A segunda semana do mês foi muito mais tranquila se formos comparar com a primeira. Acho que isso sempre acontece na vida das pessoas sempre quando voltam a rotina antiga, não sei, e devo enfatizar que a minha não havia sido lá uma das melhores, mas tudo bem, faz parte. A festa da Jen realmente tinha sido boa, e até que eu consegui aproveitar bastante antes de botar quase o meu fígado pra fora, então sim, valeu a pena. Além disso, nós passamos o final de semana juntos 一 boa parte arrumando a casa, é claro 一, mas ainda assim conseguimos tirar um tempinho para nos divertirmos.
A única coisa que me deixava pra baixo mesmo era esse bendito calor. Eu simplesmente não sirvo para viver em tempos como esse, e pode até parecer um certo drama da minha parte, mas assim, a minha pele é realmente sensível, tanto que as manchas da semana passada não sumiram até agora. E coitado do Michael, ele adorava minha companhia mesmo quando eu não entrava no mar junto com ele, e acho que depois do que ocorreu na festa, talvez ele estivesse com receio de que eu venha a passar mal novamente.
E cá estamos nós, almoçando no refeitório lotado e tentando conversar adequadamente sem parecer que temos problema de audição, porque né, o barulho estava consideravelmente alto.
一 Então, quais são os planos para hoje? 一 Ethan tinha o pé direito apoiado sobre a coxa esquerda. Seu tronco se encontrava meio largado na cadeira, acho que ele se sentia confortável desse jeito, já que sempre fazia isso para poder me abraçar.
一 Tenho treino. 一 Michael deu de ombros.
一 De novo?!
一 Já te falei mil vezes cara, eu ainda vou competir o circuito nacional 一 disse abrindo um sorriso que exalava confiança, o que me fez sorrir também, pois eu sabia o quanto ele desejava isso desde adolescente. 一 E não vou conseguir fazer isso sem treinar pelo menos quatro vezes na semana.
一 O que você faz quando o mar não está em boas condições? 一 Sam parecia curiosa.
一 Treino físico. 一 Deu de ombros. 一 Corro, faço exercícios para equilíbrio, força e por aí vai…
一 Tá vendo, Maya? 一 Jen se virou pra mim com um ar de riso. 一 Isso que é exemplo!
一 Tá falando o quê, garota? Tu não aguenta nem atravessar o campus sem colocar a língua pra fora!
Sam quase se engasgou com a água e isso nos levou a cair no riso, é óbvio. Ela me fitou com os olhos semicerrados e eu devolvi mostrando-lhe a língua. Sim, nós nos entendemos desse jeito bem maduro mesmo.
一 E você, mocinha? 一 Ethan acariciou meu ombro com a ponta dos dedos para chamar a minha atenção.
一 Não sei ainda… 一 Soltei um pesado suspiro ao pensar que talvez minha mãe fosse precisar de ajuda na empresa com algumas papeladas. 一 Pretendo ficar em casa.
一 Ou você pode ir junto comigo para o estágio. 一 Sam arqueou uma sobrancelha.
一 Falando nele, você não nos disse onde é. 一 Jen cruzou os braços, o que a fez rolar os olhos.
一 No hospital.
Tirando nós duas, os três trocaram olhares confusos.
一 No hospital? 一 Ethan tombou a cabeça para o lado. 一 Por quê?
一 É, o que você vai fazer lá? 一 questionou ela.
一 Vou ajudar a ensinar arte para as crianças.
一 Sam… 一 Michael projetou seu corpo para frente. 一 Tem certeza disso?
一 Ok, me digam porque essa cara de preocupação de vocês! 一 Ela se apoiou na mesa e passou a alternar o olhar entre os três que engoliram seco.
“Brava demais”.
一 É um ambiente pesado. 一 Jen passou a mão pelos cabelos. 一 Acha que consegue dar conta?
一 Seja específica, Jennifer.
"Ih! Tá puta!"
一 Acha que tem psicológico para lidar com o que vai ver e ouvir lá dentro? 一 Rebateu.
一 Falando desse jeito parece que estou me oferecendo a trabalhar no inferno.
Jen passou as mãos pelo rosto e em seguida apoiou os cotovelos em cima da mesa, ficando assim de frente pra ela, e na boa, dava pra sentir a tensão no ar de longe, sério.
一 Ela sabe o que está fazendo. 一 Minha voz pareceu ecoar pela mesa, momento que ganhei a atenção de todos. 一 A Sam tem mais culhão pra lidar com esse tipo de situação do que qualquer um de nós, e ao invés da gente criticar, deveríamos apoiá-la.
一 Não estamos criticando, só…
一 Vocês entenderam. 一 Ethan murmurou por eu tê-lo interrompido. 一 Ela vai se sair bem, tenho certeza disso.
一 Maya tem razão. 一 Michael assentiu. 一 Acredito que vá ser uma experiência bem desafiante pra você.
一 Obrigada, gente. 一 Sam nos direcionou um sorriso de alívio, onde logo em seguida ele veio parar na minha direção. 一 Você vai comigo?
A imagem do pequeno Jackson, ou melhor, Jack, invadiu minha mente sem permissão, e é claro que um sentimento de “débito” me veio à mente, como quem diz, se eu não for, estarei abandonando-o. E fazer esse tipo de coisa com uma criança tão especial quanto ele não estava na minha lista de desejos antes de morrer.
一 Sim. 一 soltei um arrastado suspiro. 一 Preciso ver alguém.
一 Quem? 一 Ethan arqueou uma sobrancelha.
Me remexi na cadeira para poder cruzar as pernas.
一 Um novo amigo. 一 Percebi que o olhar dele ainda era curioso. 一 Um garotinho…
Samantha tinha razão quando disse que nossa realidade era completamente diferente daqueles que necessitam do hospital diariamente. Eu não poderia dizer isso em voz alta, mas sabia que nenhum deles ali estava realmente confortável com o que foi dito, e ver o desconforto dela me deixou com um aperto no coração, porque eu sei como é você estar animado com algo que almeja e ver a reação contrária das pessoas tão espontaneamente.
Felizmente eu tinha o talento de transformar a atmosfera ao meu redor, caso contrário ainda estaríamos sentados suportando aquele ar tenso sobre nossos ombros, e quando menos esperamos, o sino da faculdade soou em alto e bom tom.
一 Obrigada 一 Sam agarrou o meu braço com certo apego e deixou com que sua testa se apoiasse brevemente em meu ombro.
一 Não precisa me agradecer, sabe disso.
一 Preciso sim 一 Reforçou com firmeza. 一 Tem certeza que está à vontade para voltar lá?
