Capítulo 6

Capítulo 6

de Confidente, por ThaisBispo

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Eu não saberia explicar como foi passar aquelas poucas horas na presença daquelas crianças, muito menos saber informar o que cada uma ali tinha enfrentado nos últimos dias, meses ou até anos. E, para ser sincera, não sei se eu saberia lidar caso aquelas informações caíssem no meu colo. Claro que eu não era tão ignorante ao ponto de não saber mais ou menos o caso de cada uma ali, e na minha visão, o que eu mais pude perceber eram casos de traumas psicológicos, só não sei até onde isso procede.
A verdade é que no momento em que saí do hospital, eu me senti diferente, e acho que foi devido ao fato de ter visto e ouvido muitas coisas, e é óbvio que isso mexeu com meu emocional ao ponto de eu ficar meio letárgica pelo resto da semana. E, por conta disso, resolvi entrar em um estado mais “introvertido”, se é que eu posso chamar assim.
Diferente dos outros, Sam era a única que entendia o meu estado atual, e talvez seja por isso que ela evitou comentar sobre o que aconteceu naquele dia, ela sabia que eu ainda estava digerindo tudo aquilo e que precisava de um tempo só comigo mesma.
一 Tem certeza de que está bem? 一 Ethan tinha o corpo ligeiramente inclinado para frente sobre a mesa, nós estávamos em nosso horário de almoço, mas confesso que mal cheguei a trocar algumas palavras com ele durante esses dias, mesmo que fosse sem intenção. 一 Você mal tocou na comida, Maya.
一 Eu sei… 一 disse ao passar a mão pelos cabelos, jogando-os desta forma para trás. 一 Só não estou com muita fome.
一 Aconteceu alguma coisa?
Nós trocamos olhares por breves segundos, onde de um lado ele tentava descobrir o que estava de errado comigo enquanto eu pensava em uma forma de explicar os motivos 一 sim, porque eram mais de um 一 que me deixaram neste estado atual.
一 É uma longa história… 一 Aleguei ao segurar sua mão, passando a acariciá-la. 一 É complicado e eu não sei se quero falar sobre isso agora, entende?
一 Tudo bem. 一 Ele me dirigiu um singelo sorriso, o qual eu retribuí. 一 Mas tente se alimentar, ok?
Soltei um pesado suspiro e encarei a bandeja à minha frente. O prato de hoje era panquecas, o que eu adoro, mas para ser honesta, eu realmente estava com pouquíssimo apetite.
一 Já deve estar fria. 一 murmurei enquanto “cutucava” a massa.
一 Vou pedir para esquentarem um pouco então, pode ser?
Assenti, dando-lhe assim espaço para que pudesse pegá-la, e no mesmo instante percebi o menino Michael se aproximar um pouco mais com a cadeira.
一 Aconteceu alguma coisa?
一 Eu tô bem. 一 Abri um sorriso e ousei deitar sobre meus braços. 一 Estou com a cara tão ruim assim?
一 Para ser sincero, você tá meio abatida. 一 Seu semblante murchou. 一 Tomou café? 一 Assenti. 一 Tomou mesmo?
一 Tomei!
一 Tudo bem, eu acredito na sua palavra. 一 Ele afagou minhas costas. 一 Quer fazer algo nesse fim de semana?
一 O que você sugere?
一 Praia? 一 Torci o nariz fazendo-o rir. 一 Ok, e que tal um passeio sem compromisso?
一 Só entrar no carro e sair por aí? Simples assim?
一 Simples assim.
Toquei a lateral de seu rosto com a palma da minha mão e em seguida ajeitei alguns de seus fios de cabelo rebeldes para trás.
一 Vai deixar eu dirigir o seu Jeep?
一 Depende. 一 Arqueei uma sobrancelha. 一 Vai me levar alguns dos seus biscoitos?
一 Mas você só pensa em comer?!
一 É isso no que todos os homens pensam, Maya. 一 Jennifer se aproximou da mesa com sua bandeja em mãos.
一 Não é verdade! 一 Ele protestou, no momento que ela arqueou uma sobrancelha, sustentando junto um sorriso meio sabichão.
一 É mesmo? 一 Michael rolou os olhos. 一 Então tente me convencer do contrário.
一 Passe um dia comigo e você verá!
“Eita!”. Alternei o olhar entre os dois, surpresa.
一 Tudo bem, podemos fazer isso. 一 Jen deu de ombros.
一 Sério? 一 dissemos em uníssono, situação que nos fez trocar olhares, onde o meu representava um pedido de desculpas enquanto o dele estava mais para “Fique quieta!”.
一 É, ué! Por que não?
