Ao postar minhas primeiras histórias aqui no Lettera, algumas leitoras demonstraram interesse em algo mais substancial (leia-se com mais capítulos). Bem, aqui está. Espero que gostem!
Capítulo 1 - Tempo de Despertar
Com o queixo erguido e a mão firme segurando o microfone ela sobe no palco.
E por um instante, breve e fugaz, um silêncio roubado entre um aplauso e uma risada que ecoam pelo salão, ela se encontra sozinha. As luzes dos refletores banham seu rosto e ela sente um calor se espalhar pelo restante de seu corpo, um contraste em relação ao frio que percorre seu estômago e alcança suas mãos então úmidas.
As primeiras notas da música espantam o silêncio como um bando de pássaros abandonando a copa de uma árvore.
Esta é sua deixa.
Uma vez alguém pediu que ela descrevesse o que sentia em momentos como este.
Milena nunca foi capaz de fazê-lo. As palavras se embolavam e perdiam o sentido, jamais alcançando seu objetivo. Sempre versões pálidas demais perto da experiência real.
Em noites de insônia essa pergunta ainda lhe assombrava. E com os olhos fixos no teto mal iluminado, encarando as sombras e a solidão, Milena passaria horas tentando encontrar formas e formas de descrever algo que era, em realidade, puro demais para caber em meia dúzia de frases soltas e declarações superficiais.
Milena nunca conseguiu encontrar as palavras certas.
Mas a sensação existe. E persiste.
Tem sido sua companheira desde sempre. Está presente em suas mais antigas recordações. É música, mas não ela somente. É o som de sua voz em uma eterna dança de melodias. É a forma como as duas se casam e se encontram em uma união perfeita de corpos que não deveriam ocupar o mesmo lugar, mas que por aquele breve instante, ocupam. É uma expressão que excede os sentidos. Mas esse... Esse é apenas o começo, uma reação inicial, como a sensação que antecede um espirro.
Toda vez que ela canta, mais do que a música em si, Milena sente essa vibração que toma conta de seu corpo. Como se ela estivesse prestes a escapar de si mesma. Como se ela fosse capaz de quebrar barreiras e tocar as pessoas, independente da distância que exista entre elas.
É algo que ela sente toda vez que canta para um público. Uma sensação, mas principalmente uma certeza. Às vezes a resposta vem através de aplausos, sorrisos, suspiros. Em outras é uma resposta muda, um silêncio carregado de surpresa, emoção, lágrimas que não ousam escapar. Independente de sua forma, essa linguagem sempre está lá.
Não demorou a que Milena compreendesse que quem tem acesso a esse idioma estrangeiro nunca está só. É através dessa linguagem, composta por elementos diversos, mas fundamentalmente pela música, que se comunicam as pessoas em sua mais profunda essência. E para uma menina que cresceu tão solitária, cantar se tornaria não apenas uma alegria, mas um sentido, uma direção.
E, principalmente, um sonho.
Toda criança cultiva sonhos. E para todas as inconstâncias e incertezas que a acompanharam desde a infância e adolescência, Milena cresceu acreditando piamente em sua música e seus poderes restauradores. Usando sua voz como escudo e boia de salvação. Ciente de seu talento, ainda que poucos acreditassem em seu potencial.
Foi nos tempos de escola que Milena teve a primeira indicação de que talvez as coisas não fossem tão simples assim.
Ninguém ali parecia interessado em seus talentos, embora, por outro lado, também fosse difícil para Milena entender porque as constantes e repetitivas brincadeiras de bonecas e eventuais interesses adolescentes em garotos e suas próprias aparências necessitassem de tanta devoção. Seu desinteresse inicial apenas cresceria, acompanhado pelo descaso e desprezo de seus colegas.
Mas se em algum momento Milena se permitiu acreditar que tais reações fossem sinais das dificuldades que estavam por vir, o pensamento lhe escapou antes que tivesse a oportunidade de ser registrado como uma grave preocupação. Os filmes que assistiu e os livros que leu pouco lhe ajudaram senão a reforçar a percepção dramática de que toda história tem uma final feliz e que de fato, não fossem os obstáculos intermitentes, onde estaria a graça?
