Capítulo 56

Teste de Resistência

de Entre Votos e Silencios, por anonimo2405

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Apartamento do casal — Jardins, 23h47

Verena tirou os sapatos ainda no elevador. Não queria o som do salto no piso do corredor.

Não hoje.

Destrancou a porta com um cuidado quase cirúrgico, girando a chave devagar, segurando a maçaneta para evitar o estalo do trinco. Entrou. Fechou atrás de si com as duas mãos, como se a porta pudesse denunciá-la. O apartamento estava escuro. Só a luz do fogão, um verde fraco do relógio digital, cortando a cozinha. Ficou parada um segundo no corredor, os sapatos na mão, o blazer sujo de poeira das caixas de arquivo.

Respirou.

Tentou organizar o rosto antes de continuar andando. Não adiantava. Não tinha mais rosto para organizar. Passou pela sala. Pela mesa de jantar. Chegou ao corredor dos quartos. A porta estava entreaberta, como sempre deixavam. Parou na soleira. Silvia dormia de lado, o cabelo espalhado no travesseiro, a respiração lenta. Uma das mãos estava fechada perto do rosto. A outra descansava sobre a barriga.

Verena olhou a mão parada ali, sobre o tecido fino da camisola, um gesto tão simples e tão involuntário que doeu mais do que qualquer grito de Rafaela, mais do que qualquer gaveta vazia.

Ficou parada na porta.

Não tinha o direito de entrar.

Pensou nisso com uma clareza gélida, os sapatos ainda pendurados nos dedos, o corpo inteiro imóvel. Aquela mulher dormindo ali, com a mão pousada sobre um sonho que ainda nem tinha nome, não fazia ideia do que a esposa tinha acabado de fazer. Não fazia ideia de quem a esposa tinha acabado de se tornar, ajoelhada no chão de um escritório alheio, cravando as próprias unhas na palma da mão só pra não gritar. Verena queria atravessar o quarto. Queria deitar atrás dela, encaixar o corpo no dela como fazia antes, quando isso ainda era fácil.

Não conseguiu.

Ficou só olhando.

A mão sobre a barriga subia e descia devagar, no ritmo do sono. Verena engoliu seco, virou de costas e foi para o banheiro social, fechando a porta sem fazer barulho nenhum.

Apartamento do casal — Quarto, 3h12

Silvia acordou. O colchão ainda guardava um vinco quente do lado de Verena, prova de que fazia pouco tempo que ela tinha deitado.
Não sabia a que horas a esposa tinha chegado. Dormira sem saber se estava bem, sem mensagem, sem ligação de volta, só o teto escuro e o próprio cansaço para fazer companhia.

Agora ela estava ali. De costas. A respiração devagar, pesada, o corpo cedendo ao sono que só vem depois de um dia ruim. Silvia se apoiou no cotovelo, o lençol escorregando do ombro. Olhou para a mão da esposa, solta em cima do travesseiro. O curativo estava torto. Enrolado rápido, mal feito, a ponta da fita já descolando, enrugada de suor. Aquele jeito de sempre — o jeito de quem se machuca e não tem paciência de se cuidar direito.

Ela sorriu. Um gesto pequeno. Triste. Conhecia aquela mulher há anos. Estendeu a mão até o cabelo dela, os dedos quase alcançando os fios escuros espalhados no travesseiro.

Parou no ar.

Não sabia mais se podia. Recolheu a mão de volta, devagar, com cuidado de não encostar em nada. Ficou só olhando por mais um instante. O peito subindo e descendo. O curativo torto. A distância de sempre. Levantou com cuidado, o colchão balançando de leve, tentando não acordar Verena. Sentou na beirada, procurando os chinelos com o pé no escuro, e só quando os dedos encontraram o tecido macio é que se levantou de vez, puxando o robe da cadeira ao passar.

Atravessou o corredor devagar, a caixinha já esperando no fundo da bolsa, escondida sob a nécessaire, onde estivera guardada os últimos dias. Não aguentou esperar.

Apartamento do casal —Suíte, madrugada

Silvia trancou a porta. O som do trinco ecoou mais alto do que devia, o coração já martelando antes mesmo de começar. Encostou-se na pia por um segundo, encarando o próprio reflexo no espelho grande. Olheiras leves. Os olhos brilhando de um jeito que não sabia se era esperança ou pavor. Respirou fundo, tentando organizar o ar que insistia em sair em golfadas curtas.

