Câmera
Dias atuais
—Sinto sua falta. – Leticia se pega falando sozinha ainda na calçada da cafeteria, sem perder mais tempo se põem a dirigir sem rumo certo, enquanto tenta imaginar quem poderia estar com eles naquele iate, mas a única pessoa que passa por sua cabeça é Paulo, em meio devaneios é acordada quando o telefone toca.
Do outro lado uma voz familiar, nem ao menos se identifica, já se pondo a falar.
—Dona Leticia, não queria incomodar, mas temos uma pista. Estou perto das docas do outro lado da ilha, poderia vir até aqui?
Leticia imediatamente se recompõem ao reconhecer a voz do outro lado, a noticia é uma grande surpresa, faz seu coração aumentar o compasso na mesma hora.
— Certo comandante estou indo até você.
Leticia faz seu automóvel rasgar o asfalto, sem se importar com os demais motoristas que fazem caras feias a serem ultrapassados de forma perigosas por Leticia, ela mesma nem percebe o quanto está sendo imprudente, só pensa em chegar a seu destino o mais rápido possível, cruzando toda a ilha até chegar ao outro lado, próximo as docas já pode ver o comandante acompanhado de mais algumas pessoas, alguns polícias da cidade.
Desce do carro rápido o suficiente para quase tropeçar no pequeno vão entre a calçada e a rua, e não foi difícil lembrar de Anne nesse momento, a garota toda atrapalhada sempre estava tropeçando sem motivo algum. Leticia se entristece, mas balança a cabeça para afugentar qualquer pensamento que a disperse nesse momento.
Caminha em direção ao comandante o mais rápido que pode, pisando agora na areia molhada da praia com seu habitual escarpam.
O comandante sai de encontro a mulher esbelta e soberana sua frente.
—Dona Leticia.
—Pode me chamar apenas de Leticia comandante, por favor.
— Certo Leticia, quando não estiver perto desses caras – apontou para alguns marinheiros que estavam ao lado de outros policiais, e chegou mais perto da Leticia como se fosse cochichar. — Pode me chamar de Carlos.
—Está certo – se forçou a rir tendo quase certeza de que Carlos estava jogando um certo charme para ela. Leticia tentava disfarçar a ansiedade por respostas, mas não conseguia.
— Bem pode me acompanhar, sei que está ansiosa.
Caminharam juntos até um pequeno grupo de pescadores que estavam em círculo na areia, enquanto isso Carlos entregou um par de luvas para Leticia.
Sem entender ainda do que se trava ela veste imediatamente esperando qualquer reação do comandante.
Quando Leticia se aproxima do grupo alguns se afastam um pouco e apenas um homem fica parado, Carlos os apresenta de forma cordial.
—Bem Leticia este é o senhor Rodrigo, pescador local. Ele encontrou algo próximo a uma ilha mais afastada da nossa e talvez possa ser da sua irmã.
Enquanto Carlos observa a expressão assustada de Leticia ele faz sinal a um policial que vem em sua direção com algo nas mãos.
Leticia se recupera da surpresa e passa a observar o policial que traz o que parece ser uma câmera fotográfica, dentro de um saco transparente de plástico, protegido de qualquer contato, como uma evidencia ou uma prova.
Leticia estica as mãos com suas luvas já postas e tenta reconhecer qualquer traço do equipamento agora em suas mãos.
— Ela está funcionando? Vocês tentaram ligar? Eu não consigo reconhecer se é dá Anne.
Um dos marinheiros aparece com uma bateria nas mãos e entrega para o Comandante, que prontamente pede para que Leticia tente colocar na câmera.
—Ela ligou rapidamente, mas deu aviso de falta de bateria, por isso estávamos providenciando uma do mesmo modelo, aqui está, tente trocá-las.
Imediatamente ela troca as baterias e aperta o power e milagrosamente a câmera liga e em um rápido deslizar de dedos ela coloca em modo de imagem, mas não consegue ver as fotos armazenadas. O visor para de funcionar e se pode observar resíduos de água.
Leticia vira a câmera e mais que depressa retira o cartão de memória da mesma e mostra para o Comandante.
—Temos um computador para ler isso?
—Vamos providenciar, vou pedir para um dos meus homens. Enquanto isso quero que ouça o senhor Rodrigo.
Em um gesto rápido um dos marinheiros se aproxima e o comandante passa as ordens para providenciar um notebook.
O pescador tem toda a atenção de Leticia.
— Então senhorita, encontrei perto da costa da Ilha das Pedras, nós chamamos assim por que é muito difícil atracar nessa ilha, até para as pequenas embarcações, por suas inúmeras rochas em toda sua margem. Gosto de ir coletar peixes lá perto porque encontro uma variedade ornamentais, geralmente tenho encomenda de turistas que querem os peixes para seus aquários, e eles pagam bem. Tem muitos corais por lá...
