Atenção! Este capítulo contém temas sensíveis como palavras de baixo calão, violência, tentativa de estupro e assassinato.
Capítulo 15 - Born To Kill
Jenny corria às cegas.
A garota não conseguia pensar direito, foi o reflexo da luz da lua na água que a fez parar abruptamente à beira da piscina. Não ouvia mais disparos, apenas o som de seu coração acelerado.
Quase deu um salto quando Sam segurou seu braço com firmeza.
-- Você está bem?
Era a pergunta que Sam sempre lhe fazia. Dessa vez, sua voz soou mais preocupada. Era óbvio que ela não estava bem. Havia pessoas morrendo à sua volta.
-- Ly-Lyanna... -- Sussurrou Jenny.
-- Não há nada possamos fazer por ela agora, Jenny -- Disse Sam -- Precisamos continuar.
Antes que dessem algum passo para sair dali, um homem surgiu vindo da escuridão. Instintivamente, Sam procurou sua arma na cintura, até se dá conta que não estava com ela já que Smith havia mandado soltá-la. Em meio ao tiroteio, Sam não pode recuperá-la.
-- Fiquem onde estão -- Disse o homem apontando uma AK 47 para elas -- Ponham as mãos onde eu possa ver.
Elas obedeceram, elevando as mãos acima da cabeça.
-- Fique calma, Jenny -- Sussurrou Sam para a garota que tinha as mãos trêmulas.
Outro homem surgiu e segurou Jenny, prendendo seus braços atrás das costas.
-- Vou levar o pacote -- Disse o homem que segurava a garota -- Apague a outra.
-- Não! Sam! -- Gritou Jenny, desesperada, debatendo-se no braço do homem.
Impaciente, o homem deu um soco com força no rosto de Jenny, fazendo-a cambalear.
-- Você vai pagar por isso -- Disse Sam, entredentes.
Jenny sentiu o líquido quente escorrendo pelo rosto. Sua vista estava turvada e ela não conseguiu esboçar reação quando o homem a levou. Queria fazer algo, mas seu corpo não obedecia sua mente. O mundo era uma confusão de sensações, até sua consciência se apagar aos poucos e a escuridão tomar conta de tudo.
***
Sam observou com frieza o homem corpulento levar Jenny para longe. Ele havia batido nela com força. Aquilo despertou todos seus demônios. Sentia a adrenalina percorrendo seu corpo. Uma fúria desenfreada tomou conta dela. Quando o homem se aproximou, foi surpreendido pelo ataque de Sam. A arma dele voou para longe. Ambos caíram na piscina, travando uma brutal luta de corpo.
O homem pesava bem mais que Sam e tentava impor vantagem sobre ela. Mas, Sam estava em seu habitat natural, embaixo d´água. Conseguiu subjugar o homem puxando-o para o fundo. Ele lutava desesperadamente para subir a superfície e respirar, mas a mulher o segurava com força. Sam tentava manter a calma, poupando o fôlego. Quanto mais o homem se desesperava, mais seus pulmões necessitavam de ar.
Ele ainda aguentou um tempo, antes de seus braços pararem de se debater na água e cessarem qualquer movimento. Quando constatou a vida abandoná-lo, Sam o largou, retornando à superfície.
Deixou o ar da noite encher seus pulmões, depois saiu da piscina. Sam retirou o colete a prova de balas. Encharcado, pesava mais que o normal. Com a água pingando de seu corpo, Sam buscou pela arma do homem que havia sido arremessada para longe quando ela jogou se corpo em direção ao dele. Era uma AK 47, armamento pesado. Aqueles caras não estavam para brincadeira. Ela também não. E eles estava prestes a descobrir isso.
***
Jenny abriu os olhos, lentamente. Sentia uma pontada forte na cabeça, uma dor que quase a cegava. Seu rosto também estava dolorido. Ela demorou para olhar em volta, viu alguns carros à sua frente. Devia estar na garagem da mansão.
Tentou se mexer, mas seus pés e mãos estavam atados. “Sam”, onde estava Sam? Ela não poderia estar morta, não Sam. Ela era forte. Viria salvá-la, tinha certeza. Jenny tentou manter-se confiante, mas sua situação era desesperadora.
“Fique calma, Jenny”. As palavras de Sam vieram em sua mente. Tentou lembrar-se dos ensinamentos dela, mas era difícil manter o sangue frio. Lentamente, pôs-se de pé. Tateou em busca de um objeto pontiagudo para livrar-se das amarras. Do lado oposto da garagem, Jenny avistou diversas ferramentas penduradas em estantes. A garagem era ampla e espaçosa, havia uns dez carros enfileirados. Levaria uma eternidade para a garota chegar ao outro lado, mesmo assim ela tentou, tropeçando diversas vezes.
