A travessia
Leticia parou na frente da garota e soltou um:
— Olá, desculpa a demora.
Não viu reação alguma de Anne.
Como podia ela uma mulher madura, socialmente conhecida, profissionalmente e financeiramente estável, ali, parada, sendo ignorada por uma pirralha.
Engolindo a raiva Leticia tomou a atitude mais madura que a ocasião pedia. Deu um leve chute no tênis da jovem, que olhou de imediato para o incomodo que sentiu nos pés. Seus olhos param em um par de sapatos de salto alto e ali ficaram.
Somente segundos depois pode ergueu levemente a cabeça e observar uma mulher ali um tanto quanto exaltada, mexendo a boca sem parar.
Letícia tentou mais uma vez dizer que sentia muito, mas parou quando viu Anne com o olhar mais confuso do mundo, simplesmente desistiu, agachou –se pegou uma mala que estava debaixo dos pés da garota bruscamente, virou se de costas e começou a andar em direção ao estacionamento.
Anne não pode deixar de pensar o quanto linda era a figura na sua frente e esqueceu que os fones estavam emitindo um som alto a ponto de não deixar ouvir nada. Mas pode ver a impaciência estampada na face da mulher, que agora simplesmente estava indo embora com sua mala.
Voltou a si tendo a certeza que era a filha do Nogueira, sua mãe tinha dito que Letícia lhe buscaria no aeroporto pois ela e o padrasto estavam presos com um cliente.
Se sentiu um pouco envergonhada por fazer papel de boba ali parada, enquanto a outra já seguia andando sem se importar muito com quem deixará para trás.
Pegou sua mochila e tudo que pode fazer, foi seguir a mulher alta, elegante e de passos muito rápidos por sinal.
Letícia não olhou para traz momento algum, mas tinha certeza que a garota a seguia, porém diminuiu os passos, não ia querer que a enteada de seu pai se perdesse no aeroporto e ainda mais quando a culpa iria recair sobre ela, conhecia bem Sr. Vitor Nogueira e o quanto aquele bom homem podia ser enérgico quando preciso.
Chegou na porta de saída e ali ficou parada à espera da jovem que vinha em passos largos logo atrás, parecia estar preocupada, até mesmo um pouco ofegante em tentar alcança-la, talvez tenha passado pela sua cabeça que Letícia pudesse lhe deixar ali. A filha mais velha de Nogueira não imaginou que a garota teria traços tão parecidos com de sua madrasta, porém Isa se vestia como uma mulher meiga e fatal ao mesmo tempo, embora respeitasse tanto ela como seu pai, não tinha como deixar de notar a beleza que a madrasta carregava consigo, tanto interna como externa.
A pequena que vinha em sua direção era exuberante, mas não tão fatal, os cabelos em um rabo de cavalo, o jeans era claro e despojado, não se via maquiagem alguma, a não ser por um lápis mal passado nos olhos, talvez o longo tempo no avião tenha tirado a precisão dos traços e para completar, sobre os ombros uma mochila bem surrada. Mas mesmo assim aquele ar juvenil da menina lhe causava um turbilhão de sentimentos estranhos, não conseguiria explicar em palavras as sensações que sentia, pelo menos não naquele momento.
Anne percebeu que a mulher lhe esperava na porta e mais que depressa acelerou o andar e sem saber muito bem como reagir diante aquela figura de tamanha proeminência, assim que a alcançou, olhou para os olhos negros da mulher e sorriu, o sorriso mais simpático que conseguiu, mas aparentemente não saiu muito espontâneo e pela cara que a Leticia tinha feito poderia jurar que provavelmente uma careta tenha se formado ao invés do esperado.
—Acredito que agora consiga me ouvir sem esses fones no ouvido?
—Realmente me desculpa eu estava distraída.
Leticia olhou para Anne entre um sorriso cansado e um suspiro, se dando por vencida pois realmente “distraída” lhe pareceu uma boa palavra para descrever a garota que estava diante de si.
—Ok, senhorita distraída, vamos embora, deve estar exausta?
—Um pouco. Vamos até minha mãe?
—Podemos dormir em casa e amanhã cedo descemos para o litoral.
Um pouco desapontada pois estava louca para ver a sua mãe e o Vitor, mas não podia protestar, afinal queria causar uma boa impressão. Em meio pensamentos Anne se esqueceu de onde estava e com os olhos fixos em Letícia se perdeu por alguns instantes naquele semblante.
‘‘Realmente não sei o que esperar da filha de Vitor, ela parece tão serena, mas ao mesmo tempo me causa arrepios, é uma controversa de quente e gelado, amparo e abandono..., mas é linda sem divergência alguma, somente linda.’’ – e pôr fim acordando de seus pensamentos, pode responder à pergunta ou melhor concordar com a afirmativa imposta a alguns segundos atrás, sem muito animo.
