Capítulo 16 - Espaço em Branco
O silêncio nunca estivera tão presente na vida de Jenny Brooks como agora.
Diante do espelho, ela passou a mão propositadamente sobre o nariz. Ainda doía muito, uma dor aguda. Observou o curativo discreto, já fora maior nos primeiros dias. Lembrou como a mídia enfatizara sua desgraça. O belo rosto de Jenny Brooks, emoldurado com o pequeno e delicado nariz, nunca mais seria como antes. Exagero. Como dissera Billy ao visitá-la, nada que um bom cirurgião não resolvesse. E ele tivera razão. Seu nariz em breve estaria novinho em folha.
Por fora, ela estaria curada dos ferimentos que sofrera. Mas, por dentro, as cicatrizes permaneciam. Ela evitava pensar. O que vivera foi terrível, uma noite de terror.
Qual fora seu alívio ao reencontrar Margot. A irmã saíra ilesa, mas parecera preocupada ao ver Jenny no hospital, com os rosto inchado e hematomas pelo corpo.
Jenny ficara feliz até mesmo por reencontrar sua mãe e o amuado padrasto. Eles também estavam bem. A mesma sorte não tivera dois dos seguranças, que morreram na troca de tiros com os bandidos.
Lyanna Smith, de algum modo, sobrevivera. Mas, estava entre a vida e a morte. A esperança de todos era que ela resistisse. Lyanna tinha a resposta. Ela sabia quem estava por trás de tudo aquilo. Lyanna sabia e, se sobrevivesse, aquele pesadelo poderia chegar ao fim.
Jenny lavou as mãos na pia do banheiro. Deu mais uma olhada para seu reflexo no espelho. Afastou os cabelos da testa, analisando a fina cicatriz. Esta pertencia a Jenny, nenhum cirurgião plástico a tiraria dela. O corte fora profundo e ela o ganhara quando o homem que tentava sufocar Sam a jogara para longe. Sua cabeça batera com tanta força que ela viu tudo girar. Quando conseguiu visualizar algo novamente, o homem já estava morto. A cena a chocara totalmente. Naquele momento, ela não conseguiu entender porque Sam fizera aquilo. Não a sua Sam, uma pessoa capaz de atos singelos. Mas, não podia esquecer que aquilo era o que Sam fazia. Ela matava pessoas. Pessoas más como aquele homem. Demorara dias para Jenny finalmente entender isso. Mas, algo a havia afetado tão profundamente que ela ainda não conseguia encarar Sam.
Estava sendo injusta, sabia disso. Sam fizera todo o possível para salvar sua vida. A frieza com que a tratava nos últimos dias doía também nela. Sentia-se incapaz de fazer algo. Embora, soubesse em seu íntimo que precisava fazer alguma coisa com urgência, antes que afastasse Sam definitivamente. E não era isso o que ela queria.
Jenny estava distraída quando ouviu o toque na porta. Já se adaptara àquela sonoridade. Mesmo sem saber como agir, ela abriu a porta. Timidamente, encarou Sam. O rosto da mulher estava indecifrável.
-- Precisamos ir -- Disse a guarda-costas com a voz firme.
Jenny assentiu. E foi pegar sua mala. Mas foi interrompida por Sam.
-- Eu levo -- Anunciou Sam, sem dar a mínima possibilidade de Jenny protestar.
A garota a seguiu, fechando a porta do quarto de hotel atrás de si. Estavam lá a apenas dois dias. Mas a segurança optou por levá-los a um novo lugar. Jenny estava curiosa para saber aonde iriam, mas não teve coragem de perguntar.
Na garagem, Jenny encontrou a irmã, sua mãe e o padrasto. Eles também iriam com ela para um lugar seguro. Após a invasão da mansão, a garota desconfiava se existia nesse mundo um lugar que fosse realmente seguro. A determinação dos sequestradores em pôr as mãos nela era assustadora. Jenny ainda se perguntava o que fizera para alguém odiá-la tanto.
A cantora seguiu em um dos carros com Margot no colo. Ela sentou no banco de trás enquanto Sam dirigia. J.D., um dos seguranças era seu copiloto. Em outro carro, Lorena ia ao lado do marido e mais três seguranças. A mãe de Jenny não pareceu nem um pouco incomodada com todos aqueles homens à sua volta. Ao constatar a empolgação da mãe quando subiu no carro, Jenny balançou a cabeça, incrédula. Nesse momento, seu olhar cruzou com o de Sam pelo retrovisor. Por instantes, elas se olharam com cumplicidade. Mas, logo Sam desviou o olhar e deu a partida no carro.
Meia-hora depois, chegaram ao aeroporto.
