2º Caps. – A segunda visita
Na manhã seguinte acordei passava das oito, fazia tempo que não dormia tanto. A clínica abria as dez nos sábados, por isso estava tranquila e com tempo, permaneci deitada por alguns minutos, não mais que isso porque meu corpo não aguentava ficar tanto tempo assim na cama, precisava me exercitar.
Levantei, tomei um banho e coloquei uma roupa confortável, fiz um alongamento na frente da clínica sendo cumprimentada por moradores próximos, e comecei a correr. Prática essa que deveria fazer todos os dias, mas como minha agenda não permitia, tirei o sábado de manhã para esse laser. Corri alguns km e retornei, como sempre na casa da dona Joana, que ficava na esquina da rua com a minha, me esperava com um copo grande de café forte.
Conversamos um pouco e logo me despedi agradecendo o café, voltei para casa tomei um banho, coloquei minha roupa e abri a clínica. No restante da manhã atendi dois gatinhos que precisavam de vacinação e uma cadela para avaliação, semana passada havíamos castrado grande parte dos animais domésticos da pequena cidade, por isso, muitos viriam para essa avaliação.
Estava distraída conversando com o Pablo, rapaz que me ajudava durante a semana, segundo ele, pretendia fazer Veterinária quando terminasse os estudos, e eu o incentivava sempre dando alguns livros e mostrando alguns procedimentos importantes que ele viria se seguisse carreira, era bem animado e uma ótima companhia.
Passava um pouco das duas quando o telefone da clínica tocou e como estava próxima, atendi.
– Clínica Veterinária, em que posso ajudar?
– Bom dia Dra. Beatriz!
– Bom dia dona Laura, a que deve tão ilustre ligação.
– Não seja boba menina. – sorri e ela me acompanhou dizendo: – Eduarda foi na capital com o avô e fica toda hora me ligando perguntando que horas você passará aqui na fazenda para avaliar Gitana e aplicar a segunda dose de medicação? – pausou, sorrindo: – Segundo ela, ligou duas vezes para você e não atendeu. – olhei meu celular e realmente tinha chamadas perdidas, me desculpei dizendo:
– Desculpa dona Laura, hoje o dia está tão calmo que acabei esquecendo de ativar o celular e o deixei longe.
– Dia calmo é muito bom menina.
– É sim, e raro também. – Pablo fez um gesto agradecendo e dei risada, voltei ao telefone dizendo: – Posso passar no final da tarde na Fazenda, se tiver tudo bem para a senhora?
– Com certeza minha filha, só liguei mesmo porque minha neta não vai parar até ter uma certeza. – sorri lembrando do sorriso da moça.
– Tranquilo dona Laura, a senhora é bem vinda a ligar quando quiser.
– Obrigada minha filha, te espero no final da tarde então. – concordei e antes de desligar ela perguntou: – Bolo de laranja ainda é seu favorito Bia?
– Sim dona Laura, ainda sou viciada nessa iguaria.
– Pois bem, terá um quentinho à sua espera quando vier até aqui mais tarde.
– Não precisa se preocupar dona.... – nem deixou eu terminasse dizendo:
– Não é incomodo algum Bia, deixa disso. – sorri aceitando a puxada de orelha: – Nos vemos mais tarde então.
– Sim senhora, até! – finalizamos a ligação e Pablo veio em minha direção perguntando:
– Será que vou ser tratado assim quando me formar?
– Talvez, se você for tão bom como parece que vai ser. – espalhei os cabelos dele que sorriu desviando. – Preciso ir na casa da Lurdes dar uma olhada no potrinho que nasceu ontem. – peguei minha maleta: – Você pode ficar de olho nas coisas para mim?
– Claro Dra., pode confiar.
– Confio sim moço. – sorri piscando e seguindo para minha caminhonete dizendo: – Qualquer coisa estou no celular, pode me ligar.
– Sim senhora!
Segui para o rancho na saída da cidade, mãe e filho passavam bem. Conversei com os donos, demos risada do incidente e sobre meu ferimento, os tranquilizei dizendo estar tudo bem. Fiquei avaliando o potrinho ganhar forças nas pernas enquanto tentava alcançar a mãe, e depois voltei para a clínica. Quase quatro e como o dia estava super tranquilo dispensei o Pablo mais cedo, ainda fiquei por ali avaliando alguns procedimentos que fiz durante a semana.
