Cronologia Criminal Dia 5 – Quarta-feira, 18/04/2018, 06:01
Honora despertou com as primeiras menções de luz do sol, como quase todo dia. Odiava o fato de ter o sono tão leve, mas não podia evitar. Seu relógio biológico sabia exatamente quando clareava, e somente acordava mais tarde quando a exaustão era demasiada para seu organismo suportar.
Assim que movimentou-se na cama, sentiu algo diferente em sua vagin* – resquícios da noite de sex* que teve. Um sorriso de canto, safado, formou-se em seus lábios quando as lembranças começaram a povoar a sua mente. Laura tinha a bocet* tão gostosa que a bandida nem se importaria em se viciar naquela droga. Mesmo machucada, a policial não se fez de rogada; deixou que a outra a comesse como bem queria, como uma puta, das mais excitantes. E comeu também, claro. Andrey nunca se deu bem com a passividade em nenhum de seus sentidos, mas, na sua concepção, em uma trans* boa como a que tivera, quem metia ou era metida, pouco importava. A relevância estava mesmo no gozo, na sensação de leveza, no endurecer e pulsar do clit*ris no auge do prazer.
A tatuada levantou-se, espreguiçando, com aquela preguiça boa pós noite bem dormida. Não se lembrava exatamente do motivo pelo qual Randik não se encontrava em seu quarto, mas assim era melhor. Honora nunca gostou de invasões, apesar de ser uma expert nisso. Ela jamais permitira que uma mulher acordasse em sua cama, pois tinha a sensação de ter o seu espaço, a sua intimidade violada.
E mesmo com o lapso de memória e a leve dor de cabeça – ambos os sintomas provavelmente incitados pela exagerada ingestão de álcool da noite anterior – a bandida não se esqueceu de verificar as câmeras de segurança e as gravações do tempo em que permaneceu “ausente”. Nenhuma movimentação estranha, nada de anormal, ainda bem.
Assim, ela finalmente saiu do cômodo. Usando apenas uma camiseta e uma cueca boxe feminina, desceu para alimentar seu companheiro. Hans, já sabendo o que ia acontecer, aguardou pacientemente por sua comida generosamente colocada pela sua dona. Andrey, por sua vez, foi em busca de algo para si na geladeira. Pegou uma maçã, optando por aguardar mais um pouco, a fim de preparar o café somente quando a detetive estivesse acordada.
Ao retornar para os seus aposentos, ouviu uma movimentação advinda do quarto onde Laura estava. Decidiu, então, verificar o que estava acontecendo, dadas as horas precoces. Bateu levemente na porta, alto o suficiente para que ouvisse se estivesse acordada, mas baixo o suficiente para não acordá-la se estivesse dormindo.
– Honora? – A policial resmungou do interior - Eu estou... com problemas.
A psiquiatra girou a maçaneta e, notando que a porta não estava trancada, adentrou no local, vendo Randik sentada na cama, com a mão esquerda segurando o cotovelo direito e fazendo uma careta de dor mais que perceptível.
– Sério isso? O mesmo truque por duas vezes seguidas? – Andrey brincou, entrando sem muito medo do que iria acontecer – O que está havendo?
– Meu braço. Está ardendo, pior do que antes. Isso é insuportável. – Ela relatou, respirando pesadamente.
– Droga! Deve ter sido do esforço de... – A criminosa interrompeu sua fala, vacilando por alguns segundos por não saber se a outra estava confortável com o que fizeram dadas as circunstâncias em que se encontravam - ... O esforço de ontem. E você também, pelo visto, deve ter dormido sobre o braço. A circulação fica mais difícil e causa um incômodo bem significativo. - Honora examinou o local, notando a vermelhidão e o inchaço ao redor do curativo. A inflamação estava progredindo por conta dos problemas durante a noite – Sinto muito, anjo, mas terei que aplicar morfina, a menos que queira aguentar a dor.
– Eu não sei o que parece pior! – Randik exclamou.
– Oh, merd*! – A bandida mordeu o lábio ao fechar os olhos e fazer uma careta contrariada.
– O que foi?
