Capítulo 2 - Doce Lar
O percurso de volta à cidade é repleto de silêncios desconfortáveis e a estática do rádio que se recusa a pegar normalmente. Procurando quebrar o gelo, Gustavo comenta o primeiro assunto que lhe vem à cabeça.
- Então, você vai ao encontro? - Cecília não responde de imediato, custando a achar o caminho de volta de seus devaneios.
- Como? - Ela pergunta, seu olhar ainda distante, embora Gustavo não pareça notar.
- O encontro de dez anos do colégio. Você vai? – A menção de Gustavo faz Cecília se recordar do envelope deixado sobre o balcão de sua cozinha e até então esquecido. Uma realidade distante. Algo que sequer havia lhe passado pela cabeça nos últimos dias, mas que agora se apresenta como uma oportunidade. Talvez até mesmo uma saída de emergência.
- É... Acho que sim.
- Nossa, eu também. Promete ser divertido né? Reencontrar o pessoal da turma antiga, relembrar os velhos tempos? - Gustavo comenta sem tirar os olhos da estrada, um sorriso em seus lábios.
No rosto de Cecília é possível notar o esboço de um sorriso. Para Gustavo tudo sempre fora mais simples. Suas escolhas, sua maneira de encarar a vida. Na juventude, ela fora incapaz de aceitar esses traços de sua personalidade, o que tornou a relação dos dois inviável, especialmente à longo prazo. Mas atualmente, especialmente hoje, ela é capaz de reconhecer suas vantagens. Gustavo parece feliz, enquanto ela... Ela mal consegue se lembrar do som de seu próprio riso.
- É, acho que se pode dizer que sim. - Ela responde pensativa.
Nos tempos de escola, com seu grupinho de amigas e preocupações superficiais, sua vida ainda parecia ter algum sentido. Reviver esses momentos subitamente lhe parece uma excelente idéia.
De repente, a perspectiva de se deixar levar pelas memórias do passado parece muito melhor do que de deixar levar por pensamentos de tudo que poderia ter sido, mas não foi.
De repente, ela consegue até mesmo encontrar um novo fôlego. Por mais um dia, pelo menos.
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As semanas voam e muito antes do que Milena gostaria, chega o dia de retornar à sua cidade natal.
Sua empolgação revelando-se inversamente proporcional as horas de viagem que a aguardam.
Cedinho, quase com o raiar do sol, Hugo chega à frente do prédio, com uma disposição que geralmente está mais relacionada ao começo de uma noitada do que a mais um dia. Não lhe passa despercebido que esta seja apenas uma forma de compensar a falta de entusiasmo que Milena está sentindo. Entretanto, o tiro meio que sai pela culatra, uma vez que toda vez que Milena enxerga seus dentes brancos emoldurados por um sorriso quase plástico, sua única vontade é socá-los até que não reste mais nenhum em sua boca.
- Preparada? – Ele se afastada do carro e pega a alça de sua bolsa antes que Milena tenha a chance de dar para trás.
- Tanto quanto possível. – Ela abre a porta do passageiro e deixa seu corpo tombar sobre o banco pesadamente. – E ainda assim, não creio que suficientemente.
Após ajustar a bagagem no porta-malas, Hugo se junta a ela dentro do carro, seus dedos tamborilando animadamente sobre o volante.
- Eu preparei uma playlist especialmente para a viagem que tenho certeza, será um sucesso absoluto! – Ele anuncia, prestes a conectar o cabo no aparelho de som.
- Na verdade, - Milena o interrompe, colocando os óculos escuros. – Eu dormi super mal essa noite. Você se importa se eu tirar um cochilo? Prometo ouvir o que você quiser e até cantar junto depois algumas horinhas de sono.
Com uma expressão indecifrável, Hugo não objeta, mordendo a língua e engolindo – ao menos por ora – sua opinião sobre o real motivo da indisposição de Milena.
Ao invés disso, ele lhe oferece um sorriso compreensivo. – Sem problemas. Quem sou eu para negar seu sono de beleza quando claramente você está tão necessitada de suas propriedades restauradoras.
