Capítulo 16
Esther
"Seu olhar. Sua voz. Seu cheiro. Tentei aproximar, mas a cada passo que eu avançava, ela recuava. Meu corpo arrepiou diante da ventania. O cheiro da terra molhada sobressaiu diante de seu perfume, os sons dos trovões estourando no céu abafavam a sua voz. A escuridão aproximava rapidamente. Esticou a sua mão, fiz o mesmo. Nossos dedos roçaram. Fechou os seus olhos. Olhei para o lado, fomos cobertas por uma onda gigante."
Despertei chorando, chamando por ela. "Outro pesadelo!" Suspirei, passando a mão em minha testa. Olhei o meu celular, nove chamadas perdidas. Fechei os meus olhos, deitando de novo. Aquela sensação de abandono novamente. Desde do dia que Mia foi embora, era tudo o que eu sentia. Levantei devagar e fui tomar um banho demorado. Tomei café da manhã, planejando o meu dia.
- Menina Esther! - Sarah, abraçou-me saudosa - Esperávamos por você ontem.
- Olá Sarah! - retribui o abraço, sussurrando em seu ouvido - A barra está limpa?
- Seu pai e a sra. Guillot saíram. E sim, ela está furiosa com você. - Confidenciou - Dona Miriam está na piscina com Victor.
Sorri, e fui vê-los. O meu baixinho assim que me viu, soltou um gritinho feliz, correndo em minha direção.
- Cuidado! - Agachei, recebendo aquele abraço gostoso.
- Star! - beijei-lhe a face.
- Que saudades do meu ruivinho lindo! - fiz cócegas.
- Hahahaha para! Vem brincar, vem! - puxou a minha mão.
- Victor, deixa a sua irmã respirar. - ralhou fingindo de brava - Olá querida! - abraçando-me - Fez boa viagem? - levou-me até onde estava sentada tomando café.
- Sim. Consegui alguns dias para poder resolver a minha vida.
- Vai atrás dela então?
- É o que pretendo. Cansei de fingir algo que eu não sou.
- Fico feliz querida. - apertou a minha mão - Saiba que estarei aqui. Não deixe mais as ameaças de Beatriz afetarem as suas decisões.
- Nunca mais! - sorri triste - Se eu soubesse que contaria tanto com a sua ajuda jamais teria negado o pedido dela.
- Vocês sempre foram muito discretas. - tomou seu suco - Se não fosse aquele fedelho que a sua avó arrumou para você, ter vindo aqui exigir satisfações, eu nunca saberia.
A lembrança daquele dia era a minha maior tortura. A decepção em seu olhar, a rejeição aos meus toques, e apelos para ficar. Quando finalmente consegui me acalmar, liguei para o seu celular, nada. Fiquei tentando até pensar em Daniele, ela sim conseguiu localizá-la. Porém, não permitiu que eu falasse com Mia. Estava muito abalada, e não queria saber nem do meu nome. Aquilo foi pior que qualquer rejeição que poderia ter do meu pai. Ao longo desses três anos, somente soube de Amélia através de Lúcia, ou Manuela. Minha relação com Daniele e Mia, já não existia. A bagunça na piscina chamou a nossa atenção.
- Victor, fique no raso com Joana! - chamou-lhe atenção.
- Como ele cresceu. - observei o ruivinho brincando com a babá.
- Muito! - sorriu orgulhosa - É bastante curioso também, e peralta, literalmente o terror de Beatriz. - rimos.
- Quero poder resolver tudo o quanto antes, assim poderei voltar de vez para o Brasil.
- Para tudo tem o seu tempo, apenas siga o que realmente deseja. - refleti as suas palavras.
***
Amélia
Minha mãe procurou não tocar mais no assunto, passamos um dia incrível juntas.
- Amor, venha para a casa esse final de semana. Estou com saudades de curtir a minha filhota. - Pediu carinhosa.
Pensei em aceitar, mas não queria encontrar Henrique.
- Ele foi viajar, não se preocupe. - olhou-me triste.
Queria dizer algo, mas saber que além dele não me aceitar, ainda afetou o casamento deles. Todo dia aquela culpa me consumia. Mamãe somente dizia que eu não deveria preocupar-me, apenas ser feliz. "Gostaria que ele pensasse assim também".
- Também sinto demais a sua falta mamãe. - sorri tristemente - Irei sim!
- Obrigada. Chame as meninas! - sorrimos - Sinto falta daquela bagunça gostosa.
- Chamarei.
