Capítulo 25 - Going Under
Jenny apoiou as mãos na bancada, inclinando-se sobre o monitor que mostrava o escritório de Sam. A guarda-costas estava inconsciente enquanto Daniel Gouveia e um homem corpulento a amarravam em uma cadeira no centro do cômodo. Ironicamente, Sam fizera o mesmo com Sandra Muniz quando esta fora sua cativa.
A garota tentara o comunicador muitas vezes, mas não obtivera resposta. Precisava fazer algo para salvar Sam. Talvez negociar com Daniel Gouveia. Ela o conhecia muito bem ou achava que conhecia. Sendo ele quem fosse, tinha que tentar ou eles iriam torturá-la até a morte. Não podia assistir àquilo de braços cruzados.
Jenny ainda decidia o que fazer quando observou pelo monitor Sam acordar. Ela e Gouveia travavam um diálogo mudo que Jenny apenas podia imaginar o conteúdo. Gouveia deu o primeiro golpe, um soco que não pareceu incomodar a guarda-costas. Em seguida, o grandalhão começou a socar o rosto da guarda-costas. Jenny desviou o olhar. Precisava agir.
Sam disse para ela não sair de lá em hipótese alguma. Jenny prometera ficar, mas há promessas que assim como regras existem para ser quebradas. A garota não assistiria Sam morrer sem fazer nada a respeito. Determinada, ela pegou a arma, mas precisava de algo mais. Encontrou uma faca daquelas que Sam usava em seus inimigos e deu um jeito de escondê-la sob o vestido, atada ao corpo. Antes de deixar o quarto, ela se lembrou do que Sam dissera. Gouveia a queria. Respirou fundo, não era hora para sentir repugnância. Então, Jenny tirou a jaqueta e deu um jeito de deixar o decote ainda mais provocante.
-- Aguente firme, Sam. Estou chegando -- Disse ela, antes de engatilhar a arma.
***
Quando Sam recuperou os sentidos não se espantou de estar amarrada a uma cadeira. Esperava por isso. Gouveia iria tentar obter informações sobre o paradeiro de Jenny a qualquer custo. A dor no ombro também veio com a consciência. Ainda de olhos fechados, Sam levou sua mente para um lugar longe dali, só assim aguentaria a dor. Costumava refugiar-se em sua melhor lembrança: a infância passada naquele sítio correndo entre as árvores com os irmãos, quando Igor ainda estava vivo. Mas, o que lhe veio à mente dessa vez foi à sensação de ter o corpo de Jenny de encontro ao seu. O cheiro dela invadindo seus sentidos e dominando-os. Quase podia sentir seu gosto. Iria se refugiar nessa lembrança para sempre se não tivesse sido interrompida pela voz tediosa de Daniel Gouveia.
-- Sam, acorde! -- Disse, impaciente -- Não temos o dia todo.
Ela abriu os olhos e encarou o inimigo.
-- O que você quer, Gouveia? -- Perguntou Sam.
-- Você sabe o que quero, não se faça de desentendida.
-- Já disse que nunca saberá de Jenny através de mim. Desista. Logo isso aqui estará cheio de policiais.
Gouveia não pareceu abalado. Era um homem com uma ideia fixa. Apenas Jenny importava para ele.
-- Sabe qual a ironia disso tudo? -- Perguntou Gouveia, balançando a arma na altura dos olhos de Sam -- Que eu a contratei e eu peguei você. Achava-se tão esperta, Samanta Kane. Descobriu alguns dos meus segredinhos sujos, é verdade. Jenny é meu ponto fraco. Não consigo esconder isso, é mais forte do que eu.
Ele fez uma pausa. Sam apenas o observava sem grande interesse. Para ela, Daniel Gouveia não passava de um verme.
-- Billy nunca foi uma mente muito brilhante -- continuou ele -- Um rapazinho com o coração partido que não fazia ideia do quanto dinheiro poderia ter. Ainda bem que eu estava lá. Ele era só um garoto, entende? Precisava de alguém mais velho e mais experiente para administrar toda aquela fortuna. Eu sempre fui muito bom nisso, em multiplicar dinheiro. Secretamente, trabalhei muitos anos para Erick Brooks, aprendi com aquele trapaceiro e ensinei também. Éramos uma ótima dupla... eu vi aquela garota se transformar em uma linda mulher.
