acabou se separando da filha e a procurava loucamente no meio de muitos curiosos que tinham comparecido ao velório.
— Priscilla sua estupida, para onde levou minha filha? – Falou Isabela para si mesma.
Anne entrou no ambiente caótico, todos choravam, ela pode ver o grupo de amigos que sempre estavam com Rafael, alguns viraram o rosto quando a viram.
Próximo ao caixão ao longe uma mulher gritava muito, se jogando vez ou outra sobre a grande caixa fechada.
Anne via e ouvia os cochichos de todos, se sentia a cada passo pior, sua cabeça girava e o corpo estava pesado. Mas mesmo assim tinha a percepção de que ela passou a ser o centro das atenções e isso fez seu coração acelerar, se sentiu mal por estar viva, por não ter morrido como Rafael. Ela olhou para os lados e procurou Leticia, mas não a via em lugar algum. Seus passos a levavam até onde o corpo estava, ao se aproximar tudo só piorava, apesar do caixão estar lacrado ela sentia toda a vibração que emanava dele, Rafael a culpava por estar ali ela tinha certeza disso. A mãe do rapaz segurava aquela caixa de madeira com tanta força, como se pudesse sentir o toque do filho.
Anne se arrependeu não queria mais estar ali, ela apenas queria estar com Leticia, mas mulher tinha sumido.
Priscilla abraçou a garota de lado e foi assim que Anne se manteve em pé até alcançar onde Rafael estava depositado, abandonado, morto.
Anne olhou para a senhora agarrada ao caixão.
— Eu sinto muito.
A mulher reconheceu Anne assim que ouviu a voz da menina.
Quando um tapa rasgou o ar acertando a face de Anne, ela não sentiu dor, mas lágrimas caiam em demasia. Priscilla puxou a garota para si enquanto encarava a mulher com os olhos fervendo.
Anne mais uma vez implorou pela presença de Leticia, porém se sentiu acolhida por Priscilla, não estava só, Priscilla sempre estava por perto quando precisava.
Anne ainda pode escutar a mulher berrando atrás de si.
— SUMA DAQUI! Você levou meu filho a MORTE. Arrastou ele para uma tempestade por capricho aposto!
— Calma, Anne foi tão vitima quanto Rafael, a senhora me conhece a tempos, sabe o quanto respeito sua família, mas está sendo injusta com essa menina.
Anne ouvia a voz de uma mulher jovem a defendendo e quis olha-la, sua voz era familiar, queria saber quem era.
Anne se afasta do peito de Priscilla e pode ver a garota a sua frente, aparentemente era apenas pouca coisa mais velha, tinha a cabeça elevada enquanto falava com a mulher a sua frente, apesar de ser firme não era grosseira, alias podia sentir emoção em cada palavra.
Leticia percebeu a agitação assim que entrou no ambiente, mas era tarde para qualquer coisa a confusão já tinha sido formada. Correu em direção de Anne, mas pode ver Viviane, ela parecia estar acalmando os ânimos de todos por ali. Mas Anne ainda estava chorando e assustada.
Leticia então se lamentou por não estar ao seu lado.
A mulher olha para suas próprias mãos onde segurava uma garrafinha com água, o frasco estava transpirando e perdia temperatura rapidamente. Ela se sentia assim, perdendo Anne tão rápido quanto a água perdia a frescura do gelo.
—Ei, não fica triste, as pessoas não entendem ainda o que aconteceu.
A jovem mulher agora olhava para si e Anne sabia que a reconhecia de algum lugar, sua cabeça começou a dor instantaneamente, uma confusão mental a deixava irritada. Aqueles olhos eram doces para com ela, entre tanto Anne sentia raiva, queria loucamente se lembrar daquela mulher, quando por fim a mesma lhe tocou a face limpando alguns fios de cabelos úmidos que se grudavam em seu rosto entre lágrimas.
Anne sentiu uma pontada maior e um flash veio em sua mente confusa.
Nesse momento todos a alcançaram, Isa, Vitor e Leticia, apenas a tempo de vê-la desmaiando enquanto Priscilla e Viviane tentam não a deixar cair.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
rhina
Em: 14/11/2019
Oi
Boa noite.
Agora tô meia perdida...... É que comecei ler a tarde mas tive que parar......concluir o capítulo agora.....mas vamos vê.
Até então era Letícia e o pai.......a madastra e Priscilla.
De repente eclodiu ou explodiu?????? Kkkkkkkkk
Personagens e mais personagens caindo de para quedas no meu quintal.......kkkkkkk
Nem sei quem cato primeiro.
Bem mas o que quero dizer é Sua história está maravilhosa.
Paulo......Dr. Paulo........olha só ela tava de quatro pela Anne
Agora lembrei........Anne, isso ela é o ponto da discórdia. Todos se apaixonam por ela......engraçado que quando li lá encima que Paulo também ficou interessado nela......tive uma sensação de Dejavu..... Uma sensação estranha......me colocou em uma cena que não conseguir lembrar qual......mr veio até um nome na mente mas como tive que interromper a leitura abruptamente.......perdi o pensamento.
Rhina
Resposta do autor:
Alguns personagens que eram apenas citados vão criando vida ao longo da trama, rsrs confesso que foi de propósito, outros vão surgindo enquanto os dias passam, rs.
Quanto ao Dejavu eles realmente existem na história, prestando atenção encontrará outros
Adoro saber que está gostando, super beijo.
Kara
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]