A brincadeira, que normalmente seria recebida com uma resposta mordaz ou até mesmo um beliscão, fica no ar, ignorada quando Milena escolhe se esconder atrás de seus óculos escuros, o rosto apoiado no travesseiro que ela insiste em levar em todas as suas viagens.
Com um suspiro preocupado, Hugo respeita seu pedido e dá partida no carro, preparado para pegar a estrada. Sua cabeça apenas remotamente focada no trânsito.
Os diplomas de segundo grau mal haviam sido assinados quando Milena e Hugo pegaram a estrada, desesperados e afoitos em deixar tudo aquilo que conheciam para trás. É difícil acreditar que dez anos se passaram desde então. Parecia tanto tempo, e ao mesmo tempo tão pouco. Hugo ainda retornara à Arvoredo ocasionalmente, para festas de fim de ano e algumas datas especiais, mas Milena nunca mais colocara os pés na cidade. Não que ele pudesse culpá-la, tendo em vista as circunstâncias de sua partida e os eventos que tomaram parte, não muito tempo depois.
Uma parte sua espera que, mais do que uma renovada em seus ânimos, essa viagem também possa ajudar a cicatrizar velhas feridas.
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Cecília acorda assustada com o som do bater da porta. A taça vazia escapando por entre seus dedos e rolando sobre a colcha da cama ainda feita. Com a cabeça latejando ela percebe que adormeceu com as roupas do dia anterior, e mal tem tempo de se orientar antes de Marcelo entrar no quarto chamando seu nome, um tom brincalhão na voz.
- Aí está você! – Ele se dirige à janela e abre as cortinas do quarto, espantando a penumbra que até pouco embalava o sono de Cecília. – Meio tarde para ainda estar na cama, não acha?
Cobrindo os olhos com uma das mãos ela contém um gemido. Com a testa franzida, o noivo de Cecília parece ter dificuldade em assimilar sua atual aparência. – Desculpe querida, você está se sentindo bem?
- Não é nada. – Ela oferece um pequeno sorriso, se esforçando para se recompor. – Apenas uma leve indisposição.
Para a sua sorte, Marcelo nunca parece parar tempo o suficiente em um mesmo lugar para se apegar aos detalhes. É parte do que o torna perfeito aos seus olhos.
Com um sorriso no rosto ele passa por ela, dando um beijo rápido em sua bochecha antes de se dirigir ao closet. – Tenho que correr. O Ribeiro ligou quando eu ainda estava na estrada.
Respirando fundo, Cecília se levanta e se dirige ao banheiro de sua suíte, não arriscando um olhar direto para seu reflexo no imenso espelho que tem sobre a pia. Á água fresca contra seu rosto lhe oferece um alívio momentâneo.
– O Kléber? Achei que ele estivesse de férias na capital. – Ela pergunta passando a mão pelos cabelos e tirando os grampos que não se perderam em meio a roupa de cama e seus travesseiros.
- Ele está! – Ela pode ouvir Marcelo se movendo no quarto, gavetas e portas sendo fechadas e abertas. - Parece que ele conseguiu o contato de um novo investidor para o projeto, mas ele só vai estar na cidade este fim de semana.
Seus olhos esverdeados finalmente recaem sobre sua própria figura ao mesmo instante em que as palavras de Marcelo parecem ganhar foco.
Com passos lentos, ela se dirige mais uma vez ao quarto, uma pequena ruga se formando no meio de sua testa enquanto ela o observa, buscando a confirmação de suas suspeitas.
- O que isso significa? – Ela pergunta sem alterar a voz, embora uma sensação ainda mais desagradável do que os vestígios de uma noite cujo jantar consistiu em uma garrafa de vinho branco, se instala na boca de seu estômago.
Comparando gravatas e ternos em frente ao espelho, Marcelo complementa distraidamente. – Desculpe amor, eu sei que mal cheguei de viagem, mas essa é uma oportunidade única. Se esse investidor topar, a coisa finalmente vai deslanchar.
- Eu prometo te recompensar quando voltar. – Ele diz sem notar sua falta de reação. E é quando Cecília percebe que ele não se lembra.
Ele não faz a menor ideia.
E a pior parte, é que isso não a surpreende. Não realmente.
Mesmo que ela tenha comentado com ele mais de uma vez. Confirmado com sua secretária. Programado em sua agenda eletrônica.
