Capítulo 2

Nardo - Rosangela Trajano - Capítulo 2

de Nardo, por Rosangela Trajano

Tamanho do texto
2.606 palavras36 leituras0 comentários
Sebastiana chegou em casa toda nervosa. O pai, ainda de ressaca, logo percebeu que ela estava diferente.
̶ O que que tem você, Sebastiana?
̶ Nada, papai. Por quê?
̶ Tá andando com os pés tortos. Quando você era menina que fazia isso, era porque tinha alguma coisa te aborrecendo.
̶ Deixe de tolices, papai. Não sou mais uma menina. Cresci e tenho muitas preocupações para com a vida. Onde está Olavo?
̶ Olavo inventou de estudar numa escola lá onde Judas perdeu as botas. Vai andar a pé todos os dias cerca de treze quilômetros. Mas ele tem essa mania de querer ser doutor. Eu acho que ele devia desistir disso tudo.
̶ Deixe o menino, papai. Deixe ele sonhar. Já que nós dois não temos mais motivos para isso.
Sebastiana sentou-se para descansar a coluna e os pés cansados do dia no canavial. O pai ficou em pé encostado à janela da casa.
̶ Parece que vai chover. Vou buscar Olavo. Senão ele vai molhar os cadernos tudo.
̶ Vá, papai. Leve o guarda-chuva. Encontre com ele e não o deixe se molhar.
O pai vestiu um casaco velho de frio, pegou o guarda-chuva e saiu no meio do tempo frio à espera de encontrar o filho no meio do caminho.
Sebastiana foi fazer o jantar. Primeiro queimou o cuscuz, depois deixou a água do café ferver até queimar a panela. Estava preocupada com o que a sua nova patroa queria falar. Não fez nada de errado. Cortou a quantidade de cana que eles desejaram. Era estranho que quisesse falar justo com Sebastiana. Sabe-se lá o que ela queria, esse povo rico é cheio das coisas estranhas.
O temporal caiu, conforme o pai previra. Uma chuva com raios e trovões. Pai e filho chegaram em casa ainda molhados. O guarda-chuva não deu para proteger os dois homens.
̶ Venham jantar. Olavo, onde arrumou essa escola?
̶ Não é uma escola, Sebastiana. É uma moça que disse que vai me ensinar tudo e depois vai me mandar pra uma escola.
̶ E você acreditou nisso, meu irmão?
̶ Claro que sim! Ela é moça boa! Educada e inteligente! Veja só o que ela me ensinou hoje!
Olavo abriu o caderno e mostrou a atividade para Sebastiana, que passou o olhar por cima, mas sem entender nada. Nunca que aprendeu a ler, nunca que aprendeu uma letra do alfabeto, ia saber aquilo tudo que estava escrito lá. Olavo bem que podia tê-la poupado daquele vexame diante do pai.
̶ Amanhã vou falar com a nova patroa.
̶ Falar o quê?
̶ Não sei, papai. Ela disse que quer falar comigo em particular.
̶ Será que vai contratar você como colona, minha irmã?
̶ Não sei! Acho que não! Nem quero! Os colonos disseram que ela é má. Pior do que o pai!
̶ Ave Maria! Assim é melhor ficar como boia-fria, Sebastiana!
̶ Claro que sim, Olavo! Mas tenho uma pulga atrás da orelha. A mulher mal me conheceu e já quer falar comigo.
̶ Talvez seja bobagem, irmã. Não ligue pra isso. Vamos jantar e dormir. Amanhã vou pro canavial com você, logo cedo.
̶ E você, papai, o que vai fazer o dia todo?
̶ Vou plantar milho pra ver se nasce alguma coisa no próximo inverno, Sebastiana.
̶ Muito bem, papai! Quero o senhor ocupado com alguma coisa. Nada de bebidas por esses dias. Olhe o seu tratamento.