“Puta merda, não é que o moleque conseguiu?! Rapaz…”
Eu conseguia perceber o nervosismo dele por debaixo da mesa. Michael tinha uma mania desde pequeno que sempre o entregava quando ele se encontrava nesse estado: bater os dedos indicador e médio na perna. Por mais que eu quisesse tranquilizá-lo, eu não conseguiria fazer nada ali já que o mesmo não sabe disfarçar, então decidi deixar as coisas como estavam. E ao meu ver, até parecia estar dando tudo certo, visto que eles não paravam de falar.
Desviei minha atenção para o campus enquanto ainda os escutava e, honestamente, meus pensamentos se encontravam muito longe daqui. Eu não quis comentar sobre o caso do Jackson na mesa porque sabia que isso causaria tumulto. Jen iria pesar na Sam por ter me “arrastado” nessa, Ethan provavelmente iria dizer que eu não tenho estômago para esse tipo de coisa e o Michael, bom, acredito que ele seria o mais solidário em tentar não fazer com que nós nos sentíssemos mal.
É complicado, não é? Mas qual grupo de amigos ou até mesmo família não é assim? Claro que não é como se discutíssemos 24/7, pelo contrário, a gente evitava qualquer tipo de confronto ou coisa do tipo, no entanto, isso não nos livrava de soltar algumas alfinetadas hora ou outra.
Talvez Sam tenha razão. Talvez ele tenha surgido na minha vida com um propósito em especial, e eu acho que já tenho uma leve ideia do que poderia ser, só não queria pensar nisso agora, caso contrário eu começaria a chorar e aí já viu, né? Ergui um pouco meu rosto e ousei me perder um pouco entre meus pensamentos, o que funcionou por um tempo, pelo menos até Ethan aparecer novamente com a minha comida.
一 Obrigada. 一 Direcionei um sorriso gentil e o vi retribuir, momento que me fez segurar seu rosto com ambas as mãos para então lhe dar um casto selinho. 一 Vai trabalhar hoje?
一 Sim. 一 Suspirei com uma leve dor no coração, queria tanto que ele tivesse uma folguinha pra podermos aproveitar um pouco juntos. 一 Desculpe, amor…
一 Não! 一 disse firme, agora fitando diretamente seus olhos, estes meio tristonhos e me transmitindo o sentimento de culpa e impotência. 一 É o seu trabalho! Eu seria muito egoísta se fosse reclamar sobre isso, mas é só que…
一 Também sinto sua falta. 一 Ele colou nossas testas e sussurrou. 一 E tenho uma boa notícia.
一 Qual?
一 Sexta feira eles costumam fazer uma geral para ver se está tudo sob os conformes, então eu pensei de passarmos o dia usando a piscina, o que acha?
一 Só nós dois?
一 Você que sabe.
Tudo bem que a ideia de passar um tempo a sós com ele era a minha intenção, todavia, eu tinha de admitir que seria muito mais divertido e proveitoso caso estivéssemos todos juntos, afinal de contas, não é como se tivéssemos aproveitado muito no aniversário da Jen. Basicamente era a chance perfeita para podermos ter uma reunião digna.
一 Acho que seria bacana chamarmos as crianças 一 Tive de segurar o riso quando o vi rolar os olhos. 一 Tenho certeza de que o senhor Carter não irá se importar.
O senhor Carter era o supervisor do Ethan, e modéstia à parte, ele nos amava, mais do que o seu próprio funcionário.
一 Vocês são muito mimados por ele, isso sim 一 Seu tom de voz me fez conter outro riso. 一 Vão ficar mal acostumados desse jeito.
一 Já estamos.
Nisso ele tinha razão.
一 Podemos usar a quadra também? 一 Michael se debruçou sobre a mesa com um sorrisão que ia de uma orelha a outra.
一 Aí eu já não sei… 一 disse ele. 一 Tenho que perguntar.
一 Se puder me avise, assim podemos jogar um pouco de basquete.
一 Com duas sedentárias no time? 一 questionei dando ênfase em mim e na Jen que me mostrou o dedo do meio.
一 Não vamos usar a quadra inteira. 一 Michael comprimiu os lábios e fez uma careta.
“Coitado, como se isso fosse fazer muita diferença”.
一 Eu me recuso a brincar de ping pong com vocês. 一 Jen apontou para nós.
一 É basquete. 一 dissemos em uníssono.
一 Tanto faz, é um esporte com bola.
一 Não quer dizer que seja igual! 一 Ethan pareceu ofendido.
一 Que seja.
一 Mas vocês já estão discutindo?
