Capítulo 12 - Patrulha do afeto
Capítulo 12 — Patrulha do afeto
No domingo seguinte, Flávia fez seu desjejum na cela com animação, receberia a visita de seu primo, pelo menos havia ficado a promessa dele de que apareceria naquela manhã. Passando cinco minutos das nove, a agente chamou o seu nome, seria a única daquela cela a receber visita.
Chegando ao pátio a surpresa veio em dobro: Maurício e Juliana estavam de pé conversando, próximo ao portão de saída. Nem tentou disfarçar a alegria em vê-los, abraçou efusivamente seu primo, e depois carinhosamente Juliana.
— Como você conseguiu isso? — Flávia ergueu o crachá na roupa de Juliana.
— Mandei fazer numa gráfica, ficou perfeita, não acha?
Apenas a fitou boquiaberta.
— Estou brincando, me mandaram, sou oficialmente namorada da interna número 10081. — Juliana esclareceu.
— E segundo o cronograma do seu pavilhão, hoje é dia de dar um pouco de calor humano a você. — Maurício brincou.
— Obrigada, queridos, obrigada por não desistirem de mim.
— Disponha, mocinha. — Respondeu Maurício.
— Podemos ir lá pra fora? Aqui dentro tá muito frio. — Juliana pediu.
— Podemos sim, vamos lá pegar um solzinho na arquibancada.
Algumas internas jogavam futebol na quadra em frente onde o trio se esgueirava ao sol, Maurício sentou ao lado da prima, Juliana sentou no degrau abaixo, de lado com as pernas para cima.
— Eu deveria ter avisado que vinha? — A garota perguntou.
— Não, adorei a surpresa.
— A viagem é menos desagradável com companhia. — Maurício disse afagando o ombro de sua nova colega.
— Vocês têm se falado?
— Todos os dias trocamos mensagens. — Juliana respondeu. — Às vezes nos ligamos.
— Semana passada fomos numa pizzaria, era aniversário de Carol, sua... Amiga. — Maurício quase entregou que Carolina era um ex caso de Flávia.
— Ela ainda está com a Jannice?
— Não, terminaram, me disse que tá ficando com um cara do trabalho.
— Ela mudou de time? — Juliana perguntou.
— Não, ela é bi. — Flávia disse.
— Será que eu também sou bissexual? — Juliana refletiu.
— Você tem que descobrir isso sozinha, gata. — Maurício respondeu com bom humor.
— Na carta que você me mandou dizia que você nunca ficou com mulheres, o que mudou para você cogitar a bissexualidade? — Flávia estava curiosa.
— Isso parece pergunta do meu terapeuta.
— O que você responderia para ele?
— Que mulheres sempre chamaram a minha atenção.
— Ah, então não é algo novo.
— Essa curiosidade é uma velha amiga. Trouxe bolo de cenoura com chocolate, vocês querem?
— Aceito.
— Não gosto, mas obrigada. — Flávia declinou.
— Trouxe também água quente e erva mate, vocês gostam de chimarrão?
— Eu gosto.
— Não gosto, desculpe. — Flávia declinou também.
— Ela é super chata para alimentar. — Entregou o primo.
— Mas gosta de frango com quiabo e pudim de leite.
— E mais algumas coisinhas. — Ela completou. — Não sou tão chata assim, até porque costumo fazer minha própria comida.
— Ah, isso é verdade, Flávia é uma ótima cozinheira.
— É bom ver que você ainda está cumprindo o trato de falar bem de mim para Juliana.
— Falo bem de você de graça.
— Você compensa os parentes que falam mal de mim, não é fácil ser a ovelha negra.
Juliana preparava a cuia e servia o bolo, rindo da conversa dos primos.
— Tome, Mau. Não está tão quente quanto eu gostaria, mas dá pro gasto. — Entregou a cuia para ele. — Já experimentou?
— Já, esse troço é ruim demais.
— Gosto é gosto... Ah, queria te perguntar uma coisa.
— Pois não.
— Não entendi sua última carta.
— Quando a recebeu?
— Um dia depois de receber a credencial, por isso não entendi quando você deu a entender que o diretor não liberaria minha credencial.
— Eu também não imaginei que ele autorizasse isso tão cedo, mas fico feliz que aquele canalha tenha mudado de ideia.