Os três foram para a mesa e jantaram. Após o jantar, Sebastiana lavou a louça. Deixou cair um prato, que se quebrou, e logo depois uma xícara. Ficou a pensar se a filha de seu Joaquim soube que deitou com ele e por isso queria falar com ela, mas, se fosse aquilo, ela teria de falar com a mulherada todinha da comunidade, porque seu Joaquim deitou com toda mulher que passou na frente dele. No seu caso, só deitou com ele pra salvar a vida do pai e comprar os remédios para o tratamento de câncer. Seu Joaquim foi um sortudo, pois tirou a virgindade de Sebastiana logo da primeira vez. Naquela noite, ele ficou tão feliz que a compensou com um bom dinheiro. Mas a dor que Sebastiana sentiu da força do sexo dele a rasgando foi pior do que qualquer coisa na sua vida. Nunca mais que queria saber de homem nenhum. Seu Joaquim foi o primeiro e o único. Aquele cheiro de bode que ele tinha era horrível. E aquela barriga enorme cobrindo o sexo pequeno era mais feia ainda. A mulherada toda sorria do tamanho do sexo de seu Joaquim, que nem desconfiava daquilo. Só Sebastiana nunca disse nada. Só ela ficou em silêncio de ter se deitado com o rei da cana-de-açúcar do Vale do Ceará-Mirim, porque as outras mulheres se gabavam de ter deitado com ele. Deitar com seu Joaquim era sinal de ser mulher bonita, boa amante, desejada. Para Sebastiana, foi um martírio que nunca esqueceu.
Sebastiana, depois de limpar a cozinha toda, foi tomar um banho no pequeno banheiro do lado de fora da casa e se recolheu à sua rede. Estava exausta. As mãos, a coluna, os pés, tudo doía. Cortar cana não era fácil. Estava ficando cansada daquela vida. Mas precisava trabalhar para comprar a casinha e ajudar o irmão com os estudos.
O dia amanheceu com um solzão daqueles. Nem parecia que tinha caído uma chuva enorme a noite inteira. O trator com a carroceria veio buscar Sebastiana, Olavo e mais alguns que moravam ali perto.
Uma vez no canavial, Sebastiana colocou o pano na cabeça, depois o chapéu de palha. A blusa de mangas compridas, a saia longa e as botas pretas. Toda preparada para enfrentar os bichos peçonhentos, se por acaso aparecessem, e o sol do meio-dia que já começava a esquentar.
Começou a meter a foice nos talos da cana-de-açúcar numa rapidez inexplicável. Cortava tudo sem olhar para ninguém. A sua foice era afiada. Faltava muito para terminar aquele corte, ainda. Havia muita terra. Era bom, porque receberia mais trabalho. Teve pausa para o almoço, momento em que aproveitava para descansar um pouco. Pegou a sua marmita, um prato envolvido num pano, sua colher e começou a comer. Uma hora depois, estava novamente a cortar cana. Era assim a sua rotina. Não tinha tempo para descanso. Era só trabalho e mais trabalho. Um dos empregados da fazenda aproximou-se de Sebastiana e ficou a olhar para ela.
̶ A madame quer ver a senhora. Venha comigo.
̶ Eu não posso ir agora. Ainda não fiz as minhas vinte e oito toneladas de corte.
̶ A madame mandou eu te buscar, Sebastiana. E eu vou levar você ou por bem ou por mal.
̶ Já disse que não vou. Quero cortar pelo menos vinte e oito toneladas pra receber meu pagamento. Diga a ela que me espere.
O empregado não contou conversa. Pegou as mãos de Sebastiana e as amarrou. Depois amarrou nelas uma corda forte e subiu num cavalo puxando-a a pé pelo canavial. A cena era triste. Sebastiana não derramou uma lágrima sequer. Era forte, não chorava. Os trabalhadores se revoltaram, mas nada puderam fazer. Aquilo era tratamento de escravos, e o pior de tudo era que vez ou outra eram tratados como eles. Sebastiana sendo puxada pelo cavalo com o empregado sentado em cima dele tinha que andar apressada para não cair e se arranhar. O empregado sorria de Sebastiana.
Chegou ao casarão por volta das quinze horas. Estava tudo silencioso. O empregado desceu do cavalo e desamarrou as mãos dela.
̶ Aprenda a cumprir ordens, Sebastiana! Quando a madame mandar você fazer uma coisa, nunca diga não!
O empregado a empurrou em direção à porta de entrada e foi atrás dela.
Camile estava sentada em uma poltrona lendo um jornal. Vestia calça jeans, blusa de mangas compridas vermelha e calçava botas de cor marrom.
̶ Sebastiana! Que bom que veio! Estava à sua espera!
̶ Veio contra a vontade, senhora! Mas veio!
̶ Como assim? Contra a vontade por quê?