Cecília não sabe se ri, ou chora.
Normalmente ela não falaria uma só palavra. Alguns dias de tratamento glacial e mesmo ele seria capaz de notar seu erro, o que costuma funcionar a maior parte das vezes.
Mas dessa vez Cecília não possui esse tempo. E, francamente, nem mesmo a energia para tanto.
Ao invés disso, ela deixa escapar um suspiro longo e cansado. – E quanto a minha reunião do Dias Macedo?
A expressão no rosto de Marcelo perante suas palavras seria quase cômica, se ela ainda tivesse a habilidade de se importar.
- Puxa vida, amor. Eu sinto muito! – Ele fala abandonando os ternos sobre a cama e pegando as mãos dela entre as suas. Seus olhos são sinceros quando ele a encara. – Eu realmente gostaria de ir com você. Mas você entende porque eu não posso deixar passar essa oportunidade, não é mesmo? Entende o quão importante ela é para mim? Para nós?
Com os olhos fixos em um ponto invisível sobre seus ombros, Cecília permanece imóvel, e quando Marcelo toma seu silêncio por consentimento, ela não se dá ao trabalho de corrigir seu engano.
Talvez ela seja a pessoa que está se enganando afinal.
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O carro já abandonou os limites da cidade e ganhou a estrada quando Milena dá os primeiros sinais de estar acordando. Sem tirar os óculos ela observa Hugo, seus cabelos castanhos bagunçados pelo vento, a pele clara e salpicada de sardas, principalmente sobre os ombros expostos pela camiseta regata. Cantarolando uma música que ela não consegue identificar a princípio, ele parece leve e despreocupado.
O que é exatamente o oposto do que ela está sentindo.
- Já chegamos? – Ela brinca, se espreguiçando.
- Finalmente! Seus roncos não eram exatamente a trilha sonora que eu tinha planejado pra essa road trip.
- Ei amigo, todos aqui sabemos quem aqui tem a capacidade vocal de um trator e essa pessoa não sou eu. – Milena pega o celular na bolsa e nota a total ausência de sinal.
Então, ela seleciona uma lista de músicas e dá play.
Hugo e ela se conheceram no sexta série. Ele era um garoto magrelo e sardento que gostava de dançar e das Spice Girls. Ela usava roupas largas e cultivava uma paixão secreta por Karen Carpenter. Até hoje Milena não sabe dizer se foi uma questão de afinidade propriamente ou instinto de sobrevivência o que facilitou a amizade entre os dois, mas de alguma forma os dois se encontram e nunca mais se desgrudaram desde então.
Tendo isto dito, mesmo Hugo e sua sincera apreciação pelas divas da música negra e todo o figurino purpurinado da era Motown, encontra dificuldade para apreciar a seleção de músicas que Milena preparou para a viagem.
O fato de ela ficar trocando de música consecutivamente, sem deixar que nenhuma chegue ao fim certamente não ajuda.
Ela acaba de interromper Luther Vandross quando ele decide se manifestar.
- Eu só gostaria de apontar que se por acaso eu acabar jogando esse carro de cima de um penhasco, à La Thelma e Louise, vai ser provavelmente por ter sido induzido por essa trilha absurdamente deprimente que você selecionou.
Milena revira os olhos e a contragosto seleciona uma faixa mais animada. Por alguns minutos The Supremes se encarregam de amenizar o clima, mas não demora a que suas vozes sejam substituídas por Linda Ronstadt, e em seguida, Carpenters mais uma vez.
Hugo tenta ser paciente, o que não ocorre sem considerável esforço e seus dedos já estão brancos de tanto apertar o volante, um comentário afiado prestes escapar por entre seus dentes, quando Milena escolhe aquele momento para se manifestar.
- Você pode me lembrar novamente o motivo para estarmos indo de carro? – As palavras de Milena escapam surpreendentemente claras em meio ao barulho do vento e a batalha travada entre o mesmo, seus cabelos e o falsetto de um jovem Stevie Wonder.
- Do que você está falando? Esse bebê aqui é garantia certa de uma entrada triunfal! – Hugo se refere o conversível vermelho que ganhou de seu pai quando se formou.
