Capítulo 13 - Awakening
Sempre há um preço pela verdade.
Durante dias Jenny tentou descobrir detalhes sobre o passado de Sam. Mas, como a guarda-costas detestava que investigassem sua vida, a garota decidiu perguntar diretamente a ela. Não havia conseguido muita coisa, Sam respondia a seus interrogatórios com monossílabos. Somado o que havia descoberto com as informações contidas no dossiê que Gouveia lhe deu, quase nada havia sido acrescentado.
Sam não deixou que os dias de Jenny na mansão fossem passados tranquilamente sob o sol à beira da piscina. Ela não teria sombra e água fresca. A guarda-costas decidiu treiná-la. A rotina começava às cinco da manhã, Sam invadia o quarto de Jenny arrancando-a da cama mesmo sob os protestos da garota. Após uma hora de corrida, Sam lhe ensinava defesa pessoal. Encerravam com as aulas práticas de tiro.
Jenny passava as tardes com a irmã. Pela noite, ela procurava Sam que sempre estava trabalhando na investigação. Mas, não deixava de ficar ao seu lado, mesmo que fosse para observá-la trabalhar. Ver sua confiança inabalável, transmitia segurança a Jenny. Mas, quanto mais o tempo passava, ela sentia-se mais distante de Sam. Não a guarda-costas, mas a mulher. A mulher pela qual admitira para si mesma que estava irreversivelmente apaixonada.
Uma noite ao adentrar o quarto de Sam, Jenny a encontrou ao telefone. Ela estava enfurecida e gritava com a pessoa do outro lado da linha. Jenny definitivamente não queria estar na pele daquela pessoa.
-- Algum problema, Sam? -- Perguntou Jenny, quando a guarda-costas desligou o telefone.
A mulher olhou para Jenny e respirou fundo.
-- Esses incompetentes. Não conseguem executar uma simples tarefa. Será que eu vou ter que ir lá e fazer tudo pessoalmente?
Jenny estranhou ver a tensão de Sam. Ela era sempre compenetrada em seu trabalho, não deixando pequenas coisas a abalarem.
-- Vai dá tudo certo -- Jenny disse para tentar acalmá-la, mas foi inútil, pois Sam pareceu ainda mais irritada.
-- Já estamos aqui há quase um mês, Jenny. E a investigação não saiu do lugar -- Falou ela, frustrada -- Só quero acabar com isso o mais rápido possível.
-- Não sabia que tinha tanta pressa assim para se livrar de mim, Sam -- Disse Jenny, decepcionada.
O rosto de Sam adquiriu uma expressão sombria, Jenny não fazia ideia do que se passava em sua mente.
-- Não foi isso o que eu disse, Jenny. -- Falou Sam.
-- Então, o que é? Não vá me dizer que a grande Samanta Kane não consegue fazer seu trabalho. Se não aguenta, desista, Sam. Vá embora, eu posso contratar até um exército para me proteger.
Jenny se arrependeu imediatamente do que havia dito. Mas, já era tarde demais. A guarda-costas não rebateu sua provocação, em vez disso deixou o quarto sem sequer olhar para a cantora.
***
Sam saiu em disparada até a cozinha e tomou vários copos de água. O lugar estava deserto àquela hora e ela agradeceu por isso. Jenny havia entendido tudo errado novamente, não sabia o que Sam sentia por ela e o quanto queria protege-la. Ela estava ficando cansada disso. Nos últimos dias, nada estava dando certo. O sentimento de impotência era o que mais a irritava. Não poder fazer nada, apenas esperar dia após dia. Ela já estava pronta, mas porque estava demorando tanto? Além disso, havia aquela descoberta que estava mexendo com seus nervos. Mas, que por enquanto ela guardara só para si.
Quando já se enchera de água suficiente, Sam decidiu voltar para o andar superior. Ao passar pela sala de jogos, ela ouviu música clássica. Olhou o relógio, passava das nove da noite. “Ela começou cedo hoje”, constatou Sam.
