Assim que entramos no restaurante, o garçom nos direcionou para uma mesa que Flávia já havia reservado. Não demorou para ouvirmos alguns xingamentos das pessoas que aguardavam na fila.
Fingi que não era comigo.
A mesa ficava próxima ao vidro, com vista para a Praia de Botafogo. Os barquinhos ancorados na água deixavam tudo ainda mais bonito e, na parede ao lado, um letreiro em LED dizia:
aprecie a vista sem moderação.
E foi exatamente o que fiz.
Todas as vezes que vinha àquele lugar, a vista me deixava um pouco mais curiosa sobre a vida.
Eu ainda velejaria por aí algum dia.
Só precisava criar coragem para entrar em um barco primeiro.
— Como você conseguiu essa mesa sem a gente enfrentar aquela fila? — perguntei assim que nos sentamos.
— Eu conheço o garçom. Tive que pagar um pouco a mais, mas consegui. — Ela sorriu. — Tudo para ver minha vida feliz.
— Você não existe, amor. — Sorri, completamente rendida. — Me dá seu celular?
— Pra quê?
Flávia estreitou os olhos enquanto tirava o aparelho do bolso.
— Só confia.
Ela me entrega o aparelho e eu olho algumas mensagens. Funcionários, loja, gerente, fornecedores, caos.
Apenas desligo o celular dela. E, em seguida, desligo o meu também. Guardo os dois na bolsa. Hoje seremos só nós.
Flávia ficou me olhando.
— Você acabou de desligar o meu celular?
— Acabei.
— O meu celular?
— Esse mesmo.
Ela abriu a boca, provavelmente procurando algum argumento para justificar por que a Vox poderia entrar em colapso nas próximas duas horas sem a presença digital dela.
Não encontrou.
Ou... desistiu.
— Você que não existe — disse, balançando a cabeça enquanto sorria.
O garçom apareceu para anotar nossos pedidos.
— Um 'Flor de Lis', por favor.
Flávia olhou para ele.
— Eu fico com medo toda vez que ela pede esse — sussurra ao garçom e ele ri discretamente
Depois que fizemos os pedidos e os drinks chegaram, começamos a conversar amenidades.
E era ótimo.
— Você viu que a Catarina comeu metade do brinquedo?
— Metade? — Flávia riu. — Eu acho que não só a metade, porque a outra eu ainda não encontrei.
Soltei uma risada.
— Ela estava ansiosa.
— Não, ela é mimada. É diferente — cruzou os braços
— Olha, aquela cachorra tem noventa por cento de ansiedade. Não posso fazer muita coisa.
Flávia apertou os lábios, tentando não rir.
— Não adianta. Eu não vou discutir com você sobre a Catarina.
— Porque sabe que eu tenho razão — sorri
Conversamos sobre nossas famílias, sobre o tempo, sobre a possibilidade de chover no fim de semana e sobre qualquer assunto suficientemente inútil para não envolver carros, boletos, funcionários ou metas.
Até que ficamos alguns minutos em silêncio, só nos olhando.
E era nesse momento que eu me perdia naquele olhar.
Cinco anos.
Cinco anos, e eu ainda tinha momentos que ficava abobalhada em ver aquela mulher de cabelos curtos, franja cheia, olhos castanhos e expressivos. Flávia conseguia me transmitir segurança, carinho, ironia, tudo ao mesmo tempo. Aquele nariz pequeno e arrebitadinho que me irritava demais na maioria das vezes e a mania intensa de mexer na franja quando estava a atrapalhando observar algo.
— Que foi?
Pisquei, voltando pra realidade.
— Nada.
— Você está me olhando faz uns dois minutos sem parar, estou ficando com medo. — fez uma careta
— Não posso olhar para minha esposa?
— Pode.
Ela sorriu.
— Mas está com cara de quem tá pensando demais.
Desviei os olhos para a Praia de Botafogo. Os barcos continuavam ancorados ali, balançando discretamente sobre a água.
— Talvez eu só esteja feliz.
Quando voltei a olhar para ela, Flávia não respondeu.
Só sorriu.
O garçom veio até a nossa mesa com a carta de sobremesas, mas Flávia sequer precisou olhar para mim.
Ela sabia.
Eu era apaixonada por rabanada.
