Capítulo 5 - Confie em mim
Samanta havia acordado no dia seguinte ao incidente da boate determinada a mudar um pouco as coisas. Primeiro, chamou Aranha, em que confiava plenamente e pediu para substituir o segurança de Antunes que ficava vigiando o quarto de Jenny. Este ficou confuso e não quis deixar seu posto sem ordens diretas de seu superior. Sam encarou o homem e disse:
-- A partir de agora você seguirá apenas as minhas ordens.
-- Desculpe, mas o senhor Antunes não me repassou nada -- Falou, confuso.
Sam avaliou o homem mais uma vez e sem aviso deu-lhe um soco no rosto. Ele ficou atordoado com a agressão repentina. Quando se deu conta do que havia acontecido tentou avançar sobre Sam e revidar, mas foi interceptado por Aranha que o segurou.
-- Me larga!
-- Calma, cara! -- Pediu o companheiro de Sam.
Ela deixou os dois no corredor e desceu para a garagem do hotel, com uma mochila nas costas. Observou os carros e parou em frente a um Jeep renegade 1.8 branco. Fitou o veículo por alguns instantes. Algo dentro dela estava prestes a explodir, uma fúria já conhecida por Sam. Sentiu a adrenalina começar a circular livre por seu corpo quando pegou da mochila um bastão de ferro e subiu no capô do carro.
Não demorou Antunes apareceu, levando as mãos a cabeça.
-- O que você está fazendo com meu carro, sua louca! -- Gritou o homem, desesperado.
Sam deu um último golpe quebrando um dos faróis da frente antes de descer do carro.
-- Me manda a conta -- Disse ela antes de sair e deixar o Velho lobo arrancando o que lhe restava dos cabelos.
Samanta Kane continuou a fazer suas “mudanças”. Irritados, alguns homens de Antunes a desafiaram. Ela não se importou com a ousadia deles, estava mesmo precisando bater em alguém. Isso realmente melhorou seu ânimo até a garota vir até ela com um dossiê investigando sua vida. Talvez fizesse parte de mais uma estratégia de Jenny Brooks para irritá-la.
Depois de acabar com o carro de Antunes e humilhar seus seguranças, a autoridade de Sam passou a ser respeitada. Mas, isso não significava que o Velho Lobo ficaria quieto. Na primeira oportunidade, ele daria seu jeito.
***
Os dias passaram. Sam adaptou-se totalmente a rotina da cantora. A garota teve semanas agitadas, com muitos eventos, entrevistas, shows. Sam nunca tivera tanto trabalho e, ao mesmo tempo, estava entediada e aborrecida. Jenny embora estivesse mais comportada, continuava a ser irritante. Um dia, a garota voltava de mais uma entrevista na televisão, acompanhada de seu maquiador Billy. Os dois conversavam entre si, tentando chegar a um consenso sobre quem seria a maior cantora pop da história. Jenny apostava em Rihanna enquanto Billy derramava elogios a Lady Gaga. Eles discutiam entre si até o rapaz se dirigir a guarda-costas:
-- Sam, você não concorda comigo?
-- Sobre o que? -- Perguntou Sam.
-- Sobre Lady Gaga ser a melhor cantora do mundo.
-- Não posso dizer. Não sei quem é Lady Gaga -- Respondeu Sam, com um dar de ombros. Não estava gostando de ser incluída naquela conversa que julgava irrelevante.
-- Você não conhece Lady Gaga? -- Espantou-se Jenny -- Em que mundo você vive?
Já Billy, falou em tom de deboche:
-- Sam, por acaso esteve morando em uma caverna nos últimos anos?
A guarda-costas não deu atenção a eles e manteve-se calada. Afinal, não tinha obrigação de saber quem era essa tal de Lady Gaga.
Eles seguiram conversando. Encerraram a discussão sobre Rihanna e Lady Gaga sem chegar a um consenso. Mas Sam não fora deixada em paz.
-- Sam, você é casada? -- Indagou Billy, de repente.
Jenny tentou disfarçar o interesse desviando o olhar para a janela. Sam vira o gesto pelo retrovisor e respondeu ao rapaz:
-- Não. Nunca fui casada.
