Capítulo 18 - Who knew
Na volta ao casarão dos Sanches, Sam segurava firmemente a mão de Jenny, guiando-a pela vegetação em que ela se perdera mais cedo naquele dia. Estava escuro. Apenas a luz da lanterna de Sam iluminava o caminho. Elas vestiam grossos casacos. A guarda-costas os tinha para noites como aquela.
Jenny estava feliz. Refletia sobre as surpresas que a vida lhe proporcionara. Foi nos braços de Sam que encontrara a felicidade que nunca julgara poder existir. Mergulhada em seus devaneios, Jenny não percebia a apreensão de sua companheira de caminhada. Sam estava com um mau pressentimento. Não que acreditasse em presságios, por outro lado, sua intuição nunca a decepcionava.
No casarão, todos já esperavam por elas. A pequena Margot pulou nos braços de Jenny que contente a encheu de beijos. Confortavelmente sentada em uma poltrona, Lorena Montenegro olhou para a cantora e sua guarda-costas com desconfiança. Danilo interrompeu uma conversa animada com Orlando para cumprimentar as recém-chegadas.
Sentado em uma poltrona, uma figura taciturna não se movia. Com um cobertor sobre as pernas, Marcondes Sanches lia atentamente um exemplar do jornal O Povo. Sam se aproximou do pai e deu-lhe boa noite. Recebeu apenas um grunhido inaudível em resposta.
-- Júnior já não devia estar aqui? -- Perguntou Sam a Danilo.
-- Ele tá lá em cima -- Informou -- Está ansioso para vê-la.
-- Eu vou chamá-lo -- Disse Sam, adiantando-se e subindo as escadas para o andar de cima.
Sam se deu conta que há muito tempo não subia aquelas escadas. Sempre que retornava para sua cidade natal, ela preferia ficar isolada em seu chalé. As lembranças da infância eram vívidas ali. Ela e os irmãos correndo pela casa, sua mãe gritando com eles, irritada.
Com esses pensamentos, Sam diminui o passo até parar próximo a uma janela no segundo andar. Olhou para fora, sob a luz fraca ela julgou ver alguém se movendo. Observava atentamente para ter certeza que não havia sido apenas uma impressão.
-- Vigiando as sombras, irmãzinha?
Sam virou-se imediatamente.
-- Júnior? -- Sussurrou ao reconhecer o irmão.
O homem vestia-se com elegância. Tinha cabelos pretos, maxilar largo e olhos penetrantes. A cada dia, ele se parecia mais com Anthony Perkins e seu contido Norman Bates no filme Psicose. A incrível semelhança sempre intrigara Sam.
Júnior caminhou até Sam e deu-lhe um beijo suave no rosto. Ela observou seu rosto de perto e disse:
-- Vejo que fez a barba. Seu perfume é outro. E essa gravata...
-- O que tem a gravata? -- Perguntou ele.
-- Você fica bem com ela.
Ele sorriu.
-- Eu precisava caprichar. Afinal, não é sempre que Jenny Brooks vem a nossa humilde casa.
Seu tom de voz era levemente irônico.
-- Você não ouve música pop -- Disse Sam, olhando-o com desconfiança.
-- Não é exatamente em música que eu estou interessado -- Rebateu ele.
-- Então, qual o seu interesse em Jenny Brooks? -- Sam perguntou, sem rodeios.
-- A pergunta é: qual o seu interesse nela?
O irmão a fuzilava com seu olhar perturbador. Sam conhecia bem o comportamento insano de Marcondes Sanches Júnior, o garoto que nunca perdoara a verdadeira mãe por tê-lo abandonado e a pessoa com quem ela dividia uma lembrança terrível.
-- Ela é importante para mim -- Contou Sam, sem desviar o olhar -- Preciso que me ajude a proteger a ela e a família. Faria isso?
Júnior refletiu por um instante, antes de dizer:
-- Não há nada que eu não faria por você, Sam -- Disse ele, com seriedade.
Sam apertou sua mão. Ele retribui com um aperto de quebrar os ossos. Ela sorriu.
