Capítulo 1

Nardo – Rosangela Trajano – Capítulo I

de Nardo, por Rosangela Trajano

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O dia estava quente. Algum relógio anunciava dez horas. Desde as cinco que Sebastiana cortava cana-de-açúcar com a sua foice afiada. Estava preocupada com o irmão trabalhando do outro lado do matagal, febril e com muita tosse. Parou um pouco para tomar um copo com água, passou a mão no rosto, não era hora de descanso, avisou ao empregado da fazenda e pastorador dos trabalhadores boias-frias. Ela voltou ao trabalho. Em três cortes de foice, e a cana vinha abaixo. Sebastiana chegava a cortar quase vinte e oito toneladas de cana por dia. Era muito para uma mulher. Só Sebastiana conseguia aquilo, mais ninguém. Mulher forte, apesar dos bracinhos finos, corajosa, apesar do olhar assustador, e determinada, apesar de pisar com medo no chão.
Até onde a vista alcançasse havia cana-de-açúcar a ser cortada. Era uma fazenda enorme a Malibu, produtora de cana-de-açúcar que mandava para a usina próxima dali, do mesmo dono.
Estava perto do meio-dia quando chegou a notícia de que o proprietário da fazenda, seu Joaquim, morreu de infarto fulminante. Todos ficaram perplexos com a notícia. Burburinhos correram aos montes. Diziam que ele morreu enquanto fazia sexo com uma das garotas da fazenda de apenas quinze anos de idade. Seu Joaquim era um viúvo milionário, dono de muitas fazendas, metido a bonitão, sempre de botas de couro e chapéu de palha na cabeça, gostava de tudo organizado e de ver o povo trabalhando. O povo dizia dos seus amores pelas meninas jovens e pelos muitos filhos espalhados pelo meio do mundo, mas ele negava todos, dizia ter apenas uma filha que morava na Europa e linda demais. Era o seu orgulho.
Os trabalhadores foram dispensados do corte da cana. Os colonos voltaram para as suas casas na própria fazenda, os boias-frias foram mandados para casa numa carroça puxada por um trator.
Sebastiana morava cerca de trezes quilômetros de distância da fazenda de seu Joaquim. O seu patrão estava morto. No caminho, de volta para casa, caiu uma chuva forte que molhou todos na carroceria.
O irmão ia calado. Parecia mais doente do que quando saiu de casa, pela manhã. Era preciso levá-lo ao médico. A febre não passava e reclamava de dor nos ossos. Coitado. Ainda tinha que trabalhar o dia todo cortando cana, não era nada fácil.
Ao chegarem em casa, Sebastiana mandou o irmão tomar um banho e preparou uma canja para o jantar. O pai, como de costume, estava bêbado, jogado em cima da cama. Sequer tirou as botas. Sebastiana foi lá e o ajeitou, tirou as botas, abriu a camisa devido ao calor intenso que fazia e colocou um travesseiro em cima da cabeça dele. O pai era um homem bom quando não bebia e um homem teimoso quando bêbado, mas um homem de grande coração.
̶ O que você acha que aconteceu com seu Joaquim?
̶ Não sei, Olavo! Não disseram que ele estava com uma mulher?
̶ Acho que o velho não aguentou a mulher.
̶ Deixe de coisa, meu irmão! Isso não é jeito de se falar de quem já morreu!
̶ Só estou brincando com você! Mas que deve ser engraçado é, o cara lá no bem bom com a gostosona e ter um piripaque.
̶ Seu Joaquim vivia pegando aquelas meninas da fazenda. Um dia ia dar nisso.
̶ O velho deixou uma fortuna enorme pra filha. Será que ela vai vender tudo isso?
̶ É bem possível! A mulher é lá das Europa! Vai querer saber desse fim de mundo?
̶ Se eu pudesse, comprava tudo. Seria dono de todas aquelas terras.
