O silêncio que reinava no quarto de Jane no Rancho Brown era de uma paz quase sagrada, palpável. A tempestade de incertezas, as reuniões exaustivas e o fantasma da hipoteca e a execução que por meses assombrara o Vale do Loup haviam finalmente se dissipado, dando lugar apenas ao roçar suave do vento que prenunciava uma chuva bem vinda, contra os caixilhos da janela.
Horas se passaram desde que a conversa na cozinha selara o destino de ambas. Sobre a cama, cobertas pela colcha de retalhos, Stephanie e Jane dividiam o mesmo refúgio. O quarto estava imerso em uma penumbra acolhedora, iluminado apenas pelo prateado suave da lua cheia que atravessava o vidro e cortava a escuridão em retângulos de luz, entremeio as nuvens que já se assomavam no céu noturno.
Ambas descansavam enroscadas. O peito de Stephanie subia e descia em um ritmo calmo, colado às costas de Jane. A rancheira, com o braço direito ainda acomodado com extremo cuidado para não pressionar o ombro que ainda doia, apoiava a cabeça no travesseiro, sentindo o calor da executiva envolver seu corpo. Seus dedos da mão esquerda estavam firmemente entrelaçados aos de Stephanie sobre a colcha.
— Eu já mandei uma mensagem telegráfica para o escritório de Chicago no final da tarde — murmurou Stephanie baixinho, a voz rouca pelo cansaço e pela entrega de pouco antes. Sua boca roçava a curva macia do pescoço de Jane, onde depositou um beijo morno. — Avisei ao conselho que vou tirar trinta dias de licença pessoal. Vance e Pendleton vão surtar quando tiverem que responder sozinhos pelas reuniões de rotina, mas eles que se virem.
Jane soltou um riso baixo, que fez seu peito vibrar contra o braço de Stephanie, aninhado por sobre seu corpo confotavelmente.
— Acho que vão ter um ataque cardíaco antes do fim da semana, os dois — disse Jane, os olhos castanhos brilhando na penumbra. — Mas eu admito que não vou sentir a menor falta daqueles dois perambulando pelo vale.
— Nem eu — concordou Stephanie, sorrindo contra a pele de Jane, fazendo uma pausa, pensativa.
— Amanhã mesmo nós vamos começar a organizar os documentos da sua herança. Quero que você vá comigo a Lincoln para dar entrada no inventário e liberar o acesso às contas e às terras. Depois, nós vamos sentar com o Hank e planejar a modernização dos sistemas de irrigação do rancho, contratar mais trabalhadores. Nós vamos comprar bombas novas, refazer todo o cercado do pasto, abrir novos poços artesianos e garantir que este lugar seja autossuficiente para quando a próxima seca chegar.
Jane virou a cabeça devagar no travesseiro, olhando de soslaio para a mulher de Chicago. Havia uma determinação e uma paixão genuína no modo como Stephanie planejava o futuro da propriedade, uma entrega que ia muito além dos negócios.
— Você fala como se estivesse disposta a trocar o seu escritório com ar-condicionado no topo de um arranha-céu em Chicago pela poeira das estradas de terra do Nebraska — provocou Jane suavemente, o canto dos lábios curvando-se.
— E eu estou — respondeu Stephanie sem hesitar. Ela ergueu a mão esquerda de Jane até a altura de seus rostos. A luz prateada da lua bateu exatamente sobre o delicado anel de ouro branco, fazendo o pequeno diamante central cintilar no dedo anelar da rancheira. Stephanie encarou a joia com um brilho de puro orgulho nos olhos azuis e, em seguida, curvou os lábios, beijando delicadamente a junta do dedo de Jane, exatamente sobre a aliança. — A minha casa agora é onde você estiver, Jane Catherine Brown.
Jane engoliu em seco, sentindo uma onda de calor e emoção profunda inundar seu peito. O gesto simples e o toque dos lábios de Stephanie em sua mão traziam um significado mais forte do que qualquer contrato que pudesse ser assinado entre as duas.
