Capítulo 11 - Retrato de Família
Tiveram que dar adeus ao Belleville Hotel.
Depois do que aconteceu, Jenny não conseguia permanecer no lugar que lhe trazia a lembrança ruim do que acontecera a Kitty. Ela queria ir para outro hotel, mas sua segurança pessoal chegou à conclusão que o melhor seria ela retornar para casa. Esta era última coisa que Jenny Brooks queria na vida.
Todos os compromissos da cantora foram adiados. A turnê do novo álbum que estava programada para acontecer em algumas semanas foi cancelada, assim como outros shows da cantora e aparições em público. Gouveia precisou adiar alguns contratos e dá várias explicações aos seus sócios. Smith fez uma declaração oficial que causou comoção no país. Todos queriam saber da cantora. A assessora de imprensa declarou que a garota estava adoentada e que por recomendações médicas precisava descansar, mas que todos não se preocupassem que ela estava bem. Para acalmar os fãs mais fervorosos que expressavam suas preocupações nas redes sociais, Jenny precisou gravar um vídeo falando diretamente com seu público sobre seu estado de saúde. Isso acalmaria os ânimos durante um tempo.
***
A casa era uma mansão nos arredores da cidade. Possuía piscina, um jardim gigantesco e uma quadra de esportes. Era muito bem protegida, com muros altos e um sofisticado esquema de vigilância eletrônica que foi aprovado por Sam.
Quando Jenny chegou foi diretamente para seu quarto, evitando os membros de sua família. Sam se hospedou em um quarto de hóspedes próximo ao de Jenny.
Os empregados mantinham a rotina da casa, o almoço era sempre servido ao meio-dia. O padrasto de Jenny, Orlando Montenegro, era um homem alto e robusto. Seus cabelos já começavam a ralear. Tinha olhos profundos e um ar preocupado. Desde que se descobriu falido, ele passava a maior parte do dia trancado em seu quarto, no segundo andar da casa. Raramente saía. Costumava fazer suas refeições à mesa, sempre vestindo pijamas o que incomodava bastante sua esposa.
A mãe de Jenny, Lorena Montenegro, era uma mulher excêntrica. Fisicamente era quase idêntica a Jenny. Ainda era muito jovem e bonita, mas apesar de seus quarenta e poucos anos, vestia-se como uma adolescente. Tinha uma personalidade muito expansiva. Sam achou que ela não tivesse muita noção do que acontecia ao seu redor, talvez por isso a filha sempre a evitava.
A garotinha, Margot Montenegro, filha de Lorena e Orlando, tinha oito anos de idade e era um amor. Os olhos eram os mesmos de Jenny e de Lorena, o que demonstrava que as características genéticas da mãe eram predominantes em ambas às filhas.
Na hora do almoço, Jenny foi chamada a descer de seu quarto e se reunir aos outros à mesa. A garota relutou bastante, desafiando a mãe que precisou de muita paciência para persuadi-la. Na verdade, Sam teve que assistir à gritaria de Lorena à porta da garota para fazê-la sair de lá. Ela lembrou-se de Gouveia fazendo o mesmo no hotel o que não contrariava a máxima de que os hábitos de casa são levados à rua. Mas, dessa vez, Jenny não demorou muito a ceder. Queria mostrar a Sam que estava mais consciente e que não agiria como uma criança.
Quando Margot viu a irmã, sua boca se escancarou num gesto de admiração. Seus olhos não perdiam um movimento dela. Jenny não lembrava a última vez que vira a garota.
-- Vem cá, me dá um abraço!
Timidamente, a garota se aproximou de Jenny e a abraçou forte. Há cerca de dois anos, Margot havia deixado de falar. Tivera acompanhamento especializado, mas não se conseguiu detectar o motivo. O problema não era físico, o que levou a hipótese de algo emocional. Mesmo com sessões de terapia semanais, seu quadro não evoluíra.
A babá da garota a levou e o almoço dos adultos foi servido, Jenny convidou Sam a também sentar à mesa. Mas ela se recusou, explicando que comeria na cozinha.
-- Nada disso -- Jenny protestou, veementemente -- Essa casa é minha, e aqui você é minha convidada.
Apesar do constrangimento de Sam diante dos Montenegro, ela decidiu obedecer Jenny, para não contrariá-la.
A senhora Montenegro observou a guarda-costas com atenção.
-- Então, esta é a tal guarda-costas com quem você trocou amassos no elevador. Que atrevimento, Jenny, convidar sua amante para nossa mesa -- Alfinetou a mãe da garota, sem se importar se estava sendo indelicada.
Jenny riu, com ironia.
-- Já conheceu minha mãe, Sam? Ela não é mesmo uma lady.
-- Garota atrevida -- Disse Lorena referindo-se a filha, depois se dirigiu ao marido -- Lando, meu bem, me passa a salada.