Fez-se silêncio. Até que Jenny decidiu quebrá-lo com um comentário mordaz:
-- Dizem que guarda-costas costumam ter casos com seus clientes.
Sam não respondeu. Billy riu e se empolgou ao falar de uma famosa modelo americana conhecida por namorar um de seus seguranças.
-- Você conhecia essa história, Sam?
Ela negou.
-- Então, foi babado! O ex-marido dela até a acusou de já está saindo com o bodyguard gostosão antes de se divorciarem.
Para surpresa de Jenny, Sam se envolveu na conversa, se dirigindo a Billy:
-- E o que aconteceu com a tal da modelo e o guarda-costas?
-- Namoraram durante um ano e aí ela terminou com ele alegando que a paixão havia acabado.
-- E ele deixou de ser guarda-costas dela -- Completou Jenny -- Fim da história! Cada um para o seu lado como deve ser.
-- Ai miga, você não é nada romântica -- Comentou Billy.
Jenny não falou mais nada. Desviou o olhar do de Sam quando esta a fitou pelo retrovisor. Decidiu não dá mais bola para as histórias de Billy. Ela temia que o rumo daquela conversa pudesse revelar algum pensamento constrangedor que já tivera em relação a sua guarda-costas.
***
Chegando ao quarto de Jenny, a garota pediu Sam para ficar por um instante, pois precisava lhe falar algo. A guarda-costas esperou enquanto ela circulava pelo quarto procurando por sua gatinha Kitty.
Jenny que não estava de bom-humor, exclamou:
-- Onde se meteu essa gata!
Um instante depois, Jenny viu sua gatinha aparecer e se enroscar aos pés de Sam. Esta olhou para o animal com estranhamento. Desajeitadamente pegou Kitty no colo e a entregou a Jenny.
-- Obrigada -- Murmurou a garota.
Sam observou Jenny acariciar a gatinha enquanto dizia palavras de carinho. Ela nunca tivera um animal de estimação. Que sentimentos aquela bola de pelos poderia despertar em alguém?
-- Vou jantar em um restaurante francês -- Anunciou Jenny, erguendo os olhos para encarar sua guarda-costas.
Sam assentiu àquela nova mudança de planos.
-- Tudo bem. Obrigada por me avisar dessa vez.
-- Disponha -- Disse Jenny, sarcástica -- Tem mais uma coisa. Dispense os carros de apoio. Não quero chamar muita atenção.
-- Tudo bem.
Sam se dirigiu até a porta sentindo o olhar da garota às suas costas. Decidiu dar meia-volta e a encarou.
-- O que foi agora? -- Perguntou Jenny.
-- Da próxima vez que quiser saber algo sobre mim, sugiro que pergunte diretamente. Nada de relatórios, dossiês ou mandar seu amiguinho me interrogar.
A voz de Sam era firme e ameaçadora.
-- Eu não mandei Billy lhe perguntar nada...
-- Claro que não -- Disse Sam.
-- Você se acha muito sabia? -- Falou Jenny.
-- A que “se acha” aqui é outra pessoa -- Provocou Sam.
-- Saia já do meu quarto agora! -- Exigiu Jenny, irritada.
Sam saiu imediatamente deixando Jenny a socar travesseiros, com uma curiosa Kitty a observá-la com seus olhos astutos.
***
O carro de vidro fumê deixou a garagem do Belleville por volta das dez da noite. Nenhum fã ou algum membro da impressa postados em frente ao hotel deram atenção ao veículo. Devia ser apenas mais um hóspede. Não suspeitavam que Jenny Brooks estava no carro, discretamente vestida com um tailleur preto de grife.
Sam dirigia o carro. Raramente bancava a motorista, mas foi necessário abrir uma exceção. O motorista oficial da cantora já havia trabalhado o dia inteiro. Por isso, Sam o dispensou e decidiu fazer aquele percurso sozinha com a cantora.