Parei de andar no mesmo segundo e fechei os olhos por uns instantes antes de direcioná-los para ela.
一 E se ele não se lembrar de mim?
一 Maya, se esqueceu de que foi ele que “pediu” para te ver?
一 Não tenho jeito com criança, Sam…
一 Sobre o que vocês conversaram?
一 Super heróis…
Ela colocou as mãos na cintura e fez a famosa cara de “Preciso dizer mais alguma coisa?”
一 Por que não o ensina a desenhar o favorito dele?
Maneei a cabeça, até que a ideia era boa.
一 Tudo bem 一 Dei-me por vencida. 一 Só preciso ir para casa primeiro, tá?
一 Sem problemas, posso te encontrar lá.
一 É melhor 一 Assenti. 一 Me manda mensagem dizendo onde você vai estar, te encontro depois que falar com ele, pode ser?
一 Fechado. 一 Ela me deu um abraço. 一 Até depois!
一 Até!
Eu estava ansiosa para vê-lo. E mesmo que eu não tivesse jeito algum, eu queria poder estar junto dele, nem que fosse para vê-lo desenhar. Eu queria levar algo gostoso pra ele comer também, mas não sei se me deixariam entrar com isso, ou pior, não sei nem se ele poderia. Ok, isso não é normal. Pelo contrário, é estranho, muito estranho. Como que um encontro de apenas cinco minutos poderia me fazer sentir dessa forma? Não faz sentido algum, cara! E foi exatamente por esse motivo que não consegui me concentrar no restante da aula, tanto que mal fiz anotações em meu notebook, e quando a aula acabou, sequer cogitei a esperar alguém para poder me despedir, então fui direto para o meu carro e segui rumo a minha casa, simples assim.
一 O que eu levo…? 一 sussurrei enquanto observava meu próprio quarto com atenção, tentando desta forma pensar em algo decente e que, talvez, pudesse agradá-lo. 一 Já sei!
Fui em direção ao armário e tirei uma pequena mochila de couro. Separei alguns papéis, HQ’s e alguns funkos que eu tinha de personagens aleatórios. Desci as escadas e peguei algumas bugigangas também, ou pelo menos o que sobrou do meu estoque. Peguei as chaves do carro e segui rumo ao hospital, e a medida que ia me aproximando do local, mais animada eu ficava.
Eu tenho ascendente em gêmeos, ok? Não julguem minhas mudanças de humor repentinas, obrigada. No momento que estacionei perto da entrada do hospital, pude avistar o carro da Sam dentro do estacionamento, mas como só era permitido para funcionários, eu não poderia deixar o meu ali. Coloquei minha pequena mochila sobre o ombro, desci do carro, bati a porta e liguei o alarme, passando a caminhar em direção a entrada. A recepção parecia um pouco mais cheia se for comparar com a do outro dia, e pelo fato de todos estarem tão ocupados, decidi seguir o caminho que já me era um pouco familiar.
E é claro que eu me perdi.
Eu disse que o local me era um pouco familiar, não disse? Pois é, o que significa que eu só fui achar a recepção do andar onde o encontrei dez minutos depois. A ala infantil ficava no terceiro andar e mais afastada, tanto que as outras salas eram quartos particulares assim como o quarto andar, tinha também brinquedoteca e uma sala de leitura. E tá aí uma coisa estranha, Sam disse que iria trabalhar na área infantil, mas ela não estava aqui, além disso, meus olhos passaram por todos aqueles pequenos seres e nenhum deles era o pequeno Jack.
一 O que está fazendo aqui?
Meu coração deu um salto contra o próprio peito, e no instante que me virei, deixei escapar um suspiro pesado, era aquele rapaz que trabalhava na recepção da ala.
一 Eu…
一 Não pode entrar nessa área sem permissão, lamento.
一 Eu sei. 一 Ele arqueou uma sobrancelha, provavelmente deveria estar achando que eu tô zoando com a cara dele. 一 Eu vim visitar o Jackson.
Mesmo por baixo daquela roupa social que ele vestia, eu pude sentir que o corpo dele ficou tenso.
一 Infelizmente não vai ser possível vê-lo… 一 disse estendendo o braço para que eu o seguisse.
一 Onde ele está?
Se tem uma coisa que eu não consigo compreender é a linguagem corporal e, sendo honesta, acredito que no ambiente em que ele trabalha, não me surpreenderia caso ele conseguisse disfarçar a realidade. Ele parecia sustentar aquele olhar com certa dificuldade, talvez estivesse tentando me dizer algo através dele, e honestamente, não acredito que a resposta seja muito positiva, minha intuição dizia isso, e ela nunca chegou a errar muito, sabem?
一 Onde ele está?!
Minha pergunta ainda remetia certa esperança, sentimento que nunca cheguei a me aprofundar muito para saber com exatidão como é num geral. No entanto, no instante que preguei meus olhos na janela do quarto 305 que ficava localizada ao meu lado direito, um embrulho no meu estômago me fez perder o ar. Eu conseguia enxergar o desenho dele pendurado na parede ao lado da cama, o mesmo qual ele queria terminar naquele dia quando o encontrei, não só isso como uma pequena pilha de roupas, inclusive o pijaminha dele vermelho.
Estagnei no lugar, minha cabeça já tinha pensado no pior e eu precisava que alguém me dissesse que eu estava sendo pessimista.
一 Eu quero vê-lo.
一 Moça, por favor…
一 Responda a minha pergunta! 一 Fechei os olhos com força.
Um silêncio extremamente perturbador preencheu o corredor. Meu coração batia como um louco, minha garganta estava seca, e a vontade de chorar fez-me comprimir os lábios.
一 Algum problema, Daniel?
Desviei minha atenção para o chão ao ouvir aquela voz feminina, porém sequer liguei para a sua presença.
一 Nenhum, enfermeira Miller 一 disse ele. 一 Ela está procurando pelo Jackson.
Era a tal enfermeira que ele comentou naquele dia, eu não podia estar errada.
一 Você é parente dele? 一 Ela perguntou e eu neguei.
一 O conheci há alguns dias 一 sussurrei. 一 Eu vim visitá-lo.
一 Você é a Maya?
Ergui minha cabeça e lhe direcionei a atenção até me deparar com seus olhos castanhos escuros. Ela aparentava ser tão nova quanto eu, momento que duvidei de que ela já era formada, mas enfim, isso não era relevante agora. Pele bronzeada 一 como a maioria dessa cidade 一, cabelos negros lisos e volumosos que iam até os seus ombros, o rosto fino e agora um tanto apático combinava com sua postura mais rígida me fizeram pensar em como ela poderia ser “próxima” do Jackson. Ela aparentava ser tão… sei lá, arisca.