– A morfina que tenho não é suficiente. É o resto do resto. – A mulher batia com os dedos sistematicamente na cabeceira da cama enquanto pensava – Eu não posso ligar para o Liam e pedir que traga para mim. À essa altura do campeonato até o rabo dele deve estar grampeado. O pior é que não tem nem como falar por código. Não posso subestimar a esperteza do meu pai e dos seus fieis viadinhos escudeiros. – Laura franziu o cenho, sem saber se a outra estava interagindo com ela ou só pensando alto – Eu tenho que tentar agir com a maior naturalidade que conseguir. Eu vou ligar para ele e dizer qualquer coisa que o faça entender que preciso dele aqui, depois saio, compro um monte de remédios junto com a morfina para não levantar suspeitas. Passo no mercado, canto umas atendentes e volto para casa. Também não posso ficar enfurnada aqui dentro, ao menos não agora, senão ele desconfiará de que tem algo errado. Aquele cão dos infernos fareja longe, se é que já não farejou que alguém está aqui comigo. – A cada palavra da bandida e a cada latejar do seu ferimento, a detetive sentia como se uma parte de suas forças estivesse se esvaindo de seu corpo – Laura, preste atenção. Você entendeu o que está acontecendo neste exato momento? – A outra meneou a cabeça afirmativamente – Certo. Então você entende a gravidade do que estamos prestes a vivenciar, quer dizer, do que já estamos vivenciando? – Mais uma afirmativa – Pois eu vou precisar que fique sozinha por alguns minutos, quieta, aqui dentro desse quarto. Tente não fazer nenhum barulho ou se movimentar demais, ok? Se ver ou ouvir qualquer coisa atípica, não sendo vindo de mim, esconda-se no armário. Parece infantil, ridículo, eu sei, mas é a sua única alternativa. Eu não estarei aqui para te proteger. – Ao notar o lampejo de desespero da outra, a criminosa tratou logo de se retificar – Me desculpe. Estou dizendo isso apenas por precaução, ok?
– Tudo bem... – Randik finalmente se manifestou verbalmente – Mas vai e volta logo porque não respondo por mim se essa dor aumentar mais.
Acenando, a psiquiatra retirou-se. Laura, depois de algum tempo, notou que Hans estava do lado de fora, perto da porta, perambulando por ali. Provavelmente Honora havia pedido ao cão que ficasse de guarda, e ele, obediente e fiel como era, só arredaria as patas dali se estivesse morto.
O quarto estava trancado pelo lado de fora. A policial deitou-se na cama, ciente de que teria que esperar um bom tempo até que a bandida retornasse. Foram-se cinco, dez, quinze minutos. Quando percebeu, já estava há meia hora sem fazer nada, completamente entediada. Então, fechou seus olhos e tentou voltar a dormir, mesmo com a dor avisando sistematicamente que seu machucado não ia nada bem. Não soube quanto tempo se passou, mas, em um dado momento, conseguiu sentir a inconsciência chegando levemente.
Lá fora, Hans começou a latir de forma vigorosa, acordando Randik. Esta, por sua vez, supôs que o cachorro tivesse sexto sentido ou visão de raio laser para enxergar por através da madeira. Ele provavelmente descobrira que ela estava cochilando e queria incomodar.
Pensamentos brincalhões à parte, ao observar os reflexos advindos da parte de baixo da porta, a detetive percebeu que Hans havia se afastado dali e agora estava latindo em algum lugar afastado da casa. Seu coração acelerou de imediato. Cães latem daquela maneira quando há alguém desconhecido ou indesejado em uma proximidade perigosa.
Laura confiava que qualquer que fosse o bandidinho, ficaria assustado com o tamanho de Hans e se afastaria. Ao invés disso, ouviu o barulho de vidro se quebrando e imediatamente levantou-se da cama, assustada.
O cão havia parado de latir, o que deixou a policial com a sensação do coração estar batendo na garganta. Será que alguém o havia matado? O vidro quebrando não parecia ter sido um tiro e não existia a menor chance de terem acertado algum objeto com força para dominá-lo, não com apenas um arremesso. Não houve sons de disparos, nem de luta.
Randik sentiu uma vontade absurda de chamá-lo, só para saber se ele ainda estava vivo, mas conteve esse impulso, especialmente ao ouvir o barulho de portas se abrindo e fechando, claramente, não com a chave que era de Andrey. Os passos que soavam sem o menor receio, pertenciam a mais de uma pessoa, e isto fazia a mulher presa no quarto engolir em seco.
Mais do que rapidamente, a detetive lembrou-se das recomendações da bandida, correndo em direção ao armário. Seu quarto estava trancado, mas, se conseguiram arrombar algumas portas, conseguiriam arrombar aquela com uma facilidade deveras impressionante.
Antes disso, sons vinham do andar de baixo e também de cima. Vozes pareciam circular de um lado para o outro, deixando Laura confusa, tentando entender o que elas diziam. Contudo, a cada esforço seu, sua confusão só piorava, pois não conseguia encontrar nexo no linguajar dos invasores.
Infelizmente, ouviu passos mais próximos no corredor, aproximando-se do cômodo em que estava. Randik apenas tentou respirar mais devagar para não dar sinais de presença ali dentro, mantendo-se imóvel.
A maçaneta girou algumas vezes, com a pessoa do lado de fora tentando chacoalhá-la, mas sem conseguir abrir.