Jenny se surpreendeu quando ela e a família seguiram para o embarque sem os outros seguranças.
-- Eles seguem em outro voo? -- Perguntou Jenny, dirigindo-se a Sam.
-- Não, eles não vão com a gente.
A garota olhou para Sam com uma expressão interrogativa, mas ao ver a seriedade exacerbada da guarda-costas, ela não teve coragem para perguntar mais nada. Não fazia sentido exigir que Sam revelasse seus planos para ela, quando ambas mal trocavam palavra nos últimos dias. O melhor seria esperar.
O voo durou cerca de três horas. Margot estava animada. A pequena adorava voar. Lorena, no entanto, estava apavorada. E para afastar o medo, ela tagarelava sem parar e fazia exigências absurdas às aeromoças. “Pobres coitadas”, pensou Jenny. Uma vez alvos dos caprichos de Lorena Montenegro, era difícil sair de suas garras.
Não tiveram nenhum incidente, exceto quando uma garota tentou se aproximou de Jenny, reconhecendo-a como a grande cantora pop. Ela foi simpática com a garota, mas Sam, que sentava na poltrona ao lado da cantora, como um cão de guarda, fora rápida em pedir para a fã se afastar.
-- Podia ter sido mais educada com a menina -- Murmurou Jenny, a raiva contida.
Sam não respondeu. E as duas continuaram a não trocar palavra.
Quando chegaram, Jenny viu-se no aeroporto da capital de um estado do nordeste do país. Já fizera muitos shows ali e adorava a recepção que recebia das pessoas de lá.
Sam as guiou até o estacionamento. Dois carros esperavam por eles.
A guarda-costas cumprimentou um homem de meia-idade.
-- Algum imprevisto? -- Perguntou Sam ao homem.
-- Não, senhorita Sanches, tudo às mil maravilhas.
Sanches?, perguntou-se Jenny.
Em seguida, Sam pediu para todos subirem no carro com o desconhecido. A mãe de Jenny protestou, dizendo que de modo algum entraria num carro com um total estranho.
-- Ele não é um estranho. Este é Pedro, um homem que conhece muito bem essa região. Trabalha como motorista há quase trinta anos. Vocês nunca verão um motorista mais hábil quanto ele em todo o mundo.
Apesar do discurso esclarecedor de Sam, Lorena Montenegro não pareceu convencida. A guarda-costas que estivera controlada até então, dirigiu-se a mulher mais velha:
-- Senhora Montenegro, pode entrar nesse carro agora ou se preferir pode ficar aqui. A escolha é sua.
Lorena ficou indignada. Quando ia rebater foi interrompida pelo marido que, enfim, decidiu tomar alguma atitude e convenceu a esposa a subir no carro.
-- Você vem comigo -- Sentenciou Sam, dirigindo-se a Jenny.
-- Não quero me separar de Margot -- Disse Jenny, olhando desolada para o carro que a irmã subira.
-- Para você, eu não dou escolha. Apenas uma que é entrar naquele carro comigo.
Jenny não parecia acreditar no tom de voz com que Sam lhe falara. Era dominador, exigente e tinha algo mais que de início ela não conseguiu identificar. Resignada, subiu no carro que Sam lhe indicara. Alguns meses atrás quando elas se conheceram, Jenny nunca entraria naquele carro, pelo menos, não sem fazer um escândalo. Mas, as coisas haviam mudado. Ela se sentia diferente. E Sam parecia diferente também, como se sua atitude para com Jenny fosse uma resposta à frieza com que ela a vinha tratando. Se fosse assim, Jenny não podia culpá-la.
***
O tempo todo, Jenny visualizou a estrada pela janela do carro. Em alguns pontos, o solo era seco. Em outros trechos, havia árvores, mas a folhagem raramente era verde. Jenny sentiu-se um pouco melancólica observando aquela paisagem.
Parece morta, falou ela.
-- O que disse? -- Perguntou Sam.
-- Desculpe, não era para ter dito em voz alta.
Sam continuou prestando atenção à estrada. Enquanto Jenny ainda refletia sobre a paisagem. Viva ou morta. Como os seres humanos. Como ela mesma até alguns meses atrás. Não sabia quanto sua vida era vazia. Até então achava que precisava viver para desfrutar de momentos de luxo e futilidades. Carros, mansões, bebidas caras. Agora que lutara por sua vida, tentava dar um sentido a ela. Mas, mesmo que não o encontrasse, já era o suficiente saber que o instinto de preservação era forte nela. Lutara pela vida porque simplesmente fazia parte de sua natureza. Encontrara forças em algum lugar.