Assim, tudo o que ela precisava era de empenho, esforço, otimismo e talento, é claro. E Milena colecionada todos os atributos. Para sua fórmula estar completa lhe falta apenas um. Um único ingrediente incapaz de ser capturado, manipulado ou controlado: o tempo.
Tudo era, afinal, uma questão de tempo.
E este, fiel à sua natureza, lhe escapou por entre os dedos.
Milena sempre tivera certeza sobre seu talento e a inevitabilidade de seu sucesso. Mas o tempo passou. A menina cresceu. E o show acabou antes mesmo de começar, ela pensa. Seu nome gravado apenas em uma caixa de correio e não na calçada da fama, como ela havia esperado.
Em São Paulo, uma cidade de sonhos e possibilidades, o seu grande sonho seria apenas mais um. E a sua certeza, uma probabilidade bem pequena e cada vez menor diante de um prazo de validade alarmantemente aquém de suas expectativas.
Quando a música chega ao fim, Milena abre os olhos e se depara com a realidade amarga.
Ela não está sobre um palco, mas sobre uma cadeira. O microfone é na verdade uma taça de vinho pela metade. E seu grande público nada mais senão um grupo de estranhos que, assim como ela, se escondem de seus desapontamentos à meia luz de um bar, em uma sexta-feira à noite, ao som da música ambiente e embalados pelo inebriar de alguns drinks a mais.
Sim, a música ainda está lá. Sua fiel e única companheira. Mas a que preço?
Uma mão estendida surge diante de Milena e com o olhar preso no espaço vazio, ela a aceita.
É hora de abandonar o palco.
E talvez seus sonhos de menina também.
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Com os passos curtos e apressados ela se aproxima do carro amaldiçoando sua escolha de sapatos. “Lindos” elogiara a recepcionista da clínica. “Adoráveis” lhe dissera a mulher grávida que aguardava ao seu lado na recepção da clínica. “Posso ter um desses?” perguntou a garotinha de vestido e cabelo trançado à mãe, sentada na cadeira ao lado de Cecília enquanto ela esperava ser atendida.
Cecília está acostumada aos elogios. O sorriso, resposta automática, sempre a postos para ser utilizado em ocasiões como esta. Mesmo hoje quando seus nervos estão à flor da pele, ele não falha.
Assim, seu sorriso apenas abandona seu rosto quando ela entra no carro e finalmente tira os sapatos, em busca imediata de alívio para os pés doloridos.
Poucas pessoas levam em consideração os esforços exigidos na busca pela beleza, pela perfeição. Os sacrifícios que as vezes precisam ser feitos. E o preço que se paga por eles depois, algo com o que Cecília está mais do que familiarizada. Ela passa as mãos pelos pés doloridos e encontra no espelho retrovisor seu reflexo, o reconhecimento imediato.
Sua aparência quase não mudou em dez anos. Os cabelos loiros, ela traz presos em um coque, simples, mas elegante. Não há em seu rosto um traço, uma linha que lhe denunciem a idade, o tempo ou as preocupações. Sua máscara é impecável, mas seus olhos a traem ao se encherem de lágrimas. As palavras do médico ecoando em seus ouvidos.
Sem hesitar, Cecília liga o carro e abandona apressadamente o estacionamento da clínica. Ela precisa estar em qualquer lugar que não seja aquele. A estrada é mais do que um convite, é uma intimação.
“Eu sinto muito senhorita Brandão, mas temo que tenha sido apenas um alarme falso. A senhorita não está grávida.”
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– Hora do show! – Hugo anuncia ao abrir as cortinas permitindo que o sol invada o quarto de Milena que, relutantemente, se esconde debaixo das cobertas.
– Você precisa gritar? – A pergunta escapa abafada por entre as cobertas. Hugo revira os olhos.
– Embora eu não resista a uma entrada triunfal, eu acho que dificilmente o volume da minha voz possa ser descrito como ‘grito’. Até porque eu jamais infligiria esse tipo de desgaste às minhas cordas vocais. – Hugo responde ao puxar a coberta de Milena.
Com uma careta, ela parece enfim registrar sua presença, mas não sem algum esforço que se faz visível em suas feições.
