Capítulo 1

Capítulo um: quilômetro zero.

de Quilômetros de Nós, por nathh.autora

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Era um fim de tarde ameno na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro. O patinete elétrico, a 25 km/h, ditava o ritmo em que o vento bagunçava meus cabelos ondulados. Headphone, tênis esportivo e podcast.

Poderia estar escutando qualquer música da minha playlist, mas, pelo menos três vezes na semana, escolhia ouvir algo relacionado ao meu trabalho naquele que era o meu momento comigo mesma.

Era o único momento em que eu “trabalhava” por prazer, e não por pressão.

Bem-vindos ao meu mundo.

A Vox Veículos é o meu sonho realizado. Aliás, não só meu, como da minha esposa, Flávia. Entretanto, ter 29 anos e já ser dona do meu próprio negócio me fazia surtar às vezes e, por recomendação médica, eu tinha que ter vida.

Sempre pensei que uma vida estável era me formar, passar em um bom concurso e ter uma vida segura para sempre. Porém, de certa forma, o sonho de Flávia acabou se tornando o meu também quando eu a conheci. Minha vida tomou um rumo imprevisível.

Imprevisibilidade.

Eu odiava não saber o que vinha depois. Odiava ainda mais quando as coisas fugiam do controle. Engraçado pensar que foi justamente a falta de controle que me trouxe até a vida que eu tinha. Hoje, meu trabalho me permite pegar um patinete elétrico em plena quarta-feira e passear de uma ponta a outra das orlas das praias cariocas. Mas, ao mesmo tempo, foi esse mesmo trabalho que me colocou nessa posição de conseguir tirar um tempo para que eu pudesse respirar.

Era minha paz e meu caos ao mesmo tempo.

O mar ao fundo e o cheiro da maresia me acalmavam e me traziam um momento de tranquilidade que parecia até errado, mas necessário. Paro o patinete e me permito apreciar a vista do Mirante do Pasmado e sentir a luz do sol batendo no meu rosto, me fazendo lembrar de como respirar é bom.

Sentei-me junto à cerca rústica de madeira, antes de sentar, olhei bem para elas para ter certeza que não havia nenhuma família de formigas perdidas por ali. À minha frente, pude observar a linda vegetação que emoldurava a vista para o pão de açúcar. Havia verde por toda parte, era como se a floresta tivesse decidido me acolher. Aquele cheiro de mata aquecida pelo sol me dava sensação de leveza.

Mas o que é bom, dura pouco.

Meu telefone tocou.

E a julgar pelo horário e o dia de folga, só poderia ser uma pessoa.

— Helena?/

— Oi, amor.

— Onde você está? — ela pergunta

— Em Botafogo, por quê?

— Queria te levar pra jantar hoje, você topa?

Automaticamente, abri um sorriso. Pelo menos daquela vez, ela não tinha ligado para falar de trabalho.

— Topo, amor.

— Vou sair da loja às 18h, vou direto pra casa me arrumar.

— Tem alguma intenção por trás desse convite, Dona Flávia? — implico

— Só a intenção de encher seu buchinho e te encher de beijo a noite toda.

Dou uma gargalhada e balanço a cabeça negativamente

— Só você, amor.

— Beijo, leninha. Te amo.

— Eu também te amo.

Desligamos o telefone e em menos de dois minutos, Flávia já estava puxando reunião de alinhamento com algumas pessoas no grupo da equipe.

Aproveitei para devolver o patinete ao local correto e chamar um Uber, pois embora eu fosse dona de uma loja de automóveis e entendesse muito sobre carros, eu não sabia dirigir.

É, que ironia.

Entrei no carro do motorista por aplicativo já avaliando o veículo, fazendo minhas ponderações e uma nota mental de que precisávamos comprar mais daquele modelo para a loja, pois era supervendável.

Ele fez o caminho em silêncio e eu aproveitei para observar enquanto passávamos pelo Aterro do Flamengo e um sorriso discreto foi se formando no canto da minha boca, pois a última vez que estive ali, um sagui havia roubado alguns dos meus pães.

Assim que cheguei em casa, fui surpreendida por Catarina, nossa cachorrinha. Uma galga italiana branca com manchas amarelas, de corpo espichado, nariz comprido e uma energia de milhões.

— Mamãe chegou, meu amor!

Sentei-me no chão para brincar com ela e receber seus lambeijos.

Catarina subia em cima de mim e tentava, de todas as formas, ficar no meu colo. A hiperatividade e o jeito desengonçado, porém, não colaboravam.

Ela latia como se estivesse falando comigo, respondendo às minhas falas toscas com voz de bebê.

Eu tinha certeza de que, se levasse Catarina à fono, ela sairia de lá falando.

Após brincar e alimentar meu bebê de quatro patas, subi para tomar um banho rápido e me arrumar para sair. Flávia tinha decidido que queria um tempo só para nós, então eu queria que aquela noite fosse especial.

Ao me vestir, optei por um vestido despojado vermelho e uma maquiagem simples. Batom e rímel para mim eram o suficiente. Nas orelhas, um par de brincos em prata, de formato hexagonal.

Abri uma das gavetas do nosso closet e escolhi um relógio da mesma cor. Dentre tantos que tinha, aquele me pareceu combinar melhor com a ocasião.

Quando estava passando a última fivela da sandália, ouvi a porta do quarto.

Sorrimos.

E eu me derretia toda com aquele sorriso dela.

— Você está linda — disse ela, me olhando com devoção e estendendo a mão para que eu a segurasse.

Ela era quase uma dama.

Quase.

— Obrigada, minha vida — tentei não deixar transparecer o quanto aquele gesto ainda me deixava toda bobinha. — Pra onde vamos?

— Surpresa — piscou. — Vou tomar um banho e já vamos.

Saiu em direção ao banheiro tão rápido quanto chegou.

Fiquei ali, parada em frente ao espelho, pensando no quanto tinha sorte de ter encontrado alguém como ela.



Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
Foto de Lea

Lea

05/10/2026 às 19:03

Preparada para embarcar nessa com Helena e Flávia!
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