一 Normalmente nós não falamos sobre a situação dos pacientes com aqueles que não sejam familiares 一 disse aproximando-se até ficar diante de mim, e por um milésimo de segundo, vi que seus olhos passearam pelo meu rosto. 一 Ele teve que fazer uma cirurgia no coração e infelizmente não resistiu, tentamos de tudo, mas… não foi o suficiente para fazê-lo ficar. Lamento.
Não.
Não podia ser verdade.
Minha mão foi de encontro a janela, assim como meu tronco até finalmente encostar a testa na superfície gelada do vidro, e quando fui me dar conta, eu já tinha me ajoelhado no chão enquanto derramava algumas lágrimas. O vazio era agora como um incômodo permanente na região do peito, como se… Eu não sei, como se houvesse uma farpa atravessando ele.
一 Eu deveria ter vindo antes… 一 Levei minhas mãos até o rosto e projetei a cabeça para trás para apoiá-la na porta. 一 Eu podia…
一 Não teria feito diferença.
Soltei uma risada anasalada, que coisa mais cruel de se dizer em um momento como esses. Mordi o lábio inferior e ergui minha cabeça para fitá-la, e após analisar sua expressão que ao meu ver destacava a famosa indiferença, falei:
一 Pensei que acreditasse nele.
Ela puxou o ar com força e o soltou na mesma proporção. Enfiou as mãos no jaleco branco e então desviou o olhar brevemente para o lado.
一 O caso dele era muito delicado, e toda cirurgia tem seu risco.
一 Ele só tinha cinco anos… Cinco! 一 Meus lábios começaram a tremer de nervoso e eu podia sentir que a qualquer momento iria passar por uma espécie de mal estar. 一 Não é justo!
一 Sinto muito.
“Sente muito…?”
Era difícil de acreditar nas palavras dessa garota pelas mesmas saírem com tanto desdém. Não é possível que essas pessoas não tenham um pingo de sentimentalismo, ainda mais ela que tem a responsabilidade em ajudar a salvar vidas.
一 Ele deixou algo pra você.
一 O quê…?
一 Pode vir comigo dar uma olhada, se quiser.
Eu tinha uma pequena mania de desconfiar das coisas e das pessoas, mas nesse caso, não cheguei a hesitar em levantar. Ela começou a andar na minha frente enquanto eu a seguia mais atrás. Daniel já tinha voltado ao seu lugar e trocou olhares rápidos comigo quando passamos pela recepção. Seguimos para o final do corredor até o elevador e descemos para o térreo, só que ao invés de sair pela porta principal, demos a volta e fomos para os fundos, não demorando muito mais para que eu me deparasse com o jardim.
O lugar era maior do que o próprio estacionamento. A mata estava em um verde tão vivo que tudo em volta parecia uma paisagem belíssima, mesmo que os bancos fossem em modelos mais antigos e a estrutura fizesse eu me sentir em outra época. Havia pequenas trilhas onde alguns pacientes caminhavam tranquilamente e observavam tudo com tamanha atenção, mesmo que talvez já conhecessem aquilo com a palma das mãos. Alguns tomavam um pouco de sol, já outros se divertiam ao jogar cartas e xadrez, tudo isso sob a supervisão de alguns enfermeiros e monitores, entretanto, não havia crianças por ali.
一 Jackson não iria sobreviver por muito mais tempo, Maya.
Suas palavras fizeram-me sair do meu transe.
一 Por que vocês fazem isso?
一 Isso o quê? 一 Ela semicerrou um pouco os olhos, acredito eu que acabei pegando em seu ponto fraco, porque ela sequer chegou a me encarar.
一 Ficam dando prazo de validade para as pessoas como se elas fossem produtos industrializados, como se fossem todas iguais.
Ela parecia imersa naquela paisagem, todavia, eu ainda podia sentir o seu incômodo.
一 É a ciência, Maya. É assim que ela funciona.
一 Não acredito cem por cento nela.
一 No que você acredita? Deus?
一 Faria diferença se eu dissesse que sim pra você? 一 Ela soltou uma risada soprada, me fitou por breves instantes com um sorriso meio sarcástico e então negou. 一 Então, minha resposta é irrelevante.
一 Touché.
“Tsc! Que palhaçada…”
一 Você está irritada.
一 Não estou.
一 Está sim. 一 disse enquanto se colocava a minha frente. 一 E acha que a culpa é minha.
Trinquei o maxilar ao ouvir aquilo, afinal, quem sou eu para culpar alguém?
一 Não... 一 Murmurei. 一 E está enganada, não estou colocando a culpa em você.
一 Então por que ainda está irritada? 一 Não consegui responder aquela pergunta, e o fato de sentir a pressão dela me analisando, me senti obrigada a relaxar os ombros. 一 Quantas pessoas?
一 Como assim?
一 Quantas pessoas você já perdeu?
Um minuto de silêncio.
一 Duas.
一 Muito próximas?
一 Não… 一 Ela abaixou a cabeça e então voltou a caminhar, agora para dentro do jardim. 一 O que isso tem a ver?
一 Pessoas morrem todos os dias. 一 disse com certa rispidez, e isso fez um arrepio percorrer a minha espinha. 一 E me surpreende você ter se apegado tanto à alguém que mal teve convívio.
一 O tempo não importa, enfermeira Miller.
一 É mesmo?
一 É o que eu penso...
一 O tempo é o bem mais precioso para alguém que está lutando por ele a cada segundo 一 disse olhando-me de esguelha. 一 E se ele fosse assim tão, como posso dizer? Sem importância, Jackson não teria te deixado isto.
Nós chegamos a uma espécie de cantinho reservado, onde nele havia um arco traçado por uma pequena árvore que segurava vários papéis desenhados. Havia de todo tipo, desenhos de animais, pessoas, lugares e, é claro, super heróis. E no instante que preguei meus olhos em um em especial, meus olhos voltaram a encher de água. Era o desenho do Hulk, e no cantinho inferior direito da folha havia uma frase que dizia:
“Meu desejo é ser tão forte quanto o Hulk”.
Me agachei para poder ver o desenho mais de perto, e automaticamente as lágrimas começaram a cair, e a julgar pela idade dele, aquilo estava longe de ser só rabiscos com giz de cera.
一 Olhe atrás. 一 disse ela.
Eu obedeci. Não só isso como voltei a derramar mais algumas lágrimas.
“Para minha nova amiga, Maya”.
一 Você conseguiu fazer o que muitos lá dentro tentaram por dias 一 A voz dela ficou mais suave, e podia jurar que, por um milésimo de segundo, ela tinha vacilado. 一 Tocar o coração de uma criança que aprendeu por conta própria a reconhecer as pessoas como uma ameaça não é tarefa para qualquer um.
