Depois que Lex deixou a sala, Dominique resolveu servir-se de uma dose de uísque. Ao se levantar, o eixo da poltrona girou e a deixou de costas para a entrada. Ouviu batidas secas na madeira e autorizou a entrada sem mudar de posição.
- Com licença, sou Ravena Montenegro, vice-diretora da Diamond... ou pelo menos era o que constava — disse a recém-chegada, fitando a poltrona virada. — Tem alguém aí?
De onde estava, Dominique observava a mulher postada no centro de sua sala. Ravena vestia um terno social azul-marinho impecável, saltos altos, cabelos soltos jogados displicentemente para o lado e óculos de grau que lhe conferiam um ar de executiva implacável.
- Olha, se eu não te conhecesse, diria até que é uma pessoa séria — alfinetou Dominique, saindo de trás do balcão.
- Dominique? O quê... — Ravena paralisou, compreendendo a situação em segundos. — É claro. Foi você quem comprou a Diamond. Me diga que não fez isso de propósito só para me transformar em sua subordinada.
- Lógico que não. O negócio já estava fechado bem antes de você mencionar onde trabalhava.
- E por que não me avisou?
- Julguei desnecessário — respondeu a morena, retornando ao frigobar. — Aceita um drink?
- Não estou aqui para beber no expediente.
- Ah, é. Esqueci que você é a profissional exemplar. Li seu currículo e seus gráficos de desempenho; francamente, parabéns. Quer dizer, parabéns à doutora.
- Ótimo. Significa que continuarei no cargo?
- Sim, a vice-diretoria continua sendo sua. Mas me diga: por que nunca comentou sobre seu doutorado?
- Eu te enviei o convite da minha formatura, mas você havia decidido cortar relações com o mundo após a morte de Elizabeth...
- Não ouse pronunciar esse nome — rosnou Dominique, os dentes travados.
- Essa é uma das coisas que me intriga. Antes você respirava por aquela mulher e hoje não suporta nem ouvir o som de seu nome. O que houve?
- Não quero falar sobre isso.
- Uma hora terá de falar, quer queira quer não. E olha que eu nunca fui com a cara dela, mas ela parecia te amar de verdade. Não consigo imaginar o que aconteceu para te deixar com tanta sede de vingança.
- Me amava? Desde quando alguém que ama trai e planeja friamente a sua morte?
- O quê?
- Eu consegui rastrear o autor do disparo que a matou e descobri que ele era amante dela. Tudo foi arquitetado desde o nosso primeiro encontro; eles só queriam as minhas contas bancárias. Por uma ironia sádica do destino, ela acabou sendo atingida no meu lugar.
- Que filha da puta miserável... — Ravena chocou-se. — Por acaso começo a trabalhar hoje?
- Só depois de assinar os termos do novo contrato.
- Sendo assim, acho que vou aceitar aquele uísque — cedeu Ravena, recebendo um copo das mãos da amiga. — Vamos brindar.
- Brindar a quê?
- À nossa sobrevivência e à queda dos nossos inimigos.
As duas encostaram os copos e esvaziaram o conteúdo em um único gole. Ravena acreditou na versão da amiga sem pestanejar; não sentiu pena de Elizabeth, mas sim alívio por ver Dominique livre daquela farsa. Sabendo que o assunto era espinhoso, Ravena tratou de mudar o rumo da conversa para amenizar a atmosfera pesada.
Horas mais tarde, com a garrafa de uísque já vazia, o papo fluiu para amenidades e colegas de trabalho.
- Sabe, Dominique, você certamente convive com a Doutora Alexia há pouco tempo, mas nós trabalhamos juntas há anos. O que achou dela?
- Linda, competente e insuportavelmente petulante.
- Ela não abaixou a cabeça para você, né? — riu Ravena, observando o silêncio cortante da morena. — Pode ir se acostumando. Pela primeira vez na vida, alguém não teme a toda-poderosa Dominique Foster.
- Veremos até quando essa coragem dura.
- Olha aqui, Dominique: não ouse aprontar nenhuma maldade com ela por pura birra ou orgulho ferido. A Doutora Lex já passou por poucas e boas. Teve depressão grave após sofrer um aborto espontâneo que a deixou estéril, lutou com unhas e dentes para chegar onde está... Enfim, se há alguém neste mundo que não merece crueldade gratuita, é ela.