Sam ergueu a sobrancelha. Aquele trecho das reminiscências de Daniel mexia com ela.
-- Encantadora, apesar de rebelde. Uma voz linda. Uma beleza angelical. Decidi investir em sua carreira artística. Conhecia muitas pessoas no ramo, algumas me deviam algo, como Lyanna Smith, outras tive que comprar. Mas, claro que ela não precisava de nada disso. A garota por si era um talento nato. Tinha a voz, a postura de uma grande cantora. O sucesso estava em seu caminho. Para mim, ser empresário de Jenny Brooks era um modo de tê-la só para mim. Erick estava morto, a mãe só conseguia olhar para si mesma. Eu era o mais próximo que ela teria de uma família.
-- Você é nojento -- Provocou Sam -- Ela tem idade para ser sua filha.
-- Não me venha falar de idade, Sam. Você também não é nenhuma jovenzinha.
Sam riu.
-- Você quer comparar idade agora? Se enxerga, cara, você está acabado.
Foi a vez de Gouveia rir. Ele aproximou a arma do rosto de Sam.
-- Engraçado porque para mim não parece -- Disse ele -- Agora, onde está Jenny?
-- Porque não me desamarra e eu te mostro?
-- Eu tenho uma ideia melhor.
Gouveia desferiu um soco no rosto de Sam.
-- Você não imagina como é maravilhosa a sensação de socar Samanta Kane -- disse ele, satisfeito, exibindo um grande sorriso nos lábios.
Sam cuspiu sangue pela boca.
-- Você bate como uma moça -- provocou ela -- Continua sendo o covarde que eu conheci.
-- Chega dessas bobagens -- disse Gouveia, desfazendo o sorriso -- Não sou de sujar as mãos com vadias como você. Isso foi uma exceção. Sou um homem de negócios, não um lutador. Vamos acabar logo com isso. O Mourão aqui tem algo para você.
Mourão, o homenzarrão que Sam quase tirara a vida, postou-se em frente a guarda-costas. Se não bastassem seus punhos enormes, ele equipou-se com um soco inglês.
-- Você vai falar, Samanta Kane, nem que seja a última coisa que você faça na vida.
Sam viu quando o primeiro golpe veio. Dor e sangue se confundiram. Ela fechou os olhos e sentiu. Foram vários socos até Gouveia fazer o tal Mourão parar.
-- Agora, Sam. Refrescou a memória? Onde está Jenny?
Ela abriu os olhos enquanto sangue escorria pelo rosto. Cuspiu um dos dentes. Apesar da dor, ela sorriu.
-- Sorria enquanto pode vadia, quero ver quando não lhe restarem mais dentes -- disse Gouveia.
-- Dane-se -- Balbuciou Sam.
-- Você é durona, não? Mourão, acho que ela precisa de mais uma sessão.
Mourão não parecia o tipo de cara que sorri, mesmo apreciando infligir dor, mas Sam pensou ver em seu rosto a sombra de um sorriso. Ainda assim, ela não teve medo. Já superara o medo da tortura, no fundo, tudo se restringia a dor. Em graus menores ou maiores era com a dor que ela estava lidando. Separar o medo da dor, a mente do corpo e elevar o espírito. Este era o segredo.
-- Mourão, acho que você deveria tentar algo diferente dessa vez -- Sugeriu Gouveia --Veja, ela foi baleada, faça um carinho, rapaz. Acho que a vadia vai adorar.
Por mais que Sam fosse forte, ela não pode sufocar o grito de dor quando Mourão enfiou um dos seus grandes dedos dentro do ferimento de entrada em seu ombro.
-- E, agora, Sam. Pela última vez, onde está Jenny?
A voz de Sam saiu fraca, mas em vez da resposta que Gouveia queria, ela o mandou para aquele lugar que mandamos os indignos quando estamos com raiva.
O empresário suspirou. Olhou o relógio. Não eram mais ouvidos tiros no sítio. O tempo estava acabando. Ele estava próximo a se desesperar, então decidiu tentar uma nova abordagem.
Gouveia aproximou-se de Sam retirando um lenço do bolso. A guarda-costas retraiu-se quando ele limpou o sangue de seu rosto e falou próximo a seu ouvido.