Fazia um silêncio sepulcral no interior do veículo entre as duas mulheres. Ambas tinham seus próprios pensamentos. O silêncio era incômodo para a garota sentada no banco de trás. Sentia-se ansiosa na presença de sua guarda-costas. Às vezes, um frio na barriga inexplicável tomava conta dela como aquele que sentia antes de uma apresentação musical. Jenny não queria se deixar vencer pela influência que Sam exercia sobre ela. “Ela é só mais uma de minhas empregadas”, dizia a si mesma. Apesar de ser sua segurança particular, Samanta era uma mulher bonita e extremamente misteriosa. Mas seu temperamento não perdia para o de Jenny no que dizia respeito a orgulho. Suas personalidades facilmente entravam em conflito.
Jenny não queria admitir, mas sentia um prazer imenso em provocar Sam. Já havia cogitado seduzi-la como mais um de seus caprichos infantis. Desistiu da ideia que julgou ridícula. Reconhecer seu interesse por Sam só alimentaria ainda mais o pedantismo de sua segurança.
Decidira sair para comer fora aquela noite, pois estava cansada de ficar num quarto de hotel, sempre cercada de seu estafe. Não importava que não tivesse companhia. Queria mesmo ficar sozinha.
Ao chegar ao restaurante, a cantora foi recepcionada pelo gerente que a paparicou. Sam se manteve a distância. Os mesmos fotógrafos que estavam do lado de fora do restaurante e que haviam conseguido fotos de Jenny quando ela chegou, agora voltavam seus flashes para um jovem casal que chegava de mãos dadas. Sam reconheceu o rapaz. Era Pedro Linhares acompanhado de uma mulher bonita e elegante.
Um terrível mal-estar foi instalado quando Jenny e Pedro se encontraram. A garota ficou profundamente chocada ao reconhecer sua amiga, a modelo Dália Menezes como a acompanhante do rapaz. Quando o casal se dirigiu para uma das mesas do restaurante, Jenny se aproximou de sua guarda-costas.
-- Vamos embora! -- Disse ela.
Sam tentou ao máximo evitar que os fotógrafos tirassem fotos de Jenny que visivelmente tentava segurar as lágrimas.
-- Bando de urubus -- Comentou Jenny, enquanto Sam arrancava com o carro.
Sam observou Jenny pelo retrovisor.
-- Você está bem?
-- Aquela vadia! -- Explodiu Jenny -- Não esperava uma traição dessas... Que droga! Uma hora dessas já devem está postando fotos minhas com cara de idiota. Com certeza vou ser o assunto mais comentado nas redes sociais...
-- Jenny Brooks sempre é o assunto mais comentado nas redes sociais -- Afirmou Sam.
A garota refletiu antes de dizer:
-- Tem razão. Eu sempre sou notícia.
-- De volta ao hotel? -- Perguntou Sam.
-- Não. Queria ir a outro restaurante, estou morrendo de fome. Mas, não tô a fim de encontrar com mais nenhum fotógrafo.
Jenny observou enquanto Sam pensava em algo, ela pareceu hesitar antes de dizer:
-- Tem um lugar aqui perto que serve uma ótima comida. É um lugar discreto e confiável. Longe da impressa e de fãs.
-- Sério que existe esse lugar? -- Exclamou Jenny, empolgada -- O que estamos esperando?
O carro acelerou e fez uma curva brusca à esquerda. Cinco minutos depois, Sam parou em um estacionamento de uma rua de prédios de apartamentos. Jenny estranhou não ver nenhum restaurante ou estabelecimentos comerciais na redondeza.
-- Você está brincando?
-- Confie em mim -- Disse Sam descendo do carro.
Vendo que a garota não se movia, ela falou:
-- Ei, você está segura. Só tem que confiar em mim.
Ela deu-se por vencida e seguiu Sam até um prédio ao lado do estacionamento. Passaram por um lobby vazio até chegarem a uma porta na qual um homem carrancudo estava parado.
-- Samanta Kane! -- Cumprimentou o homem.
-- Fera!
Deram-se um forte aperto de mão.
-- Sua garota? -- Disse ele, olhando para Jenny com malícia.
A cantora não gostou nada da insinuação do homem. Cruzou os braços sobre o peito, irritada.
-- Esta é Jenny. Trouxe-a para conhecer o Mark´s Place.
-- Ótimo! Sintam-se em casa.
O homem abriu espaço para elas passarem. Jenny seguiu Sam por uma escada que havia atrás da porta.