Sam apareceu atrás de mim com sua bandeja em mãos, tadinha, ela era sempre uma das últimas a ser liberada para almoçar. Segundo ela, os professores odiavam todos os alunos e pareciam fazer questão de aprisioná-los um pouco mais na sala de aula todas as vezes que surgia a oportunidade.
Ela se juntou a nós e tenho de admitir que sua presença ali me encorajou para que eu pudesse voltar a comer, e talvez ela tenha notado uma vez que todos os outros já tinham terminado. Eu não precisava explicar a situação, nem mesmo comentar sobre meus sentimentos, pois ela tinha conhecimento de tudo isso e, após uma breve troca de olhares, a vi abrir um fraco sorriso de canto para então segurar a minha mão por debaixo da mesa.
一 Tudo bem? 一 Apenas seus lábios se moveram.
Eu assenti, quase que sem fazer nenhum movimento, mas assenti.
一 E você?
一 Tranquila, literalmente 一 Ela soltou um suspiro de alívio. 一 Estou livre no período da tarde.
一 Que inveja. 一 Jen cruzou os braços. 一 Eu ainda tenho mais duas e uma porrada de atividade para fazer a noite.
一 Então somos dois. 一 Ethan ergueu a mão.
一 Três! 一 Michael fechou os olhos e fez o mesmo.
一 Eu tô de boa mesmo. 一 Abri um sorrisão, mas ao ver o olhar dos três, rapidamente o fechei. 一 Que é?! Tenho culpa que vocês tem coisa pra fazer e eu não?
一 Santa grosseria.
A voz de Sam ecoou pela mesa fazendo com que todos dessem risada, inclusive eu. Uma vez minha mãe disse que nós pareciamos uma versão mais nova e atualizada do Clube dos Cinco, o que de certa forma eu discordo, pois na verdade não éramos nada parecidos com os personagens do filme. Mas com uma coisa nós tínhamos de concordar: vivíamos juntos.
Basta olhar para o exemplo da Jennifer. Ela é extrovertida, comunicativa e onde quer que ela se enfie, a garota consegue atrair a atenção de todo mundo, seja por pontos positivos ou não. Ethan tinha aquela aura de homem misterioso e charmoso, o que despertava curiosidade nas pessoas ao redor, principalmente das garotas, e mesmo que no passado isso me incomodasse um pouco, hoje eu já consigo lidar melhor com isso. Michael me lembrava muito o Diego da Era do Gelo, sabem? O tigre, ele mesmo. O humor, o jeito meio sério misturado com um pouco de loucura é a melhor definição que eu poderia dar. E a Sam, bom, ela é como o equilíbrio de todos, é como se de alguma forma ela tivesse um pouco de nossas características. Ela era engraçada como eu, empoderada como a Jen, insondável como o Ethan e honesta como o Michael.
Éramos um grupo e tanto, tinha de admitir.
Depois que minha aula acabou, e isso era por volta das três da tarde, usei o tempo livre que tinha para poder ir à cafeteria. Pedi um Caramel Macchiato e me sentei em uma mesinha redonda de madeira perto da janela. Tirei da mochila o livro Diário de Anne Frank e continuei com a minha leitura, afinal de contas, eu precisaria fazer uma resenha sobre ele em breve e quanto mais cedo eu começasse, mais rápido terminaria, e foi assim que li quarenta páginas dele antes de me dar conta de que o sol já estava se pondo. Fechei o livro, joguei o copo na lixeira próximo a porta e comecei a caminhar em direção ao carro, passando a dirigir em direção à minha humilde residência que encontrava-se vazia, obviamente.
一 Eu preciso de um cachorro 一 Murmurei ao abrir a porta e dar de cara com aquele cômodo enorme e silencioso. 一 Um Husky seria uma boa ideia.

Uma hora e meia depois…

一 Um Husky?! 一 Meu pai repetiu a mesma pergunta pela quarta vez, sem brincadeira.
一 Você precisa ir ao médico, sabia? Deve estar com probleminha de memória. 一 Bufei.
Nós estávamos sentados no sofá assistindo ao jornal local, bom, eles estavam assistindo ao jornal, eu particularmente não curtia muito, parece que a cada dez notícias onze eram sobre desgraça e política, então zero paciência para isso meus amigos, zero.
一 Mãe, por favor…
Ela tinha o corpo encostado na cabeceira do sofá, a mão apoiando gentilmente o rosto que parecia estar tão concentrado na tela quanto o dele.
一 Querida, ele passaria a maior parte do dia sozinho, não acho que seria uma boa ideia…
一 E eles são bagunceiros!
一 Eles não são bagunceiros! 一 Protestei.