***
- Dani? - chamei.
- Estou aqui.
Entrei no quarto procurando pela loira, a encontrei enrolada na toalha, passando hidratante em seu corpo.
- Oi! - dei um selinho nela - Como estão Antônio e Fernanda? - Perguntei indo até o banheiro, tirando as minhas roupas.
- Estão bem, obrigada - sorriu - Aproveitei para ver alguns documentos da aposentadoria dela, e o meu pai como sempre, trabalhando sem parar. - esfregando o creme nas mãos - E Lúcia, como está? Sinto falta dela.
- Está ótima! E você vai poder matar essa saudade, pois fomos convidadas para curtir um final de semana em família - fui até o closet, escolhendo uma roupa - Claro, só se você já não tiver planos.
- Vou adorar revê-la. - percebi o seu olhar.
- Que foi?
- Eu já disse o quanto você fica sex de lingerie preta com essa tribal no quadril? - sorrimos.
Mordisquei o meu lábio, aproximei falando em seu ouvido:
- Não nas últimas doze horas. - deixei a minha boca roçar em seu ouvido.
- Pois então eu repito: Você é sex! - senti suas mãos em minha cintura, indo até a minha bunda - Gostosa... - apertando-a, colando nossos corpos - Cheirosa... - aspirou o meu perfume - Sedutora... - suas mãos subiram, abrindo o feixe do sutiã - E deliciosamente insaciável.
- Não mais que você. - respondi a provocação, tirando a toalha de seu corpo.
- Vamos ter que descobrir. - sussurrou tomando a minha boca.
Chegamos de mãos dadas na boate. Manuela estava bebendo com Igor, o seu namorado. Estava reunida uma turminha bacana, alguns colegas de jornalismo de Manu, e outros colegas de badalação nossa. Tomamos algumas tequilas, e fomos para pista. Daniele envolvia o meu pescoço, colando nossos corpos. Abusávamos dos toques, dos olhares. Roçando nossas bocas, mas nunca beijando. Manuela nos olhava divertida.
- Uau, vocês duas! Até eu estou ficando excitada! Hoje é dia de caça? - sabia do nosso jogo.
- Com certeza. - respondemos juntas. Sorrimos, soltando as mãos, cada uma indo para um lado.
***
Esther
Beatriz não se deu ao trabalho de olhar para mim, assim que chegaram. Agradeci mentalmente. Recebi o abraço acolhedor de meu pai, era tão bom poder estar perto deles. Conversamos bastante. Falei sobre os meus projetos, e a conclusão do curso, e como estava indo no escritório de Arquitetura. Victor sempre procurava chamar a minha atenção, sorri deixando-me envolver nessa gostosa fase infantil. Havíamos acabado de jantar, aprendi com Miriam como responder Beatriz a altura elegantemente. Se antes eu tinha certeza que ela não gostava de mim, agora era mais evidente o seu desprezo por nós duas. Sentia por meu pai, que procurava ser neutro, tentando apaziguar os ânimos.
- Conta uma historinha? - pedia sonolento.
- Qual você quer? - acariciei o seu rostinho.
- Aquela da "A Donzela de Orléans".
- Joana D'arc??
Olhei surpresa para Miriam, que deu de ombros.
- Eu disse que ele era curioso, viu o livro na biblioteca.
Sorriu indo até a estante pegando o livro, entregando-me.
- Tem certeza disso?
- Ele gosta. - piscou - Boa leitura - saiu.
Olhei o livro em minhas mãos, respirei fundo. "E lá vamos nós!"
Et Jeanne, la bonne Lorraine
Qu'Anglais brûlèrent à Rouen;
Où sont-ils, où, Vierge souvraine?
Mais où sont les neiges d'antan?
E Joana, a boa Lorena
Que os ingleses queimaram em Ruão;
Onde eles estão, onde, Virgem soberana?
Mas onde estão as neves de antanho?
"Essa história vai longe" Pensei olhando os seus atentos olhinhos azuis.
***
"Que vista linda!" Viajei para muitos lugares, tanto para passeios como para estudos, porém a vista do Rio de Janeiro do alto era espetacular.
- Então, conseguiu chegar até qual capítulo? - Papai aproximou-se sorrindo, trazendo duas taças de vinho.
- Isso por acaso é livro infantil? - mostrei o livro, sorri inconformada - Vou ter que renovar os livros daquela biblioteca. Graças à Deus, ele apagou no terceiro capítulo.
