A amiga, com atributos a mais.
Anne ouvia as batidas na porta, “sabia que era sua mãe e sabia também que tinha sido grossa ao passar correndo pelos dois e nem se quer cumprimentá-los da forma correta, sentia tantas saudades dos dois e agia de forma imatura por causa daquela imbecil da Leticia.”
—Meu bem, posso entrar?
Antes mesmo que a mãe pudesse ouvir a resposta já estava entrando no quarto. Anne estava sentada na cama com cara de arrependida e sem saber muito bem como agir.
— Mãe sinto muito por ter saído correndo.
Terminou de falar e correu para os braços da mãe que lhe acolheu junto a si como só uma mãe sabe fazer.
— Depois você me conta o porquê dessa desavença com Letícia! Mas agora eu só quero matar a saudade da milha filhota.
Dizendo isso Isabela aperta mais uma vez a filha nos braços.
Isabela abriu os olhos e afastou a filha de si.
— Você correu como um gato arrisco e saiu adentro um lugar que nem conheci e engraçado que acabou direto no quarto da Letícia.
A mãe ria enquanto a garota passou a observar cada detalhe do quarto, era aconchegante, uma cama grande e em cada lado um criado mudo, tinha um livro sobre uma das peças e junto dele uma luminária apagada, tipo de guarda roupa embutido em uma das paredes, em um canto havia uma pequena mesa e sobre ela um vaso com flores, eram frescas, provavelmente alguém havia colhido recentemente. Pode ver também uma porta provavelmente atrás estaria um banheiro, mas o que chamou lhe atenção foi as longas cortinas que entravam pelo quarto como se tivessem sido empurradas por uma força invisível. Anne andou até elas e sentiu o vento acariciando a face, era delicioso, então pode ver pela abertura da sacada o mar e não sentiu medo, era lindo e estava ao longe não iria lhe fazer mal algum dali daquele quarto.
Sua mãe se aproximou da filha que estava na sacada e consegui ver dali através da noite bem iluminada pela lua as ondas chegando até as areias, quando de repente deu um salto como se lembrasse de algo muito importante.
—Aí meu Deus! Minha filha!
Abraçou a filha fortemente e pediu desculpas.
—Como eu pude me esquecer me desculpa, eu esqueci completamente. Eu devia ter alertado a Leh e você também do seu pavor do mar.
—Tudo bem mãe, tudo bem.
Enquanto isso já na sala:
— O que foi tudo isso, pode me explicar?
—Nem me diga, pai! A irmã que você me arranjou é louca viu, pode internar.
Vitor não conseguiu segurar a risada depois de ver a expressão irônica da filha.
— Vocês estão parecendo duas irmãs de verdade, nunca pensei que viria essa cena depois de anos Letícia, pensei que já tinha alcançado a maturidade depois dos 31 anos.
Leticia constrangida pelas palavras do pai tentou se recompor, realmente estava agindo imaturamente.
E mudando o comportamento, voltando a ser a Letícia de sempre explicou o ocorrido ao pai.
— Ela teve um surto, um pânico quando chegamos na balsa, não sei exatamente o que aconteceu e fiquei preocupada, ela tremia e não parava de chorar e gritar, foi realmente assustador vê-la daquele jeito. – Letícia para um pouco se lembrando da cena e retoma a conversa. — Eu não sabia o que fazer e acabei dando um tapa em seu rosto, com intenção de traze-la de volta a realidade.
Vitor não fazia ideia por qual razão Anne se apavorou tanto e quando ia dizer algo ouviu a mulher descendo as escadas e se virou para ela.
Isabela descia cada degrau penosa, com o semblante entristecido.
—Foi minha culpa, me esqueci de falar para você Leticia, faz tanto tempo que estou longe da minha filha que simplesmente apaguei da minha memória, Anne tem pavor do mar, na verdade tudo que tem porções grandes de água, ela não se sente segura.
Meu ex-marido era um canalha vocês já sabem disso, quando ele morreu Anne estava com ele, tinha pego a garota para passarem o dia juntos, levando a menina para passear, se divertir, mas ao invés disso ele saiu com os amigos em um bar qualquer, enquanto sua própria filha ficava ali sentada esperando o pai terminar de encher a cara. Quando por fim ele se cansou do lugar, arrastou minha pequena filha inocente com ele, entrou no carro dirigiu até um estaleiro onde tinha uma cúter, não sei como conseguiu chegar até lá e simplesmente resolveu que ensinaria a filha velejar. – Isabela parou por instantes e deu um sorriso irônico, por fim continuou:
— Saiu pelo mar aberto a noite, em uma pequena embarcação e bêbado, eles se chocaram com uma lancha que vinha em grande velocidade, cheia de jovens provavelmente bêbados também e a embarcação que minha filha estava se destroçou. Meu ex-marido se afogou e Anne quase morreu também, mas por sorte foi socorrida a tempo. Não teve ferimentos graves externos, mais internamente carrega as marcas até hoje. Sinto muito ela não conseguiu se controlar e eu tola esqueci da travessia que teriam de fazer com a balsa.