Já havia percorrido boa parte do caminho quando ouviu a porta da garagem ser aberta, ouviu vozes altas e firmes.
Respirando fundo, Jenny deitou-se no chão e rolou para baixo de um dos carros. Lutou para não emitir nenhum som.
-- Onde está a vadiazinha? -- Interpelou uma voz masculina.
-- Ela está aqui em algum lugar -- Respondeu o outro homem -- Vamos procurá-la.
-- Espero que não a tenha deixado fugir, seu idiota. Essa pirralha vale milhões.
-- Relaxa, cara. Ela tá amarrada.
Os homens começaram a procurá-la por todos os lugares enquanto faziam piadas cruéis.
Jenny observava com terror as botas dos homens enquanto eles caminhavam próximos a ela. Já sabiam onde ela estava, mesmo assim faziam questão de brincar com ela.
Quando finalmente cansaram do jogo de gato e rato, um homem mal encarado, arrancou a garota para fora de seu esconderijo.
-- Pensa que nos engana, piranha -- Falou ele, próximo ao rosto apavorado da garota. Ela sentiu o mau hálito exalado de sua boca fétida -- Sabia que você não é de se jogar fora...
-- Vai com calma, Carlão. Precisamos entregá-la intacta ou não teremos nosso dinheiro.
-- Cala a boca, idiota. Não fui eu que quebrei o nariz da vadia.
O outro homem que parecia bem mais jovem que o tal Carlão, explicou-se:
-- Ela estava gritando e se debatendo. Precisava deixá-la quietinha.
-- Não se preocupe, quando eu acabar com ela, vai ficar bem calminha...
O homem olhou com cobiça para o corpo de Jenny. A garota estremeceu.
-- Qual é, Carlão. Vamos embora daqui, a polícia está vindo.
-- Serei rápido, seu idiota. Vá vigiar a porta!
-- Mas, Carlão...
O homem carrancudo lançou um olhar mortal ao jovem que o obedeceu, mesmo contrariado.
-- Agora, somos só eu e você...
-- Seu nojento, desgraçado, fedorento...
Jenny gritava impropérios enquanto lutava com todas suas forças para se desvencilhar dos braços do homem.
-- É melhor parar de gritar se não quiser levar mais um soco.
-- Prefiro apanhar do que deixar que um nojento como você me toque.
-- Eu sei que tipo de vagabunda é você. Fica por aí se exibindo de roupa curta. Provocando...
A garota tentou mais uma vez lutar contra o homem, mas ele era mais forte. Ela viu com horror, ele baixar as calças e logo em seguida tentar rasgar a roupa dela. “Isso não pode estar acontecendo”, pensou ela, enquanto ainda tentava buscar forças para reagir.
Ela já estava quase se entregando ao desespero quando tiros ecoaram muito próximo a eles.
“Sam”, Jenny pensou, esperançosa. Tinha que ser ela.
-- Que diabos! -- Disse o homem, tentando erguer novamente as calças. Jenny aproveitou sua distração para tentar fugir.
O homem a alcançou. E eles lutaram novamente.
-- Solte-a!
O homem ergueu os olhos para a mulher que apontava a arma para ele.
-- Tudo bem -- Disse ele, com cautela.
-- Sei que tem uma arma, largue-a no chão -- Exigiu Sam.
Derrotado, o homem tirou uma arma do bolso e a jogou aos pés da guarda-costas.
-- Venha até mim, Jenny -- Chamou Sam, com firmeza.
A garota que ainda tinha os pés amarrados, andou com dificuldades até Sam. O homem aproveitou o momento para tentar fugir. Sam ainda atirou em sua direção, não o acertando por pouco.
A guarda-costas voltou sua atenção a Jenny e a desamarrou. Apertou-a forte em seus braços e sentiu-a tremendo.
-- Ele fez algo, Jenny. Ele tocou em você? -- Perguntou Sam.
-- Não. Você chegou a tempo Sam. Eu sabia que viria.
Sam suspirou aliviada.
-- Calma, está tudo bem agora -- Disse ela, encarando os grandes olhos marejados de Jenny -- Não posso deixar esse desgraçado fugir.
Jenny não queria se desprender dos braços de Sam, mas assentiu.
-- Você consegue andar?
Ela fez que sim com a cabeça. Sam caminhou na frente olhando para os lados à procura do homem. A garagem era assustadoramente grande e parte dela estava escura. O homem poderia ainda estar ali. Sam sabia que ele não ia desistir de Jenny. Ela era o principal objetivo da missão. Embora, tenha se rendido a instintos perversos e tentado se aproveitar da fragilidade da garota. Havia cometido um grande erro. Era um tipo perigoso que utilizava a superioridade de sua força para obter poder sobre o outro.