Foi ao mover o olhar pelo quarto, tentando desacelerar o ritmo acelerado de seu coração, que Jane reparou em um detalhe que lhe passara despercebido nas horas anteriores. No canto do cômodo, perto da cômoda de madeira escura, repousava a pequena mala de viagem, que Stephanie havia trazido para dentro horas antes.
Jane franziu a testa, os olhos castanhos piscando com uma curiosidade genuína.
— Stephanie... — chamou Jane, apontando com o queixo em direção ao móvel. — O que é aquela mala ali no canto?
Stephanie olhou na direção indicada, soltando uma risada baixa, sincera e um pouco travessa, que fez pequenas linhas de expressão surgirem ao redor de seus olhos.
— Ah... aquilo? — disse a executiva, ajeitando-se ligeiramente no colchão e apoiando o queixo no ombro de Jane. — É a minha mala de roupas e pertences pessoais.
— E por que você trouxe uma mala junto com todo o resto? — perguntou Jane, virando o corpo de lado no colchão para encará-la de frente.
— Porque quando eu saí do hotel em Grand Island e entrei naquele Ford para vir até aqui, eu decidi que não voltaria mais para a cidade — explicou Stephanie, tocando com a ponta do nariz a bochecha de Jane. — Eu trouxe as minhas coisas porque eu não sabia exatamente quanto tempo levaria para convencer você, sua teimosa, de que nós deveríamos ficar juntas de uma vez por todas. Mas de uma coisa eu tinha certeza absoluta: eu não iria embora desta fazenda, não pegaria a estrada de volta para Chicago e não cruzaria aquele portão sem que você me dissesse sim.
Jane encarou a mulher à sua frente. A audácia, a certeza e a entrega sem reservas de Stephanie White continuavam a surpreendê-la e desarmá-la da forma mais avassaladora possível. Jane soltou uma gargalhada alta e gostosa, uma risada livre de qualquer mágoa, que ecoou pelas paredes de madeira do quarto e fez os olhos de Stephanie brilharem ainda mais.
— Meu Deus, você é inacreditável... — disse Jane, balando a cabeça e virando um pouco o corpo nos braços de Stephanie, enquanto a mão subia para acariciar o rosto claro de Stephanie, os dedos passeando pela linha macia da bochecha. — Sabe de uma coisa, sua executiva maluca?
— O quê? — perguntou Stephanie, com um sorriso meio de canto, provocante.
— Mesmo que tudo tivesse dado errado hoje... — confessou Jane, a voz caindo para um tom aveludado, a respiração aproximando-se da boca de Stephanie. — Mesmo que você não tivesse resolvido a hipoteca no banco, mesmo que não houvesse herança nenhuma e mesmo que a gente ainda estivesse atolada em problemas até o pescoço... ainda assim eu jamais diria não para você.
Stephanie ergueu uma das sobrancelhas, surpresa e encantada com a confissão.
— Não diria?
— Não — afirmou Jane, o olhar castanho cravado no azul com uma honestidade avassaladora. — Eu poderia tentar bancar a durona por mais umas duas horas, poderia bancar a orgulhosa e tentar te expulsar da varanda por mais umas três... mas ao final, Stephanie, no final eu diria sim para você de qualquer jeito. De novo e de novo.
Stephanie soltou um suspiro profundo, um sorriso radiante transbordando em seus lábios.
— É bom saber disso, rancheira — sussurrou Stephanie contra a boca de Jane. — Porque eu pretendo ouvir esse seu 'sim' por muitos e muitos anos.
Ambas riram baixinho, um riso compartilhado na intimidade da noite, e encurtaram a última distância de espaço que as separava.
Seus lábios se encontraram em um beijo calmo, profundo e apaixonado, selando para sempre o capítulo de dúvidas e guerras no Vale do Loup.
Fim do capítulo

Nenete
18/10/2026 às 16:43
Minh@linda!
12/10/2026 às 15:15
Obrigada Autora!
Até a próxima.