Capítulo 8 - Poker Face
Elas separaram-se assustadas. Sam checou o relógio. Já eram nove da manhã. Todos já deviam estar de pé àquela hora enlouquecidos com o sumiço da principal estrela daquele hotel.
Não com muita surpresa, Sam abriu a porta para Gouveia. Seu rosto nervoso estava vermelho, ele olhou para Sam, desconfiado. Depois lançou um olhar para Jenny, antes de dizer:
-- Jenny não deveria estar em seu quarto?
-- Eu a trouxe para cá, Gouveia, porque o quarto dela estava uma bagunça depois da festa -- Sam apressou-se em explicar.
-- Entendo -- Disse Gouveia, embora nada em seu rosto expressasse algum tipo de entendimento -- Jenny, poderia me deixar às sós com a senhorita Kane, há alguns assuntos que precisamos discutir com urgência.
-- Dan, se é sobre o caso eu posso ouvir. Sam me contou tudo -- Disse Jenny.
-- O que tenho para discutir com a senhorita Kane é um assunto particular, portanto sua presença não é requisitada aqui -- Falou Gouveia, com seriedade.
-- Ei, não precisa falar assim comigo! -- Protestou Jenny, magoada.
-- Você é que não irá mais falar assim comigo, garota. Vá para seu quarto, tome um banho e troque essa roupa -- Ordenou Gouveia, autoritário -- Você tem compromissos a cumprir, esqueceu?
-- Seu grosso! -- Rebateu Jenny, indignada.
Gouveia levou a mão à testa, impaciente. Sam decidiu intervir:
-- Jenny, faça o que o senhor Gouveia disse.
-- Mas, Sam. Não vou obedecer a esse grosso até que ele me peça desculpas.
-- Eu também preciso conversar com o senhor Gouveia, Jenny. Temos a assuntos a discutir.
Jenny ponderou o pedido de Sam, e disse:
-- Tudo bem, se vai ficar do lado dele. Eu tô sobrando, né?
A garota saiu do quarto sem olhar para Sam ou para seu empresário.
-- A mim ela nunca escutou. Mas, você parece exercer um grande poder sobre ela. -- Disse Gouveia, irônico.
-- O que está insinuando?
-- Não estou insinuando nada. Só vim aqui para dizer o quanto estou profundamente decepcionado com você, Samanta Kane.
Sam cruzou os braços. Recebeu as palavras duras do empresário com parcimônia, já esperava por elas.
-- As notícias correm mais rápido do que eu pensava -- Disse ela.
-- Você nem imagina.
-- Senhor Gouveia, garanto-lhe que o que aconteceu entre mim e Jenny não vai interferir no trabalho que estou fazendo.
-- Assim espero. Do contrário você estará na rua, não importa que seja a famosa Samanta Kane -- Ameaçou Gouveia.
Sam sabia que ele era um homem de aparência tranquila e meio medroso, vê-lo tão desafiador, fê-la ter certeza de que havia algo por trás de suas palavras:
-- Está com ciúmes, senhor Gouveia?
Ele começou a suar, ainda mais nervoso.
-- Isso é uma acusação muito séria, Kane. Não me faça de bobo, como me fez até agora. Seu trabalho é muito específico e não envolve levar sua cliente para cama.
-- Eu não levei Jenny para cama.
-- Engraçado porque no vídeo que eu vi vocês duas pareciam muito à vontade -- Acusou ele, displicente.
Sam se aproximou do homem e o encarou. Ele recuou, assustado.
-- Para um voyeur como você, Gouveia, deve ter sido uma diversão e tanto, não?
-- Você está brincando com fogo, Kane -- Disse ele, irado -- Não pense que eu não a demitiria...
-- Não acho que faria isso. Você está numa situação muito difícil, Gouveia. Não pense que eu não sei quantos contratos perderia se mais alguma coisa acontecer e ameaçar a vida de sua cliente. Sei o quanto está sendo pressionado depois do incidente com os carros.
-- Vejo que subestimei você, Samanta Kane. É pior do que imaginava.
-- Sou mesmo? Porque não sou eu que acha que Jenny Brooks é propriedade minha. Como andam seus sonhos, Daniel Gouveia? Por acaso, sonha que a garota um dia olhará para você de modo diferente?
Gouveia arregalou os olhos, chocado. Tentou balbuciar algo, mas não conseguiu. Para piorar sua situação, Sam aproximou-se dele, e murmurou:
-- Você achou mesmo que eu não sabia?