– Então você não está gritando e nem girando, eu suponho. – Ela fala protegendo os olhos dos raios de sol que atravessam sua janela sem piedade.
– Isso provavelmente ainda é resíduo da quantidade de vinho que você ingeriu ontem. Eu não sei se bater um recorde estava na sua lista de prioridades, mas você certamente se mostrou empenhada.
Milena resmunga a lembrar dos detalhes da noite anterior. Hugo não contém um pequeno sorriso.
– Nada tema, eu tenho a solução para os seus problemas bem aqui! – Ele lhe oferece uma imensa caneca cheia de café, ao que Milena aceita sem hesitar.
– Você é bom demais pra mim. – Ela fala se concentrando em ingerir o líquido e sem perceber o outro item que Hugo traz em suas mãos.
– Tente lembrar-se disso no futuro.
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Existem alguns benefícios em se morar no fim do mundo. Isso é algo que Cecília reconhece embora jamais seja capaz de admitir em voz alta. O maior deles é a possibilidade de se esconder no meio do nada.
Não demora até que ela chegue a esta destinação.
O caminho lhe é mais do que familiar. Neste ponto, há poucos quilômetros de Arvoredo, sua cidade natal, entre o nada e o lugar nenhum, existe apenas o asfalto ou o que restou dele, o horizonte a perder de vista e o carro de Cecília estacionado no acostamento.
Nem mesmo o vento pega esse caminho. Cecília aprecia o silêncio e a leveza que ele lhe traz. Nesse lugar sem nome não existem perguntas, não existem expectativas. Não existem testemunhas e ela pode tirar suas máscaras, camada por camada, até o ponto em que é capaz de encarar a si mesma.
Existem, contudo, fatos que ela não pode ignorar embora não esteja pronta ou disposta a admitir, e mesmo o deserto não é o suficiente para protegê-la de tais pensamentos.
Com o olhar fixo no horizonte e corpo escorado no capô de seu carro, Cecília se permite fumar um cigarro e deixar sua tristeza escapar com a fumaça que queima sua garganta.
Ela não pediu muito no final das contas. Ela sequer se permitiu desejar tudo. Ela não ansiou pelo estrelato, não sonhou alto. Não criou grandes expectativas para si mesma, não deixou seus pés abandonarem o chão. Não persuadiu uma carreira de sucesso, nem mesmo um grande nome.
Ela só queria o suficiente. Ela sequer ousava chamar de felicidade.
Ainda jovem, realista e pragmática, Cecília fizera os cálculos, precisos e exatos. Não queria mais nem aceitaria menos do que isso. Ela queria um marido bom, que preferencialmente a idolatrasse. Um homem honesto e confiável capaz de tomar conta dela, capaz de lhe dar segurança e uma família.
Cecília queria uma casa bonita, talvez um jardim. Férias na praia. Churrascos nos fins de semana. Filhos. Eles eram parte do pacote afinal, não é? Uma menininha para vestir e pentear os cabelos. Ou um menino para ralhar sobre as marcas de lama deixadas no sofá ou sobre não jogar bola dentro de casa. Talvez os dois. Filhos para encher a casa de risadas sem que palavras precisassem ser trocadas com o marido caso eles não tivessem muito em comum.
Ela acreditava que sim, eles deveriam ser parte do pacote. E não era pedir muito afinal, no passado, antes que ela estivesse pronta, havia acontecido. A gravidez não planejada com o rapaz que não era capaz de cuidar nem de si mesmo. Ainda assim, aparentemente, a vida tinha uma ideia diferente do que deveria ser o destino de Cecília Guedes Brandão.
A parte mais difícil, ou assim Cecília acreditava, acontecera sem grandes esforços. Ela conhecera Marcelo há três anos. Ele era um rapaz ambicioso, jovem e cheio de planos. Confiante e suficientemente egocêntrico para não fazer perguntas demais. Perguntas sobre ela, seus planos para o futuro, seu passado. Perguntas que ela não estava disposta a responder. Lembranças de um tempo que ela não tinha qualquer desejo em recordar.