Sim, aquela que as pessoas normalmente lembram que existe apenas no Natal.
Eu, se pudesse, comeria até o último dia da minha vida. A do restaurante, especialmente, era recheada com doce de leite, servida quente e finalizada com uma bola de sorvete de creme.
Eu gostava do contraste.
Quente e frio.
— Você viu o cliente que foi na loja hoje? — Flávia perguntou. — Dois mil de entrada, nome sujo e queria um Creta do ano.
Revirei os olhos.
— Dona Flávia.
— O quê?
— O que combinamos sobre trabalho no jantar?
Amassei um pedaço do guardanapo e joguei nela.
— Eu não consigo! — Ela desviou da bolinha, rindo. — O cara ainda me xingou quando eu trouxe ele para a realidade.
— Não quero saber. — Tampei os ouvidos
— Você ia rir.
— Não vou.
— Ele falou que ia comprar na concorrência.
Mordi a parte interna da bochecha.
— E você falou o quê?
O sorriso dela aumentou.
Droga. Mordi a isca.
— Que a concorrência também consulta CPF.
Não consegui segurar a gargalhada.
— Flávia!
— Eu avisei que você ia rir.
— Chega de Vox.
— Tá bom, tá bom.
A sobremesa chegou e, em algum momento que eu não percebi, Flávia sentou-se na cadeira ao lado da minha e colocou a mão na minha perna, me fazendo carinho.
— Amor, você viu que o Bruno Mars vai fazer show no Brasil ano que vem? Eu quero ir!
Ela me olhou impassível, para logo soltar:
— The Weeknd é melhor.
Olhei para ela.
— Você está querendo o divórcio?
Ela sorriu.
— Jamais.
Poucos segundos depois, senti seus dedos afastando uma mecha do meu cabelo e colocando-a atrás da minha orelha.
Olhei para ela.
Flávia estava me observando.
— Gosto de ver você assim — falei.
— Assim como?
— Leve.
O sorriso dela diminuiu um pouco, mas não desapareceu.
— Você acha que eu não sou leve?
— Acho que sua cabeça nunca desliga.
Ela soltou uma risada curta.
— Isso é verdade.
Seus dedos continuaram brincando distraidamente com uma mecha do meu cabelo.
— Mas hoje eu estou só aqui.
— Comigo.
Flávia se aproximou e deixou um beijo suave no meu pescoço.
— Só com você.
Ela virou meu rosto delicadamente.
O beijo aconteceu devagar, sem pressa. Era íntimo. Beijo de duas bocas que já conheciam o caminho uma da outra e, mesmo assim, ainda sentiam saudade.
Quando nos afastamos, ela permaneceu perto.
— Helena...
— Hum?
— Vamos dar uma volta na praia?
Em menos de quinze minutos, estávamos caminhando pela orla de Botafogo de mãos dadas. Flávia se abaixou para tirar a minha sandália e me deixar descalça, fez o mesmo com seus sapatos e caminhamos até a beira do mar.
A lua iluminava o local junto com algumas luzes dos barcos que ficavam ancorados ali.
— Você gosta disso, né? — Ela me indagou
— Do quê?
— Dessa calmaria.
Olhei para o mar.
— Eu gosto da calmaria.
— Ainda bem que tenho você… pra me dar essa isso.
Ela me pega pela mão e me puxa para um abraço. Coloco minhas mãos ao redor do seu pescoço e permito que ela me abrace. Tivemos alguns segundos assim.
— Eu sempre vou estar aqui, amor — digo — Talvez a gente possa discordar, discutir sobre algumas coisas, mas sempre estarei aqui por você e pra você.
— Te amo, Helena. Mesmo.
Me dá outro abraço e dessa vez, sou eu que a aperto em meus braços, sentindo a água fria bater em nossos pés descalços.
A sensação do quente e frio.
Mais uma vez.
— Também te amo, vida.
Não demoramos muito ali, pegamos o carro e partimos pra nossa casa, que não era muito distante. Flávia colocou uma rádio que estava tocando MPB e eu me deixei levar pela boa música. Fechei os meus olhos e prestei atenção na melodia, com a cabeça levemente inclinada para a janela.
— E eu que não sei quase nada do mar… descobri que não sei nada de mim. — sussurrou em meu ouvido, colocando a mão em minha perna enquanto cantava.