Mas algo que ia contra esse mesmo instinto de preservação emergiu nela ao ver aquele homem tentando machucar Sam. Não pensou em si mesma. Não importava se ia viver ou morrer. Só não suportaria que algo de ruim acontecesse a Sam.
Consciente disso, Jenny pareceu despertar de algum tipo de sonho. A paisagem a hipnotizara, mas agora seus olhos finalmente flutuaram para outro lugar: Para Sam e ali permaneceram.
-- Algum problema? -- Perguntou Sam, após um tempo sendo observada.
-- Não. Não é um problema. De fato, problema nenhum.
Sam pareceu confusa. Continuou a dirigir, mas o modo com que Jenny a olhava a deixou curiosa.
-- Tem certeza que está bem?
-- Por que fez questão que eu viesse no carro com você? -- Perguntou Jenny, respondendo à pergunta de Sam com outra pergunta.
-- Porque você é meu trabalho, garota -- Disse Sam, carrancuda.
Jenny não pareceu ofendida por ser chamada de “trabalho”.
-- Onde estamos indo?
-- Para um lugar em que você e sua família estejam seguros até tudo isso acabar.
Sam estava sendo vaga novamente. Jenny decidiu manter-se calada o resto da viagem. Se ficasse observando Sam daquela maneira, ela poderia distraí-la. A garota recostou a cabeça no assento. Logo ferrou no sono, aquele balanço sempre a fazia cambalear. Só acordou quando chegaram ao destino.
Jenny saiu do carro, espreguiçando os músculos rígidos após permanecer muito tempo na mesma posição. Olhou curiosa ao redor. Pareciam estar numa região serrana. Estava frio, em contraste com o calor que sentira o dia inteiro.
-- Este é o sítio dos Sanches -- Informou Pedro, o motorista, ante a curiosidade da garota.
-- Sanches? -- Repetiu Jenny -- Foi como chamou Sam.
-- Sim, este sítio é da família da senhorita Sanches.
“Da família de Sam”, pensou Jenny, surpresa. “E Sanches era seu verdadeiro sobrenome”.
Já haviam passado do portão e estacionado em frente a uma propriedade. Jenny observou quando Sam bateu à porta da frente da casa.
Um rapaz alto, de cabelo pretos e barba rala apareceu. Ele e Sam deram um abraço rápido, mais firme e ficaram se analisando por longos segundos. Depois disso, Sam levou o rapaz até Jenny e sua família e o apresentou.
-- Este é meu irmão mais novo, Danilo Sanches.
O queixo de Jenny caiu. Irmão? Sam tinha um irmão. Pelo visto, as surpresas do dia ainda não haviam acabado.
O rapaz cumprimentou a todos, era um pouco desajeitado, mas tinha um charme que conquistou os recém-chegados. Jenny sabia que magnetismo era aquele. Era o mesmo que Sam exercia sobre ela.
-- E o Júnior? Onde está? -- Perguntou Sam ao irmão.
-- Ele foi à cidade fazer compras quando soube que tínhamos hóspedes. Você sabe como é o Juninho.
Jenny reparou no sotaque carregado do irmão de Sam. Se um dia Sam tivera o mesmo sotaque já o perdera há muito tempo, pois não havia resquícios dele. Ficou curiosa sobre quem seria o tal Júnior.
-- Só espero que ele não venha carregado de bebidas -- Comentou Sam.
-- Não precisa, o estoque dele tá cheio -- Informou Danilo, divertido. Ele e Sam riram juntos.
Um homem de cabelos grisalhos adentrou pelo portão, trazia uma espingarda nas mãos e andava a passos rápidos. Quando os alcançou lançou um olhar inquiridor a todos, deu boa tarde e seguiu seu caminho.
-- Papai sempre tão educado -- Comentou Danilo.
-- Deixa o velho, ele é assim mesmo -- Disse Sam, sem se abalar.
Jenny estranhou o modo com que aquele senhor, que provavelmente era o pai de Sam, tratou a todos.
-- Danilo, por favor, mostre as acomodações a nossos hospedes.
O irmão de Sam se prontificou em fazer o que lhe foi pedido. Lorena Montenegro mais uma vez protestou, dizendo que não ficaria ali cercada de tanto mato, longe da civilização. O marido mais uma vez tomara a atitude de confrontar a esposa. Parecia estar ficando bom nisso. Assim, Lorena, o marido e a pequena Margot entraram na casa acompanhando o irmão de Sam.
-- Espera, Jenny. Você vem comigo -- Disse Sam.
-- Deixa eu adivinhar, não tenho escolha.