Fechei a clínica, tomei um banho e segui para o Recanto Bela Vista, estacionei minha caminhonete em frente aos estábulos passava um pouco das cinco. Cumprimentei os rapazes que estavam por ali, seguimos para o interior onde a égua estava. Avaliei ela, depois troquei o curativo e aplique os antibióticos. Parecia bem e impaciente, provavelmente por estar presa.
Recomendei os meninos a não forçarem muito ela, mas que a soltasse as vezes para não ficar muito irritada, depois nos despedimos e voltei para minha caminhonete. Quando fechei a porta para ir cumprimentar os donos da casa, a moça apareceu descendo as escadas sorridente perguntando:
– Como Gitana está Dra.? – sorri, encostando no carro cruzando os braços dizendo:
– Muito bem, acredito que ela estará cem por cento antes do esperado.
– Ainda bem. – senti que ela soltou a respiração, parecia ansiosa, sorri dizendo:
– Eles são mais fortes do que possamos imaginar moça. – me olhou com a sobrancelha erguida e sorri dizendo: – Eduarda.
– Pensei que tivesse esquecido.
– Não esqueci não, só força do hábito.
– Sei. – sorriu e se aproximou mais, olhou em meus olhos e disse: – Você disse que eu podia te ligar, liguei, mas não atendeu.
– Pois é, sua avó disse, desculpa.
– Só irei desculpar se tiver uma boa desculpa para isso. – joguei a cabeça para trás gargalhando, depois olhei para ela ainda rindo disse:
– Certo moça. – revirou os olhos e continuei rindo, disse: – Hoje o dia foi super tranquilo na clínica, normalmente passo mais tempo fora dela e por isso não me atentei que não estava com o celular no bolso.
– A senhora é muito requisitada então? – fiz careta concordando, sorriu perguntando: – Não gosta de ser chamada de senhora, não é?
– Praticamente isso.
– Faremos um trato então.
– Faremos? – inclinei a cabeça olhando curiosa para ela que disse:
– Sim! – sorri concordando e ela continuou: – Você não me chama mais de moça e eu paro de te chamar de senhora, estamos acertadas? – pensei por alguns minutos olhando atentamente para ela, depois estiquei a mão esperando que ela apertasse e disse assim que o fez:
– Estamos acertadas sim. – a puxei para mim, dessa vez estávamos praticamente coladas quando continuei: – Não acho justo, mas concordo. – o sorriso dela sumiu aos poucos, nossa respiração estava quase que unidas, passou a língua sobre seus lábios e a olhei com um sorriso curioso, ia dizer algo quando alguém nos chamou atenção:
– Atrapalho? – Eduarda se afastou, desviei meus olhos dos dela para ver quem nos chamava e sorri dizendo:
– Ora, ora, ora... Olha quem está aqui! – esticando os braços, os quais a mulher ao lado se jogou, rodopiei com ela ainda abraçadas perguntando: – Quando chegou?
– Hoje pela manhã. Nossa, você está muito bem Bia.
– Obrigada, digo o mesmo de você Quel. – sorrimos juntas, perguntei: – Veio para ficar?
– Não, só vim visitar meus avós, soube que minha priminha veio morar com eles. – ambas se olharam meio que se analisando, ainda em meus braços perguntou: – Tudo bem Eduarda?
– Estou bem sim, e você Raquel?
– Estou ótima! Não falei com você antes porque estava dormindo, foi um mês super puxado e quase nem consegui dormi.
– A vovó comentou! – ambas se encararam por alguns minutos, mas logo olhou para mim com aquele olhar sapeca apertando meus braços dizendo:
– Mas agora estou bem melhor. – sorriu: – Alguma chance de você aceitar tomar uma cerveja comigo antes que eu volte para casa Bia?
– Todas as chances meu bem. – sorriu me abraçando forte, mas logo saiu indo em direção a casa dizendo:
– Estava com saudades, tenho novidades para te contar.
– Estou ansiosa para saber. – sorri, voltei minha atenção para a moça ao meu lado dizendo: – Onde paramos? – sorriu meio a contragosto dizendo apenas:
– Minha avó nos aguarda para tomarmos café. – inspirei fundo concordando.