Um arrepio percorreu a minha pele e eu me desmontei inteira.
Só quando escutamos uma buzina insistente e Flávia voltou a prestar atenção no trânsito, é que percebi que o sinal havia acabado de abrir.
Seguimos o restante do caminho sem pressa, entre músicas, comentários aleatórios e uma discussão completamente necessária sobre quem de nós duas iria no Rio Future Week. Estávamos animadas pra ir, pois era um evento que reunia empreendedores, investidores, corporações, startups de todo o país. Era uma ótima oportunidade para fazer networking e fechar parcerias.
Assim que abrimos a porta, Catarina veio correndo em nossa direção.
Ela praticamente se jogou em cima de mim, abanando o rabo com tanta força que parecia querer desmontar o próprio corpo.
— Oi, minha filha! Meu amor! — me abaixei para abraçá-la.
Catarina me lambeu o rosto, pulou outra vez e, de repente, saiu correndo.
Sem motivo.
Simplesmente correu.
Foi quando Flávia olhou para o chão.
— Helena...
Segui seu olhar.
Perto do sofá estava a outra metade do brinquedo que havíamos deixado para Catarina naquela manhã.
Ou, pelo menos, o que um dia tinha sido a outra metade.
Peguei o pedaço entre os dedos.
— Ela comeu.
— Aparentemente.
Flávia balançou a cabeça, ainda olhando para o pedaço de brinquedo destruído.
— Amor, eu vou tirar a maquiagem. — falei
— Pode ir. Vou jogar isso fora antes que ela resolva comer o tapete também — disse balançando o que restou do brinquedo
Ao entrar no quarto, lembrei dos nossos celulares. Tirei os dois da bolsa e liguei o meu. Quando a tela acendeu, havia uma chamada perdida.
Duas.
Três.
Cinco.
Continuei olhando.
Dezessete.
Franzi a testa.
Havia mensagens de funcionários da Vox. Do gerente. Do pessoal do almoxarifado. Da segurança.
Mais chamadas chegaram enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo.
Meu estômago revirou.
Aquilo não era normal.
Abri a primeira conversa.
Depois a segunda.
Todas diziam praticamente o mesmo: “me liga assim que puder”.
Passei o dedo pela tela até chegar à conversa do gerente.
Havia uma única mensagem. Direta.
Eduardo (Time Comercial):
— Invadiram a Vox.
Meu corpo se enrijeceu.
— Flávia!
Ela apareceu no corredor poucos segundos depois, ainda com um dos brincos na mão e metade da maquiagem no rosto.
— O que foi?
— Invadiram a loja.
A expressão dela mudou imediatamente.
— O quê?
— Eu não sei. Tem dezessete ligações. Um monte de mensagem.
Flávia arrancou o celular da minha mão.
— Quem mandou isso?
— O gerente.
Ela leu.
Flávia já estava tentando.
Chamou.
Chamou novamente.
Nada.
— Não está atendendo.
— Liga pra segurança.
Ela procurou o contato enquanto eu abria as outras conversas.
Ninguém dizia exatamente o que tinha acontecido.
Só pediam que entrássemos em contato.
— Que porra aconteceu naquela loja?
— Flávia...
— Eu sabia que não devia ter desligado essa merda.
Aquilo me atingiu. Me senti triste, mas naquele momento, não havia espaço para isso.
Flávia já estava andando pela sala, procurando a bolsa, as chaves, os sapatos, qualquer coisa que tivesse deixado pelo caminho.
A mulher que, minutos antes, caminhava descalça comigo na areia tinha desaparecido.
A dona da Vox estava de volta.
— Vamos pra lá — falei.
— Você não precisa ir.
Olhei para ela.
— A loja também é minha.
Flávia parou por um segundo.
— Eu sei.
— Então vamos.
Eu ainda estava de vestido vermelho quando peguei Catarina no colo e a coloquei dentro de casa.
— Mamãe já volta, tá?
Ela tentou sair atrás de mim.
— Catarina, fica.
Fechei a porta.
No caminho, tentei ligar para o gerente outra vez.
— Se levaram algum carro...
— Nem fala isso.
— Flávia, a gente precisa pensar.
— Eu estou pensando.