Leticia não sabia o que dizer, nem imaginava algo assim, pensou que provavelmente era um medo bobo, sem motivo aparente.
– Eu não queria machuca-la, apenas traze-la de volta, ela estava em choque.
Isabela, terminou de descer as escadas e foi de encontro a Letícia.
—Oh minha querida, não fique assim, tudo bem, ninguém tem culpa de nada, já foi a tanto tempo, só queria que ela se curasse desse medo.
Leticia sabia que a madrasta era sincera em suas palavras e ela mesmo sentiu uma vontade enorme de arrancar esse medo de Anne.
—Onde ela está?
—Na confusão acabou indo parar no seu quarto, mas já a levei até o quarto de hospedes.
—Acha que tudo bem eu ir até lá me desculpar?
— Se desculpar? Anne que tem que aprender a se comportar. Devia ter agido com maturidade contado a verdade e não mentido para você. – Isabela olha para enteada e afirma com a cabeça, parando de falar coisa que fazia em demasia quando estava exaltada, Anne herdara isso dela.
Letícia recebendo o consentimento da madrasta, sobe os degraus indo ao encontro de Anne, que estava deitada agora em sua cama em um quarto um pouco menor que o primeiro e sem a sacada deslumbrante que a deixou embriagada momentos antes.
Anne ouve a porta bater novamente se levanta apressada achando que talvez seria sua mãe novamente. Mas a cara se fechou endurecidamente quando viu se tratar de Letícia.
— Eu sei que não gosta de mim, mas poderia disfarçar um pouco, não acha?
—Não sei disfarçar. – A garota respondeu virando de costas e andando até a cama.
— Ei, espera.
Leticia segura o braço da garota fazendo ela ficar de frente para si.
— Me desculpe pelo que fiz mais cedo, não queria te machucar. Te ver daquela forma me assustou, não soube o que fazer e pelo jeito fiz algo imperdoável.
— Eu..
Anne não esperava que Leticia lhe pedisse desculpas e enrubesceu a face, quando a mulher de cabelos negros encostou os lábios em sua pele, depositando um beijo delicado, ficou paralisada e de boca aberta, sem conseguir terminar as palavras que queria pronunciar, alias nem se quer lembrava o que iria dizer e afinal não fazia mais sentido mesmo.
Leticia depois de dar um beijo onde tempos atrás havia depositado um tapa, levantou as mãos e em um gesto descontraído, bagunçou os cabelos da menina, logo em seguida mostrou um sorriso e saiu do quarto deixando uma Anne emudecida e pasma.
Dias atuais.
Leticia balançou a cabeça para o comandante, confirmando que entendia a realidade dos fatos, mentira, pois não se permitia entender ficar sem Anne e saiu dali o mais rápido que pode, estava sufocada, com uma angustia terrível, queria gritar, socar as paredes, mas não se permitia fazer isso.
Olhando para o mar a sua frente viu o Iate de Paulo atracado e caminhou até ele, queria poder ver de perto o lugar que Anne esteve antes de sumir.
Ficou parada por alguns instantes quando surgi de dentro da embarcação uma jovem bonita de cabelos tão negros quanto os seus, Leticia podia ver pequenas sardas nos ombros da mulher que mostrou um sorriso lindo enquanto a encarava.
—Olá Leh!
— Oi Priscilla.
A morena ofuscou o sorriso e estendeu as mãos para outra subir no iate.
—Como está? Sei que está sendo difícil para vocês o sumiço da Anne, mas ela irá aparecer. Odeio te ver assim.
—Eu já estive tantas vezes nesse iate, mas não depois que ...
—Eu sei, eu sei.
—Pensei que ele ainda estava sob custodia da marinha?
—Foi liberado agora pouco e papai pediu que buscasse.
Enquanto conversavam um garoto aparentando 23 anos saiu da cabine e foi até elas.
— Precisa de mais alguma coisa senhorita?
— Não obrigada pode ir.
Priscilla se vira para Leticia:
— Ele é o novo ajudante, pelo menos até encontrarmos o Rafael. Sabe é difícil entender o que aconteceu naquele dia, Rafael é um ótimo piloto, a tempestade apareceu do nada, porém ele sabia como reagir. Mas o que não entendo mesmo é o que sua irmã estava fazendo no iate sozinha com ele.