Para Marcelo, Cecília era e seria sempre a garota mais popular da escola. A rainha do baile, embora tecnicamente ela nunca tenha sido. Detalhes que não pareciam preocupá-lo. Mais do que tudo, ela ocupava com esmero o papel da esposa que ele esperava ter ao seu lado, um encaixe perfeito em seus planos. E com todos os seus defeitos, todos pouco visíveis para quem estava de fora, o maior deles talvez fosse apenas o fato de Cecília não amá-lo.
Mas esse era um detalhe que ela não considerava relevante.
Marcelo era a escolha certa e depois de muitos erros em sua adolescência, Cecília não podia se dar ao luxo de cometer mais nenhum.
Quando ele a pediu em casamento não houve surpresa por nenhuma das partes e tampouco foi surpreendente a sua resposta. Seus pais estavam felizes. Os pais dele também. Os dois faziam um casal perfeito. “Imagine as fotografias”, dissera sua mãe, enquanto Cecília bebia o restante do champanhe em um gole só.
Ela imaginava. As fotografias também eram parte do pacote.
Mas hoje, após um ano de noivado e seis meses de tentativas frustradas, só as fotos já não eram o suficiente. Marcelo não entendia sua ansiedade, acreditando que após o casamento os dois teriam todo o tempo do mundo para construir sua família. Mas Cecília não queria planos para o futuro.
Ela precisava de planos para o presente, o agora. Porque amanhã...
Amanhã ainda estava longe demais para sua vida começar.
Secando uma lágrima com uma das mãos e apagando o cigarro na terra com a sola de seu sapato caro, Cecília retorna para dentro do carro, decidida a tentar mais uma vez.
Afinal, o que mais ela podia fazer? É tarde demais para recomeçar. Só lhe resta jogar com as cartas que tem.
Somente quando ela tenta dar partida no motor do carro e o mesmo se recusa a funcionar, lhe passa pela cabeça que ela está perdida.
Perdida no meio de lugar nenhum.
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Com seu garfo repousado sobre o prato e um olhar distante, Milena não disfarça nem remotamente sua completa desatenção à história que Hugo está contando.
Por motivos óbvios, o rapaz se ressente e ao perceber que ela não faz ideia de qual foram suas últimas palavras, decide não disfarçar sua insatisfação lhe jogando uma bolinha de guardanapo no rosto. O gesto, pouco sutil, é bem sucedido.
– Me desculpe. – Milena fala levando uma garfada da salada, até então esquecida em seu prato, à boca.
– É bom que você se desculpe mesmo. Não aceito nada menos, especialmente em se tratando de uma crônica fascinante sobre mais um dia na vida de Hugo Bernardes. Ainda que seja sobre o meu trabalho e que esse trabalho seja um saco. – Ele complementa sem abandonar o ato e em seguida sugando através de um canudo o suco de groselha que acompanha seu sanduíche e constitui seu almoço.
– Eu sei. Tenho sorte de sua refeição de hoje não envolver talheres. – Milena lhe oferece um pequeno sorriso em um mudo pedido de desculpas que Hugo aceita sem hesitar, estando ele hoje de folga do trabalho e, portanto, de muito bom humor.
– Então, porque essa cara de quem ch*pou limão azedo? – Hugo ergue uma sobrancelha e Milena teme por um segundo que ele seja realmente capaz de ler seus pensamentos, habilidade que ele jura fazer parte de seus muitos talentos. – Andou falando com a sua mãe novamente?
O sorriso de Milena imediatamente se desfaz, como uma bolha de sabão sendo estourada. – Não. Nem tudo é sobre ela, embora nem ela acredite nisso.
Hugo sorri, a relação conturbada de Milena e sua mãe, um tópico de constante entretenimento se a pessoa em questão gosta de personagens dramáticas de sangue quente, traço este compartilhado por mãe e filha. – Já faz oito anos, que tal vocês fazerem as pazes?
– Queria ver se você teria o mesmo espírito conciliador se a sua mãe fosse mais parecida com a minha. – Milena comenta enfiando o garfo em um tomate-cereja com mais força do que o necessário.
– Hey, não é minha culpa se Dona Judith está sendo cotada como uma forte candidata na lista da igreja católica de nomes para canonização. – Ele comenta com casualidade, enquanto retoca o topete usando uma colher como espelho.