— O que ele fez para você? — Juliana aproximou-se, percebendo a seriedade.
— Fez umas perguntas e comentários inoportunos.
— Você disse que ele te chantageou, também não entendi essa parte, com o que ele poderia chantagear? Você não fez nada de errado aqui dentro.
— Ah... Melhor deixar isso pra lá.
— Me conta.
— Eu também quero saber. — Maurício engrossou o coro.
— Ele... Digamos... Fez uma proposta indecente. — Disse já corada, Juliana arregalou os olhos.
— Igual ao filme?
— É, só que ao invés de um milhão ele daria a credencial.
— Que miserável! Que diretor desgraçado da cabeça! — Ela se injuriava.
— Você pode denunciar isso, Flávia. — Maurício também estava estarrecido. — Deve ter algum conselho de ética, sei lá, algo assim.
— Eu não sou ninguém, ele é diretor de um complexo penitenciário. Sem chance.
— Não acredito que esse cretino queria levar você para a cama! — Juliana reagia.
— Nós.
A jovem contadora arregalou novamente os olhos.
— Nós??
Flávia balançou a cabeça confirmando.
— Que nojento!
— Eu quase vomitei.
— Eu quero socar a cara desse homem. — Ela resmungou.
— E pelas entrelinhas me dei conta que ele já fez isso antes.
— Ugh! Que nojo!
— Acho melhor deixarmos isso pra lá, conseguimos a credencial.
— Mas ele pode cobrar algum favor seu depois. — Maurício a alertou.
— Deus me livre.
Minutos depois Juliana foi ao banheiro, Maurício aproveitou para atualizar a prima.
— Ela tá caidinha por você, Flávia.
— Sério? Tem certeza? — Ela perguntou sorrindo.
— Toda hora fala de você, vive me perguntando todo tipo de coisa, o que gosta de ler, de assistir, esportes preferidos, cor preferida, ex-namoradas...
— Você não falou sobre Carol, falou?
— Não, ela não sabe que você levou um belo chifre da ruivinha.
— É passado, ela é nossa amiga agora.
— Eu sei, morro de inveja desse seu lado bem resolvido.
— Vida que segue, só tenho olhos e pensamentos para essa fofinha agora.
— Eu torço para que isso dê em algo, mas me preocupo com as consequências, ela mora com os pais, que são meio conservadores, já percebi que ela os respeita bastante e não quer decepcioná-los.
— Eu sei, isso também tira meu sono. Como se já não tivesse obstáculos suficientes entre nós...
— Ela tá voltando.
— Posso sentar aqui atrás de você? — Juliana perguntou fazendo sombra nos olhos com a mão aberta.
— Pode sim.
— A patrulha do afeto alheio não vai reclamar?
— Acho que não.
Sentou-se no degrau de cima, com as pernas ao redor de Flávia.
— Qual o assunto? Quer mais bolo, Mau?
— Não, já comi metade do pote que você trouxe, obrigada.
— Ahhh! — Bradou Flávia, ao receber as mãos de Juliana no pescoço. — Suas mãos são pedras de gelo??
— Estão frias? — Juliana perguntou rindo, tirando as mãos.
— Frias? Provavelmente tive queimaduras no pescoço.
— É que tá frio, queria esquentar minhas mãos em algum lugar. Mas tudo bem, já tirei.
— Não, pode colocar de novo, mas avise antes.
— Deixa, coloco no bolso.
— Coloca logo, menina.
Juliana obedeceu, colocando as mãos no pescoço dela desta vez devagar.
— Suas mãos são sempre geladas?
— Só quando tá frio.
— Estou começando a me acostumar com suas respostas debochadas.
— É bom mesmo.
Flávia estava morrendo de felicidade com aquelas mãos frias e tão macias fazendo um carinho estranho em seu pescoço e nuca. Tempos depois Juliana sossegou as mãos em seus ombros.
— Que mãos quentinhas. — Juliana se surpreendeu quando Flávia segurou suas mãos, envolvendo no intuito de esquentá-las.
Flávia inclinou a cabeça para trás e perguntou com um sorrisinho provocador.
— Ninguém anda esquentando suas mãos?
— Não, preciso providenciar luvas. Ou alguém para me esquentar.
— E você está procurando? — Flávia já havia se virado para frente.
— Estou.
