Capítulo 16

Trabalhando

de O lago, por Luciane Ribeiro

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Quando cheguei ao CD, peguei um carrinho e visitei todos os setores para ver se toda a operação estava correndo sem problemas. Para minha tranquilidade, tudo estava fluindo bem.
Convoquei os setores de expedição e recebimento para a minha primeira reunião do dia.
Joyce e Alan, seu sub encarregado, foram os primeiros a chegar à sala. Ela vinha sorridente, carregava sua inseparável garrafa de água e as roupas já davam sinais de que alguns paletes haviam sido puxados por ela naquele início de manhã. O fato de ela colocar a mão na massa, em vez de apenas comandar, foi o que a fez conquistar o completo respeito de sua equipe.
— Bom dia, chefe!
— Bom dia, Alan.
— Chefe, essa reunião é mesmo necessária? A expedição está uma loucura hoje.
— Não se preocupe. A reunião será o mais breve possível, Joyce. Ela é necessária porque tenho alguns avisos e coisas a serem acertadas.
Até ali, nossa interação estava indo bem. As outras pessoas envolvidas foram chegando aos poucos.
Consegui começar a reunião às nove em ponto.
— Bom dia a todos. Como estamos todos muito ocupados, irei direto ao assunto. Como vocês sabem, ainda temos dois galpões fechados e inoperantes e mais funcionários nas duas áreas do que o necessário neste momento. O motivo disso era garantir que todos estivessem alinhados e aptos a operar nesses galpões, que, a partir da próxima semana, começarão a receber toda a nova linha de cosméticos que será lançada pela Santez.
— Bom dia, chefe.
— Bom dia, Alan.
— Quantos produtos terá essa nova linha?
— Até o momento, serão lançados quatro produtos para cabelo: shampoo, condicionador e creme de hidratação. E também um hidratante facial.
— Como será feita a escolha dos funcionários a serem transferidos para lá?
— Deixarei essa tarefa aos encarregados, Joyce.
— A operação logística será completamente separada dos medicamentos?
— Completamente, Rafael! Inclusive, os caminhões serão diferentes. Será como se fosse um CD independente.
— E quem serão os encarregados e os subencarregados da operação?
— Irei promover um funcionário para encarregado, e ele escolherá o sub. Estou com alguns nomes e tomarei a decisão até o final da semana.
A notícia sobre a promoção deixou todos agitados. Era uma grande responsabilidade, que vinha acompanhada de ótimos benefícios. Muitos deles queriam o cargo, mas eu faria a escolha de acordo com os relatórios de desempenho e com a capacidade de liderança dos candidatos que eu havia separado.
Joyce seria perfeita para o cargo, mas meu relacionamento com ela não me permitia fazer essa escolha.
— Sei que estão animados, mas a reunião ainda não terminou.
— Desculpa, chefe!
— Para conhecer os produtos, faremos uma pequena excursão na fábrica, que fica a alguns quilômetros daqui. Enviarei todos os encarregados, então a operação ficará sob a responsabilidade dos subs.
— Meu Deus!!! Isso é sério?
— Muito sério, Alan.
— Relaxa, amigo. Sei que dá conta!
— Mas, Joy...
— Se você acha que não consegue, colocarei alguém para te ajudar. Quero que a operação continue fluida como está agora, então quero que me avisem agora se acham que não conseguem conduzir sozinhos.
— Eu consigo! Conta comigo, chefe.
— Contarei, João. E você, Alan?
— Eu prefiro que escolha outra pessoa, chefe. Sinceramente, não me sinto pronto para liderar.
— Obrigada pela sinceridade. Nesse caso... Vitória!
— Sim, chefe!
— Chame a Renata, da expedição, por favor!
— Sim, senhora.
— Você colocará ela no lugar do Alan?
— Sim! Pelos seus relatórios, ela é tão competente quanto ele.
— Nossa, chefe! Não sabia que a senhora realmente lia os relatórios de desempenho.
— Claro que leio, Sávio. Tenho que saber quem está rendendo e quem está prejudicando a operação. Um funcionário ruim atrasa e sobrecarrega os outros.
_Concordo completamente. E fico feliz que a senhora veja isso.
