Capítulo 20 - Demons
When you feel my heat
Look into my eyes
It’s where my demons hide
Demons - Imagine Dragons
Através da janela entreaberta, a luz do luar infiltrava-se no quarto úmido. Ainda estendida sobre a cama de casal, a mulher permanecia desacordada. De pé ao lado da cama, a guarda-costas a observava com atenção.
-- Acho que ela aproveitou para tirar um cochilo -- Comentou Jenny, com humor.
A garota encontrava-se do lado oposto do cômodo, desinteressada em aproximar-se da mulher que tanto a aterrorizara.
Impaciente, Samanta procurou pelas chaves do carro de Sandra Muniz até encontrá-las sobre a cabeceira. Em seguida, jogou-as para Jenny que pega de surpresa quase as deixou cair.
-- Para que isso? -- Perguntou a garota, confusa.
-- Não podemos deixar o carro aqui. Alguém pode encontrá-lo e fazer perguntas -- explicou Sam.
A garota não se moveu. Sam suspeitou que algo estava errado.
-- Qual o problema, Jen?
-- Não sei dirigir muito bem -- Confessou, envergonhada.
Sam esquecera por um momento que Jenny Brooks era uma estrela do Show Business, habituada a ter motoristas à sua disposição. Decidiu encorajá-la, afinal, a cantora saiu-se bem em enfrentar desafios que lhe foram impostos até o momento.
-- Jen, entendo que tem estado sobre muita pressão ultimamente -- Sam falou, compreensiva -- Mas, apesar de tudo, sei que você consegue fazer isso.
A garota suspirou. Estava cansada, a adrenalina de subir ao palco e cantar para um público de milhares de pessoas era diferente da súbita descarga de tensão de se viver perigosamente. Aquele era o mundo de Sam, não o seu. Mas, em algum momento, seus mundos se fundiram em um só.
-- Tudo bem, Sam -- Disse Jenny, decidida -- Vamos embora de vez dessa espelunca.
***
Para chegar à estrada principal precisaram passar por uma longa extensão de terra sem asfalto. Durante todo o percurso, Sam, que levava Muniz desacordada no porta-malas de seu carro, manteve a velocidade baixa, consciente que era seguida por uma cautelosa Jenny. Naquele ritmo, demoraram quase o dobro do tempo para retornar a casa.
Os carros foram colocados na garagem. No percurso, Muniz havia despertado e foi obrigada pela guarda-costas a entrar na casa onde foi deixada amarrada à cama de um dos quartos.
Sam ofereceu um analgésico à Jenny que se queixava de dores nas costas e em volta do pescoço. Elas tomaram um banho rápido antes de caíram exaustas na cama. Jenny adormeceu instantaneamente, aninhando-se aos braços de sua guarda-costas. Enquanto Sam ainda demorou a relaxar observando os hematomas em torno dos pulsos de Jenny. A garota era inocente. E os inocentes sempre sofrem. Já ela era culpada. Jenny era sua última chance de redenção. É como dizem, somente através do amor os pecadores podem encontrar o perdão.
***
O café da manhã foi tomado à mesa na casa dos Sanches com todos reunidos. Cúmplices, Sam e Jenny tentavam agir normalmente. A garota usava uma blusa de mangas compridas para esconder as marcas de amarração. As marcas deixadas pela fita adesiva em volta dos lábios, porém, era evidente. Para todos foi dito que a garota tinha apresentado um processo alérgico. Mas Sam conhecia muito bem sua família para saber que, com exceção de Danilo, seu pai e Júnior desconfiariam daquela história.
Mas, por hora, não fizeram perguntas.
Mais tarde, de volta a casa de Sam, elas não podiam mais ignorar o elefante na sala de estar, ou melhor, no quarto de hóspedes.
Jenny acompanhou Sam. Queria está presente quando ela interrogasse a mulher. Também havia coisas que gostaria de entender sobre a relação de Sandra Muniz com sua guarda-costas. Havia algo na história das duas que não se encaixava.