̶ Porque disse que só vinha quando terminasse de cortar a quantidade de cana desejada. Eu tive que trazer à força.
̶ O que fez com ela?
̶ Eu a amarrei e a puxei pelo cavalo!
Camile levou as mãos à cabeça, balançou-a num ar de reprovação e depois olhou bem para o empregado.
̶ Nunca mais faça isso com um trabalhador meu. Está me ouvindo?
̶ Mas, senhora, não era pra trazer ela? Seu Joaquim quando dava uma ordem era pra gente cumprir de qualquer jeito.
̶ Eu não sou papai. Nunca mais faça isso com ninguém! Está me ouvindo bem?
̶ Sim, senhora! Me desculpe! Eu só quis ajudar!
̶ Saia já daqui! Não quero mais vê-lo na minha frente tão cedo!
O empregado saiu todo desconfiado e sem jeito. Camile olhou para Sebastiana, que parecia cansada por demais. Aproximou-se dela e viu os seus pulsos quase sangrando da corda.
̶ Vou cuidar dos seus ferimentos, Sebastiana. Sente-se aqui.
Sebastiana sentou-se em uma das poltronas da enorme sala de visitas. Nem se deu conta de que empregado não podia sentar naquele local, mas estava tão cansada que não resistiu. Camile foi lá pra dentro e voltou com uma maleta de primeiros socorros. Passou um medicamento vermelho nos pulsos de Sebastiana e depois colocou gaze. Pegou nas mãos dela e sentiu os calos e a pele dura.
̶ As suas mãos dizem da sua força e coragem, Sebastiana. Admiro mulheres iguais a você.
̶ A senhora pode me dar um copo com água, por favor?
̶ Claro! Eu mesma pego para você!
Camile saiu novamente da sala e retornou com um copo d’água para Sebastiana, que tomou todo, imediatamente.
̶ Obrigada, senhora! Me diga logo o que quer de mim, porque eu preciso voltar pro trabalho.
̶ Não tenha pressa. O seu pagamento de hoje está garantido. Eu mesma pagarei a você.
̶ Eu não quero dinheiro da senhora. Eu quero o dinheiro do meu trabalho, madame, disse Sebastiana, cabisbaixa.
̶ Sebastiana, olhe para mim. Não tenha vergonha de me olhar.
Camile levantou o rosto de Sebastiana, tirou o seu chapéu de palha e pôde contemplar os lindos olhos verdes pintados naquela pele parda queimada do sol. Os cabelos de Sebastiana estavam presos por debaixo do pano que cobria a sua cabeça.
̶ Eu soube que é a minha melhor cortadora de cana-de-açúcar.
̶ Eu faço o possível pra fazer o meu trabalho da melhor forma.
̶ Eu sei que não devia fazer isso, mas, depois de vê-la passando mal na carroceria do trator, procurei saber sobre você. Pessoas da minha confiança me falaram tudo sobre a sua pessoa.
̶ Tudo o quê, senhora?
̶ Seu pai, seu irmão, seu esforço para manter a sua casa, a doença do seu pai e até mesmo sobre você e o meu pai.
̶ Ave Maria! Quem lhe contou isso?
̶ Gente da minha confiança. Não se preocupe.
̶ Mas eu não fiquei com o seu pai por safadeza, não, senhora. Foi porque estava precisando de dinheiro e só ele podia me ajudar. Ele disse que só me ajudava se eu deitasse com ele.
̶ Não precisa se explicar, Sebastiana.
̶ Ave Maria! Estou é com vergonha!
̶ Sebastiana, chamei você até aqui para lhe fazer uma proposta.
̶ Proposta? Que proposta, senhora?
̶ Quero que cuide de mim! Preciso de uma pessoa para cuidar das minhas coisas! Cuidar de mim!
̶ Ainda não entendi como posso cuidar da senhora.
̶ Para onde eu for, irá comigo, cuidará das minhas roupas, da minha alimentação, de tudo o que for meu. Em troca vou lhe pagar muito bem. Primeiro, você vai trazer o seu pai e o seu irmão para morarem numa das casas dos colonos que estão vazias, e você morará aqui dentro de casa.
̶ Eu não posso deixar meu pai, senhora! Ele está doente de câncer de pele! Trabalhou muitos anos no sol quente!
̶ Darei um tratamento para o seu pai! E quanto ao seu irmão, também sei que ele quer estudar, procurarei uma escola para ele.