A senhora Montenegro estava sentada em uma poltrona com uma garrafa de Jack Daniel´s na mão. Vestia um robe de cetim preto sobre uma camisola que permitia que seus seios fartos saltassem para fora. Sam já havia presenciado a mesma cena por repetidas noites. Várias vezes pensou em verificar como ela estava, mas nunca o fez. Nessa noite ela não saberia dizer por que, mas sentiu necessidade de falar com a mãe de Jenny. Ela obviamente precisava de ajuda. As pessoas não se embebedavam noites seguidas apenas por diversão, às vezes era para afogar uma mágoa profunda. O fardo que Lorena Montenegro carregava era maior do que qualquer um poderia imaginar.
-- Boa noite, senhora Montenegro -- Disse Sam.
A mulher mais velha levantou o olhar para ver melhor a pessoa que invadira seu sossego, ou melhor, seu tormento.
-- Boa noite? Só se for para você. -- Falou a loira com amargura, levando a garrafa a boca, dando um gole tão rápido que a fez engasgar.
Sam imediatamente tentou ajuda-la. Com a proximidade, ela sentiu o hálito forte de álcool da mãe de Jenny.
-- Eu estou bem -- Disse Lorena -- Não precisa se preocupar comigo. Preocupe-se com Jenny. Ela que tem problemas.
-- Eu me preocupo demais com Jenny, senhora Montenegro -- Confessou Sam -- Aliás, é a única coisa com a qual me importo.
Lorena olhou para Sam com interesse.
-- Ela também hipnotizou você -- Constatou Lorena, com convicção -- Todos sempre se encantam por ela. Desde pequena, quando ainda estava no berço. Era a meninas dos olhos de Erick.
-- Erick Brooks. O pai de Jenny?
-- Jenny não lhe contou sobre ele? Estranho porque ela não fala sobre outra coisa. Tudo para ela sempre foi o pai. O grande herói.
-- Jenny sentiu muito a morte dele -- Comentou Sam.
-- Ela sempre o teve como o pai do ano. Que piada! Se ela soubesse quem realmente foi Erick. Que marido ele foi para mim, mas Jenny nunca me ouviu. Qualquer coisa que eu diga sobre o pai, ela acha que estou inventando para manchar a imagem dele. Então, eu desisti de tentar lhe contar a verdade. Não se conhece realmente alguém sem nunca ter convivido com ele e eu convivi com Erick durante longos e intermináveis anos.
A tristeza na voz de Lorena era evidente, ela estava rememorando lembranças que lhe eram desagradáveis.
-- Eu sei, senhora Montenegro sobre seu marido -- Revelou Sam, com cautela.
-- Sabe?
-- Eu li seu depoimento, vi os relatórios médicos, as fotos com os hematomas -- Explicou Sam --Você foi muito corajosa em denunciá-lo.
Lorena estava realmente surpresa.
-- Co-como conseguiu o depoimento? Eu pensei que eles tivessem sumido com isso como Erick pediu.
-- E realmente o fizeram, senhora Montenegro. Mas tudo o que é escondido deixa rastros. Meus contatos nos Estados Unidos tiveram muito trabalho para consegui-los. Desde o começo da investigação, eu os havia solicitado. Há alguns dias, finalmente os recebi.
-- Você os tem, senhorita Kane? Tem cópias desses arquivos.
-- Sim, eu os tenho digitalizados.
-- Então, talvez... talvez possamos mostrá-lo a Jenny -- Disse Lorena, empolgada -- Uma prova definitiva de que sempre falei a verdade.
-- Vamos com calma, senhora Montenegro. Não sei se esse é o momento mais propício para contarmos a verdade a Jenny.
-- Como não? Há anos ela devia saber sobre o pai.
-- Desde que recebi o arquivo, venho tentando encontrar um modo de contar a Jenny. Mas, fico pensando: Que bem fará a ela saber?
-- Você está errada -- Disse Lorena -- Não pode protegê-la da verdade.
-- Eu sei disso -- Reconheceu Sam, derrotada -- Venho tentando poupá-la de muita coisa e sei que estou errada, mas, mas...
-- Acho que você a ama -- Disse Lorena, deixando Sam sem palavras -- É por isso, mas não se culpe. Eu também já amei uma vez e fiz coisas estúpidas.