Enxuguei meu rosto com o dorso da mão e então me coloquei de pé, onde com muito sacrifício consegui desviar minha atenção do desenho para ela, e por conta do reflexo do sol, pude perceber que os dela estavam um pouco avermelhados.
一 A partida dele mexeu com você 一 Ela me encarou com aquele semblante apático, o que me fez abrir um fraco sorriso de canto. 一 Talvez você seja mais humana do que eu pensei, enfermeira Miller.
Ela parecia me estudar através daquele contato visual, e por mais que eu não a conhecesse, podia sentir o quão forte era a sua personalidade. Uma leve brisa passou por nós e acabou por bagunçar nossas roupas e cabelos, situação que me fez voltar a olhar para aquele desenho para então guardá-lo em minha mochila, vai que o vento o tira de mim também.
一 Obrigada. 一 disse aproximando-me dela até parar ao seu lado.
一 Pelo quê?
一 Por ter cuidado dele. 一 Fitei-a 一 Ele gostava muito de você, era perceptível só pelo modo como ele se referiu ao seu nome.
一 Era o meu trabalho.
Soltei uma risadinha.
一 O que você ganha escondendo seus sentimentos? 一 Arqueei uma sobrancelha, o modo como ela parecia querer camuflar tudo de normal me deixava agoniada, só psicopatas fazem isso, e eu tenho certeza que ela não era uma.
一 Acho que já está na hora de você ir. 一 Ela voltou a fitar o horizonte. 一 Eu ainda tenho um turno para terminar.
一 Também preciso ir. 一 Comecei a caminhar em direção a entrada do prédio, mas decidi parar um pouco antes de passar pela porta. 一 Quer saber de uma coisa?
Senti aquele olhar dela cair sobre mim como quem diz “O que é agora?”
一 Você pode ser muito boa em esconder o que se passa aí dentro de você 一 Seus olhos vacilaram, e com isso eu tive a certeza de ter pego novamente em sua ferida. 一 Mas negá-los é apenas um atalho para se matar aos poucos. Tente se perdoar, ele não iria querer que você ficasse triste, tenho certeza disso.
Não cheguei a esperar para ver sua reação, nem mesmo uma resposta, o que provavelmente eu nem receberia. Chequei meu celular e mandei uma mensagem para a Sam dizendo que já estava subindo, mas antes disso eu precisava ir ao banheiro para poder me recompor e lavar o rosto. Não quis demorar muito uma vez que já era para eu estar com a Sam, entretanto, não tinha como eu não me sentir um pouco letárgica com tudo o que aconteceu nos últimos minutos.
Terceiro andar, sala 324 一 16:48
一 O que aconteceu com você?
Sam me puxou de canto no corredor enquanto envolvia meu braço. Eu tinha acabado de chegar na sala, no entanto, ao que tudo indicava, as atividades que ela tinha para aquela turminha já haviam sido finalizadas, o que significa que eu me atrasei mais do que o normal. Confesso em dizer que eu achei que iria levar uma bela comida de rabo, mas no que ela me fitou através do vidro, ela de imediato veio ao meu encontro.
Eu abri a boca para tentar falar algo, mas tudo o que consegui foi puxar um pouco de ar. Meus lábios voltaram a tremer e tive que fechar os olhos, caso contrário eu choraria na frente dela, e por mais que fôssemos muito amigas, eu detestaria que isso acontecesse.
一 Vem cá! 一 Ela me puxou para um forte abraço.
一 Ele morreu, Sam… 一 Segurei em sua blusa para então afundar minha testa na curvatura de seu pescoço. 一 Ele se foi, e eu nem pude ficar mais tempo com ele!
一 Céus… Eu sinto muito, Ma 一 Sam passou a afagar meus cabelos enquanto eu ainda chorava e tremia. 一 Sei o quanto você gostava dele, lamento que o tenha perdido.
一 Teria feito diferença? 一 Me afastei um pouco para que pudesse fitá-la, momento que ela pareceu ficar um pouco confusa. 一 Se eu tivesse vindo antes?
Sam soltou um pesado suspiro. Ela ergueu as mãos e começou a enxugar meu rosto ao mesmo tempo que parecia procurar pelas palavras certas, tentando “resolver” essa pergunta que parecia tão simples, mas ao mesmo tempo tão complexa.
一 Sabe, eu li uma vez de que não existem coincidências nessa vida 一 disse abrindo um sorriso ladino, mas ainda assim acolhedor. 一 Ele apareceu pra você porque era para ser assim. Vocês criaram um tipo de conexão que por mais que tenha durado pouquíssimos minutos, foi o suficiente para surgir um laço afetivo, além do mais, eu acredito que esse encontro tenha acontecido por um propósito em especial.
一 Qual propósito?
Ela deu de ombros.
一 Precisa descobrir isso sozinha, Ma 一 Ela segurou em minha mão e a apertou. 一 Por que não vai pra casa? Posso te levar se quiser.
一 Não 一 Neguei rapidamente. 一 Eu quero ficar.
一 Tem certeza…?
一 Tenho.
一 Tudo bem… 一 disse assentindo. 一 Eu só preciso entregar um relatório, por que não me espera lá dentro? As outras crianças chegarão em breve.
一 Okay…
Sam me deu outro abraço apertado e seguiu rumo ao corredor com uma pasta em mãos, coisa que nem percebi que ela estava segurando até então. Eu observei ela virar a direita para então desviar minha atenção para a pequena salinha. As paredes decoradas com papéis de paredes coloridos, o carpete em um tom mais azul bebê, as poucas mesas espalhadas ocupando até quatro crianças em cada e a lousa branca um pouco mais ao fundo com as janelas de vidro ao lado dava a impressão de ser um ambiente bem descontraído e acolhedor, coisa que, obviamente, era o que elas precisavam.
Caminhei até a porta e parei para admirar os pequenos quadros que continham todo tipo de arte, todos estes espalhados por uma das paredes, momento que fiquei me questionando se o Jackson ficaria contente de estar aqui mesmo que não interagisse com as outras crianças.
一 Acho que não vou esquecer você tão cedo, rapazinho… 一 sussurrei enquanto apoiava a mão na maçaneta, e quando fiz menção de abrir, desviei meus olhos para o final do corredor quando ouvi passos, sendo estes da enfermeira Miller que me encarava com certa curiosidade como quem pensa “O que ela ainda está fazendo aqui?”.
一 Enfermeira Chloe Miller! Favor comparecer no quarto 309!