- Você mal tira esse carro de dentro da garagem, que por sinal tem um aluguel mais caro do que o apartamento em que a gente vive atualmente.
- Mais um motivo pra ela fazer parte da nossa jornada de volta para casa. Um pouquinho de ar fresco não pode fazer mal. – Milena revira os olhos e troca a música mais uma vez. Hugo procura conter sua irritação respirando fundo. Sua melhor opção é oferecer a distração que Milena tanto precisa.
- Então, você não chegou a me dizer onde vai ficar hospedada.
A música é imediatamente esquecida e Hugo não sabe se sorri ou se chuta a si mesmo. Milena jura que não, mas ele está certo de que possui habilidades sobrenaturais. Pelo menos no que se refere à sua melhor amiga.
A resposta de Milena demora tanto que ele quase já não espera uma resposta, quando ela lhe oferece uma.
- Eu liguei para Catarina. – Ela deixa as palavras escaparem como se elas estivessem presas em sua garganta e seus olhos analisam sem pressa todos os detalhes do painel do carro antes de retornarem a figura de Hugo que a observa impassível. Ao perceber o choque em sua expressão Milena lhe dá um cutucão no ombro. – Hey! Será que dá pra você manter os olhos na estrada?
- Desculpa. – Hugo volta sua atenção imediatamente para o asfalto, incapaz de formular qualquer resposta por alguns instantes.
Não é um feito pequeno quando algo ou alguém o deixa sem palavras.
- Não foi tão ruim quanto eu esperava. – Ela tenta quebrar o silêncio desconfortável.
- Bem, o mundo não acabou e os cavaleiros do Apocalipse não bateram em nossa porta, o que pode ser visto como um começo mais do que promissor. – Hugo acrescenta para seu alívio, com uma dose de bom humor, ainda que este soe ligeiramente forçado. – Há quanto tempo você e ela não...?
- Seis anos. – Milena responde antes que Hugo tenha tempo de formular a pergunta por completo. – Você sabe, desde a...
- Sim, dessa parte eu me lembro bem. – Ele a interrompe, os eventos a serem mencionados ainda frescos em sua memória.
- Pois é. Minha mãe disse que ficaria feliz em me receber em sua casa.
Suas palavras e principalmente o nervosismo que Hugo enxerga por trás de cada sílaba parecem ficar suspensas no ar, como uma nuvem carregada.
- Milena, você não precisava fazer isso. Eu sei que as coisas ficaram meio estranhas entre você e o Gustavo, mas a gente ainda pode dar um jeito de você ficar lá em casa.
- Primeiramente, ‘estranhas’ é um termo que fica devendo, e muito, no que se refere ao clima que ficou entre nós dois. – Hugo sequer tenta discordar. - E está tudo bem... Mesmo! A conversa foi... boa, de verdade! Já faz bastante tempo, talvez o tempo necessário pra poeira baixar.
Hugo não está certo se Milena está tentando convencer a ele ou a si mesma. É provavel que ela também não saiba ao certo. - Além do mais: é só um fim de semana.
- É verdade. – Ele tenta reafirmar a amiga, mas sem conseguir espanar completamente as preocupações que agora nublam seus pensamentos. Assim, ele tenta injetar novo ânimo em suas palavras. A última coisa que Milena precisa é lidar com as incertezas dele, além das suas próprias. – Você está certa. O que pode acontecer em três dias?
Ele sorri, tentando soar confiante e ignorar a vozinha dentro de sua cabeça.
Seu último desejo nesse instante é estar certo. Mesmo que as probabilidades estejam quase sempre a favor de seus instintos.
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Quando Cecília tinha oito anos, sua tia Ariadne ficou muito doente e acabou sendo acolhida pela irmã em sua casa. Ela que não conhecia ninguém da família da mãe, se surpreendeu com aquela figura frágil de longos cabelos escuros e pele quase translúcida, tão diferente de sua mãe, com seu rosto rosado e curvas fartas.
Ariadne não saia muito do quarto, às vezes nem mesmo da cama, e não demorou a que a curiosidade de Cecília se manifestasse um dia, enquanto ela fazia o dever de casa sentada à mesa da cozinha, sua mãe dividindo a atenção entre as panelas e a novela das seis.