̶ Pare de delirar, Olavo! A febre já baixou! Não tem motivos para delirar!
Sebastiana tirou os pratos da mesa, lavou tudo, arrumou a cozinha e foi para a sua rede dormir. O irmão também fez o mesmo. Nunca mais teriam notícias de seu Joaquim. Lembrou-se do dia em que ele a olhou dos pés à cabeça e perguntou pelo seu nome e da oferta que lhe fez se fosse para a cama com ele. Nunca que aceitou. Seu Joaquim era um bom homem, mas namorador. Dizia ser Sebastiana uma morena de olhos verdes belíssima, o tipo que ele comeria por muito tempo e lhe daria muito dinheiro, mas se negou a ele. Negou até o dia em que o pai caiu doente e não teve dinheiro para comprar os seus medicamentos. Sem solução, o jeito foi deitar com seu Joaquim, que adorou a ideia e enfiou dentro dela aquele pênis nojento com uma violência estúpida. Mas cumpriu com o combinado e pagou o tratamento do seu pai. Que Deus guardasse a alma dele por aquela ajuda que lhe prestou. Sebastiana acabou adormecendo, pensando em seu Joaquim sobre o seu corpo nu, gemendo como um boi bravo.
No dia seguinte, correu uma conversa de que o velho Joaquim deixou por escrito que queria ser enterrado em suas terras. A filha veio da Europa para plantar o pai na terra que ele tanto amava. Sebastiana não chegou a ver a mulher, mas diziam que era muito bonita, alta igual ao pai, de pele clara e cabelos negros. Também vieram alguns parentes do Rio de Janeiro, amigos fazendeiros e usineiros de próximo.
Conforme seu Joaquim pediu, foi atendido. O velório se deu na pequena capela que ele mesmo construiu na fazenda e o seu corpo foi velado embaixo de um pé de manga frondoso. Os trabalhadores ficaram à distância observando o que acontecia, e Olavo, curioso como era, foi ver o sepultamento para contar tudo à irmã.
̶ A moça é danada de bonita! Parecida com o pai!
̶ Será que vai ficar muito tempo aqui?
̶ Acho que não, Sebastiana, deve vender as terras e partir!
̶ Precisamos arranjar novos cortes de cana!
̶ É verdade! A fazenda Malibu acabou! Ao menos até as coisas se ajeitarem por lá!
̶ Tinha muita gente no enterro?
̶ Tinha! Gente das rica! Só fazendeiro, usineiro e um povo chique da família!
̶ Como é a filha de seu Joaquim?
̶ Uma mulher alta, branca, cabelos longos e negros, olhos pretos, nariz afilado, mas com cara séria e fechada.
̶ Puxou ao pai! Só os cabelos que devem ter puxado aos da mãe! O pai era louro!
̶ A única herdeira de seu Joaquim! Os filhos que ele fez por aí não vão ter direito a nada!
̶ Mas deveriam ter! Seu Joaquim embuchou muita menina nova! Era pra ser dividido pra todas!
̶ Você acha mesmo que alguma menina vai ter coragem de brigar atrás da herança de seu Joaquim, minha irmã? São tudo umas medrosas!
Sebastiana estava nervosa com o pai que não chegava da rua. Devia estar bebendo. Pediu para Olavo ir atrás dele. E o irmão concordou. Já passava das dezoito horas, e o pai esteve o dia fora de casa, sem nem dar notícias.
Olavo custou a voltar, Sebastiana ficou preocupada. Deram onze horas da noite e nada do pai ou do irmão. Foi atrás dos dois. Disseram que estavam bebendo na casa da luz vermelha, o cabaré da região, onde os homens esqueciam os seus problemas e se embriagavam com as mulheres. Sebastiana não contou conversa, foi buscar os dois. Entrou na casa da luz vermelha e viu alguns homens sentados em mesas, bebendo e fumando, mulheres dançando num palco e o seu pai e o seu irmão com duas mulheres no colo.