Segui com ela calada ao meu lado, cumprimentei os donos da casa que nos aguardavam e seguimos para a sala onde a mesa estava posta, no meio dela o bolo de laranja que dona Laura havia prometido. Conversamos animadamente, Raquel estava muito animada e praticamente não parava de falar.
Ela era alguns anos mais nova que eu, mas passamos nossa adolescência juntas ali na Fazenda, quando nos tornamos adultas seguimos caminhos diferentes, eu fiquei e ela se foi. Anos mais tarde nos envolvemos emocionalmente, mas não passou de alguns meses e nos tornamos amigas confidentes, quem nos via, pensava que éramos um casal, ledo engano, somos quase que como irmãs.
E no meio de toda aquela conversa, Eduarda que estava sentada ao meu lado, estava bem calada e só observava. As vezes nossos olhos se encontravam, sorriamos, mas logo ela os desviava. Terminamos o café, dona Laura e seu Antônio pediram licença e foram para o escritório e nós três seguimos para a sala, onde direta como sempre Raquel perguntou:
– Já casou Bia? Está enrolada? Com alguém? Eu conheço? – olhei para ela sem jeito dizendo apensas.
– Hei, calma moça... Quantas perguntas. – sorri me ajeitando no sofá, inspirei fundo dizendo: – Sabe que não levo jeito para casamentos Quel, sou um desastre, não tenho ninguém no presente momento.
– Não fala assim! – sentou ao meu lado tocando minha perna dizendo: – Se tivesse aceitado meu pedido estaríamos completando algum tipo de bodas.
– Se eu tivesse aceitado seu pedido, provavelmente estaríamos separadas já meu bem. – sorri: – Você não é mulher para morar no meio do mato, e convenhamos, não me dou bem na cidade grande.
– Está certinha meu amor, por isso sou livre como um pássaro. – rimos, ela desviou os olhos dos meus perguntando para a prima: – E você Eduarda, o que acha de casamento?
– Oi? – parecia meio aérea, olhei para ela que desviou os olhos dos meus respondendo à pergunta depois que a prima repetiu: – Ainda não parei para pensar sobre isso, mas se for com a pessoa certa eu não tenho porque não encarar. – discretamente me olhou, mas logo desviou os olhos dizendo: – Preciso fazer uma ligação, se me dão licença.
Levantei no momento em que ela levantou, passou por mim e ainda trocamos olhares, mas ela desviou e seguiu para a escada, quando sumiu no corredor de cima senti um aperto no meu braço, olhei para Raquel que me puxou perguntando:
– O que está rolando entre vocês?
– Como assim? – balancei a cabeça não entendendo o porquê da pergunta, ela me empurrou de leve no sofá sorrindo e cruzou as pernas elegantemente dizendo:
– Você e minha prima, o que está acontecendo com vocês duas? – inspirei fundo dizendo apenas:
– Até onde eu saiba, nada. O porquê da pergunta?
– O climinha de vocês lá fora, a visível irritação dela ao me ver junto de você. – fez uns movimentos com a mão: – Ora Bia, pode se abrir comigo. – balancei a cabeça rindo:
– Não viaja Raquel, conheci sua prima ontem em uma situação nada inusitada, apenas isso. – me olhou desconfiada e sorriu dizendo:
– Certeza?
– Você não tem jeito mesmo, ainda desconfia até das sombras?
– Sou uma mulher precavida.
– Doida, isso sim! – levantei e a puxei dizendo: – Preciso ir, amanhã vou viajar cedo e preciso descansar, me acompanha até o carro?
– Claro!
Seguimos até minha caminhonete, lá conversamos mais um pouco e pedi a gentileza dela se despedir de seus avós e prima, já que eles não estava mais por perto. Combinamos de tomarmos a tal cerveja na próxima semana, já que ela ficaria até o aniversário do avó, estava de férias. Me deu um abraço apertado e um beijo no rosto, entrei no carro e liguei piscando para ela.
Ao manobrar, olhei de relance para a casa e vi Eduarda na janela do quarto dela, sorri dando um tchau que ela correspondeu, saí buzinando e ganhei a estradinha de volta para casa. Guardei o carro entrando em casa, deitei no sofá ligando a tv. Uma reportagem rural que passava em um dos canais me prendeu a atenção e fiquei assistindo.
Fim do capítulo
Bjs, até a próxima meninas!!
Bia
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]