- Culpe Miriam! - entregando-me uma taça - Ela ama essas histórias.
Beberiquei, voltando a minha atenção para a vista.
- Conheço esse olhar. - olhei para ele - Sua mãe tinha o mesmo olhar quando a conheci. - tomou o vinho - Distante, solitário, com a necessidade de preencher o vazio.
Silêncio, prosseguiu:
- Ela olhava para o mar, alheia há tudo o que a rodeava. Toda vez que eu ia trabalhar, passava pela mesma rua, e lá estava ela. - olhou-me um instante, voltando atenção para a vista - Era inverno, lembrou-me bem. Ela vestia um sobretudo preto, e seus cabelos loiros dançavam com o vento forte. - sorriu - Havia me apaixonado por Diana desde a primeira vez que a vi. É loucura achar que apenas de olhar a pessoa todo o dia, durante semanas sempre naquele mesmo ponto, pode despertar paixão. Acredite, foi o que aconteceu comigo. - pausa - Nesse dia resolvi aproximar-me. Perguntei se gostaria de beber um café comigo, havia uma cafeteria logo na esquina. A princípio olhou-me confusa, sorri para ela e disse que estava frio e talvez ela gostaria de beber algo quente. - olhou-me sorrindo - Ela fez essa mesma expressão. Disse que a esperaria para tomarmos apenas um café. Eu esperei, mas ela não veio. Então todos os dias eu chegava antes dela, e deixava uma rosa, e um recado. Foi assim por uma semana, fiquei até amigo do dono. - terminou a taça - Quando eu estava levantando para ir embora, ela entrou. Aproximou-se, e eu puxei a cadeira para ela. Todos os dias, antes das dezessete horas nos encontrávamos lá, tomávamos o nosso café, e vez ou outra tínhamos uma conversa banal.
Respirou fundo, sentando-se na espreguiçadeira.
- Diana era uma mulher muito talentosa, independente e envolvente. Nos tornamos grandes amigos. Pensei como alguém poderia tê-la deixado, ela era perfeita. - pausa - Ela dava aulas de artes, talento herdado do avô dela. Entre tantos quadros, foi quando eu vi o esboço que desenhava. Sempre a mesma modelo. Uma mulher linda, com um pingente igual ao dela em seu pescoço. Perguntei quem era, mas nunca respondeu.
Pensei em Lúcia. Sentei-me, ele prosseguiu:
- Por sete anos, fomos muito felizes! - olhou-me - Toda vez que ela te pegava no colo, não via mais aquela tristeza em seu olhar. Nos mudamos para São Paulo, ela se entretia em dar aulas para crianças, e também adorava as artes que você fazia nas paredes - riu - Falava que não devíamos interferir na sua arte livre. Ela tirava fotos para registro, antes de eu ter que ir e pintar toda a parede novamente.
Sorrimos emocionados. Respirou fundo.
- Quando ela começou apresentar cansaço, e tonturas, achamos que estava grávida - sorriu por um instante com a lembrança - Chegamos até planejar prováveis nomes, e pensar na decoração do quarto. - deixou as lágrimas caírem livre - Mas o exame sempre dava negativo. Um dia cheguei mais cedo, estava preocupado com a indisposição dela, e marquei o médico. Sarah, estava cuidando de você no jardim, dizendo que Diana estava repousando. Fui vê-la.
Parou um momento sufocou o soluço segurando a emoção, prosseguindo:
- Encontrei ela desmaiada no chão, não tive tempo de explicar nada a Sarah, corri com a sua mãe ao médico.
- Leucemia Linfóide Aguda. - sussurrei, lembrando-me vagamente de tudo.
Assentiu. Respirando fundo.
- Você era tão nova, e foi tudo tão rápido. - passou as mãos em seus cabelos - O tratamento foi agressivo, a doença estava avançando rapidamente.
Silêncio.
- Diana quis poupar você ao máximo, tentando manter a rotina. Sempre a encontrava sorrindo, como se nada houvesse acontecido.
- Foi quando ela começou com a terapia dos abraços? - sorri, entre lágrimas.
- Exatamente. Está com fome? Um abraço! Está com preguiça? Um abraço! Sede? Um abraço! Mal humorado? Abraço e beijos! - falamos juntos.
- Mamãe era demais!
- Diana sempre foi uma mulher incrível. - pressionou as mandíbulas - Por um momento achamos que o tratamento estava dando resultado... Mas começou o efeito colateral. Em um momento de febre alta, chamou por Lúcia. Foi quando eu descobri o nome da mulher dos quadros. - pausa - Quando ela estava ciente perguntei a respeito, e pela primeira vez em anos, aquele olhar triste retornou.