George arqueou uma sobrancelha, pegou o celular e após alguns instantes o jogou no meu colo.
Era um vídeo. E nesse vídeo tinha um compilado de cenas onde Huskies gritavam, pulavam e destruíam móveis incansavelmente.
一 Pegue um e encontrará duas camas no seu quarto ao invés de uma!
“Ok, eu desisto”.
一 E um gato? 一 sugeri com um sorriso torto.
一 Maya O’Neill.
一 Já entendi!!! 一 Elevei o tom de voz. 一 Saco…
一 Por que você quer um animal de estimação? 一 Minha mãe tinha os olhos pregados em mim, parecia querer escutar minha opinião, e isso me deixou nervosa.
Me acomodei no sofá e cruzei as pernas, eu não sabia exatamente como responder aquela pergunta de um jeito mais maduro, entendem? De certa forma eu me sentia um pouco sozinha, não que eu seja emocionalmente dependente de alguém, como do Ethan, por exemplo, mas que, de certa forma, eu não gostaria de ficar boa parte do meu tempo sozinha em meio a um silêncio perturbador.
一 Nada, mãe… 一 balancei a cabeça em sinal negativo. 一 Deixa pra lá, tá bom?
Ela sabia que eu estava escondendo alguma coisa, as mães sempre sabem. Eu desviei meus olhos para minhas mãos e comecei a brincar com o celular entre os dedos, como se isso fosse a coisa mais interessante no momento. Senti uma mão pairar sobre a minha e um corpo se mover, era ela pedindo uma explicação menos vaga.
Soltei um pesado suspiro, acho que não faria mal dizer a verdade, não é?
一 Acho que eu ando me sentindo um pouco sozinha… 一 Dei de ombros. 一 Sei que isso pode parecer um certo drama da minha parte pelo fato de, né, eu ter um namorado e bons amigos, mas…
一 Mas…?
一 Ainda falta alguma coisa. 一 Murmurei. 一 Alguém pra deixar essa casa um pouco menor e mais agitada, sabem?
Eles trocaram olhares rapidamente, parecendo absorver as informações que eu tinha jogado em seus colos. No fundo acho que eles tinham conhecimento de que eu me referia sobre suas ausências, e meio que doía comentar sobre, entendem? É ruim pra todo mundo.
一 Você vai cuidar dele? 一 perguntou meu pai com aquele tom de voz mais calmo com um misto de pressão.
一 Vou!
一 Vai levar ele pra passear?
一 Vou.
一 Vai levar ele pro veterinário, para o pet shop, limpar as bagunças dele?
Rolei os olhos.
一 Sim, George! Eu vou cuidar dele.
一 Ai, senhor… 一 Maire massageou a testa e começou a rir.
一 Que foi, mulher? 一 questionou ele.
一 Ele fala como se odiasse cachorros.
一 E não odeia?!
一 Não 一 disse ela. 一 Seu pai quando era pequeno teve um labrador, mas ele fugiu e acabou não sendo encontrado. Digamos que ele tem uma certa mágoa, mas ele gosta sim, isso tudo é apenas birra da parte dele.
Ele cruzou os braços e desviou o olhar pro lado contrário.
一 Qual vai ser o nome dele?
Sua pergunta nos fez gargalhar ao ponto de eu derrubar algumas lágrimas, a cara dele estava impagável, juro pra vocês.
一 Bom, podemos resolver isso neste final de semana, que tal? 一 Ela segurou em minha mão e a apertou com um doce sorriso nos lábios.
一 Acho ótimo! 一 Bati os pés no sofá em excitação. 一 Quanto ao nome eu ainda não sei… Que tal Mino?
一 Mino? 一 Meu pai fez uma careta.
一 É! É um nome bonito.
一 Prefiro Simon.
Fitei a minha mãe com os lábios pressionados e os olhos levemente arregalados, mas tudo que ela conseguiu fazer foi rir.
一 Isso porque não queria o bicho, imagina se quisesse…
一 Pois é! 一 Me levantei e passei a caminhar em direção a cozinha, porque parando pra pensar, eu estava de estômago vazio desde o almoço, e agora já eram quase oito horas da noite. 一 O que vocês querem comer?
一 Vai cozinhar pra nós? 一 Ele ergueu o pescoço, me procurando.
一 Você pode muito bem vir me ajudar 一 Abri um sorriso malandro. 一 Suas mãos não vão cair.
Ele resmungou algumas palavras que não consegui decifrar o que era e se juntou a mim. Olhei para aquela blusa branca polo dele e torci o nariz, imaginando o quanto ela poderia sair manchada no final daquela “experiência na cozinha” e lhe dei um avental.