Lorena lançou a Sam um olhar de compaixão, como se amar alguém fosse algo digno de pena. Algo tão poderoso que pudesse nos destruir e nos fazer em pedaços. E talvez realmente fosse, concluiu Sam ao ver o que o amor havia feito a Lorena Montenegro. Por anos, Erick Brooks destruiu sua autoestima, quebrou muitos de seus ossos e deixou marcas tão profundas que eram invisíveis, mas estavam ali, tão evidentes que até um cego poderia ver. Mas, a única pessoa que não conseguia enxergar isso era a que mais importava.
-- Tudo bem. Contarei a verdade a Jenny -- Disse Sam, decidida -- Não se preocupe, senhora Montenegro.
-- Lorena. Pode me chamar pelo nome.
Após convencer a mãe de Jenny a deixar o uísque de lado e ir dormir. Só então, Sam retornou a seu quarto. Para sua surpresa, o encontrou revirado.
-- Jenny? -- Disse ela com cautela, para a garota que remexia suas coisas com fúria.
-- Onde está? -- Gritou Jenny -- Eu quero saber onde está? Por que escondeu de mim?
Em seu desespero, Jenny encostou-se a parede e escondeu seu rosto entre as mãos. Ela soluçava dolorosamente. Sam não aguentou vê-la assim e se aproximou de Jenny que não a deixou tocá-la.
-- Eu ouvi tudo -- Revelou a garota -- Fui procurar você para me desculpar e sem querer ouvi a conversa toda. É mentira, não é, Sam? Ela está mentindo, aquela vadia está mentindo...
-- Lamento, Jenny -- Disse Sam -- Mas, é a verdade.
Sam pegou um pen drive no bolso e o entregou a Jenny.
-- Está tudo aqui.
Jenny pegou o pequeno dispositivo com as mãos trêmulas. Seus olhos estavam marejados. Com as costas da mão, a garota limpou as lágrimas. Pediu o notebook de Sam e abriu o conteúdo do pen drive. A guarda-costas se manteve a distância e deixou-a assimilar tudo sozinha. Quando terminou, Jenny fechou o notebook e devolveu o pen drive a Sam.
-- Toma. Eu não quero nunca mais ter que ver isso.
-- Jenny...
-- Não precisa me consolar, Sam. Eu tô bem.
-- Você entendeu tudo o que está aqui? -- Disse Sam, segurando o pen drive com firmeza.
-- Claro, eu entendi que passei a vida toda acreditando numa mentira. Que meu pai era um cretino.
A garota tinha o olhar perdido. Aquilo partia o coração de Sam de um modo que ela não julgaria possível. Queria fazer com que toda aquela dor desaparecesse.
-- Sinto-me uma idiota por não ter percebido nada -- Continuou Jenny -- Eu não me lembro de ter visto minha mãe machucada. Para mim, ela sempre esteve ocupada demais com sua vida social.
-- Geralmente, nesses casos o agressor provoca machucados em locais que podem ser cobertos. Com certeza, Erick Brooks não ia querer que toda a sociedade visse sua esposa machucada.
-- Você fala de meu pai como se ele fosse um monstro... e pelo visto ele era -- Refletiu Jenny, segurando o choro -- Simplesmente não posso aceitar. Meu pai... meu pai não era esse homem, Sam. Para mim, ele nunca foi.
-- Jenny, você está em negação. Demorará até aceitar isso.
-- Para, Sam! Não me venha com sua psicologia.
-- Desculpe, Jenny. Mas, cedo ou tarde você terá que aceitar a verdade e se reconciliar com sua mãe.
-- Não, Sam. Você está errada -- Disse Jenny, contrariada.
Sam previu mais uma explosão de dor e ressentimento por parte da garota. Era inevitável.
-- Nada disso muda o fato de que minha mãe nunca me amou. Nunca me tratou com carinho ou a paciência e dedicação que uma mãe tem com um filho.
-- Você viu as fotos, Jenny -- Disse Sam, forçando a garota a encará-la -- Uma vez, ele perdeu o controle e bateu forte demais na cabeça dela. Lorena Montenegro teve traumatismo craniano. Tudo isso a afetou de um modo que nem podemos imaginar. Pense, Jenny. Dia após dia, ele a destruía. Enquanto você crescia forte e saudável, sendo poupada de toda a dor de sua mãe. Ela tinha que assistir Erick tratar sua filhinha como uma princesa ao mesmo tempo que temia que ele pudesse fazer o mesmo com você. Isso enlouquece qualquer um, Jenny. E adoeceu sua mãe.