—Tudo bem.
Em um súbito sem raciocínio algum, coisa que não era costumeira de Letícia, depois de observar o desanimo da garota, muda de ideia como se muda de canal, quando o comercia exaustivo interrompe o programa preferido.
—Quer saber, deixa para conhecer a tua casa na cidade depois, vou te levar para o litoral agora, topa?
Anne sorriu e dessa vez um lindo sorriso autentico e sem nenhuma careta entre ele. Leticia não pode deixar de notar e sentiu uma sensação estranha invadir seu peito, porém fingiu não dar muita importância.
Caminharam até o estacionamento e logo chegaram ao carro. Letícia deixa a mala no chão e com um gesto corriqueiro, tira as chaves da bolsa, desliga o alarme e abre a porta para a garota, que antes de entrar senti as mãos de Leticia encostar em seus ombros e um fio de eletricidade passa pela sua nuca e então Anne senti as costas leve sem o enfadonho peso da mochila.
Anne entra no carro e percebe um leve aroma marcante, senti como se entrasse em uma casa beira mar e lá no fundo em uma mesa bem-posta uma taça de vinho estivesse à espera de lábios sedentos, esse mesmo aroma que a pouco pode sentir na própria Leticia, mas que ali naquele ambiente estava mais vivo. Como instinto os olhos caçam e encontram a fonte do aroma e pode ver o pequeno frasco de perfume com poucas gotas ainda remanescentes. Sentiu vontade de pega-lo para si, queria poder manter esse aroma consigo, era muito embriagante e reconfortante. Quando de repente acordou do devaneio – “Estou ficando louca, só pode” – riu de si mesma.
Alguns segundos para guardar a bagagem, logo depois Letícia coloca a mão na maçaneta e antes de entrar no carro olha para o céu estrelado sobre sua cabeça. – “Que noite mais linda e calma.’’
Anne queria estar com usa mochila, lá dentro estava guardada uma bolsa com sua câmera, ‘‘A noite estava tão linda podia tirar algumas fotos mesmo que fosse pela janela do carro.’’
Mas achou melhor não falar nada, aliás quando Letícia encostou as mãos em seus ombros para tirar a mochila, ficou paralisada e nem ao menos conseguiu pedir para deixa-la pegar a câmera. Teve a sensação de mil flores caindo sobre seus ombros, lhe acariciando e perfumando a pele, tudo isso em um único e simples toque. – “Agora ela é minha irmã.’’
A viagem seguiu em silêncio até ser quebrado por Leticia, que soltou um soco leve sobre o volante do carro enquanto esbravejava:
—Droga, esqueci da Priscilla!
De imediato para o carro no acostamento e procura o celular na bolsa, assim que o pega vê centenas de ligações perdidas, seus dedos ágeis começam a discar o número da mulher que havia deixado em seu apartamento a lhe esperar.
A ideia era pegar Anne leva-la para casa, acomoda-la e voltar para seu apartamento, terminar a noite que lhe foi interrompida e só então depois de amanhecer levaria a enteada de seu pai até a casa de veraneio. Mas não foi o que ocorreu, simplesmente tinha se esquecido da Priscilla, todos seus planos mudaram, assim que viu a carinha de tristeza que a garota lhe fez, quando soubera que não iria ver sua mãe tão rápido assim.
Leticia não se importava com a mulher que estava a esperar, não tinham nenhum compromisso entre si, pelo menos Letícia sabia disso, porém não é de seu habito destratar alguém sem merecer, esquecer uma mulher em sua cama não é muito seu estilo, pelo menos não antes de poder usufruir da companhia.
A mulher do outro lado da linha atendia o telefonema:
—Caramba Leh, onde você está? – já se percebia uma certa exaltação na voz.
—Minha querida me desculpa, estou descendo para o litoral, só volto no domingo...
Aos berros Priscilla interrompeu a filha do Nogueira.
—EU NÃO ACREDITO NISSO, VOCÊ NÃO IA DEIXAR A FEDELHA EM SUA CASA E VOLTAR PARA O AP???
Anne até então estava fingindo não se interessar pela conversa, mas os gritos eram tão altos, que ela pode ouvir cada palavra que saia do telefone, achou graça quando Leticia afastou o aparelho do ouvido.
Leticia olhou para garota a sua frente mordendo os lábios tentando não rir, quase poderia achar graça também, tanto da garota, quanto da mulher que fazia papel de criança birrenta do outro lado da linha.