-- Onde estamos, afinal?
-- Você vai ver -- Respondeu Sam.
-- Não estou gostando nada disso. Também não gostei daquele cara horrível. Por que você o deixou pensar que eu sou “sua garota”? Sou Jenny Brooks, não uma qualquer que se pega em esquinas.
Num gesto brusco, Sam virou-se para encarar Jenny que tomada pela surpresa quase se desequilibrou nos degraus da escada.
-- Não está sendo nada educada em insinuar que pego mulheres em esquinas, garota.
-- Tá, me desculpa -- Murmurou ela, envergonhada.
Sam respirou fundo, depois falou:
-- O motivo pelo qual eu não disse nada foi porque precisamos proteger ao máximo sua identidade. Entendeu?
Jenny assentiu.
Subiram o restante da escadaria em silêncio. Quando chegaram ao topo, Jenny se impressionou ao se deparar com um bar e restaurante moderno. Estava apinhado de gente. A maioria homens e mulheres bem vestidos. Sam conseguiu uma mesa para as duas e ofereceu um cardápio a Jenny.
-- Esse lugar é fantástico -- Exclamou Jenny, boquiaberta -- Como eu nunca ouvi falar?
-- Olhe ao redor. Quem acha que são essas pessoas?
Jenny observou novamente os homens e mulheres ali presentes.
-- Eles são como você -- Concluiu Jenny.
-- Já tem sua resposta -- Disse Sam -- Está segura aqui como eu disse que estaria.
Para surpresa de Jenny, havia alguns de seus pratos preferidos no cardápio. Pediu um bom vinho para acompanhar. Sam também fez um pedido para si. Após degustar um excelente jantar, Jenny se sentiu bem mais relaxada. Aquela noite que havia começado tão mal, havia se transformado em uma grata surpresa.
O ambiente era mesmo bastante agradável e não ter pessoas a sua volta como abelhas em torno do mel era novidade para Jenny. Quase todo mundo ali conhecia Samanta Kane. A todo instante alguém se aproximava da mesa para cumprimentá-la. Um homem que aparentava ter uns trinta anos aproximou-se da mesa e sem cerimônia, sentou-se numa cadeira ao lado de Sam.
-- O que manda Sam, destruindo muitos carros por aí?
-- Não tantos quanto eu gostaria, Mark -- Disse Sam, tomando um gole de água.
O homem riu. Depois voltou-se para Jenny:
-- Olá, me chamo Mark -- Disse ele, estendendo à mão a garota que a apertou.
-- Jenny -- Disse ela.
-- Acho que já te vi em algum lugar, Jenny. Seu rosto me é um pouco familiar. Mas, devo estar imaginando. Eu não esqueceria alguém tão linda quanto você.
Jenny riu do modo galante do homem.
-- Relaxa, Dom Juan -- Disse Sam.
-- Você é o Mark de Mark´s place? -- Quis saber Jenny, associando o nome do homem ao do lugar.
-- Eu mesmo -- Confirmou ele -- Em carne, osso e titânio.
-- Parabéns. Eu adorei o lugar.
-- E eu gostei de você, garota. Acho que seremos grandes amigos.
-- Você é mesmo feito de titânio? -- Perguntou Jenny.
O homem bateu com a mão na parte esquerda do crânio que fez um barulho metálico.
-- Titânio!
Jenny olhou para ele, confusa. Sam explicou:
-- Mark teve que reconstruir parte do crânio há dois anos.
-- Foi então que me aposentei dessa vida de perigos e abri esse lugar.
-- O que aconteceu? -- Perguntou Jenny, curiosa.
-- Longa história. Mas, escapei com vida graças a essa grande mulher aqui.
Ele abriu um grande sorriso para Sam que pela primeira vez parecia tímida.
-- Você é o cara, Sam! Vamos brindar!
Ele foi até o balcão e serviu-se de uma bebida, retornando à mesa em seguida. Jenny levantou sua taça de vinho. E Sam, seu copo de água. Ele brindou a Samanta Kane e depois se dirigiu a Jenny, dizendo:
-- Sabe, Jenny. Já pedi essa mulher em casamento diversas vezes, mas ela sempre escapa de mim.