一 É sério isso?
一 Sempre com esse tom resmungão?
George gostava de ser um pouco marrento comigo, ele acredita que isso permite com que eu seja uma pessoa mais perseverante. Parece até meio esquisito e fora de contexto falando assim, mas para ser sincera, todas as vezes em que precisava lutar por algo, eu tinha que ser honesta e ter bons argumentos para conseguir.
“Se você quiser conquistar algo, precisará fazer mais do que trabalhar e estudar”.
E foi assim que eu aprendi um pouco sobre persuasão, no entanto, eu ainda perdia bastante pra ele.
一 Bom, você tem duas opções 一 Ele estreitou os olhos e cruzou os braços, típica pose de alguém que está em estado de negação e resistência. 一 Pode gastar o seu precioso dinheiro em comprar algo pra você ou me ajuda a fazer algo e muito mais rápido.
O lábio dele tremeu, o que me fez sorrir vitoriosa. Falou em dinheiro meus jovens, é pegar no ponto fraco do velho, o cara é mais pão duro do que o próprio Julius.
一 E o que você sugere?
“Viram? Eu disse”.
一 Eu cuido do peixe, você cozinha as batatas para fazer purê e no final montamos a salada.
一 Sim, senhora.
Minha atenção pairou sobre o sofá da sala onde minha mãe nos observava com aquela carinha que era um misto de orgulho e cansaço. Eu sabia o quanto meus pais andavam trabalhando, afinal de contas, não é sempre que as coisas iam bem nas empresas, e isso os deixava cansados e estressados. Apesar de tudo, dos altos e baixos, nossa união sempre foi estável, e eu sabia que podia contar com eles pra qualquer coisa.
Mesmo com as poucas alfinetadas e cutucões, nós fizemos um ótimo jantar, e fomos muito bem elogiados. Ao terminarmos, eu lavei a louça e me despedi deles para poder entrar em meus aposentos. Tomei um banho morno para poder relaxar um pouco os músculos, fiz minha limpeza de pele, prendi meus cabelos em um rabo de cavalo meio frouxo e me sentei na escrivaninha de um modo meio desajeitado.
Meu celular tinha algumas mensagens e notificações, e pode ser que eu estivesse meio preguiçosa para checá-las, mas como se tratava do quinteto carismático e meu namorado, não pude deixar de responder. Ethan me desejou boa noite e se despediu, e a julgar pelo horário de agora, isso significava que ele iria terminar seu turno apenas à meia noite. Michael sugeriu que fôssemos fazer um passeio nos parques de Santa Monica, e é claro que eu aceitei. Havia algumas mensagens aleatórias no nosso grupo, mas nada que fosse muito importante, então resolvi ignorá-las até que vi os status da Sam no Hospital.
Engoli seco, foi impossível não associar aquelas imagens onde ela se divertia com as crianças com a lembrança do Jackson. Ver tudo isso aquecia meu coração e me fazia perder o ar ao mesmo tempo, e é neste momento que eu só consigo fazer uma única pergunta ao meu subconsciente:
O que eu posso fazer para amenizar esse aperto no peito?
Fisguei meus olhos na janela e passei a admirar a rua, tão tranquila e escura como todos os outros dias, e foi aí que uma ideia surgiu como mágica diante deles. Chequei o horário que marcava dez horas e liguei para a Sam, e após alguns bipes, ela atendeu.
一 O que aconteceu?
一 Nada, amiga, relaxa!
Ela soltou um pesado suspiro.
一 Que susto, garota! Nem me lembro a última vez que me ligou a essa hora.
一 É, eu sei, foi mal…
一 Relaxa. Diz aí, o que tu precisa?
一 Preciso da sua ajuda, Sam.
一 Com o quê?
Prendi a respiração por curtos instantes, sendo este o tempo suficiente para que eu conseguisse explicar tudo o que eu tinha em mente, desejo este que veio crescendo em mim desde aquele dia.
Eu falei tudo o que estava sentindo nos últimos dias, de uma forma um pouco confusa e oscilante, mas, sobretudo, compreensiva. Sam me escutou em silêncio por alguns minutos, e isso normalmente não me incomodava visto que ela era uma boa ouvinte, no entanto, quando eu terminei, ele se estendeu.
一 Me diz que não estou agindo pela emoção e que estou sendo racional. 一 Pedi com certo desespero.
一 Olha… 一 Ela ponderou e eu suspirei pesadamente. Levei minhas unhas até os lábios mas não ousei roê-las, meus dedos estavam um pouco trêmulos demais pra conseguir fazer isso sem que eu me machucasse no caminho. 一 Que você está agindo pela emoção isso é um fato, mas não acho que seja uma má ideia desde que você compreenda a situação real. Vai ser difícil, Maya.