O marido obedeceu. Durante todo o almoço, mãe e filha trocavam farpas. Orlando não dava atenção as duas, comia em silêncio, apenas com seus próprios pensamentos. Sam observava a dinâmica familiar de mãe e filha que era um desastre total, não à toa, Jenny não conhecia limites.
-- Então, por quanto tempo você pretende ficar conosco, Jenny? -- Perguntou Lorena a filha.
-- Espero que o mínimo possível -- Rebateu Jenny, antes de subir as escadas para o segundo andar.
Sam a seguiu. Quando chegou ao quarto, Jenny parecia prestes a chorar.
-- Desculpe, Sam. Por fazer você ter que presenciar isso. Mas, aquela mulher me enlouquece.
Naquele momento, Sam não tinha palavras para Jenny. Ela, então, fez algo que a garota não esperava, a abraçou. Sentindo-se totalmente envolvida pelos braços dela, Jenny pode chorar a dor que sempre carregava em seu peito.
-- Entende agora porque eu não queria voltar para cá? -- Disse Jenny, após um tempo -- Minha família é um caos. Depois que papai morreu, minha mãe ficou insuportável. Além do mais, ela mal esperou que ele fosse enterrado e já estava casada com aquele parasita.
-- Entendo -- Disse Sam -- Mas, você deve lembrar que tem uma irmãzinha adorável.
Jenny sorriu.
-- Sim, ela é. Sinto-me culpada por deixá-la aqui com eles.
-- Mas eles são os pais dela, Jenny.
-- Eu sei disso, Sam.
-- O que aconteceu a ela? -- Perguntou a guarda-costas.
-- Gostaria muito de saber. Margot era uma tagarela, um dia ela simplesmente parou de falar. Os médicos disseram que algo traumático aconteceu, eu não faço ideia do que foi. Naquela semana, eu não estava em casa. Quando voltei de viagem, ela já tinha parado de falar. Não lembro a última vez que ouvi sua voz.
-- Eu já vi isso acontecer algumas vezes -- Contou Sam -- Não só com crianças, mas também com companheiros que foram torturados.
Jenny refletiu um pouco sobre aquilo.
-- E você Sam, já foi torturada? -- Perguntou ela.
-- Sim. Isso já me aconteceu algumas vezes.
-- Sério? E você fala isso com essa tranquilidade toda.
A guarda-costas deu de ombros.
-- É meu trabalho, Jenny.
-- Claro, você vive sobre perigo constante -- Constatou a garota -- Sabe, quanto mais a conheço, descubro que sei muito pouco sobre você, Sam.
-- Há coisas sobre mim que é melhor você não saber -- Disse Sam, com seriedade.
-- Você me magoa falando assim.
-- Estou falando muito sério, Jenny -- Sam falou, amarga -- Se você soubesse algumas coisas sobre mim, iria preferir se afastar.
Jenny a olhou com profundidade, procurando identificar alguma emoção no rosto dela. Vendo-a com sua costumeira máscara de gelo, ela tentou atingi-la com sua sinceridade.
-- Eu não me importo, Sam. Não me importo com o seu passado ou com o que você fez contanto que esteja aqui, comigo.
As palavras da garota atingiram Sam em cheio.
-- Eu sou uma assassina, Jenny -- Disparou a guarda-costas -- Já perdi a conta de quantas pessoas já feri e de quantas já matei.
-- Sei disso, Sam. Faz parte do seu trabalho, não? Você protege pessoas de gente ruim. Aposto como todos mereceram.
Sam quase riu da ingenuidade da cantora.
-- Está enganada sobre mim. Um dia vai acabar descobrindo isso. Verá quem eu realmente sou e não vai gostar nada. Só então poderá descontruir essa imagem de heroína que você criou para mim.
-- Por que está fazendo isso, Sam? -- Disse Jenny, com tristeza -- Quer me afastar de vez, não? Assim será mais fácil para você quando tiver de ir embora. Então, vou facilitar, saia já do meu quarto.
Sam não demorou a obedecê-la. A garota bateu a porta com força, deixando bem claro sua insatisfação.
Odiava ter que fazer isso com Jenny, mas precisava começar a encarar a realidade. Tinha refletido muito sobre o que estava sentindo por ela e o melhor seria não criar expectativas sobre o futuro. Até mesmo porque para Sam ele nunca existiu. Além disso, cedo ou tarde, a garota conheceria a verdadeira Samanta Kane. E teria uma grande decepção.
Sam andou pelo corredor, lutando contra a vontade de dá meia volta e pedir desculpas a Jenny por querer afastá-la, quando ouviu uma música da cantora tocando. Vinha do quarto de Margot. Ela viu a porta entreaberta e espiou pela fresta. Depois, empurrou a porta aos poucos. A pequena estava sentada no chão assistindo a um videoclipe de Jenny na TV.
O quarto era todo decorado com pôsteres de Jenny Brooks. Havia também outros produtos com a marca da cantora. Sam ficou impressionada com a devoção da pequena com a irmã mais velha.
-- Posso assistir com você? -- Perguntou Sam, sentando ao lado de Margot.