Sam esperou suas palavras fazerem o efeito desejado. Gouveia já suava por todos os poros e procurava algo em que se apoiar. Ele estava lidando com seu pior pesadelo, Sam sabia, mas não iria poupá-lo.
Enquanto Gouveia tentava recuperar o fôlego, a guarda-costas tirou um quadro da parede revelando um cofre digital embutido. Ela digitou a senha numérica e retirou uma das pastas que estavam dentro.
-- O que é isso? -- Gouveia perguntou, com temor.
-- Acho que você já sabe.
-- É um dossiê? Um dossiê sobre mim?
Sam pegou as fotos que estavam em anexo ao relatório e uma a uma foi jogando-as sobre o homem.
-- Um homem como você tem necessidades, não? Um grande empresário que nunca se casou. Todos têm segredos, Gouveia. No início, me perguntei quais seriam os seus. O que você escondia sobre essa aparência séria e profissional.
O homem parecia não acreditar no que ouvia. As fotos que tinha em mãos eram seu maior constrangimento. Sua intimidade em quartos de motéis.
-- Cada garota nessas fotos tem vinte e cinco anos. A mesma idade de Jenny. Lindas garotas louras de olhos azuis... Diga-me, Gouveia, é difícil encontrar garotas tão jovens, com o mesmo porte de Jenny Brooks? Você deve ter pagado uma nota preta.
-- Vadia! -- Disparou ele -- Você não tinha o direito...
-- De que? De fazer meu trabalho? Ou de descobrir o quanto você é doente -- Questionou Sam -- Sabe, essas garotas não esqueceram você. De seus fetiches.
-- Não tinha o direito -- Repetiu Gouveia, mas Sam o ignorava e continuou a fuzilá-lo com suas palavras.
-- Vocês as fazia se vestirem com roupas semelhantes às de Jenny. As fazia dançar como Jenny, enquanto as olhava. Você as levava para cama, mas nunca conseguiu ir até o fim com nenhuma delas porque quando você está lá, percebe que não é ela. Elas podem parecer com Jenny Brooks, se vestir como Jenny Brooks, mas não são Jenny Brooks.
-- Para! Você já conseguiu o que queria. Já conseguiu me humilhar.
-- Ainda não. Tem mais uma foto. Deixei essa por último, com certeza a mais interessante de todas...
Sam jogou a última foto no colo de Gouveia.
-- Como você vê, essa foto é de uma câmera de segurança que flagrou você roubando uma peça íntima de Jenny.
-- Pelo amor de Deus, você não pode mostrar isso a ninguém. Vai acabar com a minha vida. Diga-me o que quer, qualquer coisa, você terá.
Samanta já vira muitos homens chorarem, mas nunca com tanto desespero quanto Daniel Gouveia que chegou a se ajoelhar a seus pés.
-- Você é patético! -- Disse ela -- Vamos fique de pé, eu não vou acabar com a sua vida.
Gouveia conseguiu pôr-se de pé.
-- O que vai fazer?
-- Quero que você continue a fazer seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Quando tudo isso acabar, você irá se demitir e afastar-se de Jenny de uma vez. Se um dia tentar algo com ela, eu não ousarei em matá-lo. Tenho motivos mais do suficientes para isso.
-- O que vai fazer com as fotos? -- Perguntou Gouveia, com cautela.
-- Ficarão bem guardadas em um cofre como garantia que você pedirá demissão.
-- Vai contar a Jenny?
-- No momento certo ela saberá.
-- Por favor, não a deixe saber. Ela me odiará e não posso viver com ela me odiando...
-- Você procurou isso. Agora, saia daqui antes que eu mude de ideia.
Gouveia tentou se recompor e fugiu do quarto de Sam como o cão que foge da cruz.
Sam recolheu as fotos e voltou a guarda-las no cofre. Seus documentos mais reveladores eram guardados ali. Aquelas fotos lhe provocavam repulsa e ao mesmo tempo pena. Enquanto ele guardasse o segredo para si não havia perigo, mas Sam conhecia aquele tipo de obsessão que tendia a piorar. Cedo ou tarde, Daniel Gouveia tentaria reivindicar o direito que pensava possuir sobre Jenny. Por isso, Sam decidira intervir, jamais deixaria que fizessem mal a Jenny.