Sam forçou Jenny a ouvir tudo. Quando acabou de falar, Sam não pode mais detê-la. A garota fugiu para seu quarto e trancou a porta. A guarda-costas respirou fundo, consciente de que não havia nada que pudesse fazer naquele momento a não ser deixá-la ir.
Durante dois dias inteiros, Jenny não saiu do quarto e mal tocou na comida que levavam para ela. Não queria encarar ninguém, principalmente sua mãe. Não sabia como olharia para ela novamente.
A pequena Margot parecia ansiosa pela companhia da irmã, enquanto ela esteve distante, Sam cuidou da garota. Leu histórias para ela e explicou que Jenny estava passando por um momento difícil. No terceiro dia, a guarda-costas nomeou Margot uma superagente e a convidou para uma missão.
As duas postaram-se em frente à porta fechada do quarto de Jenny. A pequena vestia roupa preta e óculos escuros assim como a guarda-costas da cantora.
Com delicadeza, Sam bateu a porta e disse:
-- Jenny, abra.
Um sonoro não foi ouvido.
-- Você ouviu Mamba-Negra? -- Sussurrou Sam para a pequena que assentiu -- Está na hora do resgate. Pronta?
Margot levantou o polegar em sinal positivo. A guarda-costas pediu para ela se distanciar. Sam então lançou seu corpo com força contra a porta, arrombando o trinco. Ela poderia fazer isso de modo mais sutil, abrindo a fechadura, mas achou que seria bem mais dramático e até divertido fazer daquele modo. Daria ao resgate um ar maior de importância, principalmente para Margot que estava disposta a qualquer coisa para ajudar a irmã.
Jenny que estava deitada na cama levantou de um salto sem acreditar no que estava vendo.
-- Mais que merd* é essa?
-- Olha o palavrão! -- Alertou Sam -- Tem crianças no recinto.
Jenny então viu a irmã vestida de modo idêntico ao de Sam.
-- Margot?
A pequena correu para os braços de Jenny.
-- Viemos resgatá-la -- Explicou Sam -- Parece que a missão foi um sucesso, Mamba-Negra.
A pequena foi até Sam e elas deram o aperto de mão secreto.
-- Mamba-Negra? -- Perguntou Jenny, sem entender.
-- É o codinome de Margot.
Jenny cruzou os braços sobre o peito.
-- E o seu por acaso é Boca de algodão?
-- Poderia ser -- Respondeu Sam, com bom humor -- Mas, na verdade, o meu é Cobra Californiana.
Jenny sorriu. Sam se sentiu vitoriosa ao conseguir arrancar um sorriso da garota. Ela a observou, Jenny estava de pijamas, com os cabelos desgrenhados e sem maquiagem. Seus olhos tinham olheiras e ela estava um pouco pálida.
-- Mamba-Negra, acho que temos outra missão -- Informou Sam, ajoelhando-se para ficar na altura dos olhos da pequena -- Acho que sua irmã não sabe o que é um banho há um bom tempo.
A cantora ficou tão envergonhada que suas bochechas coraram.
-- Está decidido, Mamba-Negra você pega pelas pernas e eu pelos braços.
-- Ei, pera. Vocês não podem...
Mas elas podiam. Sam teve sua vingança e pode jogar Jenny na banheira assim como ela havia feito. Margot se empolgou e também se jogou na água. Dessa vez, Sam se protegeu e não deixou Jenny jogá-la na banheira também, embora a cantora tenha tentando, puxando-a pela perna. Mas, a garota estava sem forças por ter passados os últimos dias comendo mal e sem fazer exercícios.
No final, elas se divertiram bastante. Jenny saiu do isolamento que havia se imposto. Sam não a deixaria mais tempo sentindo pena de si mesma. Já havia dito a Jenny diversas vezes que não existia coisa pior do que alguém que se lamentava o tempo todo. Como D. H. Lawrence disse: “Nunca vi algo selvagem ter pena de si mesmo, um pássaro cairá morto de um galho sem jamais ter sentido pena de si mesmo”.
Fim do capítulo
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