Jenny riu da espontaneidade do homem.
-- Ela sempre me rejeita, sabe como é! Tive a infelicidade de nascer com o sex* errado.
-- Mark! -- Repreendeu Sam.
-- Tá, parei. -- Disse ele -- Não quero perder outra parte do meu crânio.
Jenny adorou conversar com o homem que era estranho, engraçado e de bem com a vida. Em determinado momento, ele convidou a garota para jogar sinuca.
-- Eu não sei jogar -- Disse Jenny.
-- Não se preocupe, eu ensino.
Jenny concordou.
-- Você vem, Sam? -- Perguntou Mark.
-- Não. Vão vocês e eu fico aqui.
Sam observou Mark ensinar a garota. Ele lhe lançava piscadelas e sorrisos sedutores que a faziam rir. Sam sabia que o amigo não perdia uma oportunidade, mas também que era um cavalheiro e não ultrapassava limites com as mulheres. Depois de algumas tacadas, a garota começou a pegar o jeito da coisa. Foi desafiada por outras pessoas que estavam ali. Enquanto ela jogava, Mark se aproximou da mesa de Sam.
-- Está a trabalho, Sam? -- Questionou ele -- Quem é a garota?
-- Ela é uma cantora.
-- Logo vi com uma voz daquelas. Deve ser famosa para você está trabalhando para ela. Mas, eu não a conhecia. Não consigo mais acompanhar essas mídias, Sam. Esses jovens de hoje estão cada vez mais loucos. Além disso, minha cabeça tem estado confusa. Não sou mais o mesmo, Sam.
-- Deixa disso, Mark. A vida continua.
Ficaram em silêncio durante um tempo. Ambos observavam a garota comemorar a cada tacada acertada. Parecia uma criança em um parque de diversões.
-- Cuidado, Sam -- Advertiu ele -- Essa garota pode deixar qualquer um louco...
-- Você me conhece, Mark.
-- Eu sei, você gosta de ter uma postura profissional. Mas, eu também sei que você só faz o que quer. Você mesma faz suas regras e você mesma pode quebrá-las.
-- Não nesse caso. Há muito a perder.
-- Há sim muito a perder. Começando com um belo par de olhos azuis...
Ele ficou de pé. Com o copo na mão, deu mais um gole em sua bebida e exclamou antes de se afastar de Sam:
-- Essa garota... Uau! Qualquer um perderia a cabeça...
***
Sam conhecia Mark há muitos anos. Conhecia-o bem o suficiente para saber que suas palavras não podiam ser subestimadas. Estava entrando em um jogo perigoso. Não devia ter levado Jenny ao Mark´s Place. Mas ao vê-la tão triste sentiu que precisava fazer algo para ela melhorar. Não sabia de onde havia vindo essa necessidade de cuidar de Jenny.
Mas Mark estava errado. Samanta Kane jamais perderia a cabeça, muito menos por uma garota mimada e inconsequente como Jenny Brooks. Sam conhecia seus limites. Não podia perder o controle da situação. Decidida a provar isso, ela ergueu-se de sua cadeira e aproximou-se de Jenny que estava empolgada numa partida de sinuca com uma mulher alta e musculosa que Sam conhecia muito bem.
-- Ora, ora se não é Samanta Kane -- Disse a mulher assim que a viu.
-- Sandra Muniz -- Disse Sam -- Há quanto tempo?
-- Não tanto quanto eu gostaria.
As duas ficaram a se analisar sem dizer nada. Não precisava. O olhar de desafio de ambas era o suficiente para saberem exatamente o que estavam pensando. Jenny que não estava entendendo nada, decidiu intervir:
-- Algum problema entre vocês?
Muniz olhou para garota dando-lhe seu melhor sorriso ao dizer:
-- Problema nenhum. Sam e eu somos velhas amigas.
-- Velhas amigas -- Repetiu Sam, irônica -- Por que não vai dá uma volta por aí, Muniz. A garota tá comigo.
-- Ainda intragável, Sam -- Comentou Muniz -- Pode ficar com sua garota.
As duas se encararam mais uma vez, antes de Muniz se afastar.
-- Agora me explica o que foi isso? -- Perguntou Jenny a Sam -- Quem é essa mulher Sam?