— Ela não é minha irmã! -Leticia sabia muito bem o que Priscilla estava querendo fazer
—Bom ela era enteada do seu pai.
Priscilla sempre teve um ciúme evidente de Anne e fazia de tudo para deixar bem claro isso, apesar das circunstancia dos terríveis acontecimentos ainda assim queria ejetar um pouco de veneno.
—Eles eram amigos Priscilla, se esqueceu?
—Eu sei, mas ele não poderia ter saído em mar aberto sem permissão, quis impressionar sua irmã...quer dizer Anne, ele provavelmente era apaixonado por ela, mas não o culpo, quem não era não é mesmo?
As palavras eram para atingir Leticia e realmente ela havia conseguido atingi-la.
—Sabe Priscilla eu tento gostar de você, mas está sendo impossível ultimamente.
A mulher deu de ombros e deixou Letícia sozinha sobre a embarcação enquanto descia, porém parou no ultimo degrau e olhou para morena entristecida atrás de si.
—Quer companhia? Podemos tomar um bom vinho, eu prometo não abrir a boca. Bem, só quando você implorar para que eu faça – deu uma risada quase imperceptível no canto dos lábios.
—Acho que hoje não.
A mulher exuberante saiu andando tranquilamente como se já esperasse por essa resposta. Priscilla andava rebol*ndo de certa forma até vulgar para seus padrões, mas a garota tinha curvas lindas não podia negar. Letícia fixou seu olhar e pode ver um aranhão profundo na linha das costas da mulher, quase imperceptível, pois os longos cabelos conseguiam tampar a marca entre o biquíni e o arranhão, mas Leticia conseguiu ver no exato momento em que a morena passa as mãos nos cabelos, jogando os um pouco ao alto, na tentativa de fazer um charme a mais para a espectadora ainda em cima do iate. Imaginou onde a mulher poderia ter se machucado.
Priscila sempre teve um ego enorme, sempre se sentiu como uma rainha de sangue azul e agia como tal, parecia que nada poderia abala-la a não ser claro quando se tratava de Leticia, aí não conseguia se manter no salto.
Realmente ela era incrível, exagerada em tudo, mas sempre estava de bom humor e conseguia levar Letícia a loucuras, sendo elas de todas as formas possíveis. Se conheciam desde adolescentes e sempre que Letícia se metia em alguma encrenca Nogueira sabia que provavelmente Priscilla estava no meio.
Certa vez Vitor e Paulo brigaram feio, apesar da arrogância do médico ser marcante, ambos nunca haviam discutido antes, mas as loucuras de sua filha estavam saindo do controle e ele não iria permitir que a menina levasse Letícia para o mal caminho como vinha fazendo, resolveu conversar com o pai da garota, mas esse deu a mínima pois sempre mimava sua filha e deixava que ela fizesse o que bem entendia – “segure a sua filha pois a minha está solta” e ai então começaram a brigar palavras de baixo escalão foi o de menos pois quase saíram no soco, nunca mais foram os mesmos um com o outro, porém as filhas continuaram a serem amigas, afinal quem consegue segurar adolescentes a flor da pele.
Apesar de serem amigas e amantes nem sempre se tratavam bem, Letícia quase nunca tinha paciência com Priscilla e com o passar dos anos essas discussões e falta de sincronia foram aumentando.
E agora aquela mulher que se sentia imortal, inabalável estava ali em sua frente e podia ver que seu sangue não era azul como supunha, o aranhão lhe mostrava o quanto vermelho e tão igual a todos era seu sangue.
Suspirou e desceu do iate a chuva leve ainda caia, porém, não estava tão frio como no dia anterior o sol parecia fazer força para aparecer. Quem sabe logo veríamos ele brilhar com mais força.
4 meses atrás
O sol do meio dia parecia arrancar a pele alva de Anne, o corpo da garota era castigado com o clima litorâneo. Fazia um bom tempo que não era exposta a esse calor intenso.
Leticia olhava seu pai surfando como um menino, as manobras não eram ousadas, mas sempre colocava elegância no que fazia até mesmo dentro da água, Leticia desvia os olhos do pai, se virando para garota ao seu lado cheirando a protetor solar, os cabelos soltos estavam com um leve tom dourado devido ao sol que refletia nas madeixas.
—Não quer tentar entrar? Só na beirada eu entro contigo?
—Hoje não, prefiro tirar muitas fotos de você caindo da prancha, daqui mesmo.
Letícia se levanta bate a areia que insistia ficar presa ao corpo
—Então eu vou para água satisfazer seu desejo.