- Eu não me apressaria a tomar conclusões. Tenho certeza de que o apoio ao filho assumidamente gay vai colocar as coisas em perspectiva. – Milena comenta com um pequeno sorriso conspiratório, mas algo em seu semblante confirma as suspeitas de Hugo de que alguma coisa está incomodando sua melhor amiga.
E como um cachorro em busca de um osso, ele não irá parar de cavar até encontrar o que está farejando.
– Mocinha, que tal fazer bom uso do tempo que ainda temos antes de você ter que pegar mais um expediente no restaurante, e me dizer de uma vez por todas o que anda nublando o céu enervantemente ensolarado de Milena Torres? – Hugo pergunta sem rodeios, aludindo ao otimismo constante e por vezes irritante da garota que, contra todas as previsões, tornara-se sua melhor amiga.
Milena não precisa responder. Seus olhos castanhos, em um momento de fraqueza, contando a trágica história com a qual seu melhor amigo está mais do que familiarizado.
Ele não espera que ela verbalize suas tristezas e oferece apoio imediato. – Você também vai encontrar alguém. Todos vamos. Só é mais difícil quando somos pessoas assim... tão espetaculares. Não é qualquer um que dá conta do recado sabe?
– Eu sei. É só que... Eu achei que tivesse encontrado. – Sua voz estremece. Instintivamente, Hugo estende a mão sobre a mesa ao alcance da mão de Milena. Ela evita seus olhos cor de mel, mas responde o gesto com um sorriso quebrado e balança a cabeça, desconvidando a nuvem que paira no ar. – Pra ser sincera, essa é só a ponta do iceberg. Não estou tão certa de que seja a falta de sorte no amor o real problema aqui. Afinal, como sentir falta de algo que eu nunca tive realmente. Mas se pelo menos eu tivesse um pouco mais de sorte no resto...
Entendendo melhor do que ninguém o que Milena está lhe dizendo, Hugo pega seu copo de suco e o estende em um brinde.
– Então que assim seja... Às favas com amor e que venha sorte para todo o resto. – Milena revira os olhos, o sorriso ainda um vestígio em seus lábios, mas não deixa de erguer o próprio copo ao seu encontro.
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Impaciente, Cecília morde o lábio inferior, recostada na porta de seu carro, usando um grande chapéu que lhe protege dos fortes raios do sol e lhe emprestam ares de uma requintada estrela dos anos 40.
Um carro se aproxima e estaciona atrás do seu. Ela não precisa erguer os olhos para saber de quem se trata.
– Ora, mas que surpresa! – Gustavo lhe fala ao sair de sua caminhonete que traz estampada na porta o selo de sua oficina, Bernardes & Resende.
– Gostaria de poder dizer o mesmo. – Ela fala sem emoção ao reconhecer o homem alto de cabelos escuros e ombros largos.
– O Beto tava ocupado, por isso me mandou no lugar dele.
– Precisava ter demorado tanto? Eu quase peguei uma insolação esperando.
– Com esse chapelão? Não tinha um do seu tamanho não? – Cecília revira os olhos, sem paciência para os comentários do homem que foi, em tempos longínquos, seu namorado de escola.
– Ainda bem que não liguei porque estava precisando dos seus serviços enquanto consultor de moda e sim como mecânico. – Gustavo coça a cabeça sem se dar ao trabalho de registrar o comentário. Se havia uma coisa que ele conhecia tão bem quanto motores de carros, era o temperamento de Cecília.
– O que aconteceu?
– Você é o expert em carros e graxa, não eu. Como eu deveria saber?
– Parece que o motor do carro não é a única coisa que andou esquentando aqui debaixo desse sol, ein. – Dessa vez é Cecília quem não se dá ao trabalho de registrar o comentário.
– Não dá pra consertar? – Gustavo levanta o capô do carro e uma fumaça escura escapa do motor. Ele arrisca mexer em uma ou duas peças, mas não demora a dar seu veredicto.
– É, não vai ter jeito. A peça que estragou eu não tenho aqui, vou ter que levar seu carro de volta pra oficina. – Cecília não esconde seu desapontamento com a resposta. – Tem alguém que possa vir te buscar?