***
Sam apresentou Júnior a Jenny. A cantora sentiu um arrepio perpassar seu corpo ao apertar as mãos frias do homem. Seu olhar devorador a assustava. Ele a observou durante todo o jantar. Jenny tentou fingir não estar incomodada. Trocava palavras com todos com naturalidade. Afinal, ela estava feliz.
O senhor Sanches continuou calado durante o jantar. Ao final da refeição ele retornou a sua poltrona e ao seu jornal. Jenny refletiu o quanto a família de Sam era estranha, com exceção do irmão Danilo, o rapaz era simpático e amigável.
Quando Júnior monopolizou a atenção de Sam, Danilo convidou Jenny para caminharem em volta da casa. Ela vestiu o casaco que Sam lhe dera.
-- Está muito frio! -- Comentou ela, sem graça.
-- Nessa época do ano, as noites são bem frias -- Disse ele, com seu sotaque -- Mas também há dias quentes. Muito quentes.
Eles continuaram a caminhar, conversando sobre tempo e sobre a vida no campo. A simplicidade do rapaz encantava Jenny. Ela ficou cada vez mais interessada por sua conversa, principalmente quando ele começou a falar a sobre a infância e como era crescer em um lugar como aquele.
-- Sabe, eu não consigo imaginar Sam crescendo no campo -- Comentou Jenny.
Danilo riu.
-- Tem razão, ela não faz bem o tipo rural.
-- Como ela era quando estava aqui? -- Quis saber Jenny -- Vocês devem ter vivido muitas aventuras juntos. Você e ela parecem ser próximos.
De repente, Danilo interrompeu os passos e sentou-se em um batente na varanda. Jenny o imitou. O rapaz parecia olhar para um lugar distante. Ela esperou enquanto ele organizava os pensamentos.
-- Nem sempre fomos próximos -- Falou ele, com tristeza -- Quando éramos crianças, Sam e Júnior eram inseparáveis e eu era o irmão menor, sempre deixado de lado. Os dois tinham uma espécie de linguagem própria. Com apenas um olhar, eles sabiam o que se passava um com o outro. Como irmãos gêmeos. Sabia que eles têm a mesma idade? Nasceram no mesmo mês, com uma a pequena diferença de alguns dias.
-- Como é possível? Só se não tiverem a mesma mãe...
-- E não tem. São mulheres diferentes.
Jenny não conseguiu esconder o espanto.
-- Não é segredo para ninguém -- Comentou Danilo -- Júnior é fruto de uma das puladas de cerca do papai.
-- Eu nunca iria imaginar.
-- Acontece nas melhores famílias e nas piores também -- Refletiu Danilo.
-- Então, os dois deixavam você de lado nas brincadeiras? -- Jenny perguntou -- Desculpe, estou sendo indelicada.
-- Eu já superei isso, Jenny -- Sorriu ele -- Mas eu não estava sozinho. Eu tinha o Igor. Nosso outro irmão.
Nesse ponto, Danilo fez uma pausa. Jenny entendeu que ele falava sobre o irmão que eles haviam perdido. Sem aviso, Danilo caiu em um choro intenso. Sem saber o que fazer Jenny tentou consolá-lo.
-- Calma, está tudo -- Disse ela, acariciando suas costas.
Danilo respirou fundo e secou as lágrimas.
-- Desculpe. Isso foi ridículo. Faz tanto tempo...
-- Não foi. Eu entendo você. Chorei por meu pai por muitos anos até descobrir quem ele realmente era.
O rapaz assentiu. Timidamente, ele tocou de leve sua mão. Jenny não esperava pelo contato. Mas, não o afastou. Ele era irmão de Sam. E ela gostara dele.
-- Minha dor não é nada comparada com a de Sam -- Confidenciou Danilo -- Ela se sente culpada pela morte dele.
-- Por que ela se sente culpada? -- Jenny apressou-se em perguntar.
Danilo hesitou.
-- Por favor, me diz o que aconteceu com o irmão de vocês? -- Suplicou Jenny -- Por que Sam acha que foi culpada?
-- Porque, de certa forma, ela foi...
***
-- Foram aqueles olhos azuis? -- Insinuou Júnior.
Desde o fim do jantar, ele interrogava Sam sobre Jenny. Tentava entender o que a irmã havia visto na garota.