***
O Velho Lobo não demorou a solicitar uma reunião com Gouveia e Sam para discutir sobre o vídeo do elevador. Ainda mais tarde daquele mesmo dia, os três se encontraram a portas fechadas no salão de reuniões do hotel. Antunes exigiu a demissão de Sam, alegando que sua conduta era imoral e antiética. Ele parecia triunfante, mas sua empolgação durou pouco. Sam não precisou dizer nada. Foi Gouveia que conseguiu apagar o sorriso do homem.
-- Antunes, esse assunto está encerrado. Sam não será demitida, portanto, peço que esqueça o que aconteceu.
-- Esquecer? Você está louco, Daniel? -- Questionou Antunes, surpreso -- Você viu o vídeo. Essa mulher tem que ser punida. Ela não pode se envolver com sua cliente.
-- Antunes, Sam já concordou que esse “incidente” não acontecerá mais. Então, não há motivos para discutirmos mais sobre isso.
-- Mas, mas ela destruiu o meu carro!
-- Me processe, Antunes -- Desafiou Sam -- Agora chega dessa palhaçada, eu preciso trabalhar. Com licença, senhores.
Sam os deixou, ignorando a fúria do Velho lobo.
Não demorou muito a vingança de Antunes veio. O vídeo do elevador no qual Jenny Brooks beijava sua guarda-costas foi anonimamente jogado na rede. Em menos de um dia, a imprensa na frente do Belleville triplicou. Os telefones do estafe da cantora não paravam de tocar, mas uma vez Jenny Brooks era notícia, não pelo seu talento musical e sim por mais um escândalo. As opiniões logo se dividiram, fãs de Pedro Linhares estavam revoltados, enquanto outra corrente pró-Sam já shipava o casal.
Após o vazamento, começaram a chatear Jenny com perguntas sobre Sam ser sua nova namorada, embora ela desejasse que aquilo fosse verdade. A realidade, no entanto, era que não poderiam ficar juntas. Mas apesar disso, Jenny não achava que o vídeo a afetava tanto quanto afetava a reputação de sua guarda-costas, sabia que aquilo poderia arruinar a carreira de Sam.
Logo que o vídeo foi divulgado, Jenny recebeu Lyanna Smith em seu quarto. Sua assessora de imprensa sempre foi uma mulher muito controlada, mas naquele dia, ela não exibia sua confiança de sempre.
-- Já sei o que vai dizer, mas não é culpa minha que algum irresponsável desse hotel divulgou esse vídeo -- Defendeu-se Jenny.
-- Você causou mais um grande problema, garota.
-- Relaxa, Lyanna. É só mais uma polêmica sobre mim.
-- Mas, dessa vez passou do limite. Não respeita nem sua segurança pessoal? Você não tem vergonha.
-- Não me venha com falsos moralismos, Lyanna. Você não é nenhuma santa. Ou já esqueceu?
Jenny riu. Depois continuou:
-- Já pensou se um vídeo da gente tivesse vazado? Com certeza, a imprensa iria adorar.
-- Isso é passado. O que me interessa é o presente -- Rebateu Lyanna -- Vou ser bem clara com você: fique bem longe de Sam. Eu tenho um interesse particular nela e não quero que você a distraia.
Jenny sentiu seu sangue pulsar.
-- Duvido que Sam iria dá bola para você.
-- Você que pensa. Só para saber eu e ela já estamos bem íntimas.
-- Você está blefando -- Acusou Jenny -- É bem sua cara isso.
-- Pense o que quiser, mas já está avisada -- Disse Smith -- Vou lá falar com a imprensa. Tentar atenuar mais esse escândalo.
Quando ela saiu, Jenny teve vontade de chorar. Não podia ser verdade, podia? Será que Sam estava mesmo dando bola para aquela mulher? Jenny sabia que ela era uma sedutora nata, sempre tinha quem queria em seus braços. Até mesmo Jenny já fizera parte de sua teia. A pergunta era se Sam também estava se deixando envolver por aquela mulher. Será que Sam também a havia beijado? O quanto, afinal, conhecia de sua segurança pessoal. Ela poderia muito bem está se divertindo com Lyanna por suas costas.
Depois disso, Jenny não teve coragem de confrontar mais uma vez Sam. Por um lado, tinha medo da verdade. Do outro, havia prometido deixar Sam fazer seu trabalho. As duas também não chegaram a mencionar o assunto do vídeo. Jenny sabia que Sam também vinha sendo assediada pela impressa, mas a guarda-costas agia como se nada tivesse acontecido.