一 Eu sei.
一 Tem certeza de que quer fazer isso?
Olhei para o meu Hulk que se encontrava na parede da minha escrivaninha e abri um sorriso de canto.
一 Absoluta.

Sexta-Feira, 16 de Setembro 一 12:50

Nós iríamos passar o resto da tarde no Hotel onde o Ethan trabalha, segundo ele, valia a pena trocar o dia pela noite quando se era recepcionista de um dos mais requisitados da Califórnia. O prédio no tom grafite em formato de C deixava a mostra o belo jardim composto de diversos arbustos. Nós entramos pelos fundos e fomos direto para o terceiro andar onde ficava localizada a piscina fechada. O piso da parede era feito por quadradinhos pequenos que se alternavam entre branco e azul claro, assim como a estrutura dela em si, além disso, tinha três saídas de água por ela também.
一 Esse local sempre parece menor pelas fotos, mas é pura ilusão. 一 Jen largou a bolsa sobre uma das cadeiras e retirou o blusão branco, deixando a mostra seu biquini na cor preta.
一 É o que todos dizem. 一 Ethan trancou a porta e deixou o cartão em cima de sua mochila, em seguida se dirigiu até meu lado e passou sua mão pela minha cintura. 一 Vamos entrar?
Não deu tempo de eu responder já que o Michael fez o belíssimo favor de pular na água e nos molhar por inteiro.
一 Filho de uma… 一 Sam tinha o maxilar travado e os olhos cerrados. 一 Vem aqui seu filhote de peixe!
Ela se desfez das roupas e pulou próximo dele, espirrando mais água ainda para tudo quanto é lado.
一 Quantos anos vocês tem? Dez? 一 Resmunguei enquanto enxugava meu rosto. 一 Que coisa!
一 Sempre dá pra piorar. 一 Ethan abriu um sorriso sacana.
一 Nem ouse!
一 Tarde demais!
E ele me pegou no colo para me jogar na água, e puta merda, que gelo que tava essa piscina! O choque térmico foi real que eu voltei para a superfície tremendo mais que um pinscher.
一 Eu vou matar você. 一 Sibilei com os dentes trincados. 一 Vem aqui, peste!
一 Você quem pediu!
E mais um para se jogar, Deus do céu o chão deve estar mais escorregadio que parafina.
一 Quanta maturidade… 一 Jen rolou os olhos e não demorou para se juntar a nós, só que de uma forma mais civilizada.
Levou cerca de alguns minutos até que meu corpo se adaptasse completamente à temperatura da água, e quando isso aconteceu, permiti ficar sentada na parte do raso, onde ela batia até a altura do meu peito. Minha mente tinha um certo costume em divagar para outras “dimensões”, se é que eu posso chamar desta forma, mesmo quando acontecia muita coisa à minha volta. Meus olhos passearam por eles e automaticamente me peguei imaginando se nossa conexão seria forte o suficiente para durar mais alguns anos, se estaríamos todos juntos.
O futuro me assusta. E ele faz isso tão bem que na maioria das vezes me sinto intimidada.
一 Que cara é essa, amor?
Ethan se acomodou ao meu lado e passou a me fitar de um modo curioso, e não consegui deixar de sorrir quando vi o estado de seu cabelo, parecia que um furacão tinha passado por ele.
一 Nada demais. 一 Balancei a cabeça em negação. 一 Cansou de nadar?
一 Ah, eu tô é fugindo daquela criança ali 一 Ele apontou para Michael que parecia tentar convencer a Jen de fazer algo, e a mesma parecia bem resistente. 一 Ele quer fazer competição de plantar bananeira.
一 Mas nem ele sabe plantar bananeira!
一 Vai dizer isso pra ele.
一 Ai, meu Deus!
Nós começamos a rir da situação, afinal, era cômica. Ver ele todo empolgado e uma Jen com a maior cara emburrada é uma cena que merecia ser gravada, uma pena que meu celular estava longe demais.
一 Tem certeza de que podemos ficar aqui? 一 perguntei à ele com certa preocupação.
一 Sim 一 Ethan assentiu, firme. 一 Aproveite o dia, ok?
Ethan segurou minha mão e me puxou para perto de seu corpo, onde ele aproveitou para se colocar atrás de mim e me encaixar entre suas pernas enquanto eu o usei para poder apoiar minha cabeça.
一 Como está indo a faculdade? 一 perguntou ele.
一 Bem 一 Eu puxei suas mãos para apoiá-las em minha barriga. 一 E você?