̶ Olavo? O que faz aqui, meu irmão?
̶ Sebastiana? Eu que pergunto, o que você faz aqui? Endoideceu de vez? Isso não é lugar pra você!
̶ Eu fiquei preocupada com vocês! Vim atrás! E olha só o que estou vendo!
Um homem puxou o braço de Sebastiana para agarrá-la, mas Olavo o afastou.
̶ Vamos para casa, pai! Acabou a festa!
̶ A festa está só começando, meu filho! Mande a sua irmã para casa!
̶ Pai, vamos embora! Já está tarde!
̶ Filha, me deixe curtir a vida um pouco.
O pai voltou a beijar a mulher sentada em seu colo só de calcinha e sutiã. Olavo puxou Sebastiana para fora do local.
̶ Vá para casa! Eu fico com pai! Vamos deixar ele aproveitar um pouco a vida!
̶ Pai está se tratando de câncer de pele! Não pode ficar bebendo!
̶ Eu vou cuidar dele! Vá para casa, Sebastiana!
Sebastiana atendeu ao pedido do irmão e caminhou pelas ruas escuras até a pequena casa de taipa. Ao chegar de frente à sua casinha, ficou imaginando o dia em que Deus o presenteasse com uma casa de tijolos rodeada por um jardim. Esse era o seu maior sonho.
Entrou em casa, tomou um banho, vestiu a sua camisola e se deitou em sua rede. Não tinha sono. Mas também não tinha o que fazer naquela casa. Não sabia ler nem escrever. Não havia televisão, e o radinho do pai estava sem pilhas. Foi dormir e sonhou com seu Joaquim chamando por ela, com o braço estirado querendo abraçá-la. Acordou assustada. Levantou-se. Tomou um copo d’água e voltou para a rede. Nada do pai e do irmão. A vida de Sebastiana era bem complicada com aqueles dois. O pai costumava dar muito trabalho depois daquele câncer de pele. Olavo nem tanto. Mas fazia os gostos do pai.
O pai e o irmão chegaram com o dia raiando. Os dois estavam bêbados. Sebastiana ficou danada de raiva com o irmão. O pai já era costume chegar daquele jeito. Fez café forte e sem açúcar para eles, depois mandou os dois tomarem um bom banho e dormirem. Mas o pai caiu na cama sem tomar banho, e o irmão cumpriu com o que ela pediu.
Por volta das oito da manhã, chegou um dos empregados da fazenda dizendo que quem quisesse continuar no corte da cana que pegasse a foice e subisse na carroceria do trator. A nova dona da fazenda não queria um dia de trabalho perdido. Sebastiana ainda não tinha aprontado almoço nem nada. Mas deixou tudo, colocou o seu chapéu de palha na cabeça e foi embora para o corte de cana.
No canavial, os colonos já cortavam cana desde as cinco da manhã. Uma das moças moradoras da fazenda veio falar com Sebastiana.
̶ Ela é pior do que o pai! Tem coração de pedra! Enterrou o pai ontem e já mandou a gente hoje pra cá!
̶ E o que ela disse sobre a fazenda?
̶ Vai cuidar de tudo isso! E quer todo mundo trabalhando de sol a sol, de chuva a chuva!
̶ Ave Maria! Pior do que o pai mesmo!
̶ Não derramou uma lágrima no enterro do pai!
̶ Vixe Maria! Filha única e sequer chorou a morte do pai!
̶ Você precisa conhecer ela, Sebastiana! É braba! Não gosta de menino fazendo barulho! Quer tudo limpo! E quer todo mundo na fazenda trabalhando! Não quer ninguém parado!
Sebastiana voltou a cortar a sua cana para completar as vinte e oito toneladas cortadas ao dia. Ganhava por tonelada. Era a que mais cortava. A que mais tinha coragem para o trabalho. Mas, de repente, sentiu-se mal, uma tontura, um mal-estar, uma vontade de vomitar, o mundo foi ficando escuro e caiu ali mesmo no meio da cana-de-açúcar.