Muniz foi encontrada desperta. Imóvel sobre a cama, tão engenhosamente amarrada que mesmo se quisesse não poderia deslocar-se um centímetro. Dadas as marcas vermelhas em sua pele, ela fizera tentativas. Quando seus olhos sarcásticos encontraram os de Sam, tinham um brilho enigmático.
A guarda-costas a colocou em uma poltrona, no centro do cômodo. Só então desatou a mordaça da boca de Muniz que deixou escapar um grande suspiro de alívio.
-- Quanta gentileza, Sam! -- Ironizou a mulher.
-- Você deveria me agradecer -- Retrucou a guarda-costas, com desdém.
-- Tem razão. Devo mesmo agradeço, apesar de tudo foi uma noite maravilhosa -- Disse, com malícia -- Céus! Você é gostosa, Sam!
Como um furacão, Jenny avançou sobre a mulher. Dando-lhe um tapa no rosto que deixou uma marca vermelha na pele da ex-militar.
Os olhares de ambas se encontraram. Os da garota, puro ódio.
-- Melhor amarrar seu cãozinho, Sam.
Sam ignorou as provocações. Gentilmente, afastou Jenny levando-a a um canto do quarto.
-- Jen, se for mesmo fazer isso -- Alertou Sam -- Não pode deixar Muniz tirá-la do sério.
-- Eu sei, Sam -- Disse Jenny, respirando fundo -- Mas eu precisava fazer isso. Só de imaginar você e aquela... aquela desgraçada na mesma cama...
-- Não imagine -- Respondeu Sam -- Controle suas emoções. Tá?
Jenny assentiu.
Elas retornaram para perto de Muniz que ficara subitamente calada. Dirigindo-se a ela, Sam falou:
-- Preciso que me conte com detalhes tudo o que sabe, Muniz.
-- Eu não sei de nada, Sam.
-- Quer mesmo que acredite nisso? Você anda por aí, ouve coisas...
Muniz estreitou os olhos, antes de responder:
-- Mesmo que eu saiba de algo. Por que eu diria a você? Estou dominada, pode fazer o que quiser comigo e temo que não seja num bom sentido.
-- Podemos fazer um acordo -- Propôs Sam.
-- E então, você vai me soltar, Sam?
Muniz riu. Sam respondeu:
-- Isso depende.
-- Tudo bem. Vamos supor que você me solte. Eu não tenho para onde ir. Minha vida nos últimos meses tem sido uma busca obsessiva por você. Confesso que não tinha planos para quando chegasse aqui. Só esperanças.
-- Que atrevida! -- Exclamou Jenny.
A ex-militar continuou, sem se importar com o que a garota pensava:
-- Sam, faço qualquer coisa por você.
Jenny bufou, irritada.
A guarda-costas balançou a cabeça. Daquele jeito não chegariam a lugar algum.
De repente, a porta do quarto abriu-se. Júnior estava de pé, com os braços cruzados sobre o peito e um sorriso de satisfação nos lábios.
-- Ora, ora. Parece que temos uma festa aqui!
-- E você não foi convidado! -- Retrucou Sam, insatisfeita com a intromissão repentina do irmão.
-- Assim você me magoa! -- Disse Júnior, fingindo indignação.
Com um sorriso estampado em seus lábios, ele caminhou pelo quarto e observou com interesse a mulher no centro da sala. Seus olhares se cruzaram e pela primeira vez, Jenny viu algo parecido com medo nos olhos de Sandra Muniz. Ela mesma estava assustada com a presença de Júnior, depois do que Sam havia lhe contado sobre o irmão, ela tinha motivos mais do que suficientes para não querer aqueles olhos frios encarando-a.
-- O que pretende fazer com ela? -- Perguntou Júnior a irmã.
-- Arrancar umas verdades -- Respondeu Sam.
-- Posso ajudá-la -- Ofereceu-se -- Sou muito bom em arrancar verdades.
Muniz estremeceu. Os olhos atentos de Sam não deixaram de notar esse detalhe.
-- Pensando bem, não seria má ideia.
