Casa de Pesca
...Com ajuda dos dedos escolhe quatro chaves repetidas e retira de junto as demais, abre a gaveta e de lá pega um chaveiro simples que já havia visto antes jogado por ali a tempos, depois de colocar as chaves que separou nele, esconde entre os dedos.
“Preciso pensar com cuidado, qual será meu próximo passo”
No mesmo dia horas antes
Em um bar perto das docas um homem de traços fortes e bonito, porém de uma forma rude e com a pele morena queimada pelo sol, aparentemente um pescador da região, consegui observar todo o movimento na praia, o lugar é realmente privilegiado, só se incomoda com uma fina chuva que vem e vai a todo instante, quando as pequenas gotas atingem seu nariz, fazem ele coçar.
O balconista encosta olhando para a garrafa vazia:
— Mais uma Bruno?
— Desce! – Bruno dá um sorriso largo e amistoso, e volta a observar o lugar onde Leticia permanecia reunida com o comandante.
Por um segundo Bruno desvia a atenção da areia e passa os olhos em seu celular que estava vibrando ao anunciar uma mensagem que acabará de chegar.
“Olá, preciso falar com você!
Quero saber o que está acontecendo!
Me encontre às 16horas, no lugar de sempre.”
O homem já não mantêm a atenção no celular e volta o olhar para a praia, onde pode ver Leticia agora com a Câmera nas mãos, uma onda de calor percorre todo seu corpo e passa a ficar um pouco inquieto, no banco do bar, apesar de estar ao ar livre, ele se sente asfixiado a cada movimento fitado na praia. Os marinheiros e os policiais indo e vindo não parece ser uma coisa boa.
“Se eles encontraram a câmera é questão e tempo até encontrarem ...Estou ferrado”
Um tempo já havia passado e o homem verifica as horas, Bruno continua olhando a praia em busca de qualquer coisa que possa entender o que está prestes acontecer. Seus olhos ficam tão presos aos movimentos de Leticia que por um leve momento a mulher parece estar em busca de seus olhos também.
Lentamente ele disfarça e passa a conversar uma futilidade qualquer com o cara do outro lado do balcão, que já lhe havia servido uma nova garrafa.
Ao seu lado um copo com uma quantidade de cerveja dentro, Bruno completa, o copo transpira impaciente pelo seu dono, mesmo com um vento cortante ele olha para a bebida e engole de uma só vez o liquido, como se estivesse com uma sede violenta de um dia de sol escaldante.
Percebendo toda a agitação aumentar rapidamente e algumas lanchas encostarem na praia, Bruno pega o celular para verificar as horas mais uma vez, é quase 15h40.
O homem afasta o telefone e guarda no bolso fundo da calça de poliamida e sai em direção as docas, agilmente entra em seu barco, com poucas manobras se afasta das margens e contorna a encosta até uma pequena e abandonada praia.
Bruno começa digitar uma mensagem em seu celular, seus dedos estão um pouco agitados, mas mesmo assim o faz com firmeza.
“Sinto muito, não posso agora,
tenho um outro compromisso.
Mais tarde, talvez eu te ligue!”
No dia seguinte.
Casa de Pesca
Em um ambiente escuro Anne abre os olhos, seu corpo está dolorido e a cabeça girando, mas dessa vez sente um pouco de força e se esforça para sentar se, um incomodo nos braços a leva a observar uma agulha em sua pele, tenta se livrar dela mas não consegui, ao topo da cabeceira pode ver o que a liga a agulha, um recipiente vazio, uma bolsa, supostamente um soro ou algo parecido, não quer imaginar que seja outra coisa além disso.
Tentando manter a calma leva seu braço com a agulha para a outra extremidade da cabeceira onde seu outro braço está preso a uma corrente, se aproximando o suficiente, a mão amarrada finalmente pode alcançar o antebraço e assim retirar a agulha que lhe espeta.
Agora com uma falsa calma pode observa melhor tudo ao seu redor, não sabia se era noite ou dia, o ambiente não permitia que ela soubesse, nada podia ver, só penumbra, lembra se vagamente de ser arrastada até ali, são apenas pequenos flash, nos últimos dias quase não ficou acordada, quase nada era nítido em suas lembranças.
“Um homem me trouxe aqui, mas quem era? Não consigo lembrar. Onde estou?”
Se esforçando um pouco mais Anne fecha os olhos.
“Uma máscara preta, Oh!”
A garota se sente em náuseas e balança a cabeça.
Casa de Veraneio
A família Nogueira está reunida em volta da televisão, todos apreensivos, Vitor bate os dedos no controle a procura do canal local, o relógio do pulso do homem marca 18h e o primeiro jornal da noite iria se iniciar.
E lá estava como o comandante previra, a foto de Anne estampada na tv, em seguida a foto de um homem aparentemente de 38 anos, bonito, porém de rosto bem marcado e traços fortes.
— Meu Deus esse é Bruno! – Vitor parece perplexo, não tem muito contato com o homem, porém é bem conhecido por todos da cidade.
Se ouve a chamada da jornalista na tv:
“Bruno de Andrade, 36 anos, pescador local, está foragido, polícia militar amparada pela marinha mercante que também está envolvida no caso “Nogueira” invadiram de forma lícita a casa do suspeito essa tarde, os agentes disseram que tinham razões fundadas para o mesmo, porém até o momento não foi divulgado ter encontrado na residência qualquer indício de provas da morte de Rafael de Almeida Trindade e o desaparecimento até o momento de Anne Beatriz Castro, irmã de Leticia Nogueira(...)”
Isabela toma o controle do marido e desliga a televisão, não queria mais ouvir aquilo, que afinal não levou a nada e sua filha continuava desaparecida.