– Esse é o quarto que ela guarda seus suvenires. – Disse um dos invasores – Não tem nada demais aí.
– Certeza?
– Absoluta. Vim aqui com o chefe umas semanas atrás e eles até brigaram por isso.
– Mas por que estaria trancada? O único cômodo aqui de cima trancado?
– A idiota deve achar que isso vai impedir o chefe de entrar. – Os homens gargalharam.
– Muito amadorismo!
– Com certeza. Vamos! Ainda temos muito o que fazer.
Quando Laura sentiu que os rapazes haviam se afastado, sentiu uma onda de alívio percorrer todo o seu corpo. De repente, uma voz familiar, ressoando do andar de baixo, fez a policial sorrir ainda mais aliviada.
– Mas que porr* é essa? O que faz aqui, Danny?
– Calma aí, doutora, a gente só...
– Hans! – Randik aproximou seu ouvido da porta, concentrando-se em ouvir as palavras gritadas - O que você fez com ele, seu desgraçado?
– Foi só um tranquilizante. A gente não queria ser engolido por esse monstro. Não seríamos loucos de matar seu cão. Na verdade, a gente não é louco de fazer nenhum mal pra ele. A gente sabe que você faria o chefe arrancar o nosso...
– Ele vai arrancar o seu pau e a sua cabeça de qualquer jeito, imbecil, mas eu posso muito bem começar o serviço para meu querido pai... – A policial ouviu um disparo e um berro de dor - Agora deem o fora daqui antes que eu acerte em cheio. - Ordenou a criminosa - Se Hans não acordar, é melhor nenhum de vocês dormir hoje à noite, seus filhos da puta!
– Caralh*! Foi ele que mandou...
– Foda-se! Saiam da minha casa, agora!
Randik ouviu mais dois disparos e alguns minutos de silêncio absoluto. Antes mesmo que a detetive pensasse em chamar por Honora, a porta do quarto se abriu e a bandida entrou, buscando por ela. Ao enxergá-la encolhida no armário, suspirou aliviada junto com a outra, sem trocarem, inicialmente, nenhuma palavra.
Tão rápido quanto entrou, foi a saída da criminosa do cômodo. A policial, naquele momento, sentiu-se segura para seguir Andrey onde ela estava indo.
Hans jazia deitado no chão no meio da sala, ao lado da mesinha de centro. A criminosa pegou sua cabeça e colocou-a no colo, com muito cuidado. A outra percebeu um pedaço de carne estraçalhado pelo piso, supondo que tivesse sido aquele o motivo do vidro quebrado que ouvira. A psiquiatra tocou a barriga do cão, sem fazer pressão, abrindo e fechando os olhos, quase em desespero.
– O que aconteceu com ele? – Laura indagou, preocupada.
– Acho que nada demais. Está respirando. – Ela informou.
A policial sentou-se no sofá, sem saber o que dizer, enquanto Honora mantinha-se acariciando a cabeça do seu companheiro. Randik não sabia onde ela tinha acertado Danny, mas se imaginou dando um tiro bem no centro da testa de todos que haviam invadido a residência, fossem quem fossem.
– Ele... Hans é vítima desse tipo de situação constantemente? – A indagação era mais uma interação angustiada com tudo o que acabara de acontecer.
– Não! Ele nunca fica em casa sozinho. Quando vou a algum lugar em que ele não pode estar, o deixo em um hotel. – A criminosa respondeu a outra, levantando-se, sem olhar para ela. Laura manteve-se em silêncio, percebendo que a indiferença tinha um motivo. Hans só ficou em casa para cuidar dela, e teve sorte que Danny decidiu usar apenas tranquilizante, porque ele poderia, com certeza, ter usado algo pior - Você prefere café ou chocolate? - Andrey passou pela policial, indo até a poltrona para pegar uma sacola de papel que a outra, até então, não havia percebido que estava ali.
– Hã... Café! - Randik respondeu, ainda atordoada.
– Ok. É melhor que volte para o seu quarto até eu terminar de preparar nosso desjejum.
A detetive concordou, sem saber exatamente por que. Não tinha o que discutir. Por um momento, sentiu-se culpada pelo que aconteceu com Hans, mas lembrou-se que não estava ali por escolha própria. Precisava lembrar-se que não estava na casa de uma amiga que a resgatou, mas da pessoa que, bem ou mal, a havia sequestrado e a metido na maior enrascada de sua vida, mesmo que fosse para mantê-la viva.
Alguns minutos mais tarde, quando a bandida apareceu com uma bandeja contendo duas torradas, geleia, salada de frutas e uma xícara de café, Laura percebeu-se sorrindo involuntariamente. A fome a perturbou por um bom tempo, mas temendo a revolta de Andrey com relação a Hans, não disse nada.