-- Eu já disse que não quero fala sobre isso -- Sentenciou Sam.
-- Só queria entender o que uma assassina fria como você viu naquela garotinha que ainda brinca de bonecas.
-- Jenny já é uma mulher, ela só não experimentou o mundo como nós – Disse Sam – E eu não sou uma assassina fria, Júnior. Só mato quando necessário.
Júnior tomou vários goles de água. Apreciou o líquido descendo pela garganta. Após ficar satisfeito, ele depositou o copo sobre a mesa, e falou calmamente:
-- Esse é o problema, Sam. Para pessoas como nós, sempre é necessário.
Sam sabia que o irmão tinha razão. Pessoas que fazem do ato de matar uma profissão correm o risco de fazer da violência algo banal e perder sua humanidade. Ela conhecera pessoas que ultrapassaram seus limites e nunca mais encontraram o caminho de volta.
-- Estive observando a família de sua namorada -- Continuou Júnior, falando próximo ao ouvido de Sam -- A mãe é uma perua decadente, o padrasto é um fraco e de quebra uma guria que perdeu a voz...
Com a veia saltando em seu pescoço, Sam sussurrou ao irmão:
-- Como você disse, é a família da minha namorada e você não vai falar deles assim na minha frente novamente, entendido, soldado?
-- Claramente, Capitã -- Respondeu Júnior, irônico.
Sam afastou-se do irmão. Começou a perguntar-se para onde Danilo havia levado Jenny, quando esta irrompeu na sala, quase correndo. Todos os olhares se voltaram para ela.
-- Jenny? O que houve? -- Perguntou Sam, tensa.
Sem dizer nada a garota jogou-se nos braços da guarda-costas. Suas mãos entrelaçaram-se em volta de seu corpo, sem querer larga-la. Sam não sabia o que estava acontecendo, lançou um olhar de interrogação para Danilo que parecia constrangido.
O senhor Sanches tirou os olhos de seu jornal pela primeira vez aquela noite, observando a cena à sua frente com curiosidade. O olhar de Júnior era um enigma. A pequena Margot não demorou a se juntar a elas, abraçando-se às pernas da irmã. Lorena Montenegro balançava a cabeça, em negativa. Orlando olhava para todos tentando compreender o que estava acontecendo.
-- Jenny, querida, o que aconteceu? -- Sussurrou Sam ao ouvido da garota. Sem obter resposta, ela dirigiu-se ao irmão:
-- Danilo, não fique parado aí, me diz de vez o que houve para ela tá assim?
-- É Danilinho, diz logo o que você fez com a pobre garota -- Debochou Júnior.
-- Cale-se, Júnior -- Repreendeu Sam.
Pressionado, Danilo falou:
-- Ela queria saber sobre o Igor...
Sam sentiu como se uma navalha afiada cortasse cada pedaço de seu corpo. Igor...
-- Seu idiota linguarudo -- Disparou Júnior, tentando avançar sobre o irmão.
Uma confusão se iniciou entre eles, enquanto os outros observavam estupefatos àquela cena.
-- Parem com isso agora! -- Gritou Marcondes Sanches, sua voz gélida ecoando pela sala -- Eu não vou admitir essa bagunça em minha casa.
Imediatamente, os irmãos se largaram.
-- Subam para seus quartos -- Ordenou Sanches.
Eles obedeceram.
-- Sam, leve a garota para sua casa -- Disse Sanches a filha -- Acredito que tem muita coisa que vocês precisam conversar.
-- Imediatamente, senhor -- Respondeu Sam -- Vamos, Jenny!
Jenny despediu-se de Margot com um abraço. A garota não queria que ela fosse, Lorena precisou convencê-la que era hora de dormir e levá-la para o quarto. Quando todos saíram, Sanches e Orlando foram os únicos a permaneceram na sala.
O pai de Sam pegou novamente o jornal, escolheu um dos cadernos que já havia lido e ofereceu a Orlando. Este o pegou e pareceu, pela primeira vez em muito tempo, interessado em algo.
-- Viu para onde estão levando esse país? -- Resmungou Sanches -- Canalhas...
Fim do capítulo
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