-- Uma longa e velha história -- Respondeu Sam.
-- Você não quer me contar nada mesmo, não é? É para manter o mistério? -- Questionou Jenny, irritada -- Quer saber? Já estou de saco cheio disso. E cansei desse lugar e de todo mundo achar que eu sou sua garota!
Jenny se afastou. Sam permaneceu imóvel. Com a reação dela, esquecera o que viera fazer ali. Tinha algo a ver com tomar o controle da situação. Mas, a garota era passional demais para Sam acompanhar. Mais uma vez ela se viu desejando não sentir o que estava sentindo na presença dela. Quanto mais tentava ter controle, mas ele escapava por entre suas mãos.
***
No balcão do bar, Jenny pediu a Mark uma dose de Vodca que ela bebeu de um gole só.
-- Vai com calma, garota! -- Aconselhou ele.
-- Ela é sempre assim? -- Disparou Jenny.
-- Ela quem? -- Perguntou ele, embora já soubesse a resposta.
-- Sua amiga, Mark.
-- O que ela te fez?
-- Você quer dizer o que ela não me fez. Ela não me leva a sério, Mark. Me trata como se eu não soubesse me cuidar e omite informações de mim. Tenho certeza que ela sabe mais do que conta.
-- Já pensou que esse é o trabalho dela.
-- Me ignorar? Pensei que o trabalho dela fosse me proteger...
-- Por que é tão importante para você o que ela pensa, Jenny? -- Perguntou Mark, fitando a garota à sua frente.
-- Não é importante -- Desconversou Jenny, sem graça.
-- Então, está tudo resolvido. Ela faz seu trabalho. Ignora você. E todos ficam felizes.
-- Não é bem assim. -- Suspirou Jenny, derrotada -- Quer saber, me traz outra bebida.
Mark encheu mais uma vez o copo de Jenny. Quando ela levava copo à boca, Sam surgiu e arrancou a bebida de sua mão mesmo sob os protestos da garota.
-- Leva isso daqui, Mark. Ela não vai mais beber -- Disse Sam, enérgica.
O amigo lhe lançou um olhar significativo antes de sumir levando consigo a garrafa de Vodca.
-- Você não manda em mim -- Vociferou Jenny.
-- Jenny, porque você não se acalma e escuta o que eu tenho a dizer? -- Pediu Sam com a voz calma.
-- O que você tem a me dizer, Sam? -- Rebateu Jenny.
-- Sobre aquela mulher. Sandra Muniz. Eu e ela nunca nos demos bem. Ela sempre competiu comigo. Estivemos juntas no Oriente Médio. As coisas lá eram muito difíceis. Éramos as únicas mulheres entre muitos homens. Por conta disso ela achava que devíamos ficar unidas, até mesmo dividir uma cama.
Jenny engoliou em seco. Sam continuou:
-- Mas, eu sou um lobo solitário e ela nunca aceitou isso. Depois daquele tempo, sempre que nos encontramos em um trabalho, ela tenta se impor. Tenta colocar as pessoas contra mim. Também sei que me espiona. Aquela mulher é obcecada por mim. Ela deve saber que estou trabalhando para você. Assim que cheguei eu a avistei e sabia que era só uma questão de tempo até ela tentar dá o bote.
-- Foi por isso que me deixou jogar? Queria provar sua teoria.
Sam respirou fundo. A garota era fogo.
-- Eu não preciso provar minha teoria. Eu sei quem é Sandra Muniz. E sei que onde quer que eu esteja, ela encontra uma maneira de me encontrar -- Afirmou Sam -- Achei mesmo que seria uma boa ideia você se divertir com o Mark. Ele é um cara sensacional e adora conhecer gente nova. A vida dele se resume a esse lugar e as pessoas que o frequentam não costumam ter muito senso de humor. Ele gostou muito de você, Jenny. Embora nunca tenha ouvido falar da famosa cantora que você é.
Jenny sorriu.
-- Eu também gostei muito dele. É bom saber que alguém gosta de mim sem saber que sou famosa -- Refletiu ela -- Acho que devo desculpas. Tenho sido muito mal educada e você não é tão ruim, Samanta Kane.