As duas passaram a tratar-se apenas com cordialidade, deixando as discussões de lado.
Assim, se seguiu por alguns dias.
***
O Belleville iria promover um efeito beneficente em prol de crianças em situação de abandono. Jenny Brooks seria uma das convidadas principais e uma das embaixadoras da campanha. Há muito tempo, participava de programas sociais e a defesa da infância era um de seus principais interesses. Apesar da cantora ser sempre alvo de fofocas da imprensa, seu esforço em defesa de algumas causas era sempre reconhecido.
Sam tivera muito trabalho aquele dia junto com a segurança do evento. O sistema de vigilância era gigantesco para um evento daquele porte no qual participariam muitas autoridades importantes. Com tanto trabalho, ela mal teve tempo de pensar em seus sentimentos sobre Jenny. A garota estava fazendo sua parte, até com mais afinco que Sam esperava. Elas não conversaram sobre o vídeo e a repercussão que este estava tendo, mesmo quando saíam em público e eram bombardeadas com perguntas.
Sam estava odiando todo aquele assédio. Todos querendo saber de sua vida. Aquilo era tudo que sempre evitara, mas não havia mais volta. Só havia um modo de lidar com aquela situação que era encará-la de frente, mesmo sabendo o quanto aquela repercussão seria negativa para seu trabalho. Conhecia casos, embora raros, de seguranças que se envolveram em escândalos assim. Não aguentaram a pressão e tiveram que abandonar suas carreiras. Não deixaria acontecer com ela. Samanta Kane nunca cederia à pressão.
***
No dia do evento, o hotel estava muito agitado. Jenny passara o dia no quarto, reunida com toda a equipe de personal stylist. Usaria um vestido de um estilista famoso feito especialmente para a ocasião. Também teria a sua disposição um colar de diamantes de uma famosa grife de joias.
A noite chegou.
Jenny já estava em seu quarto com Billy dando os últimos retoques no visual. A maquiagem realçava seus olhos e seus lábios carnudos. Seu cabelo estava preso em um coque. Usava um vestido azul feito sob medida e no pescoço o colar caríssimo.
-- Deve ser um peso e tanto carregá-lo -- Comentou Billy.
-- Mais ou menos, Bi.
-- Claro, esqueci que isso já é normal para você.
-- Não é isso. Na verdade, eu não queria ofuscar o principal motivo dessa festa.
-- Qual é, Jen. Metade dessas pessoas só vem até aqui para vê-la -- Disse Billy -- Mas, você pode aproveitar sua fama para arrancar dinheiro deles para sua causa. Não é essa a intenção disso tudo?
-- Tá, você tem razão. Melhor descermos, já está tarde.
Eles encontraram uma mulher parada no corredor. Ela estava ocupada, mexendo em pequeno aparelho eletrônico que tinha nas mãos. A mulher trajava um vestido preto, colado ao corpo que valorizava suas curvas.
-- Aquela ali é sua guarda-costas? -- Perguntou Billy, atônito.
O queixo de Jenny caiu. A mulher vinha em sua direção e ela a reconheceu como Sam, sem dúvidas. Mas, ela não estava vestida como de costume.
-- Para de babar -- Advertiu Billy.
-- Eu não estou babando -- Desconversou Jenny.
Por mais que quisesse disfarçar, Jenny estava inquieta. Não conseguiu desviar o olhar de Sam que também a olhava, deslumbrada.
-- Você está linda, Sam -- Elogiou Billy, chamando a atenção da guarda-costas.
-- Obrigada -- Disse Sam -- Já está tudo pronto. Podemos ir?
Eles concordaram. Sam seguiu à frente no corredor. Ela tinha um aparelho eletrônico no ouvido no qual se comunicava com os outros seguranças.
Jenny não conseguia parar de olhá-la. Admirando suas curvas no vestido apertado.
-- Olha por onde anda, Jen. Você não quer cair de cara e pagar o maior mico...
-- O que?
-- Nada. Deixa pra lá -- Disse Billy -- Vem, segura no meu braço. Quero estar ao seu lado em sua entrada triunfal.
Jenny sorriu para o amigo. Mas, em seu íntimo ela estava perturbada. Aquela seria uma longa noite. Ela respirou fundo, mas uma vez lançando um olhar indiscreto ao corpo de Sam. Uma longa e torturante noite...
Fim do capítulo
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