Daniel, o recepcionista, chamou-a com certa urgência pelo microfone. Ela desviou os olhos para a pequena cabine que o abrigava mais adiante rapidamente e depois voltou para onde eu estava, onde após alguns instantes, percebi ela relaxar os ombros e abrir um pequeno 一 quase imperceptível 一 sorriso, para então me dar as costas e seguir com o seu caminho.
“Pelo menos ela sabe sorrir, já é alguma coisa”.
A única coisa que me deixava pra baixo mesmo era esse bendito calor. Eu simplesmente não sirvo para viver em tempos como esse, e pode até parecer um certo drama da minha parte, mas assim, a minha pele é realmente sensível, tanto que as manchas da semana passada não sumiram até agora. E coitado do Michael, ele adorava minha companhia mesmo quando eu não entrava no mar junto com ele, e acho que depois do que ocorreu na festa, talvez ele estivesse com receio de que eu venha a passar mal novamente.
E cá estamos nós, almoçando no refeitório lotado e tentando conversar adequadamente sem parecer que temos problema de audição, porque né, o barulho estava consideravelmente alto.
一 Então, quais são os planos para hoje? 一 Ethan tinha o pé direito apoiado sobre a coxa esquerda. Seu tronco se encontrava meio largado na cadeira, acho que ele se sentia confortável desse jeito, já que sempre fazia isso para poder me abraçar.
一 Tenho treino. 一 Michael deu de ombros.
一 De novo?!
一 Já te falei mil vezes cara, eu ainda vou competir o circuito nacional 一 disse abrindo um sorriso que exalava confiança, o que me fez sorrir também, pois eu sabia o quanto ele desejava isso desde adolescente. 一 E não vou conseguir fazer isso sem treinar pelo menos quatro vezes na semana.
一 O que você faz quando o mar não está em boas condições? 一 Sam parecia curiosa.
一 Treino físico. 一 Deu de ombros. 一 Corro, faço exercícios para equilíbrio, força e por aí vai…
一 Tá vendo, Maya? 一 Jen se virou pra mim com um ar de riso. 一 Isso que é exemplo!
一 Tá falando o quê, garota? Tu não aguenta nem atravessar o campus sem colocar a língua pra fora!
Sam quase se engasgou com a água e isso nos levou a cair no riso, é óbvio. Ela me fitou com os olhos semicerrados e eu devolvi mostrando-lhe a língua. Sim, nós nos entendemos desse jeito bem maduro mesmo.
一 E você, mocinha? 一 Ethan acariciou meu ombro com a ponta dos dedos para chamar a minha atenção.
一 Não sei ainda… 一 Soltei um pesado suspiro ao pensar que talvez minha mãe fosse precisar de ajuda na empresa com algumas papeladas. 一 Pretendo ficar em casa.
一 Ou você pode ir junto comigo para o estágio. 一 Sam arqueou uma sobrancelha.
一 Falando nele, você não nos disse onde é. 一 Jen cruzou os braços, o que a fez rolar os olhos.
一 No hospital.
Tirando nós duas, os três trocaram olhares confusos.
一 No hospital? 一 Ethan tombou a cabeça para o lado. 一 Por quê?
一 É, o que você vai fazer lá? 一 questionou ela.
一 Vou ajudar a ensinar arte para as crianças.
一 Sam… 一 Michael projetou seu corpo para frente. 一 Tem certeza disso?
一 Ok, me digam porque essa cara de preocupação de vocês! 一 Ela se apoiou na mesa e passou a alternar o olhar entre os três que engoliram seco.
“Brava demais”.
一 É um ambiente pesado. 一 Jen passou a mão pelos cabelos. 一 Acha que consegue dar conta?
一 Seja específica, Jennifer.
"Ih! Tá puta!"
一 Acha que tem psicológico para lidar com o que vai ver e ouvir lá dentro? 一 Rebateu.
一 Falando desse jeito parece que estou me oferecendo a trabalhar no inferno.
Jen passou as mãos pelo rosto e em seguida apoiou os cotovelos em cima da mesa, ficando assim de frente pra ela, e na boa, dava pra sentir a tensão no ar de longe, sério.
一 Ela sabe o que está fazendo. 一 Minha voz pareceu ecoar pela mesa, momento que ganhei a atenção de todos. 一 A Sam tem mais culhão pra lidar com esse tipo de situação do que qualquer um de nós, e ao invés da gente criticar, deveríamos apoiá-la.
一 Não estamos criticando, só…
一 Vocês entenderam. 一 Ethan murmurou por eu tê-lo interrompido. 一 Ela vai se sair bem, tenho certeza disso.
一 Maya tem razão. 一 Michael assentiu. 一 Acredito que vá ser uma experiência bem desafiante pra você.
一 Obrigada, gente. 一 Sam nos direcionou um sorriso de alívio, onde logo em seguida ele veio parar na minha direção. 一 Você vai comigo?
A imagem do pequeno Jackson, ou melhor, Jack, invadiu minha mente sem permissão, e é claro que um sentimento de “débito” me veio à mente, como quem diz, se eu não for, estarei abandonando-o. E fazer esse tipo de coisa com uma criança tão especial quanto ele não estava na minha lista de desejos antes de morrer.
一 Sim. 一 soltei um arrastado suspiro. 一 Preciso ver alguém.
一 Quem? 一 Ethan arqueou uma sobrancelha.
Me remexi na cadeira para poder cruzar as pernas.
一 Um novo amigo. 一 Percebi que o olhar dele ainda era curioso. 一 Um garotinho…
Samantha tinha razão quando disse que nossa realidade era completamente diferente daqueles que necessitam do hospital diariamente. Eu não poderia dizer isso em voz alta, mas sabia que nenhum deles ali estava realmente confortável com o que foi dito, e ver o desconforto dela me deixou com um aperto no coração, porque eu sei como é você estar animado com algo que almeja e ver a reação contrária das pessoas tão espontaneamente.
Felizmente eu tinha o talento de transformar a atmosfera ao meu redor, caso contrário ainda estaríamos sentados suportando aquele ar tenso sobre nossos ombros, e quando menos esperamos, o sino da faculdade soou em alto e bom tom.
一 Obrigada 一 Sam agarrou o meu braço com certo apego e deixou com que sua testa se apoiasse brevemente em meu ombro.
一 Não precisa me agradecer, sabe disso.
一 Preciso sim 一 Reforçou com firmeza. 一 Tem certeza que está à vontade para voltar lá?
Parei de andar no mesmo segundo e fechei os olhos por uns instantes antes de direcioná-los para ela.
一 E se ele não se lembrar de mim?
一 Maya, se esqueceu de que foi ele que “pediu” para te ver?
一 Não tenho jeito com criança, Sam…
一 Sobre o que vocês conversaram?