-- Bom saber que você finalmente sabe meu nome -- Brincou Sam -- E quer saber, você também não é tão ruim, Jenny Brooks.
Elas se encararam, sem saber o que dizer. Ambas embaraçadas. Sam procurou algum outro ponto para fixar o olhar. Estava sem ação. Podia sentir que Jenny ainda a olhava. Alguém mexeu na velha Junkbox de Mark e os primeiros acordes de Always on my mind de Elvis Presley começou a tocar.
-- Você dança? -- Perguntou Jenny.
Sam ficou sem palavras diante daquele convite. Jenny então se pôs de pé e estendeu a mão para a guarda-costas.
-- Eu não aceito um não como resposta -- Disse Jenny, determinada.
Sam segurou na mão de Jenny e imediatamente ao toque sentiu um arrepio percorrer-lhe pelo corpo. Em seguida, deixou-se guiar pela cantora. Sam parecia ter entrado numa espécie de transe e não sabia como reagir diante de sensações que desconhecia. Tentou ao máximo não deixar transparecer sua confusão, embora soubesse que qualquer pessoa em raio de quilômetros poderia notar o quanto ela estava desconcertada.
Apenas outros dois casais deixavam-se embalar pela música suave que vinha da Junkbox. Jenny colocou as mãos nos ombro da mulher mais alta enquanto Sam pôs as suas na cintura da cantora. Elas dançaram no ritmo lento da música. No início, mantiveram uma distância segura uma da outra, mas ao longo da canção ambas relaxaram. Jenny encostou seu nariz no pescoço de sua guarda-costas e não pode evitar sentir seu perfume. À meia-luz, a música suave e a embriaguez davam a Jenny a sensação de estar levitando. Os braços quentes e aconchegantes de Sam eram era a única coisa real. Nunca se sentira tão bem.
-- Essa música é triste -- Observou Sam.
-- É sobre alguém que não soube cuidar de seu amor.
-- Entendo.
Jenny fitou Sam.
-- Entende? Já teve um amor perdido, Sam?
-- Não. Mas sei que se eu tivesse seria como essa música. “Pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito”.
-- Isso é deprimente, Sam.
-- Por que não deu certo entre você e o rapaz? -- Quis saber Sam.
-- Pedro? Acho que nunca gostei dele de verdade. Quer dizer, meio que virou uma bola de neve quando vi já estávamos juntos. Você sabe, a imprensa, os fãs. Todos dizendo como fazíamos um belo casal.
-- Até que começaram os boatos sobre as garotas -- Completou Sam -- Eu li sobre isso.
-- As garotas... Esse é o principal motivo porque não deu certo entre mim e ele. Ele gostava de outras garotas e eu também. No fim, era tudo que tínhamos em comum.
Sam sorriu. Jenny voltou a se aconchegar em seus braços e fechou os olhos, ouvindo a canção.
-- Eu nunca me senti tão segura -- Confessou Jenny ao ouvido de sua guarda-costas.
Sam também fechou olhos e se permitiu aproveitar aquele momento. Quando a música acabou, elas se afastaram lentamente.
-- Melhor irmos embora -- disse Sam -- Já está tarde.
A decepção no rosto de Jenny era evidente.
-- Nem vi o tempo passar. Tudo bem. Vamos.
Jenny deu um grande abraço a Mark antes de deixar o Mark´s place.
-- Você pode voltar sempre que quiser, garota.
-- Não se preocupe. Eu vou voltar. Me diverti bastante, Mark.
A despedida de Sam e seu amigo foi mais fria. Com um “a gente se vê” e “vê se se cuida”.
No carro, Jenny sentou-se no banco do carona, ao lado de Sam.
-- É mais seguro para você ficar no banco de trás -- Sam observou.
-- Mais seguro para quem para mim ou para você? -- Provocou Jenny.
-- Você sabe o que quero dizer.
-- Para que você acha que serve todo esse fumê. Não podem me ver, Sam. Do que você tem medo?
-- Eu não tenho medo de nada.
Jenny gargalhou.
-- Cara, você é incrível. “Eu não medo de nada”. Eu sei, a grande Samanta Kane é muito durona para ter medo de alguma coisa. Mas eu não acredito, Sam. Tem que ter algo que te assusta. E eu vou descobrir.