Estava.
Eu conhecia aquela expressão.
A cabeça dela devia estar passando pelo estoque inteiro. Carros. Chaves. Documentos. Câmeras. Seguro. Funcionários.
Prejuízo.
Tudo ao mesmo tempo.
O caminho pareceu muito maior do que realmente era.
Eu atualizava as mensagens enquanto Flávia dirigia.
— Nada?
— Nada.
— Tenta o segurança de novo.
— Já tentei.
— E o gerente?
— Também.
Ela deu um tapa no volante, apertando sem querer a buzina. Sua raiva e o desespero pareciam tomar conta.
— Merda!
Eu também achava que não.
Se alguém tivesse realmente invadido a Vox, por que ninguém atendia?
Olhei novamente para a tela.
Uma nova mensagem havia chegado.
Dessa vez, de um dos vendedores.
Vocês estão vindo?
Franzi a testa.
— Estão perguntando se a gente está indo.
— Responde que sim.
Digitei.
Estamos chegando. O que aconteceu?
A mensagem foi visualizada quase imediatamente.
Esperei.
Nada.
— Visualizou.
— E?
— Não respondeu.
Flávia respirou fundo.
— Eu vou matar alguém, Helena.
Quase ri.
Quase.
Porque ainda não sabia se havia alguma coisa para rir. Eu estava realmente preocupada, meu coração ia de zero a cem muito rápido.
Quando viramos a última rua, procurei automaticamente pela fachada da Vox.
As luzes estavam acesas.
— Flávia...
Ela também viu.
Reduziu a velocidade.
Havia carros em frente à loja. Muito cheio. Mais do que deveria haver naquele horário.
E gente.
Muita gente.
Flávia estacionou quase atravessada.
— Fica aqui.
— Nem pensar. — Retruquei, já tirando o cinto e abrindo a porta do carro
Meu coração batia tão forte que eu conseguia senti-lo na garganta.
Flávia chegou primeiro à entrada e quando dei por mim, parou.
Eu quase bati nas costas dela.
— Que foi?
Ela não respondeu.
Olhei por cima de seu ombro.
E franzi a testa.
Porque, aquilo, definitivamente, não parecia uma invasão.
Fingi que não era comigo.
A mesa ficava próxima ao vidro, com vista para a Praia de Botafogo. Os barquinhos ancorados na água deixavam tudo ainda mais bonito e, na parede ao lado, um letreiro em LED dizia:
aprecie a vista sem moderação.
E foi exatamente o que fiz.
Todas as vezes que vinha àquele lugar, a vista me deixava um pouco mais curiosa sobre a vida.
Eu ainda velejaria por aí algum dia.
Só precisava criar coragem para entrar em um barco primeiro.
— Como você conseguiu essa mesa sem a gente enfrentar aquela fila? — perguntei assim que nos sentamos.
— Eu conheço o garçom. Tive que pagar um pouco a mais, mas consegui. — Ela sorriu. — Tudo para ver minha vida feliz.
— Você não existe, amor. — Sorri, completamente rendida. — Me dá seu celular?
— Pra quê?
Flávia estreitou os olhos enquanto tirava o aparelho do bolso.
— Só confia.
Ela me entrega o aparelho e eu olho algumas mensagens. Funcionários, loja, gerente, fornecedores, caos.
Apenas desligo o celular dela. E, em seguida, desligo o meu também. Guardo os dois na bolsa. Hoje seremos só nós.
Flávia ficou me olhando.
— Você acabou de desligar o meu celular?
— Acabei.
— O meu celular?
— Esse mesmo.
Ela abriu a boca, provavelmente procurando algum argumento para justificar por que a Vox poderia entrar em colapso nas próximas duas horas sem a presença digital dela.
Não encontrou.
Ou... desistiu.
— Você que não existe — disse, balançando a cabeça enquanto sorria.
O garçom apareceu para anotar nossos pedidos.
— Um 'Flor de Lis', por favor.
Flávia olhou para ele.
— Eu fico com medo toda vez que ela pede esse — sussurra ao garçom e ele ri discretamente
Depois que fizemos os pedidos e os drinks chegaram, começamos a conversar amenidades.
E era ótimo.
— Você viu que a Catarina comeu metade do brinquedo?