– Não. – Ela responde sem encontrar seus olhos. – O Marcelo está viajando a trabalho. – Gustavo balança a cabeça de forma compreensiva. Ele abaixa o capô do carro e com um lenço que tira do bolso de trás de sua calça, seca as gotas de suor que cobrem sua testa.
– Se quiser, posso te dar uma carona de volta.
– Acho que não tenho outra opção não é? – Cecília fala resignada e se dirige à caminhonete. Gustavo trata de prender o carro à sua caminhonete e de longe a observa se acomodar no banco do passageiro. O desconforto de Cecília é visível, o que não o surpreende.
Certas coisas nunca mudam, e a personalidade temperamental de Cecília certamente parecia ser uma delas.
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– Então, pretende me contar o motivo para esse almoço assim tão especial? – Milena pergunta, a suspeita escrita em seu rosto com letras garrafais. Hugo evita seus olhos escuros, preparando seu discurso.
Sua tática inicial é alegar inocência.
– Não faço ideia ao que você esteja se referindo. – Ele responde ainda sem encontrar seus olhos, levando um guardanapo aos lábios. Mas Milena o conhece bem demais para cair tão facilmente em seus artifícios.
– Primeiro o café na cama e agora o almoço no meu restaurante favorito. Hugo Bernardes você está querendo alguma coisa e tenho certeza que não é pouca coisa. – Milena declara com propriedade e quando os olhos de Hugo encontram os seus, ele se vê obrigado a recorrer ao método mais direto.
Sem palavras ele coloca um envelope sobre a mesa e o empurra na direção de Milena, seus olhos transbordando de expectativa. Ela pega o envelope e sua leitura é interrompida logo em suas primeiras linhas: “O Colégio Dias Macedo convida os alunos...”
– Não mesmo, de jeito nenhum!
– Você poderia ao menos ler até o final?
– Hugo! Você não pode estar falando sério! – Milena analisa as feições do amigo sem esconder sua exasperação.
– Por que não? Me dê um bom motivo.
– Eu te dou vários! Eles trataram a gente mal durante todos os anos de escola. Fomos perseguidos, desrespeitados e discriminados. Tivemos nossos corações partidos. Por que você iria sequer cogitar a possibilidade de colocar os pés naquele lugar de novo?
– Porque nós somos melhores do que eles e agora temos a oportunidade de mostrar isso. Mostrar que vencemos, que somos alguém. Mostrar que eles estavam errados!
– A não ser pela parte em que eles não estavam, não realmente. Onde foi que vencemos Hugo? Tudo o que temos é um apartamento minúsculo e vidas devotadas a carreiras que nunca sequer começaram.
– É isso o que você acha? – Hugo se mostra chocado com a resposta da amiga. Ela percebe ter sido demasiadamente brusca em sua declaração e tenta uma abordagem mais amigável.
– Não... Quer dizer, me desculpa. – Milena responde imediatamente e busca a mão do amigo – Mas você vê algo diferente?
– É claro que sim! – Hugo afirma com veemência. – Nós estamos aqui, lutando todos os dias, vivendo o nosso sonho ou pelo menos tentando. Isso é mais do que muita gente faz. Mais do que muita gente é capaz. Talvez você esteja certa, talvez a gente não tenha chegado exatamente aonde queríamos. Mas ainda assim... Não é como se eles soubessem disso.
Milena não contém um sorriso em resposta às últimas palavras do amigo. Ele aproveita a deixa. – Além do mais, não foi tudo ruim. O colégio me deu você, minha melhor amiga no muuundo todo. É mais do que eu poderia pedir.
– Você está jogando baixo.
– Mi, eu sei que você está vivendo um momento muito difícil. Mas talvez essa seja a resposta. Talvez o que você precise é um pouco de perspectiva.
– E você acha que voltar à Arvoredo para o encontro de 10 anos do Colégio Dias Macedo vai me dar isso?
– Eu acho que não custa nada tentar. – Ele sorri exibindo uma fileira de dentes brancos e perfeitos, seus olhos brilhando de uma forma que há muito tempo Milena não vê.