— Fiquem calmos isso é apenas uma investigação, não acharam provas de nada ainda. – Leticia tenta ser a razão ali naquele momento, mas estava dizendo da boca para fora, seu nervoso e incapacidade de fazer qualquer coisa a deixava aflita e em uma luta constante de não perder a seus limites.
Casa de Pesca
E subitamente Anne se lembra de Rafael.
“Rafael? Eu estava com ele, estávamos no mar, quando alguém nos resgatou, mas como fomos parar no mar?” Nesse momento a garota sente uma pontada acima do peito e passa a mão livre sobre o curativo, retirando do lugar, podendo ver uma perfuração, como se fosse um tiro. “Céus como isso aconteceu?”
Sua cabeça ressonava, era como se tivesse levado uma pancada muito forte nela, até os fios dos cabelos estavam doloridos. Com a mão livre passa levemente ela na nuca onde mais doía.
Anne estava visivelmente atordoada e confusa, a garota começa a chorar enquanto olha tudo a sua volta, tentando imaginar onde estava. E nesse momento só pode pensar em sua família e o quanto quer estar junto a eles, Leticia passa a ocupar um espaço maior em seus pensamentos e o desespero a invade. Não sabia quanto tempo estava ali, apesar de acordar e apagar por muitas vezes durante esses dias, somente agora se sentia realmente acordada, seus olhos inutilmente tentavam encontrar algum rastro de memória eficaz pelo cômodo, tentando reconhecê-lo.
O cheiro forte de mofo e peixe estão impregnando as narinas de Anne.
O desconforto, o medo e a dor tomam posse da menina, em um ato de desespero Anne tenta ficar de pé, mas os braços ainda presos na cama a impede de se erguer totalmente, em ato de loucura tenta agora arrastar a cama, porém era pesada demais ou seu corpo que não aguentava mais esforço algum, gritava com o fim de suas forças ainda restante, grita pois é o que lhe resta e por um milagre ouviu passos pesados do lado de fora da porta.
— QUEM ESTÁ AÍ? Alguém me ajude por favor?
Casa de Veraneio
Isabela tampa a face com as mãos, o marido atordoado não sabe mais o que fazer e Leticia permanece inerte olhando para televisão desligada.
O silencio machuca cada membro da família, mas nenhum deles consegue quebra-lo em qualquer palavra que seja, nem ao menos se consegui ouvir o respirar de cada um.
O barulho do celular vibrando parece mais estrondoso do que realmente é, todos agora olham para mesma direção, o aparelho de Leticia sobre a mesa de centro.
Por um milésimo de segundos Leticia a maldiçoa o celular pelo susto que leva, mas para logo em seguida o atender prontamente.
—Leh!
Leticia percebeu a voz assustada do outro lado da linha.
—Eu não sei o que aconteceu, foi tudo muito rápido!
—Priscilla se acalma, o que está acontecendo?
—Você precisa vir até aqui, meu pai está ligando para polícia. Por favor vêm até aqui agora!
Leticia está confusa e preocupada com a ligação, imaginando o que de ruim estava acontecendo com Priscilla.
—Está na sua casa? Estou indo.
Leticia consegue ouvir um murmúrio ao fundo da ligação, uma respiração pesada, com soluços de choro.
—Pri, está me assustando, onde você está?
—Não Leh...não estou em casa, estou na casa de pesca do meu pai.
—Céus o que está fazendo aí? – Sem esperar resposta Leticia continua — Estou indo, fique calma!
Casa de Pesca minutos antes da ligação.
Priscilla ouve gritos abafados atrás da porta trancada a sua frente, seus olhos mostram um temor enorme, sente seu corpo quente como uma febre, impressão de estar ficando doente.
A mulher pálida está parada do lado de fora da porta e gira para trás olhando seu pai em desespero, que com os olhos saltados e confuso levanta as mãos para filha, Paulo está ferido, seu ombro está sangrando e sua boca com um corte também mostra traços de sangue.
Priscilla pega o chaveiro das mãos de seu pai e tenta encontrar a chave certa para abrir a porta do porão, o nervoso toma conta dela e deixa as chaves caírem sobre o chão, o pai mesmo com o ombro ferido estica os braços e as toma para si novamente por fim enfia no trinco e gira.
Priscilla rompe a porta.
A garota está ali quase em pé, amarrada, suja e mais magra que o normal, mas mesmo assim sorri em meio o pavor, se sentindo aliviada por ver um rosto conhecido, Priscilla se encontra no quarto um pouco confusa com tudo que observa, seu pai está parado junto a porta pasmado. Priscilla não acredita no que vê e respira fundo.
—Pri, meu deus! Pri, me ajuda! O homem... com uma mascara não sei quem é! Ele me trancou aqui...
Priscilla sente uma ponta de temor, a imagem da garota é assustadora, mas sem pensar muito corre para a menina e lhe aperta nos braços.
— Eu não me lembro do seu rosto ...eu estou tão confusa. Me lembro do Rafael...estava com ele no mar, depois não me lembro de mais nada, eu tentei me lembrar por horas, mas não consigo.
— Está tudo bem fedelha, vai ficar tudo bem! -Priscilla fala a última frase com mais ênfase, esperando realmente que tudo fique bem.
Anne agarra com a força que lhe resta a mulher mais velha e chora de alivio. Estava salva!
Priscilla embala a menina em uma tentativa de acalma-la.
Em um gesto de suplica olha para o pai e este lhe olha nos olhos para por fim pegar o telefone.
— Vou ligar para polícia!
Priscilla de imediato pega seu próprio telefone no bolso sem tirar a menina dos seus braços e passa a discar o número de Leticia, nem sabe muito porque o fez, mas a presença de Leh acalmaria todos por ali.
—Leh! ...
Fim do capítulo
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