Tocou o seu dedo, que repousava as duas alianças.
- Contou que era a sua melhor amiga, mas havia perdido contato. Então eu prometi a ela, que faria o impossível para localiza-lá, se esse fosse o seu desejo. Ela olhou confusa, sorriu, mas disse não. - seu olhar ficou vago - Diana já havia perdido os pais, então decidi que iria procurar essa amiga dela. Em momentos assim é que precisamos mais de nossos entes queridos. - pausa - Foi difícil, mas finalmente consegui localiza-lá. Por sorte, morávamos na mesma cidade.
Ficou em silêncio, eu precisava saber o que havia acontecido.
- Então?
- Então que a medicação já não ajudava tanto. Foi apenas questão de tempo. - pausa - A princípio Diana ficou um pouco agressiva, foi quando eu questionei se havia feito a coisa certa. Mas Lúcia tinha um jeito que... Diana simplesmente mudava da água pro vinho. Foram meses difíceis.
Meu coração doía tanto, mas eu queria saber até o final.
- Naquele dia, a sua mãe havia acordado um pouco melhor. Então Lúcia resolveu fazer algo especial. Diana concordou feliz. Lúcia saiu com você e Sarah, e foram comprar algo. E eu fiquei com ela, estava de licença mesmo. - engoliu seco - Levei ela no jardim, e preparei a toalha na grama, o contato com a natureza fazia tão bem a ela. - fechou seus olhos por um instante - O telefone tocou, era o meu chefe. Conversamos rapidamente. Quando retornei, a encontrei deitada, parecia adormecida. - sua voz embargou - Chamei por ela, mas não houve resposta. Eu simplesmente não quis acreditar. O seu pulso estava tão fraco que mal sentia. Tentei socorrê-la, mas em seu último esforço, apenas pediu para não afastar Lúcia de você.
Não aguentei mais e deixei a emoção tomar conta. Ele ajoelhou de frente para mim.
- Filha, olha para mim... - fiz o que pediu - Você foi o melhor presente que a sua mãe deixou para mim. Jamais iria repudiar você, seja lá qual for as suas escolhas. Olho para você, e vejo a mulher que eu amei, e continuarei amando até depois da minha morte. - abraçou-me forte - Eu sei que ela amava Lúcia, e foi por isso que eu permiti o último desejo dela. E assim como elas se olhavam, e pude ver o mesmo quando você olha para Amélia.
Deixei-me envolver em seu abraço. Encontrando forças para seguir em frente. Perdemos a noção de tempo.
- Ela tinha costume de escrever em diários tudo o que estava passando com ela, invés de conversar a respeito. Sempre foi assim. Os seus diários foram os seus maiores confidentes.
- Nunca soube desses diários. - murmurei.
- Eles sumiram.
- Acha que Beatriz...?
- Não. Minha mãe só veio morar conosco após a morte de Diana, e eles já haviam desaparecido. Acho que se perderam quando trocamos de casa.
- Papai...
- Não sei o que houve com vocês, mas somente desejo que você possa viver o amor que elas não conseguiram.
- Mamãe te amou.
- Eu sei.
***
Na manhã seguinte peguei o primeiro voo, cheguei em 40 minutos, peguei um táxi. Minhas mãos suaram, apesar de ter ligado avisando estava apreensiva com o reencontro. Toquei a campainha. A emoção tomou conta de mim, esperei a sua reação.
- Oi - uníssono.
- E a filha pródiga retorna ao lar. - sorriu, indicando com a cabeça - Venha me dar um abraço.
- Tia Lú! - abracei forte - Que saudades desse abraço! - Senti as lágrimas.
- Minha pequena. - retribuiu - Vamos entrando. Deixei-me vê-la. - tocando o meu rosto - Como está linda! Esse tom mel ficou muito bem em você. - sorriu saudosa - Está tão parecida com Dian.
- Obrigada por me receber.
- Essa casa sempre será dos meus filhos. - sorrimos - Está com fome? Aposto que não comeu nada de bom. Venha vou preparar algo para nós.
- Não quero incomodar.
- Não está com saudades das minhas panquecas? - olhou divertida.
- Isso é golpe baixo! - sorrimos.
- Vamos, porque a mocinha tem muito o que se explicar.
- Somos duas.