Suas mãos tremiam ao rasgar o plástico da embalagem. O papel crepitou alto demais no silêncio do banheiro — cada som parecia amplificado, como se o apartamento inteiro pudesse escutar através das paredes. Tirou o bastonete de dentro do envoltório de alumínio, os dedos ainda trêmulos, e leu as instruções pela enésima vez, mesmo já sabendo de cor.

Sentou na privada, o coração acelerado latejando nos ouvidos, um zumbido nervoso que não parava. As mãos suavam frio, e ela precisou respirar fundo de novo antes de conseguir posicionar o teste, os dedos atrapalhados pelo próprio nervosismo, o corpo tenso demais pra qualquer coisa sair natural.

Levou o tempo que precisava.

Quando terminou, colocou o bastonete deitado sobre um pedaço de papel higiênico dobrado em cima da pia, com o mesmo cuidado ritualístico de sempre — como se aquele objeto pequeno fosse capaz de quebrar se tratado sem reverência. Lavou as mãos devagar, encarando o próprio reflexo outra vez enquanto a água escorria quente pelos dedos. O rosto no espelho parecia mais pálido do que o normal, os lábios entreabertos, presos numa respiração que não terminava de sair.

Sentou no chão frio, encostada na parede do box, os joelhos dobrados junto ao peito. Pegou o celular. Ligou o cronômetro.

Dois minutos.

O tempo mais longo do mundo começou a passar.

Até que passou.

O cronômetro vibrou. Silvia não se mexeu na hora. Ficou ali, sentada no chão, olhando para o teto por um segundo, como se pedisse coragem ao próprio corpo antes de se levantar. As pernas tremeram ao apoiar as mãos no chão frio e se erguer. Segurou na pia com uma mão só, o outro braço meio suspenso no ar, indeciso. Olhou.

Duas linhas.

Ela piscou uma vez. Duas.

Aproximou o rosto, os olhos correndo de um lado a outro do bastonete, como se pudesse haver alguma letra miúda escondida ali que mudasse tudo. Não havia. Só duas linhas rosadas, teimosas, firmes contra o fundo branco. O queixo tremeu antes das lágrimas.

Levou a mão à boca, sufocando um som que não tinha nome — nem riso, nem choro, os dois brigando pelo mesmo espaço na garganta. As lágrimas vieram quentes, descendo rápido, uma atrás da outra, sem aviso.

Riu.

Chorou.

Riu de novo, um som partido, feliz, os ombros tremendo.

Segurou o teste com as duas mãos, contra o peito, como se pudesse sentir um coraçãozinho batendo ali dentro, mesmo sabendo que era cedo demais, que fisicamente não fazia sentido, que ainda faltavam dias pro exame confirmar aquilo com números e certeza médica.

Não importava. Nada importava.

O corpo já sabia. Ela já sentia.

Escorregou até sentar no chão de novo, as costas no vidro frio, o teste apertado contra o peito, o robe aberto sobre os joelhos dobrados. Pensou na mãe. Agora avó. No quarto que já desenhava havia meses só na cabeça. Pensou em Verena. O nome doeu e trouxe alívio ao mesmo tempo, um misto estranho de alegria e falta que não sabia separar direito. Fechou os olhos, a mão livre descendo até o ventre, sentindo o próprio coração disparado ali.

Obrigada.

Agradeceu à Deus, ao corpo, ao próprio desejo teimoso de dez anos que finalmente parecia ter sido ouvido.

Apartamento do casal — Cozinha, 07h15

Silvia acordou antes do despertador. O teste ainda estava escondido no fundo da gaveta do banheiro, embrulhado num papel higiênico como se fosse algo frágil demais para existir à vista. Passou pela cozinha em silêncio, ligou a cafeteira, separou as frutas, cortou o pão com cuidado exagerado — como se manter as mãos ocupadas fosse a única forma de não pensar.

Ou de pensar demais. Verena apareceu alguns minutos depois, descalça, o cabelo solto de um jeito caoticamente bonito, vestindo uma camiseta velha que Silvia conhecia bem demais.

— Bom dia, futura cidadã cansada do Brasil — disse, rouca, se aproximando por trás e apoiando o queixo no ombro da esposa.
Silvia sorriu na hora. Sempre sorria.