一 Meio puxado, é uma mistura de história com desenhos e cálculos, um bagulho bem doido, sabe?
Soltei uma risadinha, ele estava um pouco perdido e desesperado.
一 Você vai se sair bem, sabe disso.
Ele me puxou um pouco mais e soltou um pesado suspiro. Por baixo de toda essa postura galanteadora e pacífica, no fundo Ethan era uma pessoa muito ansiosa. Desde o dia em que nos conhecemos, e pelo fato de eu ter me tornado mais próxima da Jennifer, nossa conexão foi ficando um pouco mais forte e, em um passeio aleatório onde decidimos ir ao parque de diversões, eu o vi ter uma crise.
O modo como ele esfregava com afinco as mãos, a pele adotando uma cor mais vermelha, a respiração descompassada e a inquietação de seu corpo em querer balançar de um lado para o outro só provou que ele precisava de ajuda com aquilo, especialmente por termos visto acontecer outras vezes, onde nem todas precisavam de um motivo específico.
一 Será…?
Virei um pouco meu corpo até nossos rostos ficarem próximos por apenas alguns centímetros. Eu toquei sua bochecha com a palma da mão e subi até sua nuca para poder acariciar seus cabelos.
一 Tenho certeza.
O modo como ele me analisava fez-me sentir um singelo arrepio na barriga.
一 Por que você tem tanta fé em mim, Ma?
一 Que tipo de pergunta é essa?! 一 Franzi o cenho. Não era do seu feitio dizer esse tipo de coisa.
一 Só gostaria de saber da onde você tira tanta positividade… 一 Seus olhos vacilaram por um segundo. 一 Como consegue, amor?
一 Eu… 一 Pressionei os próprios lábios, eu não estava esperando por aquilo. 一 Acho que aprendi a ver os obstáculos de um outro ângulo, entende?
一 Não. 一 Ele me puxou um pouco mais e abriu um sorriso sacana. 一 Por favor, me explique.
一 Existem duas formas de lidar com eles.
一 Pelo amor ou pela dor?
一 Não. 一 Rolei os olhos em meio a risos. 一 Superando ou aprendendo.
一 Perder não é uma opção?
一 A não ser que você queira.
一 Você é incrível, sabia disso?
一 Tenho uma leve noção, sim.
Trocamos risos mais uma vez antes e encerramos aquele assunto com um beijo mais discreto uma vez que estávamos entre amigos.
一 Mudando de assunto 一 Ele sussurrou bem baixinho. 一 Estou pensando em pintar o meu cabelo.
一 É? Para qual cor?
一 Essa é a parte que você entra e resolve o problema, amor.
一 Hmm 一 Meus olhos passearam por seu rosto. 一 Já pensou em cinza?
一 Platinado tipo o da Sam?
一 O dela tem mechas em lilás, você pretende fazer algumas?
Ele torceu o nariz.
一 De lilás?!
一 Pode ser uma cor mais escura, tipo o azul.
Ethan estreitou as pálpebras e logo abriu um sorriso de orelha a orelha. É, ele tinha amado a ideia.
一 Hey casal, que tal brincarmos um pouco?
Sam se aproximou de nós junto dos outros, momento que formamos um círculo.
一 A quadra tá liberada? 一 Michael questionou, esperançoso.
一 Sim, mas só a aberta. 一 Ethan soltou um pesado suspiro. 一 Vocês querem jogar?
一 Óbvio! 一 disseram os três.
一 Eu passo.
Todos me encararam.
一 O sol, pessoas. O sol!
一 Ah, é!
“Jesus, que memória inútil que esse povo tem!”
一 Bom, vocês querem ir agora?
一 Primeiro um lanche. 一 Jen foi subindo as escadas. 一 Depois a diversão.
一 Vamos? 一 Ethan estendeu a mão para me ajudar a ficar de pé, o que foi bem oportuno já que eu acabei escorregando. Felizmente o garoto era ligeiro e logo suas mãos estavam a me segurar firmemente pela cintura. 一 Mas é atrapalhada demais, misericórdia!
一 Hey!
一 Maya, que marcas são essas?!
Ele franziu o cenho e ergueu minha blusa 一 sim, eu ainda estava com ela já que o bonito fez o favor de me arremessar na piscina de roupa e tudo. Eu acompanhei o trajeto e estranhei o fato de que ainda tinha algumas manchas na minha barriga, as mesmas que adquiri depois de passar aquele dia na praia com o Michael e a Sam.
一 Ah! Isso aqui foi da praia, relaxa!
一 Mas vocês foram tem mais de uma semana, isso já deveria ter sumido!