- O que a tia Ariadne tem? – Ela perguntou mordendo a ponta do lápis e sua mãe parou por um longo tempo, as mãos cobertas de farinha e um visível peso em suas feições.
- Você sabe o que aconteceu com seu primo, não sabe?
- Deus quis que ele fosse morar no céu. – Cecília repete as palavras que sua irmã mais velha lhe deu, sussurradas enquanto ela segurava sua mão a caminho do cemitério.
- Pois é. Quando o Vicente foi embora, deixou um buraco no coração da sua tia. E ela encheu esse buraco com a única coisa que tinha naquele momento: Tristeza. – Ela suspirou, retomando suas atividades. – Tanta tristeza que não sobrou espaço pra mais nada.
Na cabeça de Cecília fez sentindo então que sua tia se sentisse tão mal, afinal, nas aulas de ciência ela já aprendera a função fundamental que tem um coração.
Mais tarde ela aprenderia que o que sua tia teve afinal, foi um caso grave de depressão.
Mas este não é o seu caso, e é assim que ela sabe. Afinal ela não perdeu um filho, nem mesmo um ente querido. Na verdade, Cecília mal consegue se lembrar de quando foi a última vez em que ela perdeu qualquer coisa. Tudo o que ela tem, toda a sua vida até então, uma série de conquistas que aconteceram exatamente do jeito que ela havia planejado.
E ainda assim, ela ainda pode ouvir as palavras de sua mãe, e não pode deixar de pensar nesse sentimento que a aflige, nesse vazio que não parece ser não ter fim. Nessa falta que ela não sabe como ou com o que preencher.
A água da banheira há muito já esfriou, mas mesmo os pelos arrepiados de seu braço bem como as pontas enrugadas de seus dedos não são o suficiente para que Cecília saia de onde está.
E quando Marcelo bate na porta, abrindo em seguida com um sorriso apertado, ela sabe que deveria esboçar alguma reação, mas não o faz. Ao invés disso, seus olhos verdes apenas o encaram por um longo tempo, como se ele fosse um enigma indecifrável.
- Desculpa, amor. Mas eu acabei de receber uma ligação do lar de idosos onde a minha tia-avó Eveline está morando. Sei que o timing não é exatamente o melhor, mas você não teria coragem de deixar na rua uma dócil senhora de 82 anos, não é?
Quando Cecília mergulha na banheira, prendendo o fôlego e abrindo os olhos debaixo d’água, ela imagina como deve ser estar prestes a se afogar. E uma parte sua não deixa de pensar que talvez sua realidade não esteja tão distante disso.
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Quando Milena avista a placa anunciando a entrada em Arvoredo, seu primeiro instinto é achar o primeiro retorno e talvez tentar até mesmo uma manobra mais radical, deixando marcas no asfalto e uma trilha de poeira vermelha em seu encalço.
Um rápido olhar na direção de Hugo, que ressona sonoramente no banco do passageiro com um brilho suspeito no canto da boca, faz com que ela aperte o volante com força e acelere sem mudar a direção.
- Chegamos! – Ela anuncia sem demora, talvez um pouco mais alto do que o necessário e Hugo desperta assustado, o rosto ainda exibindo as marcas do travesseiro.
- Meu Deus, tem certeza de que você não pegou algum atalho para um túnel do tempo? – Ele esfrega os olhos e Milena sabe exatamente o que ele quer dizer.
Dez anos se passaram desde a última vez em que estiveram ali e a julgar pela aparência da cidade, poderia ter sido dez minutos. Tudo se encontra exatamente no mesmo lugar, como um cenário de filme que não foi desmontado, ou a cidade de dentro de um globo de neve (sem a neve), o que provoca arrepios nos dois, mas não de um jeito legal.
- Você acha que o prefeito fez algum tipo de pacto? Isso certamente explicaria muita coisa. – Milena comenta com uma careta e Hugo tem dificuldade para desacreditá-la.
- Tenho certeza de que qualquer semelhança com o começo de um filme de terror é apenas uma coincidência. – Hugo afirma, sem tanta certeza assim. Ele então parece notar o caminho que Milena está fazendo. – Sua mãe ainda mora no mesmo lugar?