... Enquanto eu mergulhava vi algo brilhando em uma pequenina praia entre as rochas e consegui me aproximar com a roupa de mergulho e encontrei a câmera, achei estranho, chamei por alguém, mas não tive resposta. Então me lembrei da foto na televisão da moça que desapareceu com o namorado - Nesse exato momento Leticia se irrita um pouco, mas respira fundo e o encoraja a continuar depois de esclarecer que eram apenas amigos. — Bem, então, na foto ela segurava uma câmera fotográfica e era muito parecida com essa que encontrei.
Leticia se vira para o comandante Carlos assim que o homem para de falar.
— Precisamos ir até lá, uma equipe de busca precisa ir até essa ilha imediatamente Carlos.
—Leticia vamos providenciar tudo isso, mas antes preciso ter certeza sobre a câmera, essa ilha é muito afastada de onde encontramos o iate, totalmente fora da rota de busca. Além disso é um lugar muito perigoso.
— Eu vou então, vou falar com meu pai e partimos ainda hoje, me passe as coordenadas.
— Calma Leticia, já falei com você primeiro por ser a mais sensata, mas parece que não a julguei corretamente, vou te ajudar, vamos verificar primeiro o cartão de memória ok?
Nesse exato momento o marinheiro entrega ao comandante um notebook.
Leticia se atira ao aparelho conectando o cartão de memória a um adaptador que o marinheiro a entregou e por fim encaixando no notebook.
Demora um pouco para fazer a leitura, mas em alguns minutos Leticia reconhece as pessoas das fotos, momentos tão íntimos capturados com toda certeza pelas lentes de Anne.
Leticia se esforça para não tremer mais não consegui e então chora, é tão sutil as lágrimas, que apenas o comandante as percebe, depois de semanas por fim alguma pista, talvez quem sabe ela pudesse ver sua pequena mais uma vez, quem sabe poderia sair desse pesadelo.
Comandante Carlos a olha com um certo temor, nunca vira aquela mulher tão forte chorando desde o início das investigações e agora ali tão estranhamente indefesa.
— Certo, então estávamos certos? Essa câmera é da senhorita Anne?
O Pescador olha para o comandante, eufórico e aparentemente feliz em ter ajudado de alguma forma, ele via aquela moça na tv, enquanto os jornais anunciavam o trágico desaparecimento e ela era tão bonita e jovem, com uma vida promissora pela frente, mesmo que nunca tivesse posto seus olhos pessoalmente na garota, ele e a vila toda, se sentiam incapazes e tristes perante toda a situação dessa tragédia.
— Sim, é dela, é da Anne – Ela olha pra o comandante como uma suplica — Ela pode estar viva não pode? Pode ter ido parar nessa ilha remota, ninguém a veria por lá, certo?
— Leticia, por favor não quero tirar suas esperanças. Foram muitos dias, não sabemos se tem água ou alimento naquela ilha e se ela poderia sobreviver, uma garota sem qualquer tipo de intimidade com a natureza crua. Vamos com calma.
— Mas teria o Rafael, ele é nativo, conhece muitas coisas daqui, ele poderia ajudá-la a passar por tudo isso, certo?
— E por que motivo eles largariam a câmera ali, algo tão importante para ela? E porque não deixar um pedido de socorro na encosta, como fogueira ou um S.O.S qualquer.
Realmente ele não queria aumentar muito as expectativas de Leticia, ele conheceu a realidade e sabe que ela poder vir a sofrer com esperanças falsas.
Leticia passou a imaginar o porquê Anne largaria a câmera na encosta, realmente não faria sentido. Talvez as águas trouxeram a câmera, porém possivelmente estaria muito mais danificada se fosse o caso. Mas tudo indica que existe algo naquela ilha.
— Tudo bem, vou me recompor, enquanto isso podemos organizar uma busca.
Letícia serra os olhos e discretamente os limpa tomando o cuidado para que ninguém a veja.
O comandante assente com a cabeça e passa a dirigir seus subordinados para separarem uma equipe.
Ao longe Letícia sente como se estivesse sendo observada, gira os olhos procurando algo anormal, mas nada vê, apenas alguns homens bebendo em um bar nas docas.
Agora já alinhada ela se movimenta junto ao comandante e seus subordinados.
Algum tempo depois.
Leticia está sentindo seu coração acelerado, as lanchas tentam uma forma de atracar, mas as rochas não permitem.
Como esperado alguns homens vestem roupas de mergulho e Leticia faz o mesmo, em poucos minutos todos estão saltando no mar, as águas estão geladas, apesar da roupa térmica, ela sente as extremidades do corpo queimando com o toque do mar, enquanto reveza entre nadar e mergulhar ela pode ver no horizonte a pequena ilha entre pedras, seus olhos conseguem ver o céu também, cinza e sem graça, uma fina chuva toca sua face, o balançar do mar a embriaga um pouco, apesar de estar tão acostumada a ele, quando finalmente alcançam a pequena ilha todos se separam em dois grupos de busca.