-- Todo mundo tem um preço, Kane. Para que tanta dor? Você poderia ter dinheiro e mulheres se quiser, em vez de estar aqui morrendo por uma garota que vai te trocar na primeira oportunidade. Já pensou nisso?
Sam não respondeu. Ela ofegava, suando frio. Seu corpo estremecia desde a última investida de Mourão.
-- Jenny vai se cansar de você uma hora ou outra. Vá por mim, conheço-a muito bem. As coisas para ela são descartáveis, as relações também. Eu sou a coisa mais constante na vida dela.
Sam moveu os lábios, sussurrando algo.
-- O que, Sam?
Ela continuava a sussurrar. Gouveia aproximou seu ouvido dos lábios dela.
-- Idiota -- disse ela, antes de morder sua orelha arrancando um pedaço.
Gouveia recuou, empurrando Sam e fazendo a cadeira cair para trás. Ele segurava o que restara de sua orelha enquanto sangue escorria. Xingava sem parar.
No chão, Sam tentava soltar-se da cadeira. As amarras foram amolecidas com a queda. Mourão percebendo a tentativa de Sam avançou sobre ela. O homenzarrão não esquecera a chave de pescoço que ela dera nele o deixando inconsciente. Ele a ergueu do chão. Sam já conseguira desamarrar as mãos, mas seus pés continuavam enroscados a cadeira. Para Mourão não importava, ele só queria por seus braços em seu pescoço e estrangulá-la.
-- Solte-a, Mourão. Preciso dela viva, seu estúpido.
Vendo que ele não ouviria, Gouveia pegou sua arma e não hesitou em atirar no capanga. Ele soltou Sam e caiu agonizando.
-- Mercenários! -- Disse Gouveia -- Nunca ouvem!
Sam tossia, recuperando o fôlego.
-- Vamos, Sam. Ou quer ser a próxima.
-- Você é louco -- disse a guarda-costas com a voz fraca.
-- Eu sou prático. Não gosto de empregados desobedientes.
Gouveia apontava a arma para Sam que estava sentada ao chão, com as mãos no pescoço.
-- Acho que temos um impasse.
Sam ainda pensava no que poderia ser feito àquela altura para deter Gouveia. Se ainda teria uma chance, antes que ele enfim decidisse por uma bala em sua cabeça. Foi quando algo aconteceu. Exatamente o que Sam tentara evitar desde o começo.
A porta que escondia o arsenal abriu-se. Sam sabia que era um comando feito por alguém que estava do lado de dentro. Jenny.
-- Mas que p...
Gouveia olhava espantado.
-- Que tipo de truque é esse, Sam? -- Perguntou ele.
Quando a porta foi totalmente aberta, Jenny Brooks saiu. O vestido decotado, uma das mãos atrás das costas. Para Gouveia, a aparição da garota era como uma visão.
-- Jen, não... -- Sussurrou Sam.
Jenny lançou a ela um olhar preocupado. Depois, voltou-se para Gouveia. Ela estava calma e caminhou até ele sem medo.
-- Olá, Dan.
-- Jenny!
Ele parecia não acreditar. Para Daniel Gouveia era como está vendo um anjo.
-- Oh, minha linda. Minha musa. É você mesmo?
-- Sim, sou eu -- Ela sorriu -- Não lembra mais de mim, querido?
-- Sim, sim! Claro, meu anjo.
Gouveia tomou a mão que ela lhe estendia e a beijou. A arma havia sido deixada de lado. Para ele, o objeto mortal não parecia ter qualquer importância diante daquela aparição.
Sam que em parte também era ofuscada diante da chegada de Jenny, começou a mover-se devagar. Seus pés permaneciam amarrados, por isso ela teve que rastejar. De repente, Gouveia pareceu acordar de um transe.
-- Não se mova, Sam -- disse ele, voltando a pegar a arma.
Ele não devia ter tirado os olhos de Jenny. Naqueles instantes em que sua atenção voltara-se para Sam, a garota sacara a Glock 25 que trazia escondida às costas. Ele a olhou estupefato e, instintivamente apontou a arma para sua musa.
-- Jenny, querida, o que está fazendo? -- Disse Gouveia, com a voz trêmula.