— Eu posso me candidatar? Estou indo bem, não estou? Suas mãos já estão descongeladas.
Juliana riu da ousadia dela, não sabia o que responder.
— Infelizmente só poderei prestar meus serviços quando você me visitar. — Flávia continuou.
— Por enquanto. — Respondeu, surpreendendo Flávia, que virou todo o corpo, sentando de lado no degrau.
— Provavelmente será verão quando eu sair daqui.
— Tudo bem, você também pode me ajudar se eu estiver com calor.
Flávia riu abertamente, cada segundo ao lado dessa garota a deixava ainda mais apaixonada.
— Posso sim.
— Para que você saia no verão precisa se comportar direitinho aqui, viu? Quando sentir vontade de aprontar lembre do pudim de leite que farei para você quando sair.
— Eu vou ganhar um pudim de leite?
— Feita por essas mãozinhas que você hostilizou. — Ergueu as mãos balançando os dedos.
— Não hostilizei. — Flávia tomou a mão dela, beijando a palma. — Até já me apeguei a elas.
— Elas também gostaram de você. — Fez um afago rápido em seu rosto, Flávia tremeu na base.
— Flávia? Tem uma guarda gesticulando para você. — Maurício a chamou.
A prisioneira olhou para o lado e viu uma senhora balançando o indicador para ela, a distância. Entendeu o recado e Juliana também, que saiu do degrau de cima e voltou a sentar ao seu lado.
— A patrulha do afeto funciona mesmo. — Juliana resmungou.
Fim do capítulo
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GRIPE
Em: 20/04/2018
Kkkk é só um acrônimo bobo... Que a festa continue então, estamos adorando!!! Sério to apaixonada pela sua história. To aqui pensando como as coisas q vc trás aqui realmente acontecem na vida real, atualmente ser gay não tem o mesmo estigma q a 20 anos atrás mas a violência contra lésbicas ainda é deplorável, tem muito o que melhorar e é só falando sobre isso q poderemos mudar algo. Acho tudo autêntico, envolvente, e estimulante... ;*
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Sem cadastro
Em: 17/04/2018
Oiee
Preocupada com o futuro de Flávia nessa cárcel !!!
Sinto que vou sofrer futuramente kkkkkk.
Até o próximo cap!
Beijos
Resposta do autor:
E pra ficar preocupada mesmo, não vou deixar Flávia sair da prisão sem passar algum perrengue... XD
Bjos!
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Loren08
Em: 17/04/2018
Oi Cris, acompanho sempre suas histórias, desde Amizade De Aluguel. Gosto da sua escrita. Essa nova (que não é tão nova) tá bem legal, mas confesso que acabo ligando com o ambiente de OITNB. Rs. Deve ser pq se passa em uma prisão. Parabéns! Continue a postar nessa frequência! Abraços!
Resposta do autor:
Oie Loren! Brigadão por me acompanhar (e não desistir de mim... hehe).
Realmente é difícil falar sobre prisão e lésbicas sem cair numa coisa meio Orange, mas em minha defesa tenho a dizer que escrevi a parte inicial dessa história bem antes de lançarem o seriado... ahahahha
Beijos!!
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GRIPE
Em: 16/04/2018
Gsuis, quando tem mais? Que raiva desse diretor, que nojo de atitudes dessas, desejo q o tempo voe pra q essas duas fiquem juntinhas logo!!
Resposta do autor:
Mano, seu nome é gripe??
Prometi 4 postagens por semana, mas virou festa isso aqui, tô postando quase todo dia... hehe
O tempo pode ser bem cruel quando se tem pressa...
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Kim_vilhena
Em: 16/04/2018
eu te disse que a Ju faz drama!
essas provocações conseguirar me fazer rir heuheuheu
elas até que são fofas, já amei u.u
aguardo ansiosamente o próximo, viu dona Cris?!
Resposta do autor:
Você não viu nada, Juliana consegue tudo que quer com esse jeitinho dela... rs
A química entre elas está florescendo, meio aos trancos e barrancos, mas tá indo pra frente! Daqui a pouco vão juntar escovas de dentes e tudo!
Brigadão por me ler, Kim!
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IolandaStrambek
Em: 16/04/2018
Cada capítulo mais adorável!
Resposta do autor:
Vem mais algumas doses de fofura por aí ;)
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