̶ O que a senhora vai querer de mim em troca de tudo isso?
̶ Nada! Não sou igual ao papai! Quero apenas que cuide de mim! A minha mulher está para chegar de viagem, e vou precisar dessa casa bem linda e perfumada!
̶ Mulher? E mulher namora com outra mulher?
Camile deu uma gargalhada com a inocência de Sebastiana. Depois pediu desculpas.
̶ Namora, sim, Sebastiana. Você vai gostar da minha mulher. Laura, às vezes, é um pouco antipática, mas depois que conhece a pessoa fica um encanto com todos.
̶ Mas eu não sei fazer nada, senhora. Essas coisas chique eu não sei nem pra onde.
̶ Sabe arrumar uma casa? Arrumar uma cama? Se cuida de dois homens, pode cuidar de mim.
̶ Isso, posso sim. E por quanto tempo será esse trabalho?
̶ O tempo que eu precisar. Depois você pode voltar a cortar a sua cana, caso queira. Então, aceita cuidar de mim?
̶ Vixe Maria! Claro que sim! Claro que aceito! E quando essa dona Laura chega?
̶ Daqui a dois dias! Você tem a minha orientação de mandar em todos os empregados da casa. Não quero que falte nada nem para mim nem para Laura.
̶ Sim, senhora! Eu farei tudo o que puder!
̶ Desculpe-me, Sebastiana, esqueci-me de lhe oferecer um suco. Acho que está com fome.
̶ Não! Eu só janto agora, senhora. Não se preocupe comigo.
̶ Você parece meio assustada com tudo o que falei.
̶ Preciso me acostumar com o novo trabalho. Será que já posso voltar pra casa?
̶ Claro! Eu faço questão de deixar você em casa!
̶ Não precisa, senhora! Eu pego o trator! Daqui a pouco ele passa aqui na estrada!
̶ De jeito nenhum! Eu vou te deixar em casa! Vamos! Não tenho muito tempo! Preciso me preparar para receber Laura!
Camile saiu porta afora e atrás dela foi Sebastiana. Entraram no carro confortável de Camile, que seguiu a estrada de barro em direção à casa de Sebastiana. O caminho era cheio de buracos. Camile ficou surpresa com o tanto que Sebastiana caminhava a pé para ir e vir da fazenda, quando necessitava. Andava quinze quilômetros.
̶ A minha casa é esta aqui, senhora.
Camile parou o carro e olhou a casinha de taipa simples de Sebastiana. O jardim na frente era a única coisa que embelezava o lugar.
̶ A senhora quer descer um pouco pra tomar um café?
̶ Será que posso?
̶ É casa de pobre, mas faço um café gostoso pra senhora.
̶ Sebastiana, a sua primeira missão será me dar um banho de ervas bem perfumado. Quero receber Laura com cheiro de ervas.
̶ Sim, senhora. Farei isso. Darei o seu banho e a deixarei bem bonita pra receber a sua amiga.
̶ Amiga não, mulher.
̶ Desculpe. Mulher. É que não me acostumei ainda, senhora.
Camile entrou na casinha de Sebastiana e achou lindo tudo lá dentro. Sebastiana passou o café e lhe deu em uma das suas xícaras novas que ganhou de presente de uma amiga, certa vez. Após o café, Camile disse que precisava ir. Sebastiana ficou a olhar o carro desaparecer na estrada. Estava feliz por dentro. Não ia mais trabalhar no corte de cana-de-açúcar, pelo menos por uns tempos. Cuidaria de dona Camile, das coisas dela e da sua mulher. Que coisa mais estranha aquela de mulher, nunca ouviu falar que mulher namorasse com outra. Mas esse povo moderno é cheio das invenção mesmo. O importante é que ia trabalhar sem ser embaixo do sol, sem foice nas mãos e sem ter que se abaixar e se levantar milhares de vezes. Daria a notícia ao pai e ao irmão, que ficariam felizes com a novidade. Sebastiana era do tipo que ficava feliz com qualquer coisa, imagine com algo tão grandioso como aquilo tudo que Camile lhe propôs. E o banho? Como dar banho numa mulher? Costumava banhar o pai, mas era diferente. Bem, melhor não pensar. Melhor deixar chegar a hora e fazer o que devia. Era apenas um banho em uma mulher.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

0
Este capítulo ainda não recebeu comentários.
Informar violação das regras