A resposta de Sam fez Júnior abrir um grande sorriso.
-- Espere, Sam! -- Disse Muniz, assustada -- Você não pode me deixar nas mãos desse maníaco...
O soco veio tão rápido que Muniz não o viu. Um corte profundo abriu-se em seu lábio inferior, fazendo sangue escorrer. O rosto de Júnior contorceu-se numa expressão homicida.
A boca de Jenny tremia. Espantada com aquele espetáculo gratuito de violência.
Sam aproximou-se da mulher. Ela não repreendeu o ato impensado do irmão, na verdade, viu-o como uma oportunidade.
-- Então, Muniz. Refrescou sua memória?
A mulher cuspiu sangue, junto com as palavras:
-- Isso é o melhor que você pode fazer?
Júnior grunhiu, raivoso. Em seguida, seu rosto contorceu-se numa expressão satisfeita.
-- Eu ainda nem comecei -- Disse ele -- Sam, me dê apenas alguns minutos com ela. Prometo que após esse tempo, você terá todas as respostas que quiser.
Sam avaliou a situação. Sua ex-companheira tinha aquele olhar determinado que tantas vezes ela vira quando estava em missão. Ela era dura. Apesar de Júnior assustá-la, não cederia fácil.
-- Tudo bem. Você tem meia-hora.
Júnior agradeceu a irmã. Parecia uma criança que tivera permissão para subir na roda gigante. Para ele, aquilo não passava de pura diversão.
-- Isso, Sam. Deixa seu sadicozinho fazer o trabalho sujo -- Provocou Muniz -- Ele sempre fez o que você não teve coragem, não? Por isso o deixou machucar seu irmão...
Foi a vez de Sam socar o rosto de Muniz com força, abrindo-lhe um corte no supercílio direito.
Vendo Sam perder o controle, Jenny correu até ela, tentando acalmá-la. Segurou seu rosto entre as mãos. Ainda assim, Sam não conseguia encará-la. Por um minuto, não houve reação.
-- Jen, deixe-nos -- Pediu a guarda-costas.
Jenny a olhou sem compreender.
-- Sam, eu não...
-- Não quero que presencie isso. Por favor, Jen, Saia!
A garota balançou a cabeça, em negação. Seu olhar cruzou com o de Júnior que parecia divertir-se cada vez mais com a situação.
-- O que pretendem fazer com ela? -- Perguntou, insegura.
Foi Júnior que respondeu:
-- Algo que você não vai querer ver, garota.
Jenny apelou para a guarda-costas:
-- Sam vai permitir essa barbaridade?
-- Ela procurou por isso, Jenny -- Disse Sam, firme -- Invadiu minha casa, tentou tirar você de mim.
-- Eu também tenho motivos para odiá-la -- Rebateu Jenny -- Ela poderia ter feito pior comigo, mas não fez. Olha para ela, Sam, já está dominada...
A guarda-costas manteve-se impassível. Muniz que escutava a tudo atentamente, falou:
-- Esqueça, garota. É inútil. E a propósito não preciso que você me defenda.
Jenny procurava o olhar de Sam que a evitava.
-- É, tem razão. É inútil -- Falou a garota, decepcionada -- Me Apaixonei por um demônio.
As palavras atingiram Sam em cheio. Jenny apressou-se em deixar o quarto, enquanto a guarda-costas lutava desesperadamente contra a vontade de correr atrás dela.
Sandra Muniz que já se tornara expert em piorar a situação quando ela já estava ruim, comentou:
-- Já, eu, Sam não tenho problemas com demônios...
***
Jenny chegou à casa dos Sanches, ofegante. Aparentemente Sam não havia lhe seguido. Melhor que não o fizesse. Não havia fugido apenas para chamar a atenção de Sam. Estava realmente zangada com ela.
Limpando o suor do rosto, Jenny entrou no casarão. Encontrou sua mãe na sala lendo um livro. Se não estivesse tão cega de ódio, ela teria se espantado com o fato de ver a mãe com um livro na mão.
A garota deixou-se cair numa poltrona. Lorena levantou o olhar e observou a filha.