***
Amélia
"Que ressaca!" Ajeitei os meus óculos escuros. Daniele zombava, repetindo:
- Eu avisei! - sorria, enquanto guiava o carro.
- Essa não... - resmunguei.
- Que foi? - estacionando.
- O carro de Edu. Ou seja, casa cheia. Ou seja, pirralhada pela casa... - interrompeu.
- Ou seja, mais dor de cabeça! - zombou divertida.
- Não enche! - pressionei minhas têmporas.
- Calma morena, daqui a pouco o remédio faz efeito. - beijou o meu rosto com carinho.
Daniele ria, enquanto eu resmungava sendo arrastada para dentro de casa.
- Olha só que casal mais lindo! - Eduardo veio nos receber - Vou adorar os meus sobrinhos! - brincou.
- Avemaria Edu! Isola isso em nome do senhor! - Ri batendo na madeira. - Bom dia Clara. - cumprimentei a minha cunhada.
- Bom dia querida. - ria das palhaçadas deles.
- Teríamos filhos lindos. - Dani entrou na brincadeira.
- E eu mais netos para exibir. - Mamãe apareceu trazendo Pablo no colo.
- Socorro! - beijando-lhe a face rosada - Só falta você nesse complô. - Bom dia mamãe. - procurei ao redor - E cadê o resto da gangue?
- Estão na piscina.
- Então eu vou aproveitar e cochilar um pouco, minha cabeça está explodindo.
- O que foi amor? - minha mãe olhou-me preocupada.
- Nada demais Lúcia. Só perdeu a conta dos copos que bebeu.
- Linguaruda! - mostrei a língua para ela, que foi capturada por um beijo rápido.
- Ui!
- E você nem me beija mais assim! - resmungou com Edu.
- Que isso amorzinho. Na frente da minha mãe não.
Sorrimos, a loira envolvia a minha cintura. Mamãe pediu para Clara pegar o pequeno, e nos chamou para conversar.
- E onde ela está? - Dani perguntou.
- Está tomando banho. - tocou a minha mão - Filha...
- Tudo bem mãe. - olhei para Dani - Só foi de última hora.
- Pedi para ela não confrontar você, para que possamos pelo menos por hoje, ter um dia em família.
Assenti. Minha cabeça estava explodindo.
- Vou deitar um pouco.
- Quer que eu vá com você? - Dani tocou a minha mão.
- Não precisa. Obrigada. - sorri.
- Quando o churrasco estiver pronto, te chamo.
- Okay.
***
Esther
Deixei as minhas coisas no antigo quarto de Eduardo, a conversa com Lúcia foi difícil. Mas deixei claro que iria redimir os meus erros. Soube que em algumas horas ela estaria ali, achei melhor ir para um hotel, mas Lúcia fez questão de ter-me ali. Resolvi tomar uma ducha. Estava terminando de me arrumar, quando percebi a chegada do carro. "Respira fundo" Ouvi a porta do quarto ao lado fechando. Repassei todos os nossos momentos, e as últimas conversas que tive. "Dessa vez, farei certo!"
Parei em frente aquela porta, toquei com carinho. Bati, não houve resposta. Entrei devagar, encontrei ela dormindo profundamente.
Ver Mia ali deitada tão desprotegida mexia comigo. Ela dormia de barriga para cima, com um braço sobre os olhos. Vestia apenas uma regata branca, e shortinho jeans. Suspirei diante dessa visão. Desde dos nossos 14 anos, Mia havia crescido um pouco. Deveria estar em torno dos seus 1/78 de altura. Pelos anos de práticas esportivas, suas pernas estavam bem definidas assim como os seus braços. Descobri que já não jogava mais futsal, e nem basquete, apenas vôlei quando havia tempo e fazia corridas matinais. Seus seios eram médios e firmes. Suspirou, virando de bruços. Somente olhar para o corpo adormecido dela deixava-me tão desnorteada.
Por um momento deixei minha mente voltar no tempo. O dia que vi ela e Dani, trocando seu primeiro beijo. Foi a primeira vez que o meu amor por ela havia se manifestado. O nosso primeiro beijo. Essas lembranças mexiam com uma ferida profunda minha, e há que causei a ela. Sentei na beirada de sua cama deixando minha mão passear sobre seu corpo, sem tocá-lo. Sorri, ao ouvi-lá ronronar igual quando criança. "Minha gatinha manhosa". Aproximei de sua nuca aspirando o seu cheiro, como sentia saudades dele. Saudades do calor de seu abraço.