Acordou com os trabalhadores abanando seu rosto com os chapéus e um dos empregados da fazenda olhando para ela.
̶ Tá de corpo mole agora, Sebastiana?
̶ Claro que não! Não sei o que me aconteceu!
̶ Não diz que é mulher macho! Desmaiou do nada!
̶ Perdão, senhor! Acho que me alimentei mal hoje pela manhã!
̶ A madame não quer ninguém doente ou de corpo mole trabalhando com ela! Se for pra ficar assim, melhor nem vir mais!
̶ Não me fale assim, senhor! Foi só uma tontura! O sol tá muito quente!
̶ Trate de voltar a trabalhar! E vê se consegue cumprir as vinte e oito toneladas de corte!
Sebastiana não se sentia bem, mas voltou ao trabalho. Cortar cana era vida para ela. O calor estava insuportável. As pernas doíam, a coluna também, e as mãos estavam inchadas. Mas cortou todas as vinte e oito toneladas.
Para subir na carroceria do trator foi uma luta. Estava sem forças. Os companheiros ajudaram. O motorista já tinha ligado o trator quando apareceu um carro preto, de cinco portas, desses de tração nas quatro rodas e pronto para qualquer estrada. Desceu dele uma mulher muito bonita, dessas que Sebastiana só tinha visto nas revistas de moda. Junto dela desceu um homem armado com uma espingarda. A mulher circundou a carroceria e pediu para que todos descessem. Sebastiana novamente precisou de ajuda.
̶ O que tem você? Está trabalhando doente?
A mulher aproximou-se e olhou para Sebastiana, que abaixou o rosto com vergonha.
̶ Eu tive um mal-estar hoje. E estou com o corpo todo dolorido.
̶ Não devia trabalhar doente, a mulher levantou o rosto de Sebastiana e olhou para ela com aqueles olhos pretos enormes.
̶ Senhora, esta é Sebastiana. É a nossa melhor cortadora de cana. Chega a cortar vinte e oito toneladas por dia.
̶ É mesmo? Então, Sebastiana, vá para casa e se cuide. Quero falar com você amanhã.
̶ Sim, senhora! Eu vou ficar boa logo, se Deus quiser!
̶ Quanto ao resto, vim dizer que tenho novo corte de cana numa fazenda que comprei hoje pela manhã. É muita coisa. Vou precisar de gente de coragem e disposição.
Os boias-frias ficaram todos olhando para a madame que calçava uma bota marrom, vestia calça jeans e usava uma blusa de mangas compridas branca, deixando o seu sutiã bordado à vista.
̶ Quero gente de coragem mesmo para o trabalho!
̶ Vou deixar metade aqui e metade vou levar para a outra fazenda!
̶ Sebastiana?
̶ Sim, senhora?
̶ Você vai ficar aqui. Quero que aumente o corte por dia. Passe a cortar trinta e cinco toneladas. E amanhã mandarei um empregado trazer você até mim.
̶ Trinta e cinco é muita coisa, senhora! Eu não sei...
̶ Já disse que não quero corpo mole! Ou corta trinta e cinco toneladas ou não precisa mais voltar aqui!
̶ Sim, senhora! Eu vou tentar!
A mulher entrou no carro e partiu na estrada, deixando a poeira para trás. Sebastiana ficou com ódio dela. Onde já se viu cortar trinta e cinco toneladas de cana por dia? Era um absurdo! Mas precisava daquele trabalho para comprar a sua casinha. A mulher era mesmo braba igual ao pai e não tinha pena de ninguém. Esse povo rico só sabe humilhar os pobres, pensou Sebastiana. Mas ela teria uma surpresa, pois faria das tripas coração para cortar as trinta e cinco toneladas por dia, mostraria para ela a força da mulher cortadora de cana-de-açúcar.

Fim do capítulo

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