O dia está sendo exaustivo e por mais que grite o nome de Anne pela ilha toda, nada acontece. A Leticia esperançosa já não existe mais, a ilha é pequena o suficiente para já terem percorrido ela toda.
O sol estava quase se pondo e nada mais havia a ser feito, precisavam voltar antes de escurece. Leticia com o semblante desolado caminha de volta ao pequeno banco de areia entre as rochas pontiagudas quando escuta um dos policias gritar.
—Preciso de ajuda, corram aqui!
Praticamente todos foram de encontro ao policial, era nítida sua expressão assustada, apontando um monte de folhas secas caídas ao longo do caminho na tentativa de esconder um chão um pouco remexido, quase que imperceptível. Leticia olhava sem entender direito o que o policial apontava.
Um outro policial supostamente de patente mais alta, toma a frente dos demais.
— Preciso que a senhorita volte a praia. Camila por favor acompanhe ela.
Uma mulher que estava no outro grupo de busca, aparentando ter a mesma idade de Leticia chega mais perto e com uma voz amigável pede que Leticia a acompanhe.
Sem mostrar resistência ambas saem até a praia.
— O que está acontecendo? Você pode me explicar?
— Nada para se preocupar!
— Isso não responde minha pergunta – Leticia já transparece um pouco de impaciência.
A policial olha para Leticia sentindo pena e tenta esclarecer de forma mais branda possível.
— Encontraram um pouco de terra remexida, pode... apenas pode significar que tenha algo enterrado lá.
Leticia dá um salto, nitidamente assustada e corre em direção oposta da policial, indo parar exatamente onde esteve minuto atrás, enquanto a policial a persegue em uma tentativa frustrada de impedir Leticia. Esta chega bem a tempo de ver um cadáver sendo desenterrado, onde momentos atrás a terra estava remexida.
A agonia é grande e ela não consegue mais ficar ali, seu coração palpita descompassadamente, então gira o corpo para trás, na tentativa de tirar a imagem da cabeça. Mas nesse momento um cheiro forte invade suas narinas e uma ânsia faz sua boca salivar. A policial que momentos atrás estava tentando impedi-la de ir mais além agora a segurava de forma branda.
Tudo recaiu sobre Letícia, a atmosfera agora era a pior de todos os dias, pesada e fúnebre, a chuva leve não ajudava muito. Mesmo ainda com a roupa de mergulho seu corpo sentia frio.
Os policiais que escavam o lugar já tinham quase todo o corpo a mostra, mas Leticia não olhava, não podia fazer isso.
“Meu deus não posso olhar”
Leticia podia sentir suas pernas desfalecendo, mas não ia se permitir cair agora, não era mulher disso. Então decidiu que iria se virar e encarar de frente. Mas antes ela suplicava baixinho:
— Não é ela, não é ela, não é ela....
Era quase uma reza
Não dizia para ninguém, apenas para si mesmo, com intuito de criar forças, mas a policial podia ouvi-la, estavam muito próximas, ela segurava Leticia mantendo a mulher em pé e firme.
— Não é ela!
A policial olhou firme nos olhos de Leticia e repetiu mais uma vez, agora com meio sorriso.
—Não é ela!
Leticia engole em seco e gira rapidamente se desprendendo da mulher, que afrouxa seus braços para que Leticia completasse a volta e então ela pode ver claramente, assim como a policial percebeu segundos antes, o corpo se tratava de um homem, sua respiração volta e se senti um pouco aliviada, apenas até perceber que reconhecia aquela pessoa.
— Rafael!?
Mesmo em estado de decomposição um pouco avançada ela pode ver a tatuagem que o garoto tinha no antebraço, aquele desenho ficou em sua mente, ela podia relembrar claramente um episódio em que o ciúmes a consumiu e em fúria agarrou o braço do jovem, tirando ele de cima de Anne.
A tatuagem era grande e inconfundível. Mesmo com terra e folhas impregnando o corpo sem vida do rapaz, inclusive nos braços, ela via perfeitamente os traços firmes que desenhavam uma onda prestes a se arrebentar e abaixo da onda, o mar se fazia ainda turvo, ao meio da tatuagem ainda se via a figura de uma mulher deitada sobre uma prancha, a tatuagem ganhava movimento e Leticia podia até imaginar a surfista no braço do garoto batendo os pés e escalando a grande onda.
Foi respirando fundo que Leticia nesse momento teve certeza de que realmente eles não estavam sozinhos naquele iate.
Fim do capítulo
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