— Metade? — Flávia riu. — Eu acho que não só a metade, porque a outra eu ainda não encontrei.
Soltei uma risada.
— Ela estava ansiosa.
— Não, ela é mimada. É diferente — cruzou os braços
— Olha, aquela cachorra tem noventa por cento de ansiedade. Não posso fazer muita coisa.
Flávia apertou os lábios, tentando não rir.
— Não adianta. Eu não vou discutir com você sobre a Catarina.
— Porque sabe que eu tenho razão — sorri
Conversamos sobre nossas famílias, sobre o tempo, sobre a possibilidade de chover no fim de semana e sobre qualquer assunto suficientemente inútil para não envolver carros, boletos, funcionários ou metas.
Até que ficamos alguns minutos em silêncio, só nos olhando.
E era nesse momento que eu me perdia naquele olhar.
Cinco anos.
Cinco anos, e eu ainda tinha momentos que ficava abobalhada em ver aquela mulher de cabelos curtos, franja cheia, olhos castanhos e expressivos. Flávia conseguia me transmitir segurança, carinho, ironia, tudo ao mesmo tempo. Aquele nariz pequeno e arrebitadinho que me irritava demais na maioria das vezes e a mania intensa de mexer na franja quando estava a atrapalhando observar algo.
— Que foi?
Pisquei, voltando pra realidade.
— Nada.
— Você está me olhando faz uns dois minutos sem parar, estou ficando com medo. — fez uma careta
— Não posso olhar para minha esposa?
— Pode.
Ela sorriu.
— Mas está com cara de quem tá pensando demais.
Desviei os olhos para a Praia de Botafogo. Os barcos continuavam ancorados ali, balançando discretamente sobre a água.
— Talvez eu só esteja feliz.
Quando voltei a olhar para ela, Flávia não respondeu.
Só sorriu.
O garçom veio até a nossa mesa com a carta de sobremesas, mas Flávia sequer precisou olhar para mim.
Ela sabia.
Eu era apaixonada por rabanada.
Sim, aquela que as pessoas normalmente lembram que existe apenas no Natal.
Eu, se pudesse, comeria até o último dia da minha vida. A do restaurante, especialmente, era recheada com doce de leite, servida quente e finalizada com uma bola de sorvete de creme.
Eu gostava do contraste.
Quente e frio.
— Você viu o cliente que foi na loja hoje? — Flávia perguntou. — Dois mil de entrada, nome sujo e queria um Creta do ano.
Revirei os olhos.
— Dona Flávia.
— O quê?
— O que combinamos sobre trabalho no jantar?
Amassei um pedaço do guardanapo e joguei nela.
— Eu não consigo! — Ela desviou da bolinha, rindo. — O cara ainda me xingou quando eu trouxe ele para a realidade.
— Não quero saber. — Tampei os ouvidos
— Você ia rir.
— Não vou.
— Ele falou que ia comprar na concorrência.
Mordi a parte interna da bochecha.
— E você falou o quê?
O sorriso dela aumentou.
Droga. Mordi a isca.
— Que a concorrência também consulta CPF.
Não consegui segurar a gargalhada.
— Flávia!
— Eu avisei que você ia rir.
— Chega de Vox.
— Tá bom, tá bom.
A sobremesa chegou e, em algum momento que eu não percebi, Flávia sentou-se na cadeira ao lado da minha e colocou a mão na minha perna, me fazendo carinho.
— Amor, você viu que o Bruno Mars vai fazer show no Brasil ano que vem? Eu quero ir!
Ela me olhou impassível, para logo soltar:
— The Weeknd é melhor.
Olhei para ela.
— Você está querendo o divórcio?
Ela sorriu.
— Jamais.
Poucos segundos depois, senti seus dedos afastando uma mecha do meu cabelo e colocando-a atrás da minha orelha.
Olhei para ela.
Flávia estava me observando.
— Gosto de ver você assim — falei.
— Assim como?
— Leve.
O sorriso dela diminuiu um pouco, mas não desapareceu.
— Você acha que eu não sou leve?
— Acho que sua cabeça nunca desliga.
Ela soltou uma risada curta.
— Isso é verdade.
Seus dedos continuaram brincando distraidamente com uma mecha do meu cabelo.
— Mas hoje eu estou só aqui.
