No dia seguinte à tempestade, Dominique encontrava-se na recepção da empresa quando Alexia cruzou o saguão em direção aos elevadores. A morena apressou o passo e entrou na cabine logo atrás dela.
- Bom dia — cumprimentou Dominique.
- Bom dia — respondeu Lex, seca, sem erguer o olhar. Nesse instante, a executiva notou o nariz e as maçãs do rosto da loira visivelmente avermelhados.
- Está com alguma alergia, doutora?
- O quê? Não. Licença.
Assim que o elevador atingiu o andar, Alexia saiu às pressas e trancou-se em sua sala. Dominique soltou um muxoxo nasalado e seguiu para cumprir sua agenda.
Dois dias depois...
- Samantha, por favor, vá até a Doutora Alexia e peça que traga os relatórios financeiros que solicitei.
- Claro, senhorita. Com licença.
Enquanto aguardava, Dominique debruçou-se sobre novas planilhas até ouvir duas batidas discretas na madeira.
- Entre.
- Com licença... Aqui estão os documentos. Me desculpe a demora — disse Lex, com a voz consideravelmente rouca e abafada.
A morena ergueu os olhos e avaliou a mulher à sua frente. Alexia parecia exausta: o rosto pálido contrastava com o nariz rubro, e ela lutava para conter o catarro e a respiração pesada.
- Você está claramente doente.
- Eu estou bem — insistiu, antes de ser vencida por uma violenta crise de tosse. Dominique balançou a cabeça em reprovação.
- Eu avisei para não enfrentar aquela chuva. Se tivesse me ouvido, não estaria nesse estado deplorável.
Lex tentou retrucar, mas nova tosse a interrompeu. Sem hesitar, a executiva levantou-se da poltrona, aproximou-se da loira e testou a temperatura encostando a palma da mão em sua testa.
- Você está fervendo em febre. Precisa de atendimento médico urgente.
- Eu já tomei um antitérmico... Logo passa.
- Então volte para casa e repouse imediatamente.
- Irei assim que terminar de despachar estas pendências.
- O trabalho não vai evaporar. Além do mais, permanecer aqui circulando entre os funcionários é um risco desnecessário de contágio — sentenciou Dominique, sem margem para debate. — Vá para casa e só retorne quando estiver recuperada.
Sem forças para argumentar, Alexia recolheu seus pertences, foi para casa, tomou um banho morno e desabou na cama. O corpo pesava, a garganta parecia em chamas e a febre castigava seus pensamentos.
Na noite seguinte, por volta das vinte e uma horas...
Dominique tentava focar nos relatórios de seu notebook, mas a imagem da loira doente insistia em invadir sua mente. Irritada com a própria falta de concentração, fechou o aparelho e decidiu ir até a residência vizinha averiguar a situação.
Ao tocar a campainha, foi atendida por uma mulher de meia-idade.
- Boa noite. A Doutora Alexia está?
- Quem deseja?
- Sou Dominique, vizinha dela e colega de trabalho. Como ela não apareceu hoje, vim ver se melhorou do resfriado.
- Ah, claro, entre por favor — convidou a funcionária doméstica. — Lex está deitada desde a tarde, nem levantou para jantar. Talvez a senhorita consiga fazê-la reagir. É a terceira porta à direita no corredor superior.
- Obrigada.
A morena subiu as escadas em silêncio. Bateu levemente e, diante da ausência de resposta, girou a maçaneta. O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela luz tênue do celular que acionou para se orientar. Ao aproximar-se da cama, encontrou Alexia suando frio e trêmula. Quando tocou sua testa novamente para medir a febre, a loira sobressaltou-se, abrindo os olhos assustada.
- O que você está fazendo aqui no meu quarto?
- Vim ver como estava e descubro que piorou. Você precisa ir a um hospital.
- Não...
- Como assim, não? Olhe para o seu estado.
- Não vou ficar presa a uma cama de hospital de novo. Eu detesto aquilo — choramingou Alexia, revelando uma vulnerabilidade inédita que remeteu imediatamente ao relato de Ravena sobre o trauma passado.
- Certo. Responda: o que está sentindo além da febre alta?
- Dor insuportável na cabeça e na garganta.
- Abra a boca — ordenou a morena. Lex obedeceu com dificuldade. — Sua garganta está severamente inflamada. Tem alergia a algum fármaco?
- Não. Por quê?
- Já volto.
Dominique desceu, pediu a Ianny que a levasse à farmácia de plantão mais próxima, adquiriu os insumos necessários e retornou rapidamente ao dormitório. Quando Alexia viu a seringa em suas mãos, arregalou os olhos.
- O que pretende fazer com isso?
- Administração intramuscular é a via mais rápida para baixar essa febre e debelar a infecção, a menos que consiga engolir comprimidos com essa garganta fechada.
- Espera, como posso confiar em você? O que é isso?
Dominique revirou os olhos diante da desconfiança da doente.
- Não é veneno para eliminá-la. É Benzetacil para conter o quadro inflamatório. Depois você descansa e toma os antibióticos via oral que comprei.
- E como sabe exatamente o que devo tomar?
- Isso não vem ao caso agora.
- É claro que vem! Não vou injetar substâncias sem saber...
- Apenas confie em mim, doutora. Você não é a única aqui detentora de formação acadêmica de peso.
- Espere... Você também é médica? — questionou Alexia, perplexa, mas a morena manteve o silêncio enigmático.
- Fique de bruços, por favor.
- Ah, sério? Não pode ser no braço?
- Não. Vire-se logo — insistiu a executiva. Sem alternativa, a loira obedeceu, ajeitando o short no processo. — Belo traseiro, doutora — alfinetou Dominique, contendo um sorriso.