Engraçado como ela podia imaginar Priscilla em pé seminua, andando de um lado para outro no apartamento procurando alguma coisa para atirar nas paredes. Conhecia bem aquela mulher, linda mais impulsiva, sempre foram amigas, uma amizade clichê e colorida, não era nenhuma namorada ou grande amor, apenas alguém para conversar e não lhe deixar sozinha em dias menos desprovidos. Sempre saiam juntas, mas nem sempre voltavam juntas.
Mudando de semblante instantaneamente com uma expressão fria e uma calma soberana esqueci de Anne por alguns segundos e coloca sua atenção toda ao telefone.
—É melhor você diminuir o tom e se portar como adulta, nunca te dei a liberdade de levantar a voz ou até mesmo subjugar alguma decisão minha. Te peço desculpas por minha indelicadeza de te deixar sozinha e não avisar antes devido alguns imprevistos. Pego a chave do meu apartamento com você no domingo, até mais.
Sem esperar qualquer resposta do outro lado Leticia desliga o celular e começa a dirigir.
“Não ia permitir que nem a Priscilla amante, nem a Priscilla amiga, gritasse com ela, nem seu pai nunca levantou a voz consigo e pessoa nenhuma nesse mundo faria.”
Leticia é uma mulher imparcial, mas também é uma mulher que se destaca, se sobressai com suas características intelectuais, beleza, riqueza e sua característica mais evidente sem desmerecer as demais é o poder, o domínio, ele é presente em cada gesto em cada olhar e em cada passo. As vezes de forma branda as vezes de forma brusca, mas sempre consegui que todos façam exatamente o que ela quer.
Alguns minutos depois se vira para a garota que está um pouco confusa, devido ao receio que sentiu após ver um lado ainda não tão exposto da nova irmã:
—Me desculpe por ouvir essas coisas.
—Tudo bem, acho que a fedelha que causou a briga sou eu!?
—Fica tranquila eu sempre ganho uma briga.
Anne vira o rosto um pouco como se quisesse apagar a ultima frase de Letícia, não queria nunca entrar em uma briga com ela, odeia brigas, quase sempre sai como perdedora, geralmente tropeça nas palavras ou as lágrimas tomam conta, odeia se sentir pressionada, encurralada, até tenta se impor mas quase sempre lhe falha as palavras e o resultado provavelmente é catastrófico e no final sempre cai por lona. Em uma suposta briga com Letícia poderia facilmente sair correndo.
Anne volta se novamente para encarar Letícia que não tira os olhos da estrada escura e não podendo resistir, pergunta sem muito jeito:
—Sua namorada?
Pensou por alguns instantes pois não sabia classificar o que Priscilla era.
— Não, uma amiga com alguns atributos a mais.
‘‘Atributos a mais, sei muito bem o que ela quis dizer, mamãe já havia me contado sobre a opção sexual da minha nova irmã, provavelmente deve ser uma de suas amantes. Uma mulher como Leticia deve ter uma lista grande de telefones como esse que lhe causou desconforto.”
— Estamos chegando? - Resolveu mudar de assunto.
—Mais uns 10 minutos, depois é só pegar a balsa e poderá ver sua mãe.
Anne se contorceu um pouco no banco do passageiro se sentindo visivelmente incomodada, Letícia não pode deixar de notar.
—Tudo bem com você?
—Sim.
Seguiu viagem mesmo sabendo que algo não estava certo, a garota distraída e de ar juvenil, não parecia a mesma agora, estava centrada na estrada como -se ela mesmo estivesse a dirigir, mas de vez em quando prendia o ar e quase se esquecia de solta-lo novamente.
Em pouco tempo o carro chegou ao seu primeiro destino, a balsa, para que assim pudessem fazer a travessia até o arquipélago.
Anne olhou para Leticia quase como que em suplica quando o carro parou.
Ela estava prestes a dizer algo, mas Leticia não estava prestando atenção na garota, desceu do carro e caminhou até um homem que se encontrava em pé ao lado de uma pequena cabine as margens da plataforma de embarque. Queria informações e as conseguiu.
A balsa estava atracada do outro lado provavelmente descendo alguns carros, logo estaria de volta e poderiam travessar.
O homem após alguns minutos aponta para algo atrás de Leticia:
—Aquela garota ali passando mal está com você?
Leticia se vira bruscamente e vê a cena que a deixa assustada. Anne estava pendurada na janela do carro e vomitava como louca.
Correu até a garota sem entender o que estava acontecendo.
—Ei, ei...que aconteceu, está doente?
Assim que a garota sessou por alguns instantes de vomitar, Leticia a tirou do carro e a fez respirar de forma mais devagar, pois estava totalmente irregular sua respiração.
—Pronto, fica calma – Leticia realmente estava preocupada.
— Eu...eu estou bem – Anne desistiu de dizer que tinha fobia, um medo terrível do mar.