Com um suspiro, ela deduz. – Você não vai deixar isso de lado, vai?
– Não dessa vez. – Ele responde de forma definitiva e Milena reflete por alguns instantes.
De fato não há nada que lhe prenda à São Paulo. Não agora, não mais. Talvez uma mudança de perspectiva seja exatamente o que ela precisa. Além do mais, ainda estava por vir o dia em que Milena Torres será capaz de dizer não ao seu melhor amigo. E Hugo sabe disso.
– Está bem. – Ela concorda, não sem um dramático suspiro. –Mas já aviso que por mais que eu adore os seus pais, não existe a menor possibilidade de que eu aceite ficar hospedada na casa deles.
– Mas então onde você vai ficar? Não me diga que--
Milena o interrompe antes que ele tenha a chance de completar – Eu vou pensar em alguma coisa, não precisa se preocupar comigo.
– Mais fácil falar do que fazer. – Hugo complementa debochado, mas sem esconder sua satisfação.
– Hey, é melhor não abusar amigo! E já lhe digo: É só pelo fim de semana. Três dias e nenhum a mais, entendido?
– Claro, não queremos correr o risco de que você vire uma abóbora ou pior, que volte a se vestir como uma! – Milena não de dá ao trabalho de responder, se contentando apenas em mostrar a língua para Hugo, ao que ele apenas sorri satisfeito em resposta.
Esse fim de semana promete.
Fim do capítulo
Comentários, sejam elogios ou críticas construtivas são sempre bem-vindos! :)
Comentar este capítulo:
Marie Claire
Em: 19/04/2016
Liv, vc realmente tem o dom da escrita. Tenho me deliciado com cada novo conto ou capítulo que vc postou aqui. Já me apaixonei pelas personagem.bjs
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Ana_Clara
Em: 06/04/2016
Adorei! E vejo que essas duas terão muito trabalho para serem felizes, afinal quanta frustração a vida delas. rsrs E a Milena terá mais trabalho do que nunca para domar essa fera chamada Cecília. rsrs Eu amei a tua escrita Liv, e ainda mais que perfeito foi este capítulo longo, com muitas linhas. Continua...
Resposta do autor em 06/04/2016:
Olá Ana! Pois é, quase pensei em mudar o nome dessa história pra Fora de Rota, pq sério, acho que nem um google maps ajudaria elas a encontrar o caminho de volta. Mas espero que os eventos que estão por vir, ajudem com mais do que um empurrãozinho. E sim, a Milena não sabe o que a aguarda. Muito obrigada por ler e deixar esse lindo comentário! Fico muito feliz e espero que você siga a apreciar os capítulos que estão por vir! xD
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marcialitman
Em: 06/04/2016
Que saudade da sua escrita <3 Sério, Liv, amo como tudo flui tão gostosamente, como sua escrita seduz, da sagacidade da sua narração, é tão gostoso.
Arrasou na apresentação de personagens, e já estou apaixonada pela Milena, Hugo e Cecília.
Ansiosa pra ver esse encontro.
Parabéns pelo começo <3
Resposta do autor em 06/04/2016:
Que saudades dos seus comentários!! Melhor injeção de fôlego não há!! E quanto a esses três, esse fim de semana promete coisas demais para eles! Vamos ver no que tudo isso vai dar =P
Muito obrigada por ler e por sempre me deixar contar com suas palavras de incentivo! <3
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Sofi
Em: 05/04/2016
Ah parece que o fim de semana promete mesmo :)
Resposta do autor em 06/04/2016:
Nada como um confronto com o passado para sermos obrigados a repensar nossos futuros. Ou pelo menos esse é o plano de rota aqui. Vamos ver o que a Cecília e a Milena acham sobre isso!
Obrigada por ler e comentar! :)
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Mille
Em: 05/04/2016
Hummmmmm capítulo enorme amooooo
Gostei desse início, e algo diz que essa festa será tudo de bom.
Bjus e até o próximo
Resposta do autor em 06/04/2016:
Que bom que gostou! E sim, essa festa vai ser no mínimo inesquecível. Agora se isso é algo bom ou ruim, só vamos ser quando o momento chegar!
Obrigada por ler e comentar! :)
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