A psiquiatra deixou a bandeja sobre as pernas da policial e sentou-se na poltrona no canto do quarto, esperando-a terminar a refeição. No entanto, Randik não se sentiu à vontade para comer, especialmente sob aquela encarada rancorosa.
– Por que o seu pai está fazendo essas coisas contigo? – A detetive inquiriu.
A tatuada bufou alto, levantando-se da poltrona.
– Quando terminar, me avise. – Disse ela - Não estou a fim de discutir as condições mentais de Nickolai Sasha Andrey agora.
Laura sentiu seu interior estremecer e a fome ir embora ao mesmo instante, dando lugar a uma ânsia de vômito quase incontrolável. Sasha... Ela conhecia aquele sobrenome muito bem, mais do que gostaria de conhecer.
A detetive, na época adolescente, havia ouvido o pai falar dele por meses a fio. Conheceu-o através de fotos, documentos e mais documentos que o progenitor levava para casa durante o tempo em que investigou o homem.
Eram tantos nomes falsos, tantas identidades irreais que Randik jamais cogitou a possibilidade de associar uma delas à Honora. Não se lembrava de ter visto o sobrenome “Andrey” nos dossiês até o gatilho ser disparado. Ele fora citado uma vez, uma única vez nas anotações como suposto nome verdadeiro do bandido. Mas, infelizmente, o capitão Otto Randik, teve a sua vida talhada e não pôde investigar a fundo a veracidade da informação.
Laura devia ter percebido antes, devia ter assimilado em sua mente a semelhança da morte de seu progenitor com a morte da mãe da mulher à sua frente. Devia ter entendido que o assassino de ambos era o mesmo. Seu sexto sentido não estava errado em imaginar que, naquele relato, havia algo de errado, mas mostrava-se deveras verossímil.
Nickolai era o criminoso com a maior recompensa oferecida pela polícia, dada a sua periculosidade. Um carrasco calculista, assassino, sanguinário, bandido da pior espécie. Chefe da máfia russa e, ao que parecia, contraditoriamente, “sócio” de uma das facções italianas mais conhecidas no mundo, seus crimes de todas as espécies bárbaras, compunham uma ficha extensa.
Laura o conheceu muito bem por conta de todos os relatos e conversas que teve com o pai sobre o assunto. Laura o conheceu muito bem, pessoalmente, quando este tirou o capuz que cobria seu rosto e matou seu querido progenitor, à sangue frio, bem na sua frente.
Laura agora tinha muitas respostas para as suas indagações. Durante anos, com a morte do capitão Randik, a policial achou que aquela história havia se dado por encerrada pelos criminosos envolvidos. Ledo engano. Ela nutriu, dia após dia, mês após mês, ano após ano, seu sentimento de vingança, permitindo deixar o tempo correr para pegar o seu inimigo totalmente desprevenido, sem chances de revide. Contudo, Randik sequer imaginava que a vingança viria, mas não por suas mãos. Naquele momento, ela entendeu que a rivalidade entre seu pai e o pai de Honora nunca teria fim com o assassinato do capitão da polícia, que provavelmente arruinou a vida do criminoso de alguma forma. Aquela rivalidade só teria fim depois que ele a exterminasse.
A operação, em si, tinha sido armada para prejudicar os policiais do departamento, e de quebra, eliminar a maior inimiga do chefe da máfia russa: Laura Stein Randik.
“Lembram-se de Korsak?”. A pergunta dos capitães Daniel Carlo e Yan Jung quando estavam repassando os detalhes da busca e apreensão, ecoou em sua mente, refrescando a sua memória. Korsak... Mais um dos nomes do maldito que acabou com a sua vida.
Agora fazia sentido porque tinha sido ela a escolhida para levar a bandida capturada no camburão. Agora tudo fazia sentido. A pessoa que a havia colocado naquela situação... Seu estômago novamente embrulhou. Randik havia acabado de descobrir quem era o comparsa do Sr. Andrey no departamento.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Brescia
Em: 10/05/2019
Oi mocinha.
Muito tenso esse capítulo , cheio de emoção, medo e esclarecimentos . De alguma forma esse sequestro a ajudou a descobrir tantas coisas.
Boa sra. Detetive!!
Baci piccola.
Resposta do autor:
Daqui pra frente a maioria dos capítulos terá uma dose dessa tensão, desse medo, de um turbilhão de emoções. Aos poucos vamos vendo a história de vida das duas se abrir na nossa frente. Espero que tudo te agrade.
Atualizei! Foram três capítulos grandes de uma só vez para compensar a ausência.
Aguardo seu comentário neles!
E a detetive precisará mesmo de muito boa sorte!
Baci, amore <3
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