— Atualmente, dos quatrocentos funcionários, cerca de setenta deixaram a empresa, seja por vontade própria ou por decisão da empresa. Dos trezentos e trinta que restaram, cerca de oitenta serão transferidos para a fábrica.
— Para a fábrica?
— Sim. A central quer que o novo medicamento saia direto da fábrica para o cliente, sem atrasos, avarias ou erros de quantidade, como vem acontecendo.
— E quais funcionários serão transferidos?
— O RH se encarregará da escolha.
— Eu posso me candidatar à transferência?
— Você quer ir, Alan?
— Sim! Meus pais moram lá. Seria bom voltar para casa.
— Entendo. Nesse caso, pedirei ao RH para fazer sua transferência.
— Obrigado, chefe!
— Por nada! Conto que continuará com o bom trabalho.
— Eu prometo. Vou me esforçar duas vezes mais, chefe.
A porta se abriu e Vitória anunciou a entrada de Renata, que entrou como se estivesse prestes a levar a maior bronca da vida.
— Bom dia.
— Bom dia, Renata. Sente-se, por favor.
Ela se sentou toda dura na cadeira. As mãos unidas e os olhos fixos nelas.
— Fique tranquila, Renata. Você não vai levar uma advertência. Muito pelo contrário. A chamei para lhe oferecer a chance de uma promoção.
— Promoção!?
— Sim! Durante quinze dias, você e o João assumirão o comando da operação nos seus setores. Quem tiver o melhor desempenho será promovido e cuidará dos setores dos galpões 21 e 22.
— Está falando sério, chefe? Posso mesmo ser promovida a encarregada?
— Sim! Só vai depender do seu esforço.
— Vou me dedicar.
— Excelente. Em relação aos detalhes da visita à fábrica, o RH irá informá-los nos próximos dias. Por hoje é isso.
— Certo, chefe!
Depois que eles saíram, voltei à minha sala, tomei meu segundo café do dia, peguei o material que precisava e me encaminhei para a segunda reunião do dia.
No meio do caminho, fui interrompida por Luiza, que vinha acompanhada por Carolina, que sorria como se estivesse prestes a causar caos.
— Estou muito surpresa em ver que sua irmã está trabalhando com você. Vou gostar bastante de ver seu rosto duplicado todos os dias.
— Já pode ir desistindo de me usar em uma tentativa de provocar reações da minha irmã. Sou muito comprometida, e minha namorada mataria nós duas só de sonhar que encostou um dedinho em mim.
— Exatamente. Fique longe da Luiza, por favor.
— Fiquei curiosa. Quero conhecer essa moça brava. Ela deve ser uma pessoa intere... Espere! O que é isso?
Carolina se aproximou e começou a analisar a marca em meu pescoço.
— Parece que sua irmã não é a única com uma mulher que gosta de marcar território.
— Não é o que está pensando. Isso é uma reação alérgica ao novo perfume.
— Conheço seu cheiro. Não mudou de perfume. Essa sua "reação alérgica", então, deve ser do batom de alguém. Quem é ela?
— Ninguém. O cheiro pode parecer igual, mas mudei, sim, de perfume. E não tenho tempo para debater meu perfume novo com você agora. Vamos, Luiza.
— Posso pegar um café antes?
— Tem café na sala de reuniões. Onde está a Sara?
— Disse que está a caminho.
— Nos falamos depois, Carolina.
— Não tão rápido. Vou participar dessa reunião. Ainda não conheci os líderes da logística e roteirização.
— Então vamos logo.
Passei a reunião toda sendo observada pelos olhos atentos de Carolina, que, entre uma análise comportamental e outra, me lançava olhares que diziam: Quero respostas.
Sara dividia seu tempo entre explicar as implicações legais sobre a violação dos nossos dados de envio, recebimento e estocagem e outros problemas jurídicos, enquanto Luiza lhes informava sobre o treinamento para aprenderem a utilizar melhor o novo sistema que decidi implementar depois do roubo do caminhão.A diretoria não concordou no início, mas insisti e falei com o diretor certo, que rapidamente aprovou meu pedido.
— Chefe, o que vai mudar para nós quando a linha de cosméticos começar a ser distribuída?