Jenny podia jurar ter visto um sorriso no canto dos lábios de Sam. Em silêncio, ela seguiu a guarda-costas. Ainda era tão irreal conhecer a família de Sam. Ela nunca falara nada antes. Como Jenny podia adivinhar que eles existiam? Mas, lhe incomodou o fato de a mãe de Sam não ter sido mencionada. Receou perguntar, quem sabe ela já houvesse falecido e Sam se sentisse triste com isso. Havia também a possibilidade de os pais dela serem separados. Nesse caso, também podia existir sofrimento. Mais uma vez, decidiu permanecer calada, no momento certo, ela saberia.
Seguiu Sam por uma trilha em meio ao mato que ficava nos fundos do sítio. Haviam andado por cerca de dez minutos quando Jenny avistou uma casa entre árvores. “Uma casa isolada”, pensou ela.
-- Quem mora aqui? -- Jenny quis saber.
-- Esta é minha casa, Jenny -- Revelou Sam.
De repente, Jenny se sentiu estranhamente excitada. Logo adentraram a casa e o que a viu a surpreendeu. Era extremamente organizada. Havia alguns móveis antigos, mas bem conservados. Quando ela adentrou no que parecia ser o escritório de Sam, no entanto, se deparou com equipamentos eletrônicos de última geração que devia ter custado uma fortuna. Nas paredes havia algumas armas penduradas, revolveres, espadas, facas. Qualquer coisa que pudesse ferir alguém. Em outra parede havia estantes com vários livros. Jenny se aproximou e observou com interesse os títulos. Muitos livros eram sobre investigações criminais, outros, de Direito e Psicologia. Mas, também havia ficção. Era uma coleção bem diversificada. Jenny deslizou a ponta dos dedos pelas brochuras dos livros até parar em um volume aleatório e folheá-lo.
Logo Sam pôs-se ao seu lado e devolveu o livro ao lugar de origem.
-- Mania de organização, Sam?
A guarda-costas pareceu envergonhada. E confessou:
-- Estou trabalhado nisso.
Jenny demonstrou compreender. Sam decidiu mostrá-la o quarto. Havia uma cama espaçosa, de casal. A garota se surpreendeu ao ver suas malas ao lado da cama. Como haviam chegado ali tão rápido?
-- Pedro -- Disse Sam, adivinhando os pensamentos da garota.
-- E por que as trouxe para cá. Este não é seu quarto?
-- Sim, pensei que poderia ficar aqui. Poderíamos dividir a cama, se não se importar. Caso incomode posso dormir no chão...
-- Não, não me incomodo -- Respondeu Jenny, com um sorriso.
Sam pareceu surpreendida com a resposta da garota. Jenny viu-a travar uma luta interna, decidiu facilitar para ela.
-- Sam, vá direto ao ponto.
A guarda-costas respirou fundo, antes de falar:
-- Você está agindo diferente desde que deixamos o hotel. O que mudou? Não me odeia mais?
-- Odiar? Eu não odeio você, Sam -- Suspirou Jenny, cansada -- Eu realmente dei essa impressão?
-- Depois do que me viu fazer, não a culparia se me odiasse -- Respondeu Sam, com amargura -- Eu lhe dei pesadelos, Jenny.
-- Não é verdade, você salvou minha vida.
-- Eu poderia tê-lo detido de outro modo, Jenny. Tive segundos para decidir o que fazer e eu decidi ser cruel. E sabe o que é pior? Eu não me arrependo, quando penso no que aquele canalha queria fazer com você...
Sam fechou o punho com força.
-- Graças a você, ele não fez, Sam. Nunca mais poderá fazer mal a ninguém. -- Disse Jenny, com a voz suave -- Eu demorei em entender tudo isso. Nunca estive numa situação assim. Eu só quero pedir que me perdoe, Sam.
-- Perdoar? -- Perguntou Sam, confusa -- Jenny, eu não tenho nada para perdoar você.
-- Mas, eu tratei-a com desprezo...
-- Eu mereci, Jenny.
-- Não, não mereceu -- Falou a garota, segurando a mão de Sam. Surpreendeu-se ao senti-la, não tinha o calor de antes. Estava fria.
Sam apertou as mãos de Jenny entre as suas. Só então percebeu o quanto precisava desesperadamente daquele toque.
-- Vem cá -- Disse Jenny, conduzindo Sam até a cama.
A garota deitou na cama, com Sam ao seu lado. Surpreendeu-se com a maciez da cama. Ela acariciou o rosto de Sam, antes de colar seus lábios ao dela, apenas de leve. Só então Jenny sentiu-se livre do peso que vinha carregando. Fora um longo processo até enfim poder aconchegar-se aos braços de sua Sam novamente. Um longo caminho percorrido até finalmente entender que estava amando e que precisava amar, antes que o tempo delas se esvaísse.
Fim do capítulo
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