-- O que houve? -- Perguntou, curiosa.
Jenny passou a mão sobre os cabelos, impaciente.
-- Eu quero minha vida de volta -- Resmungou -- Quero voltar para casa!
-- Bem-vinda ao clube! -- Disse Lorena, irônica. Mas, após refletir um instante, seu tom mudou -- Bem, mas aqui não é de todo ruim...
-- Você está gostando daqui? Logo você? -- Questionou a garota, aturdida -- Peraí, isso é um livro?
Jenny levantou e tomou o livro das mãos da mãe. Era um volume em capa dura. Leu o título:
-- O morro dos ventos uivantes, Emily Brontë.
-- Marcondes me emprestou de sua biblioteca particular.
-- Marcondes... o senhor Sanches? O pai de Sam?
-- Ora, quem mais menina!
Quando o pai de Sam e sua mãe se tornaram tão íntimos, questionou-se a garota. Até o momento, o senhor Sanches mal dirigiu a palavra a alguém. Era um homem taciturno, fechado em si mesmo como uma concha. Aparentemente, a presença da família de Jenny no casarão havia perturbado a paz do chefe da família. Será que a falta de senso de sua mãe amolecera o coração do velho?
-- E de que fala esse livro? -- Quis saber Jenny, esquecendo por um momento sua raiva.
-- De um amor tempestuoso e brutal -- Respondeu Lorena, animada -- Oh, é fascinante! Tem esse sádico rapaz Heathcliff e a indomável Catherine...
Lorena suspirou. Jenny aproveitou a pausa para interromper:
-- Mamãe, você não acha que está muito velha para romances?
-- Não há idade para o amor, filha. Será que você não aprendeu nada? Veja você e Sam. Ela é mais madura e mais ajuizada.
Ao mencionar Sam, a ira de Jenny retornou.
-- Não me fale de Sam!
-- Ah, vocês brigaram... Por isso essa cara?
Jenny não respondeu. Respirou fundo, tentando controlar seus sentimentos.
-- O amor não precisa ser trágico, filha -- Disse Lorena, num lampejo de sabedoria -- Você não é Catherine, nem Sam, Heathcliff e com certeza aqui não é Wuthering Heights. Bem que eu gostaria que fosse!
-- Que você quer dizer com isso? -- Perguntou Jenny, com interesse. Era raro sua mãe falar com enigmas.
Em vez de responder-lhe o que tinha em mente, sua mãe a interpelou:
-- Conte-me o que aconteceu.
-- Eu não posso. É sigiloso.
-- Não quero saber em que diabos sua guarda-costas está metida -- Disse Lorena, enérgica -- Estou perguntando o que se passa em seu coração.
Jenny hesitou por instante, depois falou:
-- Não sei, mãe. Estou com raiva de Sam, mas também estou odiando a mim mesma. Porque eu fui me apaixonar por alguém como ela, e numa situação dessas? Eu só queria ter um romance normal para variar...
Lorena manteve-se em silêncio. Esperou Jenny expressar o que sentia. A garota tinha mais a falar a si própria do que à sua interlocutora, como ficou claro a mãe. Por isso, ela não a interrompeu.
A garota levantou-se da poltrona e começou a percorrer a sala, enquanto punha-se num monólogo interminável.
-- Em alguns momentos, ela é tão irritante. Além disso, é mandona. Dona da verdade. Ah, não sabe quanto odeio isso nela... Muitas coisas que ela faz são incompreensíveis para mim. Ela é capaz de momentos de profunda sensibilidade, mas depois se mostra um demônio violento... Acho que sente prazer em infligir dor, de um jeito que não consigo entender. Seu sadismo me confunde. Ela tenta me proteger de tudo e de todos. Diz que sou forte, mas quando olha para mim, me sinto frágil. O pior de tudo isso é que sinto que a amo como nunca amei ninguém. Ela aprisionou meu coração. Não consigo mais me imaginar longe dela. Só a possibilidade de perdê-la... Está com ela me faz acreditar em um amor que dure a vida inteira. Nunca imaginei existir alguém igual a ela... ela é tão infinitamente superior a todos.