- Por acaso é apaixonada pela loira para defendê-la com tanta paixão? — ironizou a executiva.
- Não. Mas pesquise por aí e verá que muita gente a respeita e a defenderia com unhas e dentes.
- Relaxa, não vou fazer mal à queridinha do povo.
Antes que Dominique pudesse prosseguir, um trovão ensurdecedor ecoou pelos céus, fazendo Ravena dar um pulo da banqueta. Pela janela panorâmica, nuvens negras e densas cobriam a cidade inteira, prenunciando um temporal violento.
- Nossa, que horas são? — assustou-se Ravena, checando o pulso. — Duas e treze! É melhor eu ir embora; as tempestades por aqui costumam ser brutais.
As duas deixaram a sala e encontraram Samantha no corredor, carregando pilhas de documentos.
- Samira, você também veio? Que ótimo revê-la! — cumprimentou Ravena, analítica.
- É Samantha — corrigiu a ruiva, polida.
- Ah, claro. Juro que não erro da próxima vez — brincou Ravena, beijando a bochecha da assistente enquanto Dominique revirava os olhos. — Meninas, é melhor correrem antes que o dilúvio desabe de vez.
No estacionamento subterrâneo, sob o som da chuva torrencial, avistaram Alexia encostada em seu próprio veículo, enxugando o suor da testa com evidente frustração.
- Doutora Alexia! Como vai? — chamou Ravena.
- Olá, Ravena. Vou levando — respondeu a loira, suspirando pesadamente ao olhar para o painel do carro. — Meu motor apagou de vez bem na hora de sair. Pelo jeito vou ter de chamar um táxi.
- Que nada, a Dominique mora no mesmo condomínio que você. Peça uma carona a ela.
Dominique sentiu vontade de esganar a amiga naquele exato instante.
- Obrigada, mas prefiro aguardar um táxi — recusou Alexia prontamente.
- Sabe que os taxistas evaporam em dias de tempestade por aqui. Vai com a Dominique, não seja orgulhosa.
Lex fitou a presidente da empresa, que mantinha os braços cruzados e uma expressão gélida, visivelmente torcendo por uma recusa.
- Agradeço a intenção, Ravena, mas ficarei bem. Pode ir, senhorita Foster, não se incomode comigo.
Vendo o impasse, a própria Dominique decidiu intervir, contrariada:
- Já que seguimos para o mesmo destino, não me custa nada evitar que a senhora pegue uma pneumonia e comprometa o cronograma da empresa. Entre no carro, Doutora Thompson.
Sem alternativa diante da ordem autoritária, Alexia engoliu o orgulho e assentiu secamente.
Minutos depois, a limusine adentrava as garagens cobertas da mansão. Assim que o veículo parou, Alexia abriu a porta com pressa.
- Obrigada pela carona — disparou, abrindo o guarda-chuva e dando os primeiros passos rumo à saída.
- Aonde pensa que vai? — questionou Dominique, descendo logo atrás.
- Para a minha casa, óbvio.
- A chuva está castigando lá fora, vai se encharcar inteira cruzando a alameda a pé.
- A minha casa é logo ao lado, não se preocupe com a minha integridade física.
- É claro que me preocupo. Quem vai gerenciar o meu departamento financeiro se você ficar acamada amanhã?
Alexia parou de costas, respirou fundo e virou-se com um olhar incrédulo.
- Eu não sou de vidro e dificilmente fico doente. Com licença.
Ignorando os protestos, a loira disparou a correr sob a cortina d'água da tempestade, deixando Dominique plantada na entrada, acompanhando cada passo seu até sumir de vista.
Fim do capítulo

NayGomez
19/05/2018 às 01:49
Afx nao creio que a Dom nao vai ficar com a Samantha , isso é uma injustiça a Sam é tao linda em todos os aspectos, se fosse pra escolher com que a Dom deveri ficar com certeza seria a Samanta . mesmo assim obg pelo cap .
Resposta do autor: Infelizmente não planejo o que vai acontecer,mas quem sabe né Bjs