- Vou trazer você de volta para mim, meu amor. - sussurrei - Essa promessa eu iria cumprir!
Sai. Não percebi que ela estava acordada.
***
Amélia
Estava esgotada, mais o cansaço que Daniele me deu noite passada, dormi rapidamente. Despertei sentindo um perfume tão familiar que se fez presente em meu antigo quarto. Depois de todos esses anos, sinceramente não sabia definir o tipo de sentimento que ela me fazia sentir. Continuei deitada, percebendo que ela fazia movimentos cuidadosos no intuito de não me acordar. Cheiro de banho recém tomado, suspirei ficando de bruços. Meu corpo traía as minhas vontades, ronronei na intenção de fazê-la ir embora. Foi quando senti o calor de sua mão, mesmo não havendo contato a minha pele era o suficiente para deixar-me acesa. Precisei controlar ao máximo o arrepio que senti com sua respiração em minha nuca. "Porque brinca comigo Esther? Única coisa que fiz foi amar-te!" Segurei a vontade de chorar, ao ouvir a promessa da outra.
Perdi o sono, esperei ela sair do quarto e relaxei. "Droga!" Fiquei de olhos fechados, esperando o remédio fazer efeito. Seria difícil ficarmos no mesmo lugar. Durante todos esses anos cortei qualquer contado com ela, pensei que com isso a atração que sentíamos iria diminuir. "Corpo traira!" Ouvi a movimentação lá embaixo. "Não vou ceder!" Peguei o meu celular e enviei um sms.
***
Esther
Respirei fundo, tocando a minha nuca. Quando desci, ouvi o trecho da conversa:
- Guilia... é eu sei... - Daniele, estava de costas - Também sinto a sua falta. Outra vez? Hmm... talvez.
Estranhei o teor da conversa. Lúcia havia dito que Daniele e Mia estavam ficando. Só de pensar nisso o meu sangue fervia. Daniele permanecia linda, já não havia aquela ar de menina, e sim a postura de uma mulher que sabia o que queria. Ouvi a sua risada, totalmente maldosa.
- Assim que eu voltar, resolverei isso. - virou, encarando-me - Uhum... - seu olhar era avaliador - Irei adorar cada momento! - sorriu safada - Até breve. - desligou.
- Olá Daniele.
- Sempre na surdina - encanrou-me séria.
- E os bons modos disseram saudades. - ironizei.
- Então serve para ambas, afinal... não sou eu que estou escutando a conversa alheia. - retrucou.
A movimentação na entrada chamou a nossa atenção. Um grito, e um abraço que quase custou a minha integridade física.
- ESTHERZINHA!! - abraçando-me forte - Meu Deus que saudades!!
- Manuela - sorri - Não estou conseguindo respirar.
- AIN SUA VACA! COMO VOCÊ SOME ASSIM?!
- MANUELA! - ralhei com ela.
- Manuela o cacete! Eu devia é te encher de porr*da, para aprender a não abandonar os amigos!
- É, parece que a turma toda se reuniu. - sua voz estava grave.
- Ei, morena fatal! Chega mais, abraço em grupo! - pediu feliz.
Meu coração disparou. Sorri, soltando-me do abraço. Desceu lentamente, encarando-me por um momento, voltando a sua atenção para as meninas.
- Manu, sinta-se em casa. - ignorou-me - Dani, vamos?
- Claro! - sairam.
- O que foi isso? - Manu comentou chocada.
***
Amélia
- Não acredito que ela disse isso. - disse Dani, perturbada. - Esther é um enigma.
- Não! Ela é a própria esfínge.
“Ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo. Mas qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim.”
Chico Xavier
Continua...
Fim do capítulo
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lia-andrade
Em: 14/12/2015
Capítulo perfeito. Vejo que Esther terá um trabalho danado para reconquistar sua morena, também não é pra menos ela fez Mia sofrer demais. Mas, contínuo na torcida, louca para vê-las juntas o quanto antes.
Beijos
Resposta do autor em 14/12/2015:
E como terá! Rrsrsrs
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Ana_Clara
Em: 14/12/2015
Será que a Dani não é essa flor que imaginamos? Bom, ficaria muito triste caso ela fosse uma pessoa má, pq eu realmente curto muito ela. E sobre a Esther, bom, espero que ela realmente saiba o que está fazendo, afinal já magoou muito a Mia. Torcendo para tudo se acertar!
Resposta do autor em 14/12/2015:
Hmm será? rsrs vamos ver o desenrolar da história rs
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