-- Você não pode machucar a Sam -- Falou Jenny, mantendo a arma apontada para ele.
-- Você não entende? Não posso permitir que essa mulher roube você de mim. Você é minha garota. Somos uma dupla. Os melhores.
-- Você é um desgraçado. Nojento! -- Gritou Jenny.
-- Eu fiz você! -- Rebateu Gouveia -- Jenny Brooks só existe por minha causa. Eu sou um visionário.
-- Não! Você me enganou, me usou...
-- Eu te amo. Faria qualquer coisa por você -- Afirmou ele -- E para provar eu vou largar minha arma.
Cumprindo sua promessa. O homem depositou sua arma numa cômoda próxima.
-- Viu?
-- Não acredite nele, Jenny -- Disse Sam, ofegante -- Ele tem outra arma.
-- Cale-se sua desgraçada -- Gritou Gouveia, desferindo um chute no rosto já machucado de Sam que gem*u de dor.
Jenny observou a cena, sentindo o ódio aumentar em suas veias. Tentou lembrar-se do treinamento. Mantendo a calma, ela atirou mirando o braço de Gouveia. Conseguiu acertá-lo de raspão.
O homem gritou de dor e surpresa. Imediatamente levando a mão ao ferimento.
-- Você atirou em mim -- Disse, sem acreditar.
-- Eu disse para não machucá-la.
O queixo de Gouveia tremeu. Ele olhou para Sam imóvel ao chão e em seguida para Jenny.
-- Eu já entendi tudo -- Disse ele, decepcionado -- Você não me deixa outra escolha, garota...
-- Não se mexa! -- Gritou Jenny, vendo-o levar a mão ao bolso interno do paletó.
Ele sacou a arma. Jenny teve segundos para decidir o que fazer. Puxou o gatilho, antes de Gouveia. Ele perdeu o equilíbrio, caindo de joelhos. Deixou a arma cair, encarando Jenny. Ainda sem acreditar que aquela garota de ar doce e juvenil, acabara de atirar novamente nele.
-- Por que? -- Ele conseguira perguntar. A mão no peito, num inútil aperto a estancar o sangue.
-- Porque eu não sou sua garota -- Respondeu Jenny.
A decepção em seu rosto continuou com ele, mesmo após o último suspiro.
Jenny deixou a arma cair. As mãos trêmulas. Acabara de tirar uma vida, mas naquele momento, aquilo não parecia um problema. Só importava a ela correr até Sam. Sentou-se ao chão e apoiou a cabeça de Sam em seu colo.
-- Sam, Sam. Fala comigo! -- pedia ela. Evitava tocar o rosto ferido de Sam.
-- Vo-vo... cê... não devia...
-- Eu sei, eu sei não devia ter saído -- disse Jenny, esboçando um sorriso -- Não fala nada, só descansa. Eu vou tirar você daqui.
Jenny lembrou-se da faca que trazia junto ao corpo. Pegou-a para desatar os nós que ainda prendiam os pés de Sam que lutava em manter os olhos abertos.
Logo as lágrimas de Jenny caíam sobre o rosto da guarda-costas. Apesar de muito machucada, Sam estava serena, enquanto olhava para Jenny, nada mais no mundo parecia importar.
-- Jen, te-tenho algo a dizer...
-- Não diz nada, meu bem. Eu sei que a ajuda está a caminho.
Sam continuava se esforçando para falar. Jenny aproximou seu rosto ainda mais do dela, tentando ouvir o que ela tentava dizer.
-- Eu... Eu amo você.
Com esse último esforço, Sam perdeu a consciência.
Jenny chorou enquanto repetia que também a amava, embora Sam não pudesse ouvi-la. Não muito tempo depois ela escutou sirenes se aproximando. O primeiro a chegar a casa de Sam, foi Júnior. Não parecia espantado com a quantidade de corpos. Ele estava machucado, mas nada comparado à irmã. Quando as encontrou no escritório, Sam ainda estava inconsciente, enquanto Jenny acariciava seus cabelos. A garota não queria sair de perto de sua guarda-costas. Por isso, Júnior permitiu que ela acompanhasse Sam na ambulância. O tempo inteiro, Jenny manteve as mãos da guarda-costas entre as suas.
-- Aguente firme, meu amor, aguente firme.
Fim do capítulo
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