Sam conduzia Jenny que estava machucada, quando de repente, faróis de um carro se acenderam em direção a elas, cegando-as. Sam só teve tempo para empurrar Jenny para longe antes de o carro atingi-las. Ela bateu com força contra a parede, sentindo uma dor intensa resultante da pancada.
O desgraçado havia jogado o carro em direção a elas. Sam tentou colocar-se de pé. Sua arma já não estava mais com ela. Logo o homem se aproximou, Sam ainda conseguiu livrar-se do primeiro golpe que ele desferiu, mas o segundo atingiu em cheio seu maxilar.
Ela cuspiu sangue da boca. Sem perder tempo, Sam avançou sobre ele, jogando-o ao chão. Ele era forte e ela estava machucada. Sam não tinha condições de vencer uma luta corporal com ele, precisava ganhar tempo e encontrar algo que pudesse feri-lo. Mas ao travarem a luta no chão o homem ficou sobre ela e tentou estrangulá-la. Sam arranhava seus braços, mas era inútil, tateou em busca de algo com que pudesse bater nele, mas não encontrou. Continuou resistindo, embora as mãos dele envolvessem seu pescoço com força. Não era a primeira vez que ela encontrava-se numa situação assim. Tinha que manter a calma e continuar lutando.
Sua chance veio com a intervenção de Jenny. A garota pulou sobre o homem tentando fazê-lo soltar Sam. A guarda-costas aproveitou a oportunidade para escapar dos braços dele.
O homem livrou-se da garota jogando-a para longe.
-- Sua vadia, vagabunda... -- Bradava ele, cuspindo impropérios a Jenny.
Sam estava próximo aos armários de ferramentas, ainda teve tempo de escolher uma, antes de o homem voltar-se novamente contra ela. Foram suas agressões a Jenny que a fizeram não ter piedade.
-- Depois eu cuido de comer aquela vagabunda -- Disse o homem, com desprezo -- Primeiro eu vou cuidar de você, Samantha Kane.
-- Você sabe meu nome -- Disse Sam, irônica -- Então sabe que se meteu com a pessoa errada...
Quando o homem avançou novamente contra Sam, ela deu um passo para trás antes de revelar o que tinha em mãos. Era uma chave de fenda que com um golpe certeiro atingiu o pescoço dele, esguichando sangue para todos os lados. A cena era aterrorizante. Quando o homem caiu no chão já estava morto.
Sangue havia espirrado em Sam. Deixando-a com uma aparência assustadora.
Jenny estava sentada em um canto observando a cena em estado de choque. Sam ao vê-la assim, tentou aproximar-se dela, mas foi repelida.
-- Não encosta em mim! -- Gritou ela, nervosa. Sem conseguir encarar Sam.
Sam observou a garota vomitar, ela estava pálida. Havia sangue seco em seu rosto e suas roupas estavam rasgadas.
A guarda-costas limpou o sangue que estava sobre si mesma. Mas não poderia apagar da mente de Jenny a cena terrível que ela acabara de presenciar. Pegou uma lona de carro para cobrir o corpo do homem, que estava deitado sobre uma poça de seu próprio sangue.
Jenny continuava tremendo e soluçando descompassadamente.
-- Precisamos ir -- Informou Sam, escolhendo um dos carros da garagem.
Numa compreensão muda, Jenny obedeceu. Encolhendo-se no banco do carona. Em nenhum momento, ela encarou Sam.
A guarda-costas deu a partida no carro e avançou em alta velocidade pelos jardins. O portão de entrada havia sido derrubado e haviam estilhaços por toda parte. Provavelmente, a explosão que tinham ouvido mais cedo, viera dali.
Se haviam ainda pessoas na casa, não cabia a Sam investigar. Seu trabalho era proteger Jenny, levá-la dali em segurança. Ainda assim, achara que fizera mal seu trabalho. A garota estava machucada e traumatizada com a violência que havia presenciado. Agora, tinha visto do que Sam era capaz e parecia com medo dela.
Quando se encontrava a uma grande distância da mansão, Sam respirou aliviada. E dirigiu em direção ao hospital mais próximo. Observou como Jenny estava amuada, fitando o vazio. Sam entendia bem pelo que ela estava passando, lembrava a si mesma, há muitos anos atrás. Quando vira pela primeira vez alguém morrendo de maneira terrível. Uma visão que a assombrou muitas vezes em seus pesadelos e que provavelmente assombraria os de Jenny.
Fim do capítulo
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