-- Boa sorte com isso -- Disse Sam, ligando o carro -- Coloque o cinto.
Jenny obedeceu.
-- Segurança em primeiro lugar -- Disse Jenny.
-- Sempre.
Durante o trajeto, ambas ficaram em silêncio. Elas se davam conta de que causavam um efeito sobre a outra. Sam sabia que devia resistir. Só não sabia que seria tão difícil. A noite criara entre elas uma atmosfera inesperada, leve e confusa.
Àquela hora da madrugada, as ruas estavam vazias. Nas janelas dos prédios mal se viam as luzes acessas. A cidade dormia. Sam dirigia atenta ao mínimo sinal de que pudessem estar sendo seguidas. Mesmo mantendo a concentração em seu trabalho, ela não era indiferente à Jenny tão próxima. De vez em quando, ouvia a garota suspirar e sabia que ela lhe lançava olhares furtivos. Em que estaria pensando? Será que estava tão confusa quanto ela?
Chegando ao hotel, Sam guardou o carro na garagem. Elas subiram pelo elevador privado. Quando chegaram ao quarto, Sam entrou com Jenny e examinou todo o ambiente.
-- Então, seguro? -- Perguntou Jenny, enquanto tirava o salto alto.
-- Sim. Parece tudo em ordem.
Jenny pegou Kitty no colo.
-- Ótimo -- Disse ela, satisfeita -- Obrigada pela noite, Sam. Eu realmente me diverti bastante. Se você não tivesse me levado para o restaurante secreto do Mark, eu provavelmente estaria um caco agora.
Jenny sorria. Sam nunca a vira tão descontraída. Por um instante gostou de pensar ser ela a causa daquele sorriso.
-- Ah! Já ia esquecendo. Tenho algo para você -- Disse Jenny, de repente -- Espera um minuto.
Ela soltou Kitty sobre a cama e foi até o armário. Trouxe um pendrive que entregou a Sam.
-- São músicas da Lady Gaga. Para você não ter mais dúvidas sobre quem é ela -- Disse Jenny.
-- Obrigada. Vou ouvir assim que possível.
Jenny assentiu. As duas ficaram paradas sem saber o que dizer. A verdade era que nenhuma das duas queria que aquela noite acabasse.
-- É só uma noite. Não é, Jenny? -- Falou Sam, se aproximando de Jenny até seus corpos quase se tocarem -- Amanhã será um novo dia.
-- O que você quer dizer? -- Jenny murmurou enquanto olhava hipnoticamente para a boca da mulher à sua frente que estava cada vez mais próxima da sua.
-- Que nada disso é real. Esta noite não aconteceu.
-- Como você pode dizer uma coisa dessas? -- Disse Jenny, com o coração acelerado.
Sam segurou a mão de Jenny com delicadeza e a puxou para si. Jenny sentiu seu corpo inteiro pegar fogo e sua respiração falhar diante de toda aquela explosão de emoções. Instantes demoraram para que suas bocas se procurassem. E durante segundos que pareceram demorar minutos seus lábios se tocaram. De olhos fechados, Jenny sentiu toda a suavidade dos lábios de Sam. Nunca sentira algo tão intensamente quanto naquele simples contato. Desejara aquilo à noite inteira, embora tivesse medo. Tentou provocar sem parecer muito atirada. Sam não era mais uma de suas conquistas. Queria que ela realmente a desejasse. Queria penetrar naquele coração de pedra.
Sam também quisera tocar os lábios de Jenny com os seus. Queria tentar entender o que aquela garota estava provocando nela. Nunca se sentira assim. Nunca experimentara essa espécie de mágica que chamavam de paixão, capaz de pôr fogo à mente mais racional. Era realmente algo que faria alguém perder a cabeça. Ela não prolongou mais o beijo, sabia o quanto seria perigoso continuar ali. Levaria o gosto dos lábios de Jenny consigo e amanhã seria outro dia.
-- Boa noite, Jenny -- Disse Sam antes de sair pela porta, deixando Jenny a buscar o ar que por um instante ela lhe roubara.
Fim do capítulo
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