- Sim, então se eu parar de responder as suas mensagens você já sabe em qual endereço mandar reforços.
- Ainda dá tempo de mudar de ideia. – Hugo sugere, com um olhar preocupado.
- Foi você quem disse que deveríamos fazer as pazes.
- Sim, mas isso é como uma miss desejando paz mundial. A gente quer, mas nunca imagina que vá acontecer de fato.
Milena sorri, sentindo-se reconfortada pela preocupação do amigo. – Obrigada, mas eu acho que dou conta do recado.
Sem mais palavras, Hugo deposita a mão sobre a sua, e não demora a que eles cheguem ao seu primeiro destino.
Tão logo o carro se aproxima da casa, a luz da varanda é acesa e a porta da frente é aberta. Por ela saem um cachorro grande e marrom, seguido por uma menina entre seus oito ou nove anos. Com seus cabelos castanhos e longos presos em duas tranças e sorriso contagiante ela poderia ser uma pequena réplica de Milena.
Sem tirar os olhos da garotinha, Hugo sussurra para a amiga. – Meu Deus, isso é mesmo um episódio de Além da Imaginação e aquela é a sua versão criança!
- Hugo, recomponha-se! – Milena o adverte com um revirar de olhos antes de sair do carro e dar a volta no carro, uma expressão ilegível em seu rosto que poderia ser ansiedade ou expectativa. Talvez os dois.
- Ela está aqui!! A Milena chegou!! – A menina anuncia a plenos pulmões e o cachorro late, provocado pela agitação.
- Puxa vida, Rafa. Como você cresceu! – Milena sorri e abre os braços, o que a garota aceita como um convite, a envolvendo em um abraço apertado.
Surpresa com a súbita demonstração, Milena não sabe o que dizer, e ainda menos quando a voz de Catarina chega a seus ouvidos.
- Ela não é a única. – A voz de sua mãe é grave e familiar como o perfume das damas de noite plantadas não longe dali, e Milena se surpreende ainda mais com o aperto que sente em seu peito a se deparar com a mulher a quem há mais de meia década ela não vê.
Sem pressa Catarina caminha em sua direção, e também nela, Milena reconhece as semelhanças compartilhadas, desde o tom de sua pele morena, ao queixo pontudo e o nariz proeminente.
- Oi – Ela diz simplesmente, o coração batendo forte em seu peito.
Ter voltado pode ter sido exatamente o que ela precisava ou o maior dos erros que ela poderia ter cometido.
Milena não tem como saber, não ainda.
A única coisa que ela sabe ao certo, é que agora é tarde demais para recuar.
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Fim do capítulo
Gente, eu sei que o começo dessa história pode estar meio lento e os capítulos longos demais. Mas o encontro dessas duas não demora e espero ele faça valer a espera e paciência de vocês!
Abs,
Liv
Comentar este capítulo:
rhina
Em: 17/06/2016
Oi.
Liv.
Passei novamente aqui para te deixar um abraço.
E disser que o pouco que li do que escreveste me conquistou completamente.
Sua sensibilidade é bela tocante e profunda.
Em apenas dois capítulos vc deixou claro o poder de como escreve e qualidade da história que começou a descrever.
Então se ainda estiver em planos, volte.
Te espero.
Beijos.
rhina
Em: 04/06/2016
Oi.
Liv tudo bem?
Quais chances de vc voltar a atualizar a história e até mesmo concluir?
Estava indo muito bem.Sua história é muito boa.
Então autora volte.
Beijos.
Resposta do autor:
Olá!
As chances de retomar essa história são definitivamente concretas! Estou prestes a entrar de férias e pretendo me dedicar firmemente a ela. Obrigada pelo comentário, é sempre um incentivo a mais!!
Bjos
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Marie Claire
Em: 19/04/2016
Louca de curiosidade para que aconteça esse encontro das duas e de saber qual o mistério que envolve Milena. Por favor continue postando textos longos, pq eu os adoroooo, bjs
Resposta do autor:
Olá! Desculpe o sumiço! Pretendo retomar essa história muito em breve e espero que não tenha desistido de ler quando isso acontecer. Obrigada pelos comentários. São sempre um incentivo :D
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Mille
Em: 12/04/2016
Adoro capítulo longo, o bom é que vai de um personagem ao outro.