— Comigo.
Flávia se aproximou e deixou um beijo suave no meu pescoço.
— Só com você.
Ela virou meu rosto delicadamente.
O beijo aconteceu devagar, sem pressa. Era íntimo. Beijo de duas bocas que já conheciam o caminho uma da outra e, mesmo assim, ainda sentiam saudade.
Quando nos afastamos, ela permaneceu perto.
— Helena...
— Hum?
— Vamos dar uma volta na praia?
Em menos de quinze minutos, estávamos caminhando pela orla de Botafogo de mãos dadas. Flávia se abaixou para tirar a minha sandália e me deixar descalça, fez o mesmo com seus sapatos e caminhamos até a beira do mar.
A lua iluminava o local junto com algumas luzes dos barcos que ficavam ancorados ali.
— Você gosta disso, né? — Ela me indagou
— Do quê?
— Dessa calmaria.
Olhei para o mar.
— Eu gosto da calmaria.
— Ainda bem que tenho você… pra me dar essa isso.
Ela me pega pela mão e me puxa para um abraço. Coloco minhas mãos ao redor do seu pescoço e permito que ela me abrace. Tivemos alguns segundos assim.
— Eu sempre vou estar aqui, amor — digo — Talvez a gente possa discordar, discutir sobre algumas coisas, mas sempre estarei aqui por você e pra você.
— Te amo, Helena. Mesmo.
Me dá outro abraço e dessa vez, sou eu que a aperto em meus braços, sentindo a água fria bater em nossos pés descalços.
A sensação do quente e frio.
Mais uma vez.
— Também te amo, vida.
Não demoramos muito ali, pegamos o carro e partimos pra nossa casa, que não era muito distante. Flávia colocou uma rádio que estava tocando MPB e eu me deixei levar pela boa música. Fechei os meus olhos e prestei atenção na melodia, com a cabeça levemente inclinada para a janela.
— E eu que não sei quase nada do mar… descobri que não sei nada de mim. — sussurrou em meu ouvido, colocando a mão em minha perna enquanto cantava.
Um arrepio percorreu a minha pele e eu me desmontei inteira.
Só quando escutamos uma buzina insistente e Flávia voltou a prestar atenção no trânsito, é que percebi que o sinal havia acabado de abrir.
Seguimos o restante do caminho sem pressa, entre músicas, comentários aleatórios e uma discussão completamente necessária sobre quem de nós duas iria no Rio Future Week. Estávamos animadas pra ir, pois era um evento que reunia empreendedores, investidores, corporações, startups de todo o país. Era uma ótima oportunidade para fazer networking e fechar parcerias.
Assim que abrimos a porta, Catarina veio correndo em nossa direção.
Ela praticamente se jogou em cima de mim, abanando o rabo com tanta força que parecia querer desmontar o próprio corpo.
— Oi, minha filha! Meu amor! — me abaixei para abraçá-la.
Catarina me lambeu o rosto, pulou outra vez e, de repente, saiu correndo.
Sem motivo.
Simplesmente correu.
Foi quando Flávia olhou para o chão.
— Helena...
Segui seu olhar.
Perto do sofá estava a outra metade do brinquedo que havíamos deixado para Catarina naquela manhã.
Ou, pelo menos, o que um dia tinha sido a outra metade.
Peguei o pedaço entre os dedos.
— Ela comeu.
— Aparentemente.
Flávia balançou a cabeça, ainda olhando para o pedaço de brinquedo destruído.
— Amor, eu vou tirar a maquiagem. — falei
— Pode ir. Vou jogar isso fora antes que ela resolva comer o tapete também — disse balançando o que restou do brinquedo
Ao entrar no quarto, lembrei dos nossos celulares. Tirei os dois da bolsa e liguei o meu. Quando a tela acendeu, havia uma chamada perdida.
Duas.
Três.
Cinco.
Continuei olhando.
Dezessete.
Franzi a testa.
Havia mensagens de funcionários da Vox. Do gerente. Do pessoal do almoxarifado. Da segurança.
Mais chamadas chegaram enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo.
Meu estômago revirou.
Aquilo não era normal.
Abri a primeira conversa.
Depois a segunda.
Todas diziam praticamente o mesmo: “me liga assim que puder”.