Ela sentia medo não só do mar, mas de porções muito grande água, como piscinas, rios, lago ..., mas o mar sem dúvida era o pior. Se imaginar em cima de uma plataforma lhe causava arrepios até na alma.
—Não, você não está bem - Leticia já não estava com o tom amistoso como vinha tendo com Anne, estava impaciente pois sabia que a garota estava escondendo algo.
—Você está tremendo e já faz um tempo que está inquieta.
Anne se exalta com a pressão de Leticia, nunca soube lidar com pressão.
—EU TENHO MEDO ESTÁ BEM!!!
—Medo? –Depois de um tempo Leticia se permite entender o que estava acontecendo.
—Ok, entendi, fica calma está bem.
—NINGUÉM ME DISE QUE EU TERIA DE ATRAVESSAR O MAR E NA PORCARIA DE UMA BALSA.
Anne estava apavorada e chorava ao mesmo tempo que gritava, hiperventilando, seus olhos estavam estatelados e a pele mais branca do que nunca. O pânico era visível.
Leticia pegou a garota pelos ombros e a ergueu do chão, apertou forte enquanto a chacoalhava, mas a garota não voltava a si, continuava com os olhos vidrados e tremia muito.
—Anne me escuta!
Leticia sem muita escolha levanta a mão e acerta a face da garota que prende a respiração por alguns instantes e se assusta com o tapa, mas logo volta a si.
–Você me bateu? Você me bateu? –Anne não acreditava no que tinha acontecido.
Leticia pode ver a balsa se atracando e alguns olhares curiosos sob elas, o que a deixou mais impaciente ainda. Em segundos puxou a garota pelos braços de forma brusca, colocando a dentro do carro, logo em seguida sentou no banco do motorista.
Anne fecha os olhos enquanto Leticia arranca com o carro em direção a balsa. Só havia mais três carros ali esperando a travessia e rapidamente entraram, em pouco tempo a balsa estava em movimento. A filha do Nogueira liga o som do carro para tentar desvia a atenção da garota e a puxa para si. Anne tenta se afastar de Leticia pois sentia raiva da mesma, não conseguia esquecer do tapa que ela lhe dera.
—Me solta sua estupida... – Letícia nem cogitou em fazer o que a garota pedia e apertou ainda mais em seus braços.
Anne não lutou muito os olhos de Letícia sob si lhe deixaram bem claro que nada adiantaria e em pouco tempo se aquietou e fechou os olhos mais uma vez.
O aconchego dos braços da Leticia manteve a garota calma pelo resto da travessia e por instantes Anne esqueceu que estava sobre uma “tabua flutuante”
A balsa parou e a pequena cancela que separa o carro da rua se levanta.
Anne desperta com os movimentos de Leticia e se separa do corpo da irmã, que já liga o carro e se apressa em sair dali.
Já passava da meia noite e meia quando Leticia estaciona o carro na casa beira mar. As duas irmãs saíram do carro sem nada dizer.
As luzes da casa se acenderam quando o casal lá dentro ouviu o barulho do automóvel.
Ambas subiam as escadas da casa, Isa e Victor já estavam abrindo a porta da frente quando Anne passou feito furacão pelos dois dando apenas um rápido beijo.
Os dois pais ficaram parados sem entender o que acabara de acontecer e esperando a filha mais velha entrar para poder dizer algo que justificasse o comportamento da mais nova.
Letícia como se nada tivesse acontecido fala sem ao menos olhar para o casal enquanto se servia de um copo com suco que pegava da geladeira.
—Podem fechar a boca, foi apenas um tapinha, a filha de vocês está exagerando.
Ambos disseram juntos:
—Você bateu nela? – As palavras fizeram Letícia virar os olhos em desdém.
Fim do capítulo
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Andreachagas
Em: 14/10/2019
Boa tarde autora, estou gostando muito do enredo, mas acho que vou esperar mais uns capítulos pra continuar lendo, ou vou morrer de ansiedade..kkkk
Não desista da estória, escrever é um dom e vc é boa nisso. Parabéns!
Bjos
Resposta do autor:
Ah! Que gostoso saber disso, mas não espera não,
vai lendo Andrea, não vou deixar que você morra de ansiedade!
Hahaha! Prometo.
A estória está quase completa, vou ajustando e postando.
Obrigada pelas palavras! Beijinhos!
rhina
Em: 11/10/2019
Agora que vi que vc começou a história em 2017......kkkkkkk...... Não olho estes detalhes .......
Sua história parece ser bem interessante......
Puxa .....31......20
É uma grande diferença.....
Rhina
Resposta do autor:
Hahahaha! Não posso me justificar, se passaram dois anos!!!
Mereço toda a desconfiança!!!
Massss, pode continuar lendo, vou me redimir prometo!!!
Beijnhos
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