一 Super heróis…
Ela colocou as mãos na cintura e fez a famosa cara de “Preciso dizer mais alguma coisa?”
一 Por que não o ensina a desenhar o favorito dele?
Maneei a cabeça, até que a ideia era boa.
一 Tudo bem 一 Dei-me por vencida. 一 Só preciso ir para casa primeiro, tá?
一 Sem problemas, posso te encontrar lá.
一 É melhor 一 Assenti. 一 Me manda mensagem dizendo onde você vai estar, te encontro depois que falar com ele, pode ser?
一 Fechado. 一 Ela me deu um abraço. 一 Até depois!
一 Até!
Eu estava ansiosa para vê-lo. E mesmo que eu não tivesse jeito algum, eu queria poder estar junto dele, nem que fosse para vê-lo desenhar. Eu queria levar algo gostoso pra ele comer também, mas não sei se me deixariam entrar com isso, ou pior, não sei nem se ele poderia. Ok, isso não é normal. Pelo contrário, é estranho, muito estranho. Como que um encontro de apenas cinco minutos poderia me fazer sentir dessa forma? Não faz sentido algum, cara! E foi exatamente por esse motivo que não consegui me concentrar no restante da aula, tanto que mal fiz anotações em meu notebook, e quando a aula acabou, sequer cogitei a esperar alguém para poder me despedir, então fui direto para o meu carro e segui rumo a minha casa, simples assim.
一 O que eu levo…? 一 sussurrei enquanto observava meu próprio quarto com atenção, tentando desta forma pensar em algo decente e que, talvez, pudesse agradá-lo. 一 Já sei!
Fui em direção ao armário e tirei uma pequena mochila de couro. Separei alguns papéis, HQ’s e alguns funkos que eu tinha de personagens aleatórios. Desci as escadas e peguei algumas bugigangas também, ou pelo menos o que sobrou do meu estoque. Peguei as chaves do carro e segui rumo ao hospital, e a medida que ia me aproximando do local, mais animada eu ficava.
Eu tenho ascendente em gêmeos, ok? Não julguem minhas mudanças de humor repentinas, obrigada. No momento que estacionei perto da entrada do hospital, pude avistar o carro da Sam dentro do estacionamento, mas como só era permitido para funcionários, eu não poderia deixar o meu ali. Coloquei minha pequena mochila sobre o ombro, desci do carro, bati a porta e liguei o alarme, passando a caminhar em direção a entrada. A recepção parecia um pouco mais cheia se for comparar com a do outro dia, e pelo fato de todos estarem tão ocupados, decidi seguir o caminho que já me era um pouco familiar.
E é claro que eu me perdi.
Eu disse que o local me era um pouco familiar, não disse? Pois é, o que significa que eu só fui achar a recepção do andar onde o encontrei dez minutos depois. A ala infantil ficava no terceiro andar e mais afastada, tanto que as outras salas eram quartos particulares assim como o quarto andar, tinha também brinquedoteca e uma sala de leitura. E tá aí uma coisa estranha, Sam disse que iria trabalhar na área infantil, mas ela não estava aqui, além disso, meus olhos passaram por todos aqueles pequenos seres e nenhum deles era o pequeno Jack.
一 O que está fazendo aqui?
Meu coração deu um salto contra o próprio peito, e no instante que me virei, deixei escapar um suspiro pesado, era aquele rapaz que trabalhava na recepção da ala.
一 Eu…
一 Não pode entrar nessa área sem permissão, lamento.
一 Eu sei. 一 Ele arqueou uma sobrancelha, provavelmente deveria estar achando que eu tô zoando com a cara dele. 一 Eu vim visitar o Jackson.
Mesmo por baixo daquela roupa social que ele vestia, eu pude sentir que o corpo dele ficou tenso.
一 Infelizmente não vai ser possível vê-lo… 一 disse estendendo o braço para que eu o seguisse.
一 Onde ele está?
Se tem uma coisa que eu não consigo compreender é a linguagem corporal e, sendo honesta, acredito que no ambiente em que ele trabalha, não me surpreenderia caso ele conseguisse disfarçar a realidade. Ele parecia sustentar aquele olhar com certa dificuldade, talvez estivesse tentando me dizer algo através dele, e honestamente, não acredito que a resposta seja muito positiva, minha intuição dizia isso, e ela nunca chegou a errar muito, sabem?
一 Onde ele está?!
Minha pergunta ainda remetia certa esperança, sentimento que nunca cheguei a me aprofundar muito para saber com exatidão como é num geral. No entanto, no instante que preguei meus olhos na janela do quarto 305 que ficava localizada ao meu lado direito, um embrulho no meu estômago me fez perder o ar. Eu conseguia enxergar o desenho dele pendurado na parede ao lado da cama, o mesmo qual ele queria terminar naquele dia quando o encontrei, não só isso como uma pequena pilha de roupas, inclusive o pijaminha dele vermelho.
Estagnei no lugar, minha cabeça já tinha pensado no pior e eu precisava que alguém me dissesse que eu estava sendo pessimista.
一 Eu quero vê-lo.
一 Moça, por favor…
一 Responda a minha pergunta! 一 Fechei os olhos com força.
Um silêncio extremamente perturbador preencheu o corredor. Meu coração batia como um louco, minha garganta estava seca, e a vontade de chorar fez-me comprimir os lábios.
一 Algum problema, Daniel?
Desviei minha atenção para o chão ao ouvir aquela voz feminina, porém sequer liguei para a sua presença.
一 Nenhum, enfermeira Miller 一 disse ele. 一 Ela está procurando pelo Jackson.
Era a tal enfermeira que ele comentou naquele dia, eu não podia estar errada.
一 Você é parente dele? 一 Ela perguntou e eu neguei.
一 O conheci há alguns dias 一 sussurrei. 一 Eu vim visitá-lo.
一 Você é a Maya?
Ergui minha cabeça e lhe direcionei a atenção até me deparar com seus olhos castanhos escuros. Ela aparentava ser tão nova quanto eu, momento que duvidei de que ela já era formada, mas enfim, isso não era relevante agora. Pele bronzeada 一 como a maioria dessa cidade 一, cabelos negros lisos e volumosos que iam até os seus ombros, o rosto fino e agora um tanto apático combinava com sua postura mais rígida me fizeram pensar em como ela poderia ser “próxima” do Jackson. Ela aparentava ser tão… sei lá, arisca.
一 Normalmente nós não falamos sobre a situação dos pacientes com aqueles que não sejam familiares 一 disse aproximando-se até ficar diante de mim, e por um milésimo de segundo, vi que seus olhos passearam pelo meu rosto. 一 Ele teve que fazer uma cirurgia no coração e infelizmente não resistiu, tentamos de tudo, mas… não foi o suficiente para fazê-lo ficar. Lamento.