Passei o dedo pela tela até chegar à conversa do gerente.
Havia uma única mensagem. Direta.
Eduardo (Time Comercial):
— Invadiram a Vox.
Meu corpo se enrijeceu.
— Flávia!
Ela apareceu no corredor poucos segundos depois, ainda com um dos brincos na mão e metade da maquiagem no rosto.
— O que foi?
— Invadiram a loja.
A expressão dela mudou imediatamente.
— O quê?
— Eu não sei. Tem dezessete ligações. Um monte de mensagem.
Flávia arrancou o celular da minha mão.
— Quem mandou isso?
— O gerente.
Ela leu.
Flávia já estava tentando.
Chamou.
Chamou novamente.
Nada.
— Não está atendendo.
— Liga pra segurança.
Ela procurou o contato enquanto eu abria as outras conversas.
Ninguém dizia exatamente o que tinha acontecido.
Só pediam que entrássemos em contato.
— Que porra aconteceu naquela loja?
— Flávia...
— Eu sabia que não devia ter desligado essa merda.
Aquilo me atingiu. Me senti triste, mas naquele momento, não havia espaço para isso.
Flávia já estava andando pela sala, procurando a bolsa, as chaves, os sapatos, qualquer coisa que tivesse deixado pelo caminho.
A mulher que, minutos antes, caminhava descalça comigo na areia tinha desaparecido.
A dona da Vox estava de volta.
— Vamos pra lá — falei.
— Você não precisa ir.
Olhei para ela.
— A loja também é minha.
Flávia parou por um segundo.
— Eu sei.
— Então vamos.
Eu ainda estava de vestido vermelho quando peguei Catarina no colo e a coloquei dentro de casa.
— Mamãe já volta, tá?
Ela tentou sair atrás de mim.
— Catarina, fica.
Fechei a porta.
No caminho, tentei ligar para o gerente outra vez.
— Se levaram algum carro...
— Nem fala isso.
— Flávia, a gente precisa pensar.
— Eu estou pensando.
Estava.
Eu conhecia aquela expressão.
A cabeça dela devia estar passando pelo estoque inteiro. Carros. Chaves. Documentos. Câmeras. Seguro. Funcionários.
Prejuízo.
Tudo ao mesmo tempo.
O caminho pareceu muito maior do que realmente era.
Eu atualizava as mensagens enquanto Flávia dirigia.
— Nada?
— Nada.
— Tenta o segurança de novo.
— Já tentei.
— E o gerente?
— Também.
Ela deu um tapa no volante, apertando sem querer a buzina. Sua raiva e o desespero pareciam tomar conta.
— Merda!
Eu também achava que não.
Se alguém tivesse realmente invadido a Vox, por que ninguém atendia?
Olhei novamente para a tela.
Uma nova mensagem havia chegado.
Dessa vez, de um dos vendedores.
Vocês estão vindo?
Franzi a testa.
— Estão perguntando se a gente está indo.
— Responde que sim.
Digitei.
Estamos chegando. O que aconteceu?
A mensagem foi visualizada quase imediatamente.
Esperei.
Nada.
— Visualizou.
— E?
— Não respondeu.
Flávia respirou fundo.
— Eu vou matar alguém, Helena.
Quase ri.
Quase.
Porque ainda não sabia se havia alguma coisa para rir. Eu estava realmente preocupada, meu coração ia de zero a cem muito rápido.
Quando viramos a última rua, procurei automaticamente pela fachada da Vox.
As luzes estavam acesas.
— Flávia...
Ela também viu.
Reduziu a velocidade.
Havia carros em frente à loja. Muito cheio. Mais do que deveria haver naquele horário.
E gente.
Muita gente.
Flávia estacionou quase atravessada.
— Fica aqui.
— Nem pensar. — Retruquei, já tirando o cinto e abrindo a porta do carro
Meu coração batia tão forte que eu conseguia senti-lo na garganta.
Flávia chegou primeiro à entrada e quando dei por mim, parou.
Eu quase bati nas costas dela.
— Que foi?
Ela não respondeu.
Olhei por cima de seu ombro.
E franzi a testa.
Porque, aquilo, definitivamente, não parecia uma invasão.
Fim do capítulo

Lea
07/10/2026 às 06:47
Você continua malvada,Nath!