— Bom dia, deputada que acha que sarcasmo substitui oito horas de sono — respondeu, virando o rosto para dar um beijo rápido nela.
Verena roubou outro, mais demorado.

— Substitui parcialmente. O resto é café e ódio direcionado.

Silvia riu, apesar do coração acelerado. Serviu o café para a esposa antes de servir o próprio. Sempre fazia isso sem perceber.

— Dormiu alguma coisa? — perguntou, passando a mão de leve pelas costas dela.

— O suficiente pra continuar funcional e perigosa — respondeu Verena, sentando-se à mesa. — O grupo da bancada começou a ferver às seis da manhã. Deve ser recorde.

Silvia colocou o prato na frente dela.

— Quer que eu leia alguma coisa pra você? — perguntou com cuidado. — Ou hoje é dia de fingir que o mundo não existe por dez minutos?
Verena ergueu o olhar, com aquele meio sorriso torto que sempre desmontava Silvia.

— Você é perigosamente sensata pra alguém que escolheu casar comigo.

Silvia deu de ombros, brincando.

— Alguém precisava assumir a responsabilidade desse relacionamento.

Verena riu de verdade. Aquele riso aberto, rápido, que fazia o ambiente parecer mais leve do que realmente era. Silvia se sentou à frente dela, cruzando as pernas, observando cada gesto. O jeito como a esposa mexia no celular entre uma mordida e outra. A tensão discreta no maxilar. O brilho inquieto nos olhos. Ela queria contar. Queria muito. Queria dizer ali mesmo, no meio daquele café banal, que talvez — só talvez — algo estivesse crescendo dentro dela. Que talvez a vida estivesse prestes a virar do avesso.

Mas respirou fundo.

Ainda não

— A clínica ligou ontem. — Disse, tentando soar casual.

Verena ergueu a sobrancelha imediatamente.

— E você me diz isso assim? Sem suspense? Que tipo de pessoa você virou?

Silvia sorriu, apaixonada.

— Calma. — estendeu a mão por cima da mesa e tocou a dela. — Só queriam confirmar os próximos exames. Depois vou ligar pra Beatriz, confirmar umas coisas.

Verena apertou os dedos dela de volta, automática.

— Tá ansiosa?

Silvia sustentou o olhar por um segundo a mais.

— Muito. — Respondeu, sincera. — Mas é uma ansiedade boa.

Verena inclinou a cabeça, estudando-a.

— Você tá diferente. — Comentou, com humor leve. — Mais… leve. Ou eu tô ficando poética por exaustão?

Silvia riu, desviando o olhar.

— Deve ser o café.

— Claro. — Verena sorriu de canto. — O café é sempre o culpado.

Ela se levantou, pegando mais um pedaço de maçã.

— Vou tentar não arrumar outro inimigo público hoje. Sem promessas.

Silvia se levantou também, foi até ela, ajeitou a gola da camiseta com um carinho automático.

— Sua camisa passada tá separada. E Vê… Só… se cuida, tá? — disse baixo. — Você não precisa ganhar todas as batalhas sozinha.

Verena beijou a testa dela.

— Eu sei. — Murmurou. — É bom saber que tenho você quando volto pra casa.

O beijo nos lábios veio logo depois. Demorado. Quente. Familiar.

Quando Verena saiu, falando ao telefone antes mesmo de virar o corredor, Silvia ficou parada na cozinha por alguns segundos.
A mão deslizou até o próprio ventre. O sorriso veio junto com o medo, com a alegria, com a espera.

— Calma. — Sussurrou pra si mesma. — Só mais um pouco.

E voltou a arrumar a mesa, com o coração cheio demais para aquele apartamento pequeno.

Escola Estadual Professor Luiz Roberto Pinheiro — 08h21

O professor explicava alguma coisa sobre funções do segundo grau no quadro quando Valentina percebeu que já não fazia ideia do que ele estava dizendo. Havia três linhas escritas no caderno. Nenhuma fazia sentido. Segurava o lápis entre os dedos, a ponta apoiada sobre o papel, e mantinha os olhos voltados para a lousa numa tentativa de parecer atenta.

— Então, quando o discriminante é maior que zero, nós temos...

A voz do professor continuava chegando até ela, mas como se viesse de muito longe. Valentina baixou os olhos. No canto inferior da folha, quase sem perceber, tinha desenhado um coração.

Parou.

Olhou para ele.