Não.
Não podia ser verdade.
Minha mão foi de encontro a janela, assim como meu tronco até finalmente encostar a testa na superfície gelada do vidro, e quando fui me dar conta, eu já tinha me ajoelhado no chão enquanto derramava algumas lágrimas. O vazio era agora como um incômodo permanente na região do peito, como se… Eu não sei, como se houvesse uma farpa atravessando ele.
一 Eu deveria ter vindo antes… 一 Levei minhas mãos até o rosto e projetei a cabeça para trás para apoiá-la na porta. 一 Eu podia…
一 Não teria feito diferença.
Soltei uma risada anasalada, que coisa mais cruel de se dizer em um momento como esses. Mordi o lábio inferior e ergui minha cabeça para fitá-la, e após analisar sua expressão que ao meu ver destacava a famosa indiferença, falei:
一 Pensei que acreditasse nele.
Ela puxou o ar com força e o soltou na mesma proporção. Enfiou as mãos no jaleco branco e então desviou o olhar brevemente para o lado.
一 O caso dele era muito delicado, e toda cirurgia tem seu risco.
一 Ele só tinha cinco anos… Cinco! 一 Meus lábios começaram a tremer de nervoso e eu podia sentir que a qualquer momento iria passar por uma espécie de mal estar. 一 Não é justo!
一 Sinto muito.
“Sente muito…?”
Era difícil de acreditar nas palavras dessa garota pelas mesmas saírem com tanto desdém. Não é possível que essas pessoas não tenham um pingo de sentimentalismo, ainda mais ela que tem a responsabilidade em ajudar a salvar vidas.
一 Ele deixou algo pra você.
一 O quê…?
一 Pode vir comigo dar uma olhada, se quiser.
Eu tinha uma pequena mania de desconfiar das coisas e das pessoas, mas nesse caso, não cheguei a hesitar em levantar. Ela começou a andar na minha frente enquanto eu a seguia mais atrás. Daniel já tinha voltado ao seu lugar e trocou olhares rápidos comigo quando passamos pela recepção. Seguimos para o final do corredor até o elevador e descemos para o térreo, só que ao invés de sair pela porta principal, demos a volta e fomos para os fundos, não demorando muito mais para que eu me deparasse com o jardim.
O lugar era maior do que o próprio estacionamento. A mata estava em um verde tão vivo que tudo em volta parecia uma paisagem belíssima, mesmo que os bancos fossem em modelos mais antigos e a estrutura fizesse eu me sentir em outra época. Havia pequenas trilhas onde alguns pacientes caminhavam tranquilamente e observavam tudo com tamanha atenção, mesmo que talvez já conhecessem aquilo com a palma das mãos. Alguns tomavam um pouco de sol, já outros se divertiam ao jogar cartas e xadrez, tudo isso sob a supervisão de alguns enfermeiros e monitores, entretanto, não havia crianças por ali.
一 Jackson não iria sobreviver por muito mais tempo, Maya.
Suas palavras fizeram-me sair do meu transe.
一 Por que vocês fazem isso?
一 Isso o quê? 一 Ela semicerrou um pouco os olhos, acredito eu que acabei pegando em seu ponto fraco, porque ela sequer chegou a me encarar.
一 Ficam dando prazo de validade para as pessoas como se elas fossem produtos industrializados, como se fossem todas iguais.
Ela parecia imersa naquela paisagem, todavia, eu ainda podia sentir o seu incômodo.
一 É a ciência, Maya. É assim que ela funciona.
一 Não acredito cem por cento nela.
一 No que você acredita? Deus?
一 Faria diferença se eu dissesse que sim pra você? 一 Ela soltou uma risada soprada, me fitou por breves instantes com um sorriso meio sarcástico e então negou. 一 Então, minha resposta é irrelevante.
一 Touché.
“Tsc! Que palhaçada…”
一 Você está irritada.
一 Não estou.
一 Está sim. 一 disse enquanto se colocava a minha frente. 一 E acha que a culpa é minha.
Trinquei o maxilar ao ouvir aquilo, afinal, quem sou eu para culpar alguém?
一 Não... 一 Murmurei. 一 E está enganada, não estou colocando a culpa em você.
一 Então por que ainda está irritada? 一 Não consegui responder aquela pergunta, e o fato de sentir a pressão dela me analisando, me senti obrigada a relaxar os ombros. 一 Quantas pessoas?
一 Como assim?
一 Quantas pessoas você já perdeu?
Um minuto de silêncio.
一 Duas.
一 Muito próximas?
一 Não… 一 Ela abaixou a cabeça e então voltou a caminhar, agora para dentro do jardim. 一 O que isso tem a ver?
一 Pessoas morrem todos os dias. 一 disse com certa rispidez, e isso fez um arrepio percorrer a minha espinha. 一 E me surpreende você ter se apegado tanto à alguém que mal teve convívio.
一 O tempo não importa, enfermeira Miller.
一 É mesmo?
一 É o que eu penso...
一 O tempo é o bem mais precioso para alguém que está lutando por ele a cada segundo 一 disse olhando-me de esguelha. 一 E se ele fosse assim tão, como posso dizer? Sem importância, Jackson não teria te deixado isto.
Nós chegamos a uma espécie de cantinho reservado, onde nele havia um arco traçado por uma pequena árvore que segurava vários papéis desenhados. Havia de todo tipo, desenhos de animais, pessoas, lugares e, é claro, super heróis. E no instante que preguei meus olhos em um em especial, meus olhos voltaram a encher de água. Era o desenho do Hulk, e no cantinho inferior direito da folha havia uma frase que dizia:
“Meu desejo é ser tão forte quanto o Hulk”.
Me agachei para poder ver o desenho mais de perto, e automaticamente as lágrimas começaram a cair, e a julgar pela idade dele, aquilo estava longe de ser só rabiscos com giz de cera.
一 Olhe atrás. 一 disse ela.
Eu obedeci. Não só isso como voltei a derramar mais algumas lágrimas.
“Para minha nova amiga, Maya”.
一 Você conseguiu fazer o que muitos lá dentro tentaram por dias 一 A voz dela ficou mais suave, e podia jurar que, por um milésimo de segundo, ela tinha vacilado. 一 Tocar o coração de uma criança que aprendeu por conta própria a reconhecer as pessoas como uma ameaça não é tarefa para qualquer um.
Enxuguei meu rosto com o dorso da mão e então me coloquei de pé, onde com muito sacrifício consegui desviar minha atenção do desenho para ela, e por conta do reflexo do sol, pude perceber que os dela estavam um pouco avermelhados.