Ainda ficou a tempo de ver a garota sorrir, para logo em seguida correr para o mar carregando uma prancha de um branco encardido e aparentemente velha, já que é companheira da mulher que a segura desde sua adolescência.
Anne não perdia um movimento, ela realmente era boa nisso, as manobras eram um pouco mais atrevidas que do pai, mas nada tão perturbador como os garotos que surfavam sempre naquela região.
“Ela era tão linda quanto, fora daquelas roupas sociais, realmente parecia outra mulher, solta e leve, talvez algum dia ela pudesse lhe ensinar como ficar em pé em uma prancha”
Balançou a cabeça afastando os pensamentos, não poderia enfrentar aquele mar, muito menos em cima de uma prancha, mas a ideia de que Letícia pudesse gastar algum tempo do seu precioso dia lhe ensinado a surfar pareceu interessante por alguns momentos.
Sem mais demora Anne aponta sua lente para o mar e foca toda sua energia em tirar lindas fotos da mulher que se divertia com as ondas.
Algo tirou sua atenção, quando pode sentir o toque de sua mãe se sentando ao seu lado.
—Eles são incríveis não são?
—Ela é linda!
A mãe olha para filha tentando ler mais profundamente a menina.
—É linda sim minha filha – desvia o olhar minucioso sob a filha e se volta novamente para pai e filha agora saindo do mar.
Vitor se agacha dando um beijo na esposa que reclama por ele estar molhando-a toda, enquanto Leticia faz o mesmo e não recebe nenhuma reclamação apenas um olhar fingindo querer fuzila-la, por fim ela exclama em alto e bom tom:
—Seus arruaceiros molhados vamos almoçar, todo mundo para dentro – agora olhando para Anne — Você também mocinha chega de fotos por agora.
Depois de um longo e alegre almoço Anne se pôs arrumar as malas, era domingo e todos iriam embora daqui algumas horas, mas parou quando ouviu a campainha tocar ao longo da porta principal, saiu do quarto para ver quem era e pode ver uma linda mulher na porta da frente que sua mãe recebia com um beijo no rosto, a mulher mirou os olhos para o alto da escada onde Anne estava. Alguns segundos depois Letícia surgi atrás de Anne que leva um leve susto por não esperar pela presença da mesma ali.
—Ei cuidado! Não vai cair da escada.
—Oras você aparece do nada.
—Você não consegue ficar sem brigar comigo não é mesmo?
—Sabe por quê?
Leticia continuou a descer a escada, a Anne falava enquanto seguia a mulher que não esperava para ouvir o que a garota tinha a dizer.
Leticia parou no final da escada e se virou para menina que vinha descendo os degraus tentando acompanhar a mulher sempre apressada.
—Por quê?
Anne parou instantaneamente quando viu Leticia se virando para ela:
Mas a conversa foi interrompida por Priscilla a visitante inesperada que havia tocado a campainha, ela deu um beijo fervoroso em Leticia que acabou ficando sem jeito e apresentou as duas.
—Priscilla essa é Anne.
—Olha só então você é a nova irmãzinha da Leh?
—Não, sou a fedelha!
Anne não havia gostado dela a partir do momento que a ouviu insulta-la no telefone e não iria perder a oportunidade de alfinetar. Leticia quase não conteve a risada pela ousadia da garota e só esperou a Priscilla revidar e estranhou quando isso não aconteceu.
— Me desculpe, parece que ouviu a conversa naquele dia, não devia ter dito aquilo, sinto muito.
Anne aceitou as desculpas e acabou se arrependendo de ter sido grossa, por fim simpatizou se pela mulher.
— Não peça desculpa eu que fui mal-educada agora.
Priscilla foi até onde estava a garota e lhe deu um beijo na face.
—Vamos esquecer isso tudo, certo?
—Certo.
Isabela sem entender muito bem o que se passava acabou por encerrar o assunto
—Vão sair meninas?
—Sim, podem partir sem mim, amanhã eu encontro vocês.
—Não vai dormir em casa?
Leticia olha para Priscilla que responde por ela:
– Com certeza não.
Anne vê o sorriso debochado que a mulher dá para Leticia e isso a irrita profundamente, mal podendo disfarçar. Enquanto isso as duas saem da casa, Anne pode ouvir o barulho do carro se afastar.
Leticia tinha um apartamento na cidade, mas quase sempre dormia na casa de seu pai, o apartamento era mais um refugio do que uma moradia fixa. Ainda olhando pela porta em que as duas mulheres haviam saído Anne ficou a imaginar o que pensar realmente da mulher que sairá com Letícia.
“Uma amiga com alguns atributos a mais, como pode ser tão sínica”.
Fim do capítulo
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