Quando Jenny terminou de falar, sua mãe tinha lágrimas nos olhos.
-- Por que está chorando?
-- Algo que você falou, lembrou-me o livro -- Disse Lorena, secando o rosto com as mãos -- O amor verdadeiro em sua essência...
-- Mãe, fale-me algo que faça sentido -- Suplicou Jenny -- Esse livro deve tá mexendo com sua cabeça.
Lorena aproximou-se da filha e segurou-lhe as mãos entre as suas. Jenny assustou-se com o ímpeto da mãe.
-- Oh, Jenny. Isso é maravilhoso! Um amor como esse! Agarre-o, não o deixe escapar. Corra até sua Sam, não perca nem mais um minuto.
Jenny desvencilhou-se da mãe.
-- Diz isso porque não sabe o que minha Sam está fazendo nesse momento.
-- E isso realmente importa, menina? Apesar de tudo, ela é a mulher por quem está apaixonada.
Jenny encarou Lorena.
-- Esse é exatamente o problema, mãe -- Falou, triste -- Não vou fechar os olhos para aquilo que não concordo e vai contra meus princípios. Simplesmente não posso aceitar suas atitudes monstruosas. Não sou ingênua em querer que ela mude por mim. Essas bobagens não existem nem mesmo em romances. Diga-me, Heathcliff deixou de ser menos sádico por seu amor a Catherine?
Lorena emudeceu.
-- Viu? Nem mesmo nos romances... Não espero que ela mude, mamãe. Nunca tive essa pretensão. Somos quem somos. E como você mesma disse, ela é a mulher por quem eu me apaixonei. Estou condenada a amá-la. Entende meu conflito?
-- Entendo. Você não pode controlar esse amor. Então, terá que viver com ele.
Jenny concordou.
-- Uma vez eu disse a Sam que não me importava com seu passado desde que ela estivesse comigo. Mas, às vezes, por mais que queira estar comigo. Sinto-a afastar-se. É quando ela deixa que seus demônios tomem conta.
-- A questão, Jenny, é se está disposta a abrir mão dela.
-- Eu não seria capaz -- Respondeu Jenny, prontamente -- Eu a amo com todas as minhas forças.
A garota caiu num pranto, Lorena a segurou em seu colo e abraçou a filha, embalando-a como fazia quando ela era apenas um bebê e cabia perfeitamente em seus braços. Para ambas parecia ter sido há séculos.
Jenny ainda tinha lágrimas nos olhos quando notou a presença de uma terceira pessoa na sala.
-- Desculpe... não queria assustá-la -- Disse o homem com a voz firme.
Lorena sorriu ao notar a presença de seu anfitrião Marcondes Sanches.
-- Tu-tudo bem, senhor Sanches -- Gaguejou Jenny ante a figura austera do dono da casa.
-- Lorena, gostaria de ter uma palavra a sós com sua menina, se não for muito incômodo. -- Pediu o homem, com polidez.
-- Oh, não seria incômodo algum.
Em seguida, Jenny presenciou o senhor Sanches beijar a mão de sua mãe com galanteria.
O que significava aquela cena?
-- Jenny, querida, qualquer coisa estarei em meu quarto -- Disse Lorena antes de despedir-se da filha com um beijo estalado na bochecha.
A garota tocou de leve o rosto. A mãe nunca era carinhosa. Mas, as esquisitices de Lorena Montenegro teriam que ficar para outra hora, já que Jenny viu-se sozinha com o pai de Sam, subitamente sentindo-se apavorada.
-- Acho melhor sentarmos -- Sugeriu Marcondes.
Jenny obedeceu.
-- Fique a vontade, senhorita. Não sou um homem a quem deva temer.
Ela tentou esboçar um sorriso e esconder o nervosismo.
-- Pode chamar-me de Jenny, senhor Sanches.
-- Só se me chamar de Marcondes, senhorita Brooks.
-- Tudo bem, Marcondes.