一 A partida dele mexeu com você 一 Ela me encarou com aquele semblante apático, o que me fez abrir um fraco sorriso de canto. 一 Talvez você seja mais humana do que eu pensei, enfermeira Miller.
Ela parecia me estudar através daquele contato visual, e por mais que eu não a conhecesse, podia sentir o quão forte era a sua personalidade. Uma leve brisa passou por nós e acabou por bagunçar nossas roupas e cabelos, situação que me fez voltar a olhar para aquele desenho para então guardá-lo em minha mochila, vai que o vento o tira de mim também.
一 Obrigada. 一 disse aproximando-me dela até parar ao seu lado.
一 Pelo quê?
一 Por ter cuidado dele. 一 Fitei-a 一 Ele gostava muito de você, era perceptível só pelo modo como ele se referiu ao seu nome.
一 Era o meu trabalho.
Soltei uma risadinha.
一 O que você ganha escondendo seus sentimentos? 一 Arqueei uma sobrancelha, o modo como ela parecia querer camuflar tudo de normal me deixava agoniada, só psicopatas fazem isso, e eu tenho certeza que ela não era uma.
一 Acho que já está na hora de você ir. 一 Ela voltou a fitar o horizonte. 一 Eu ainda tenho um turno para terminar.
一 Também preciso ir. 一 Comecei a caminhar em direção a entrada do prédio, mas decidi parar um pouco antes de passar pela porta. 一 Quer saber de uma coisa?
Senti aquele olhar dela cair sobre mim como quem diz “O que é agora?”
一 Você pode ser muito boa em esconder o que se passa aí dentro de você 一 Seus olhos vacilaram, e com isso eu tive a certeza de ter pego novamente em sua ferida. 一 Mas negá-los é apenas um atalho para se matar aos poucos. Tente se perdoar, ele não iria querer que você ficasse triste, tenho certeza disso.
Não cheguei a esperar para ver sua reação, nem mesmo uma resposta, o que provavelmente eu nem receberia. Chequei meu celular e mandei uma mensagem para a Sam dizendo que já estava subindo, mas antes disso eu precisava ir ao banheiro para poder me recompor e lavar o rosto. Não quis demorar muito uma vez que já era para eu estar com a Sam, entretanto, não tinha como eu não me sentir um pouco letárgica com tudo o que aconteceu nos últimos minutos.
Terceiro andar, sala 324 一 16:48
一 O que aconteceu com você?
Sam me puxou de canto no corredor enquanto envolvia meu braço. Eu tinha acabado de chegar na sala, no entanto, ao que tudo indicava, as atividades que ela tinha para aquela turminha já haviam sido finalizadas, o que significa que eu me atrasei mais do que o normal. Confesso em dizer que eu achei que iria levar uma bela comida de rabo, mas no que ela me fitou através do vidro, ela de imediato veio ao meu encontro.
Eu abri a boca para tentar falar algo, mas tudo o que consegui foi puxar um pouco de ar. Meus lábios voltaram a tremer e tive que fechar os olhos, caso contrário eu choraria na frente dela, e por mais que fôssemos muito amigas, eu detestaria que isso acontecesse.
一 Vem cá! 一 Ela me puxou para um forte abraço.
一 Ele morreu, Sam… 一 Segurei em sua blusa para então afundar minha testa na curvatura de seu pescoço. 一 Ele se foi, e eu nem pude ficar mais tempo com ele!
一 Céus… Eu sinto muito, Ma 一 Sam passou a afagar meus cabelos enquanto eu ainda chorava e tremia. 一 Sei o quanto você gostava dele, lamento que o tenha perdido.
一 Teria feito diferença? 一 Me afastei um pouco para que pudesse fitá-la, momento que ela pareceu ficar um pouco confusa. 一 Se eu tivesse vindo antes?
Sam soltou um pesado suspiro. Ela ergueu as mãos e começou a enxugar meu rosto ao mesmo tempo que parecia procurar pelas palavras certas, tentando “resolver” essa pergunta que parecia tão simples, mas ao mesmo tempo tão complexa.
一 Sabe, eu li uma vez de que não existem coincidências nessa vida 一 disse abrindo um sorriso ladino, mas ainda assim acolhedor. 一 Ele apareceu pra você porque era para ser assim. Vocês criaram um tipo de conexão que por mais que tenha durado pouquíssimos minutos, foi o suficiente para surgir um laço afetivo, além do mais, eu acredito que esse encontro tenha acontecido por um propósito em especial.
一 Qual propósito?
Ela deu de ombros.
一 Precisa descobrir isso sozinha, Ma 一 Ela segurou em minha mão e a apertou. 一 Por que não vai pra casa? Posso te levar se quiser.
一 Não 一 Neguei rapidamente. 一 Eu quero ficar.
一 Tem certeza…?
一 Tenho.
一 Tudo bem… 一 disse assentindo. 一 Eu só preciso entregar um relatório, por que não me espera lá dentro? As outras crianças chegarão em breve.
一 Okay…
Sam me deu outro abraço apertado e seguiu rumo ao corredor com uma pasta em mãos, coisa que nem percebi que ela estava segurando até então. Eu observei ela virar a direita para então desviar minha atenção para a pequena salinha. As paredes decoradas com papéis de paredes coloridos, o carpete em um tom mais azul bebê, as poucas mesas espalhadas ocupando até quatro crianças em cada e a lousa branca um pouco mais ao fundo com as janelas de vidro ao lado dava a impressão de ser um ambiente bem descontraído e acolhedor, coisa que, obviamente, era o que elas precisavam.
Caminhei até a porta e parei para admirar os pequenos quadros que continham todo tipo de arte, todos estes espalhados por uma das paredes, momento que fiquei me questionando se o Jackson ficaria contente de estar aqui mesmo que não interagisse com as outras crianças.
一 Acho que não vou esquecer você tão cedo, rapazinho… 一 sussurrei enquanto apoiava a mão na maçaneta, e quando fiz menção de abrir, desviei meus olhos para o final do corredor quando ouvi passos, sendo estes da enfermeira Miller que me encarava com certa curiosidade como quem pensa “O que ela ainda está fazendo aqui?”.
一 Enfermeira Chloe Miller! Favor comparecer no quarto 309!
Daniel, o recepcionista, chamou-a com certa urgência pelo microfone. Ela desviou os olhos para a pequena cabine que o abrigava mais adiante rapidamente e depois voltou para onde eu estava, onde após alguns instantes, percebi ela relaxar os ombros e abrir um pequeno 一 quase imperceptível 一 sorriso, para então me dar as costas e seguir com o seu caminho.
“Pelo menos ela sabe sorrir, já é alguma coisa”.
Fim do capítulo

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