Então passou o lápis por cima, reforçando o contorno.

Dentro, escreveu uma inicial.

V
Seu coração apertou.

Apagou imediatamente.

Olhou para os lados.

Ninguém parecia ter visto.

Respirou fundo e virou um pouco o caderno, escondendo aquele canto com o braço. Tentou voltar à matéria. Durou menos de um minuto. O pensamento voltou. A lembrança também.

Verena.

Era sempre Verena.

Desde que a deputada se afastara, parecia ter adquirido uma capacidade nova e desagradável de perceber a ausência dela em absolutamente tudo.

Um horário.

Uma porta.

Um corredor.

Uma notificação que não chegava.

Às vezes, bastava ouvir alguém mencionar a Assembleia para que sua atenção se deslocasse imediatamente, antes mesmo que pudesse controlar. Naquela manhã, havia pensado nela quando acordou. Enquanto tomava café. No caminho para a escola. Durante a primeira aula.

Agora.

E sabia, com uma espécie de vergonha crescente, que provavelmente pensaria nela novamente quando estivesse indo embora. Ela sentia falta.
Uma falta quase física. Do som da voz. Do jeito como Verena a olhava. Do abraço. Do simples fato de estar perto. E dos beijos. Do hálito quente, do cheiro que não encontraria em qualquer outro lugar do mundo. Valentina fechou os olhos por um instante.

E se arrependeu imediatamente. Porque a lembrança era cruel demais. O rosto de Verena tão próximo. Aquele sorriso discreto. A sensação de ter sido abraçada por alguém que, durante tanto tempo, existira apenas na tela de um celular e na própria imaginação. Abriu os olhos depressa. O professor ainda falava.

Alguém na carteira atrás dela deixou uma caneta cair. Dois alunos cochichavam perto da janela. Uma moto passou na rua. Tudo continuava normalmente. Só ela parecia ter ficado presa em outro lugar. Valentina baixou novamente os olhos para o caderno. Dessa vez, escreveu devagar.

Verena

Ficou olhando para o nome. O rosto começou a esquentar. Ela rapidamente passou o lápis sobre as letras, transformando-as numa mancha escura.

— Você tá bem?

A pergunta veio baixa.

Valentina levantou a cabeça.

Carol estava olhando para ela da carteira ao lado.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tenho.

Carol inclinou o rosto, desconfiada.

— Você não ouviu absolutamente nada da aula.

Valentina franziu a testa.

— Ouvi, sim.

— Então me fala o que ele acabou de explicar.

Silêncio.

Valentina olhou para o quadro. Depois para a amiga.

— Função...

Carol segurou o riso.

— Uhum.

— De segundo grau.

— Impressionante.

Valentina abaixou os olhos, envergonhada.

— Para.

Carol sorriu, mas não insistiu. Já conhecia aquela expressão. Havia alguma coisa diferente nela. Não era apenas distração. Valentina estava... leve. Não exatamente feliz. Ainda havia uma sombra nos olhos, uma cautela que não desaparecera depois de tudo o que aconteceu. Mas havia momentos em que ela simplesmente parecia esquecer de ter medo.

Como agora.

Carol observou a amiga durante alguns segundos. Depois olhou discretamente para o caderno. Outro coração. Ela arqueou uma sobrancelha.
Valentina percebeu. Fechou o caderno na mesma hora.

— Não começa.

Carol mordeu o canto da boca para não rir.

— Eu nem falei nada.

— Mas ia falar.

— Ia mesmo.

Valentina tentou parecer séria. Não conseguiu. Um sorriso pequeno apareceu. E foi justamente aquele sorriso que fez Carol parar de brincar por um instante. Ela estava feliz de ver aquilo. Depois de tantos dias vendo a amiga abatida, assustada, quase sem vontade de conversar com ninguém, aquele brilho discreto tinha alguma importância. Mesmo que soubesse perfeitamente de onde vinha.

— Você está com saudade dela, não está? — Perguntou baixinho.

Valentina ficou imóvel.

O sorriso desapareceu aos poucos. Ela não respondeu. Não precisava. Carol apoiou o cotovelo na carteira.

— Eu sabia.

Valentina passou a língua pelos lábios, nervosa.

— Eu não consigo parar de pensar nela.

A confissão saiu tão baixa que quase se perdeu sob a voz do professor. Carol não fez piada dessa vez.

— Eu sei.