Ok, talvez ele tenha razão.
Meu corpo sempre teve algumas sardas, e é por esse mesmo motivo que eu acabei ignorando estas, mas agora que ele relembrou sobre elas, confesso que fiquei intrigada.
一 É por isso que eu detesto calor, viu?
Ethan bufou.
一 Tem certeza de que são marcas do sol?
Ele parecia preocupado, já eu continuava confusa.
一 Quê?
一 Céus, Maya! Alguém mexeu com você?
一 Não… 一 respondi um pouco assustada, ele estava meio alterado, e agora eu entendia o seu motivo. 一 Ninguém fez nada contra mim, amor. Calma!
Seus ombros murcharam, assim como seu suspiro de alívio. Eu olhei para baixo e passei a mão por aquelas manchas em um tom puxado para o roxo, como se fossem hematomas, e isso era, no mínimo, um pouco estranho.
一 Vem, vamos comer alguma coisa.
Sua mão procurou pela minha e assim nós saímos da água, nos trocamos e então fomos para a cozinha do hotel, onde na realidade, em uma parte mais reservada onde o pessoal que trabalha lá costuma sentar pra comer. Ethan pediu para que fizessem um spaghetti para nós, já que é uma das receitas mais rápidas e fáceis.
Eu já conhecia algumas pessoas que trabalhavam ali além do senhor Carter. Amy era a chefe da cozinha e tinha seu irmão mais novo como subchefe, seu nome era Bruce. Ambos são pessoas muito gentis e carismáticas e que fazem parte da equipe há pouco mais de cinco anos. E são pessoas tão queridas que eu os convidei para fazer o menu do meu aniversário deste ano.
一 Dia de folga, Ethan? 一 Bruce se aproximou com um sorriso carinhoso e lhe deu dois tapinhas nas costas. Seus cabelos eram cacheados em um tom castanho escuro e compridos o suficiente para ficarem presos em um coque samurai. A barba bem aparada, o corpo magro que chegava a sumir naquela dolma preta, mas os olhos absolutamente adoráveis e cativantes num tom azul piscina. 一 Como vocês estão? Bem?
一 Na luta, e você?
一 Estamos na mesma, irmão.
Amy observava a dinâmica da rodinha de conversa com um sorriso bobo nos lábios, momento que me dirigi até a bancada, vendo-a mexer concentrada nas frigideiras.
一 O cheiro tá incrível, como sempre 一 disse a ela enquanto me apoiava no mármore. 一 É puxado, né?
一 Ah, nem sempre Ma… 一 Ela maneou a cabeça. 一 Cada dia é um dia, aos finais de semana que costuma ser mais agitado, depende muito da época.
一 Qual é a pior na sua opinião?
一 Virada de ano, com certeza.
一 Jura? Pensei que você iria falar o Natal.
一 Bruce ama o Natal, mas eu mesma não sou muito apegada, confesso.
一 Entendo…
一 Aqui, experimenta e vê se tá bom de sal 一 Ele colocou um pouco do molho na pequena colher e me entregou com cuidado, a após assoprar um pouco, abri um sorriso satisfeito ao provar. 一 Estou finalizando, Bruce, que tal pegar as louças pra gente poder comer, hein?
一 Opa, é pra já, Chef!
一 Eu te ajudo.
Voltei a ficar de pé e o segui até a parte da dispensa. Bruce pegou alguns bowls para colocar a sobremesa que era uma quantia bem generosa de sorvete de baunilha com raspas de chocolate. Eu peguei os pratos e os talheres e esperei até que o pessoal arrumasse a mesa, todavia, tive de colocar tudo em cima da mesa com certa pressa.
Minha vista estava embaçada, não só isso como turva. É como aquela famosa sensação de quando nos levantamos muito rápido da cama ou do sofá, só que diferente dela, eu não conseguia sentir o chão sob os pés.
Eu fechei os olhos com força e apertei a mesa na intenção de me equilibrar, jurando que fazendo isso talvez melhorasse, mas não foi o que aconteceu.
一 Maya? 一 Jen tocou meu braço, tendo o corpo levemente inclinado para baixo.
一 Tem algo de errado comigo… 一 Minha voz parecia tão trêmula que eu cheguei a duvidar que eles pudessem entender. 一 Eu…
一 MAYA!
Foi a última coisa que consegui ouvir vindo deles e, novamente, tive que experimentar aquela sensação estranha de saber o que acontece ao meu redor mesmo estando inconsciente.
Meu corpo não estava em um estado normal, eu precisava admitir. O único problema é que eu não faço a menor ideia do que está acontecendo com ele.

Fim do capítulo

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