-- Melhor assim -- Sorriu o pai de Sam -- Bem, deve está estranhando meu súbito interesse por você. Peço desculpas se tenho sido grosseiro. Afinal, convidados de minha filha também são meus convidados.
-- Não se preocupe. Está tudo bem.
-- Admito que fui pego de surpresa -- Continuou ele -- Samanta não é de manter contato. Ela é assim. Some por meses, anos. De repente, aparece sem aviso. Já estamos acostumados. Mas, em todo esse tempo, ela nunca trouxe alguém consigo.
Jenny não conseguiu repelir a expressão de surpresa.
-- Acredite, surpreendi-me tanto quanto você. Precisei de um tempo para observar a todos. Além disso, tenho uma natureza arredia. Não admito intrusos em minha vida, Samanta puxou isso de mim. Mas, você notou isso, não?
Jenny concordou, envergonhada.
-- Poucos tem o privilégio de conhecer Samanta como a conhecemos. Em parte, devido a sua natureza. Outra pelo que ela passou. Se a tivesse visto quando o irmão morreu... Bem, mas isso é passado agora.
Marcondes fez uma pausa. Jenny esperou, quase suspendendo a respiração. Qualquer coisa relativa a Sam causava-lhe interesse.
-- Deve perguntar-se aonde este velho quer chegar com isso -- Comentou Sanches -- Desde já lhe peço desculpas, pois acabei ouvindo o que você e sua mãe diziam.
-- Ouviu? -- Rebateu Jenny, enrubescendo.
-- Juro que não foi minha intenção -- Desculpou-se ante o constrangimento da garota -- Mas, acabei não podendo evitar. O que ouvi foi bastante esclarecedor. Sabe, desde o início soube que havia algo entre você e Samanta. Secretamente, sempre desejei que minha filha um dia encontrasse alguém que a fizesse feliz. De início, me surpreendeu sua escolha. Uma garota com uma carreira de sucesso no mundo da música. Uma garota que vale milhões... Não me entenda mal, mas nada disso impressionaria a Samanta. Beleza, juventude, dinheiro... Não, devia ser outra coisa. Mas o que?
Marcondes Sanches fitou Jenny com um olhar severo, somente comparável ao de Sam. Ela teve que engolir em seco.
-- Desculpe-me mais uma vez. Julguei-a mal. Deixei que meus preconceitos me cegassem. Não consegui enxergar além da superficialidade de sua aparência ou de sua posição. Não conseguia ver o que Samanta viu. Foram suas palavras que me fizeram olhar de novo. Seu amor por ela. Amor... Faz tanto tempo que havia esquecido o que é isso. O quanto passional pode ser amar alguém. A gente perde o controle. Eu me perdi em todas as mulheres que amei.
Jenny julgou ver um brilho diferente no olhar do homem.
-- Você é uma boa garota. Tenha paciência com Samanta. Ela mostrará ser digna de seu amor. Talvez não consiga entender muitas de suas atitudes, mas ela sabe o que faz. E o faz muito bem.
Jenny assentiu.
-- Acho que vai precisar de um tempo para assimilar tudo o que disse -- Falou Marcondes, levantando-se -- Permita-me apertar a mão daquela que conseguiu o impossível...
Jenny estendeu a mão para ele que a apertou firme.
-- O impossível? -- Perguntou ela, confusa.
Ele riu.
-- O coração de Samanta -- Respondeu -- Sabe, não achei que viveria para ver esse momento. Mas, espero que isso possa ser um segredo entre nós. Se Samanta me ouvisse falando assim...
Jenny concordou com um aceno. Ainda esboçou um sorriso tímido.
Cumprindo sua promessa, o senhor Sanches retirou-se, deixando Jenny com seus pensamentos.
A garota encostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos. Quando achou que finalmente estava sozinha, ouviu a porta abrir. Por um momento, desejou que fosse Sam. Mas, para sua decepção, não era ela. Mas, seu irmão, Júnior. A última pessoa no mundo que ela queria ver.
Fim do capítulo
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