Valentina olhou para a janela.

O céu estava claro, e uma faixa de sol atravessava o vidro, iluminando parte das carteiras.

— É estranho.

— O quê?

Ela demorou a responder.

— Eu achei que... eu ia conseguir esquecer.

Carol ficou em silêncio. Valentina apertou os dedos em volta do lápis.

— Só que parece que aconteceu o contrário.

A garganta apertou.

— Quanto mais eu tento não pensar, mais eu penso.

Carol observou a amiga por alguns segundos antes de responder.

— Talvez porque você não queira esquecer.

Valentina não disse nada. Porque era exatamente aquilo. Pela primeira vez, a culpa não estava conseguindo ocupar todo o espaço.
Ainda existia. Às vezes vinha forte, acompanhada do medo aprendido desde criança, da sensação de estar fazendo alguma coisa que não deveria sequer desejar. Mas agora havia outra coisa.

Uma saudade maior.

Uma vontade simples e quase infantil de ver Verena novamente.

De conversar com ela.

De ouvir sua voz.

De descobrir se ela também pensava nela às vezes.

Valentina abriu o caderno outra vez.

No canto da folha, quase escondido entre os exercícios, desenhou mais um coração. Dessa vez, não apagou. Carol viu. E sorriu.

— É amiga, realmente o cupido te pegou de jeito. Você está completamente apaixonada.

Valentina ficou vermelha até as orelhas.

— Carol...

— O quê?

— Cala a boca.

Carol soltou uma risadinha baixa e voltou a olhar para o quadro. Valentina tentou fazer o mesmo. Mas, alguns segundos depois, sem perceber, escreveu novamente no canto da página.

Verena

E ficou olhando para o nome. Como se escrever aquilo fosse, por alguns segundos, a única maneira que encontrara de mantê-la perto.

Assembleia Legislativa de São Paulo — 08h30

Verena chegou à Assembleia Legislativa pouco depois das oito da manhã, com a sensação incômoda de que havia esquecido alguma coisa.
Não sabia o quê. Era justamente esse o problema. Durante o trajeto até a ALESP, havia refeito a noite anterior tantas vezes que as lembranças começavam a perder a ordem. A sala de Jéssica. As gavetas abertas. Os documentos espalhados. A luz acesa até tarde demais. O cuidado quase obsessivo com que recolocara cada coisa no lugar antes de sair.

Tinha conferido a mesa.

As gavetas.

O armário.

O lixo.

Até o tampo da escrivaninha. E, ainda assim, quando o carro entrou pelo acesso reservado, a dúvida continuava ali, persistente.
Alguma coisa ficou para trás. Verena desceu do carro sem pressa. Cumprimentou os seguranças com um movimento breve de cabeça e atravessou o saguão carregando a pasta junto ao corpo.

Não havia dormido.

O terno escuro estava impecável, a camisa branca perfeitamente alinhada sob o blazer, os cabelos soltos, cuidadosamente arrumados. Os óculos escondiam parte do cansaço, embora não fossem capazes de apagar completamente as olheiras. Andava depressa. Não porque estivesse atrasada. Mas porque queria chegar ao gabinete antes que alguém tivesse tempo de lhe fazer qualquer pergunta. O corredor já estava movimentado quando apareceu.

Algumas pessoas a cumprimentaram.

— Bom dia, deputada.

— Bom dia.

— Bom dia, Verena.

Ela respondeu com acenos breves, sem diminuir o passo.

ALESP — Gabinete de Verena Castilho, 8h40

Rafaela entrou. Terno cinza-chumbo, o cabelo preso mais apertado que o normal. Na mão direita trazia um copo de café fumegante. Cumprimentou os colegas com um bom dia curto e seguiu direto para o escritório interno. Verena estava sentada, o computador ainda escuro, as duas mãos apoiadas na mesa como se só descansasse ali. Esperou uns dez segundos, mais por orgulho do que por necessidade, batendo de leve na porta entreaberta.

— Bom dia — disse Rafaela, encostando no batente.

— Bom dia.

Um silêncio. Rafaela entrou mesmo assim, sentou na cadeira do outro lado, bebericou o café mais devagar do que precisava, esperando algum sinal.

— Dormiu?

— Um pouco. — Rafaela ligou o computador, errou a senha, xingou baixinho, tentou de novo. — Você?

— Também não muito.

Nenhuma das duas continuou nessa linha.