- Dá para aplicar logo essa porcaria? — reclamou Lex, sentindo segundos depois a leve picada da agulha. A mão da morena surpreendentemente firme e precisa causou o mínimo de dor.
- Pronto. Deixei os comprimidos na mesagem de cabeceira; tome um de cada a cada oito horas. Vou pedir para sua governanta trazer uma jarra de água fresca.
Dominique virou-se para a saída.
- Dominique... Obrigada.
- Descanse, doutora. Amanhã estará recuperada — disse, fechando a porta. Ela própria surpreendeu-se ao constatar o quanto havia gostado de ouvir seu nome pronunciado daquela maneira pela loira.
***
O final de semana chegou ensolarado. Katherine e Samantha dirigiram-se a uma área verde arborizada dentro do condomínio, ideal para piqueniques. Dominique ficara na mansão concluindo pendências corporativas, mas, ao encerrar suas tarefas, decidiu juntar-se a elas. Ao aproximar-se do local, deparou-se com uma cena inusitada: a ruiva estava com o rosto ruborizado de raiva e a caçula pranteava copiosamente.
- O que aconteceu aqui? Quem morreu? — inquiriu a executiva, com o cenho franzido.
- Aquele garoto idiota roubou minha boneca e não quer devolver! — soluçasva Katherine.
- Desculpe, senhorita Foster, tentei recuperar à força, mas aquele pirralho é o cão chupando manga — justificou-se Samantha.
Dominique fitou um menino de aproximadamente doze anos que zombava a poucos metros de distância e marchou em sua direção.
- Ei, garoto! Devolva imediatamente o brinquedo à sua dona legítima e vá procurar o que fazer, ou peça licença antes de mexer no que não lhe pertence.
- Ah, sai pra lá, tia! Essa boneca é da minha irmã, então vaza — respondeu o menino com empáfia.
A Foster inclinou o tronco até ficar na altura dos olhos do garoto, adotando um tom gélido e cortante:
- Escute bem: ou você devolve a boneca agora mesmo, ou garanto que seus pais receberão em casa uma caixinha contendo todos os seus dedinhos cortados. E nem pense em fugir, pois eu sei exatamente onde você mora, Max Cony.
O menino empalideceu instantaneamente ao ouvir seu nome completo e a ameaça sutil. Sem proferir uma única palavra, disparou na direção de Katherine, estendeu o brinquedo trêmulo e sumiu correndo por entre as árvores. Dominique endireitou-se e esboçou um sorriso vitorioso.
- Essa foi uma abordagem bem drástica, senhorita Foster — comentou Alexia, surgindo de repente por trás de uma árvore próxima, com um sorriso divertido. — Mas confesso que aquele pestinha merecia um susto.
- Vejo que está recuperada, já que continua praticando o nobre hábito de escutar conversas alheias.
- Estou ótima, sim. E não estava bisbilhotando; eu já estava sentada aqui lendo antes de vocês chegarem. Gosto de observar o movimento. Veio trazer a meninada para passear?
- Viemos espairecer um pouco.
- Já que está aqui, junte-se a nós. A Kath certamente vai adorar — convidou a loira.
- Agradeço, mas passo.
- Se está recusando por causa daquela nossa conversa sobre guardar distância profissional, saiba que agora é tarde... Afinal, você já viu até a minha bunda — retrucou Alexia, fazendo a morena corar levemente. — Vamos, sente-se.
Assim que se aproximaram do grupo, Katherine avistou a vizinha e correu para abraçá-la efusivamente.
- Lex! Que bom te ver inteira!
- O prazer é todo meu, pequena — sorriu a loira, retribuindo o abraço, o que levou Dominique a achar a cena genuinamente terna. — Olá, Samantha.
- Olá, doutora Alexia. Como se sente?
- Bem melhor, obrigada. E por favor, me chame apenas de Lex; vamos deixar os formalidades corporativas lá no escritório.
- Certo... Lex — concordou a ruiva, sorrindo.
- Samantha, não acha isso um absurdo? Eu exijo que pare de me tratar por "senhorita Foster" fora do expediente e você nunca atende, mas com a recém-chegada aceita de imediato? — provocou Dominique.
- Desculpe, senhorita, é força do hábito — desculpou-se a ruiva, enquanto as demais riam.
- Ora, admita que está com ciúmes, Dominique! — cantarolou Katherine, divertindo-se com a situação.
- Ah, é? Vou te mostrar quem está com ciúmes, mocinha! — ameaçou a morena, avançando para fazer cócegas na irmã, arrancando gargalhadas cristalinas que ecoaram por todo o bosque sob o olhar cúmplice e sorridente de Alexia.
Fim do capítulo

NandaSulivan
07/05/2019 às 07:54
Que fofo, a toda poderosa cuidando da Lex!!!
Está uma delicia está história... Parabéns
Resposta do autor: Que bom rsrs Obrigada! Abraço!
Thyane
11/11/2018 às 21:16
NayGomez
23/05/2018 às 17:33
Ain gente que momento fofo com as Quatro *_* bom Dom até que combina com a Lex mais tipo e a Sam?! Arruma alguem pra ela entao, talvez uma mulher parecida com a Dom, forte determinada, linda e milhonaria claro, mais só nao deixa a Sam sozinha supando dedo e pelo que percebi ela e Dom vao se torna grandes amigas. Lex por mais que nao quero dar o braço a torce ela realmente combina com a Dom.. Obg pelo cap
Moura
23/05/2018 às 10:20
Lindo!
Parabéns.
Resposta do autor: Obrigada!! Bjs