Ela fez que sim com a cabeça. A pequena mal piscava olhando à TV. Durante um tempo, as duas assistiam com atenção, admirando o desempenho de Jenny.
-- Ela é demais, não? -- Comentou Sam.
A garota assentiu e segurou na mão de Sam. A guarda-costas sorriu para ela.
-- Aqueles desenhos são seus? -- Perguntou, observando algumas gravuras na parede -- Posso vê-los?
Mais uma vez, Margot balançou a cabeça. Depois, levou Sam pela mão para mostrar os seus desenhos a ela. Havia muitos de Jenny Brooks, com seus cabelos pintados de amarelo, segurando um microfone na mão. Outro retrato era da família reunida, a pequena com os pais e a irmã ao lado. Todos de mãos dadas. Sam achou comovente. Mas, o que realmente chamou sua atenção foi um desenho de um gato, todo retalhado e cercado de sangue.
Sam se ajoelhou para ficar na mesma altura da garota.
-- Margot, o que é isso? -- Perguntou ela, com a voz branda.
A pequena pegou um pequeno bloco de papel e escreveu:
“Kitty”
-- Você conhecia Kitty?
“Sim. Ela morreu”.
-- Quem contou a você sobre Kitty?
A garota não escreveu mais nada. Parecia assustada.
-- Calma, tá tudo bem -- Tranquilizou Sam, abraçando a pequena com carinho.
***
Jenny andava pelo quarto, impaciente. Ter voltado para casa era entediante, seu único conforto era ter Sam ao seu lado, mas a guarda-costas fazia questão de impor distância entre elas. “Que fosse”, Jenny desejou, “depois não volte aqui querendo mais beijos”.
A garota cruzou os braços. A quem estava enganando? Se Sam viesse correndo de volta para ela, lhe daria todos os beijos que ela quisesse.
Com esse pensamento, ela deitou de costas na cama e fitou o teto. “Ela vai voltar”, pensou com convicção. Não demorou a ouvir batidas apressadas na porta. “É ela”. Jenny levantou-se e foi até o espelho. Arrumou-se e ensaiou um ar de indiferença. Após mais batidas, ela abriu a porta.
-- O que quer? -- Ela foi logo dizendo a Sam.
A guarda-costas entrou no quarto como um foguete.
-- Ei, não pode entrar assim.
Sam ignorou o que ela dizia. Jenny percebeu que Sam estava apreensiva, o que a deixou preocupada.
-- Tem algo que você precisa ver -- Anunciou a recém-chegada.
Jenny pegou a folha das mãos de Sam. Em choque, ela analisou o desenho.
-- Não me diga que mandaram isso para me assustar?
-- Não, Jenny. Eu peguei o desenho no quarto de Margot.
-- Margot fez esse desenho, mas como? Oh, meu Deus... Como isso é possível, Sam?
-- Contou a ela sobre a morte de Kitty?
-- Não falei nada, Sam -- Disse Jenny -- A não ser que minha mãe tenha dito. Aquela desgraçada... Ela vai se ver comigo.
-- Espera, Jenny! -- Exclamou Sam, tentando abrandar a ira da cantora -- Podemos interrogar sua mãe mais tarde sobre isso. Há algo mais urgente agora que você precisa fazer.
-- O que?
-- Margot. Sua irmã. Ela é só uma criança. O que acha que ela sabe sobre a morte, Jenny?
-- Não sei, mas tenho certeza que minha mãe nunca falou sobre isso com ela. Eu tive que aprender da pior maneira quando papai morreu -- Jenny refletiu, lembrando com tristeza seu primeiro contato com a morte -- Tudo bem, Sam. Eu vou falar com ela.
-- Seja clara com a garota, Jenny -- Aconselhou Sam -- Crianças não são estúpidas, sabem muito bem quando mentem para elas.
-- Certo, serei franca com ela.
-- Jenny, só mais uma coisa -- Sam a deteve -- Andei observando Margot, ela simplesmente idolatra você. Não a decepcione.
-- Mais do que já a decepcionei, acho difícil -- Disse Jenny, com tristeza -- Mas, não se preocupe, farei o possível para confortá-la.
Jenny foi coroada com um sorriso espontâneo de Sam, como ela não costumava sorrir, aquele era um grande prêmio. Ela retribui o sorriso.
-- Sabe, você diz que eu me surpreenderia se a conhecesse mais, Sam. De certa forma, você tem razão. Eu não sabia até então o quanto você é sensível. Mas, vejo que sua preocupação com minha irmã é genuína. Isso me deixa muito contente.
A garota não esperou resposta. Deixou Sam no quarto e foi falar com Margot. Algo dentro de si borbulhava de felicidade com o cuidado de Sam com sua irmãzinha mais nova. Ao mesmo tempo não poderia ignorar o que Sam havia dito a ela. O que ela estaria escondendo? Um passado sombrio, talvez. Todos tinham esqueletos no armário. Quais seriam os de Sam?
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]