— Não se preocupe, Marcos. Você e sua equipe continuarão encarregados dos medicamentos. Uma nova equipe será formada para os cosméticos. Os galpões 21 e 22 funcionarão de maneira independente do resto.
— Maravilha, chefe! Isso tirou um peso enorme das minhas costas. Já estava preocupado, com medo de nos sobrecarregarmos.
— Chefe! Tenho uma dúvida.
— De que se trata, Tadeu?
— É sobre as empilhadeiras que estão paradas no depósito 3. Quando poderemos começar a utilizá-las? Estão fazendo falta.
— Ninguém me falou que elas ainda estão paradas. Vitória!?
— Sim?
— Chame o Jefferson, da manutenção, por favor!
— Sim, senhora!
Todos se entreolharam como se eu estivesse prestes a enfrentar um grande desafio.
E, quando Jefferson entrou na sala, entendi o porquê.
Ele chegou de cara feia. Sequer cumprimentou a mim ou aos outros.
— A que devo a honra de ser convocado por Vossa Majestade?
— Quero que me diga qual o motivo de as novas empilhadeiras ainda estarem no depósito. O pedido de checagem delas foi enviado há quase um mês.
— Sei que a senhora, como mulher, não deve entender muito de máquinas, então vou explicar. Aquelas empilhadeiras precisam de um trato especial para deixá-las em pleno funcionamento.
Respirei fundo e contei até dez antes de responder.
— Já que não está conseguindo realizar essa tarefa, mandarei Mariela ajudá-lo. Ela entende de empilhadeiras como ninguém. Tenho certeza de que lhe ensinará a realizar essa tarefa de maneira rápida e eficiente.
Sua cara feia ficou ainda pior ao saber que eu colocaria uma mulher que devia ter quase a metade da idade dele para fazer seu trabalho.Ele rapidamente pediu licença e saiu, dizendo que tinha uma manutenção urgente para fazer
Os demais presentes ficaram entre risos diante da cara desgostosa dele e um pouco preocupados.
Só entenderia o motivo naquela tarde, durante minha reunião com o RH e o TST.Depois de encerrar a reunião, saí da sala apressada, tentando evitar Carolina. Luiza veio atrás tentando me alcançar.
— Espera, Lala! Por que tanta pressa?
— Estou tentando evitar um interrogatório!
— Sobre esse chupão no seu pescoço?
— Está aparecendo tanto assim?
— Com certeza! Inclusive, ouvi alguns comentários pelos corredores.
— Céus! O que estão dizendo?
— Estão muito curiosos para saber quem fez! Muitos estão apostando no Marcos.
— Por quê?
— Ele fica dizendo para todo mundo que você é uma mulher incrível! Parece que sua aventura de resgate causou uma grande impressão nele.
— Que bobagem! Pelo menos ninguém desconfia da verdadeira culpada.
— Você pode até conseguir esconder dos funcionários, mas não vai conseguir manter seu romance secreto da Carolina. Agora ela já sabe que existe alguém. Só lhe resta saber quem. É uma questão de tempo para ela descobrir.
— Acha que é melhor eu contar logo para ela?
— Sim. Pelo menos não vai ter que chamar socorro para ajudar sua namorada a sair da sua casa sem ser vista por ela. Aliás, acho que ela não vai mais aparecer na sua casa seminua.
— Tem razão. Contar a verdade vai eliminar muitos problemas. Conversarei com ela depois da reunião com o RH.
— Mudando de assunto. Voltando para o profissional...Consegui instalar o novo sistema, mas você não acha que pode dar problema com seus chefes?
— Minha irmã brilhante, não me importo com o que pensam. O importante é que agora temos um sistema em que confio. O que você criou é eficiente e mais seguro.
— Vale a pena se arriscar tanto?
— Sim! Você o brilho nos olhos de Alan da Renata . Esse lugar representa o futuro deles. Uma chance de ter uma carreira sem precisar ir pra tão longe de suas famílias.
— Me preocupo que você vá longe demais nessa sua dedicação.
— Fique tranquila, Lu. Sei onde estou pisando. Vai ficar tudo bem. Vai me acompanhar na próxima reunião? Quero que explique sobre o app do RH e DP, que vai simplificar a entrega de atestados, avisos de férias e todo o resto.