— O Ricardo me mandou mensagem ontem de madrugada. — Rafaela comentou, mudando de assunto, olhando o celular. — Perguntando se a gente vai na inauguração daquele centro cultural sexta.

— Vai quem quiser.

— Ele quer saber se você vai.

— Depende da pauta de sexta. — Verena nem ergueu os olhos da tela. — Fala pra ele eu confirmo até quinta.

— Já falei isso semana passada.

— Então fala de novo.

Rafaela revirou os olhos, mas sorriu de canto, um resquício de normalidade entre elas que nenhuma das duas comentou.

— A pauta de hoje mudou? — Perguntou, voltando ao que importava.

— Não. — Verena parou, os dedos suspensos sobre o teclado. — Mas eu quero falar com a equipe antes da sessão.

— Sobre o quê?

— Reorganização.

Rafaela esperou o resto da frase. Não veio.

— Reorganização de quê, exatamente? Porque "reorganização" pode ser desde trocar a disposição das mesas até demitir todo mundo, e eu preciso saber qual das duas pra me preparar emocionalmente.

Verena quase sorriu. Quase.

— Fluxo de informação. Quem tem acesso a quê, como as coisas chegam até mim. — Fechou o notebook por um segundo. — O gabinete cresceu rápido demais nos últimos dois anos e ninguém parou pra revisar isso.

— Tá bom. — Rafaela anotou num post-it, sem muita convicção ainda. — Isso tem a ver com ontem?

— Tem a ver com o gabinete funcionar melhor.

— Não foi isso que eu perguntei.

Verena ergueu os olhos dessa vez, segurando o olhar de Rafaela por um segundo mais longo do que qualquer resposta verbal.

— Convoca todo mundo pra daqui a meia hora. Sala de reuniões.

Rafaela ficou parada mais um instante, decidindo se insistia. Decidiu que não, por enquanto.

— Todo mundo, todo mundo? Incluindo a comunicação?

— Sim.

— O Marcelo só entra às dez.

— Liga pra ele. Pede pra adiantar.

— Ele vai reclamar.

— Ele sempre reclama.

Rafaela riu baixo, quase contra a vontade, e saiu fechando a porta com mais cuidado que o normal.

ALESP — Sala de reuniões, 09h25

Patrícia entrou primeiro, caderno debaixo do braço, reclamando baixinho que a impressora do segundo andar tinha travado de novo. Bruno e Camila vieram logo atrás, no meio de uma discussão sobre uma emenda que precisava ser protocolada até o meio-dia — "eu falei pra você revisar isso ontem", "eu revisei, o problema é o anexo", "que anexo, Bruno" — que só se interrompeu quando perceberam que estavam entrando na sala errada.

Marcelo chegou por último, o cabelo ainda molhado, o crachá pendurado torto.

— Alguém pode me explicar por que isso não podia esperar até às dez? — Resmungou, puxando uma cadeira.

— Pergunta pra sua chefe. — Rafaela respondeu, de pé perto da porta, contando cabeças.

— Falta só a Jéssica? — Camila perguntou, olhando em volta.

— Ela não vem. Isso é interno ao gabinete.

Camila deu de ombros e voltou a mexer no celular.

Verena entrou por último, uma pasta fina debaixo do braço, e sentou na cabeceira sem cerimônia. As conversas foram morrendo aos poucos, num daqueles silêncios que se formam sozinhos quando a pessoa certa entra na sala.

— Bom dia. — Verena abriu a pasta. — Vou ser rápida porque a sessão começa às dez e meia e sei que o Bruno ainda precisa protocolar aquela emenda.

Bruno ergueu a cabeça, meio surpreso por ter sido mencionado.

— Tá quase pronta.

— Ótimo.

Verena deslizou algumas folhas pela mesa — um organograma desenhado à mão, setas, caixas.

— Vamos mudar como as informações circulam por aqui. Não é uma crítica a ninguém específico. — A frase saiu num tom que fechava qualquer possibilidade de réplica antes mesmo de alguém pensar em dar uma. — É ajuste de processo. O volume triplicou desde o ano passado e continuamos operando como se fossemos cinco pessoas numa sala.

Bruno pegou o organograma, correndo os olhos, sem comentário.

— Isso vai mudar quem manda o quê pra quem. — Verena continuou, sem esperar pergunta. — A partir de agora, qualquer documento que envolva agenda pessoal minha, compromissos externos ou correspondência direta passa só pela Rafaela.