Aos poucos vamos conhecendo os personagens
Bjus e até o próximo
Resposta do autor:
Que bom que está gostando! Seio que fiquei ausente um tempo longo, mas pretendo retomar essa história muito em breve. Obrigada por ler e comentar!
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Maryya
Em: 11/04/2016
Você vai postar aleatoriamente ou por dia marcado? Fiquei tão curiosa...
Gosto muito de ler e a sua história promete <3
Resposta do autor em 11/04/2016:
Olá Maryya! Que bom que está gostando assim! Então, minha ideia é postar pelo menos uma vez por semana. E acredito que o melhor dia para isso seja aos Domingos a noite mesmo. Assim, espero que continue acompanhando! Obrigada pelo interesse!
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Ana_Clara
Em: 11/04/2016
Eu adorei os capítulos longos e estou adorando o caminhar da história. A Ceci pode ter sido uma má menina na adolescência, mas tenho tanta dó dela nesse momento. Vida chata e cinza, pior que a vida da Milena.
Resposta do autor em 11/04/2016:
Puxa vida, que bom que está gostando desses capítulos longos. Confesso que fiquei em dúvida se não deveria dividir em partes, visto que não é todo mundo que encara uma leitura maior, ainda mais online. Mas por enquanto, a estrutura programada é essa mesmo... Acho interessante você ter captado este ponto da juventude da Cecília mesmo sem que eu tenha dado muitos detalhes a respeito. A ideia é essa mesmo. As frustrações de sonhos não realizados são terríveis, mas as vezes a angustia de não saber o que se quer poder ser tão terrível quanto.
Obrigada por ler e compartilhar suas opiniões, elas são mais do que bem vindas! Até a próxima ;)
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Maryya
Em: 11/04/2016
Querida autora!
Estou amando a história, principalmente as personagens principais. Minha favorita é a Cecília. Não sei porque, mas algo nela me faz gostar desse enredo.
Enredo esse, que amei do início ao fim até esse segundo capítulo. Beijos!
Resposta do autor em 11/04/2016:
Querida leitora! Obrigada por mais um comentário!
Fico feliz de ver a Cecília conquistando as pessoas, porque mesmo ela não sendo uma mocinha convencional, ela também tem seus encantos e espero que ainda possamos ver esse lado dela nessa história.
Espero que continue a acompanhar e compartilhar suas impressões! Mais uma vez, obrigada! :)
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Sofi
Em: 11/04/2016
Tadinha da Cecília :/
Resposta do autor em 11/04/2016:
Pois é, Cecília está enfrentando um momento dificil. Mas não perca as esperanças, estou certa de que o futuro ainda lhe reserva grandes surpresas, e esse encontro que está por vir, principalmente ;)
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marcialitman
Em: 10/04/2016
Eu tô amando demais essa ambientação, sério. Amo conhecer a fundo os personagens e tô gostando de todos esses mistérios que tão se abrindo. Louca pra saber mais.
A parte da Cecília com o Marcelo foi de cortar o coração. Interessante como vc bate na tecla que tudo seguiu o plano que ela tinha e, mesmo assim, como nada disso é suficiente pra deixar que ela fique feliz. O flashback ficou incrível.
Amei a pequena roadtrip Hugo e Milena, melhores diálogos da vida hahaha.
Arrasou, Liv <3
Resposta do autor em 11/04/2016:
Obrigada Marcinha! Vc sabe o quanto sua opinião é importante pra mim! Quanto as partes da Cecília, confesso que são as partes que também mais gostei, especialmente por poder explorar essa realidade a respeito da depressão. Muitas vezes as pessoas acham que tem que ter uma grande tragédia por trás de tudo, mas penso que a falta de sentido na vida seja a maior causadora de depressões, e esse é claramente o caso da Cecília.
Enquanto isso, usei esse tempo da Milena e do Hugo pra pegar um pouco mais leve, então fico feliz se os diálogos agradaram. A ideia era bem essa mesmo!
Obrigada por continuar lendo e comentando! Seus comentários são um divino remédio! :**
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