— Me sinto como na manhã de Natal. Obrigada por confiar em mim e me deixar usar minhas criações.
— Sinceramente, talvez seja providência divina. Você voltou para a minha vida no momento certo, quando eu mais precisava de alguém em quem confiar. Então, sou eu quem devo agradecer.
— Estou ficando emotiva. Vamos almoçar?
— Tenho algumas coisas pra resolver antes.
— Vai comigo... por favor. Não quero almoçar sozinha.
— Onde está sua namorada?
— Ela disse que vai almoçar no escritório. Tem muito trabalho. Vamos, por favor.
Carolina se materializou ao meu lado, como se fosse um fantasma.
— Acredito que estejam indo almoçar. Certo?
— Estou tentando convencer a Laura a ir comigo, mas ela está relutante.
— Vamos. Precisamos conversar. Não vai poder fugir de mim pra sempre.
— Acho melhor eu ir na frente então. Vejo vocês no refeitório.
Luiza me deixou, mesmo com meus olhares suplicantes para que não me deixasse sozinha com Carolina. Ainda não sabia como explicar meu relacionamento.
Começamos a caminhar devagar. Ela estava séria, parecia ter muitas coisas se passando em sua cabeça. Seu silêncio foi quebrado com uma pergunta direta, do tipo que não deixava espaço para mentiras ou enrolações.
— Parece que perdi a oportunidade de estar com você de novo. Quem é ela?
— Joyce.
— Sabe que está se arriscando muito se envolvendo com uma funcionária. Ainda mais na situação em que está. Tem certeza de que pode confiar nela?
— Tenho!
— Espero que esteja certa e não acabe se decepcionando. Saiba que, independente do seu relacionamento, irei investigá-la como qualquer outro funcionário.
— Não esperaria menos de você.
— Está feliz?
— Muito.
— Ela não parece fazer muito seu tipo. Achei que gostasse de mulheres mais delicadas, como Sara e eu.
— Acredito que seja isso que mais me atrai nela. Joyce não me escuta, me irrita, me atordoa como uma tempestade. E mesmo assim ,eu sempre quero mais.
— Apesar de estar um pouco chateada, te desejo muita felicidade e sorte nesse relacionamento.
_Obrigada!
_Também devo te alertar. Se seus superiores descobrirem ,com certeza usarão isso contra você.
_Eu sei,mas estou disposta a correr esse risco.
_Será que um dia eu serei escolhida?
— Você é incrível, Carol. Em outra vida, tenho certeza de que seríamos um casal feliz. Seria minha primeira escolha.
— Parece que sua namorada decidiu vir te fazer uma visita. Nos vemos depois.
Ela saiu apressada. Eu a conhecia bem demais para saber que precisava de um tempo para absorver e aceitar a rejeição.
Joyce se aproximou com o olhar desconfiado. Mesmo que negasse, ela não conseguia disfarçar o ciúme. Eu adorava sua cara de brava, então não perdia a chance de provocá-la.
— Oi, chefe. Será que posso ter um minuto da sua atenção?
— É algo urgente? Carolina e eu íamos almoçar.
— Não é urgente, mas é importante. Acho que ela pode esperar uns minutinhos. Podemos ir à sua sala?
— Me acompanhe.
— Você é incrível, Carol. Em outra vida, tenho certeza de que seríamos um casal feliz. Seria minha primeira escolha.
— Obrigada. Quem sabe um dia... Parece que sua namorada decidiu vir te fazer uma visita. Nos vemos depois.
Ela saiu apressada. Eu a conhecia bem demais para saber que precisava de um tempo para absorver e aceitar a rejeição.
Joyce se aproximou com o olhar desconfiado. Mesmo que negasse, ela não conseguia disfarçar o ciúme. Eu adorava sua cara de brava, então não perdia a chance de provocá-la.
— Oi, chefe. Será que posso ter um minuto da sua atenção?
— É algo urgente? Carolina e eu íamos almoçar.
— Não é urgente, mas é importante. Acho que ela pode esperar uns minutinhos. Podemos ir à sua sala?
— Me acompanhe.

Fim do capítulo

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