— Isso já não era mais ou menos assim? — Camila perguntou, o tom cuidadoso, quase se desculpando pela pergunta antes de terminar de fazê-la.

— Mais ou menos. — Verena fez uma pausa breve, o tipo de pausa que sabia exatamente quanto tempo durar. — "Mais ou menos" significa que às vezes chega pra você, às vezes pro Marcelo, às vezes alguém me passa um recado sem eu saber de onde veio a informação original. Isso já causou confusão. Uma vez já causou um problema sério que eu não pretendo repetir.

Ninguém perguntou qual problema. Camila anotou. Patrícia também, os olhos fixos no papel, evitando erguer a cabeça.

— E os documentos que vêm do jurídico? — Patrícia perguntou, a voz mais baixa do que o resto da fala, como quem pisa em terreno que sabe arriscado sem entender exatamente por quê. — Pareceres, análise de projeto.

Verena não hesitou, mas também não respondeu na mesma velocidade de antes.

— Continuam vindo pro gabinete. Só que agora tudo que envolve o jurídico passa a ser centralizado pela Rafaela antes de chegar até mim.

— Por quê? — Marcelo perguntou, e a pergunta saiu mais rápido do que ele parecia ter planejado. Percebeu o próprio tom tarde demais e completou, mais contido: — Só pra eu entender o processo direito.

— Porque um canal único evita que qualquer parecer chegue até mim sem ninguém revisar antes.

— Isso não atrasa uma nota que precisa sair no mesmo dia?

— Vai passar pela Rafaela do mesmo jeito. Ela prioriza. — Verena olhou para a assessora pela primeira vez desde o início da reunião, um olhar que era mais afirmação do que pergunta. — Ela já faz isso informalmente há meses. Agora vira processo, com prazo definido.

Rafaela assentiu, o rosto neutro, anotando algo que não precisava anotar.

— E se a Jéssica precisar falar direto com a senhora? — Bruno perguntou, o tom cauteloso, medindo cada palavra antes de soltar.

Uma pausa. Pequena o bastante para passar despercebida por quase todos ali.

— Jéssica sabe onde fica minha sala. — Verena falou num tom tranquilo, quase de passagem. — Isso não muda. Estou falando de fluxo documental, não de quem pode bater na minha porta.

— Última coisa. — Verena fechou a pasta. — Qualquer contato externo que mencione escolas, eventos públicos, visitas institucionais, passa direto comigo através da Rafaela. Não pela recepção. Não pelo protocolo comum.

Patrícia ergueu os olhos do caderno, hesitando antes de falar.

— Isso inclui os convites de rotina? Formatura, esse tipo de coisa?

— Inclui tudo. Prefiro filtrar antes do que descobrir depois que fui incluída em algo sem saber.

Patrícia anotou e não insistiu.

Verena se levantou, e isso bastou como sinal de que a reunião tinha terminado. Ninguém questionou nada do que fora dito — cada item, isolado, soava plenamente justificável, e ninguém ali tinha motivo, ou coragem, de questionar em voz alta. As pessoas recolheram cadernos e celulares em silêncio, as conversas laterais só recomeçando já no corredor, baixas, longe da porta ainda aberta.

Rafaela esperou a sala esvaziar. Fechou a porta.

— "Escolas e visitas institucionais." — Cruzou os braços, encostada na mesa. — Você quer mesmo que eu acredite que isso é só sobre volume de trabalho?

Verena organizava os papéis dentro da pasta, os movimentos precisos, mais precisos do que qualquer organização de papel exigiria.

— Eu não preciso que você acredite em nada. Preciso que funcione.

Rafaela não respondeu na hora. Ficou olhando ela guardar a pasta, fechar o zíper, alinhar a alça no ombro — cada gesto contido, ensaiado, do jeito que Verena ficava quando estava mais perto de quebrar do que de qualquer outra coisa.

— Tá.

Pegou a própria pasta e saiu, sem bater a porta, sem olhar para trás, sem deixar nenhuma promessa de questionamento futuro pendurada no ar.

Gabinete de Verena — ALESP, 17h12

O gabinete estava silencioso. Lá fora, o sol baixo batia enviesado nas persianas meio abertas, desenhando listras alaranjadas sobre a mesa e sobre os papéis que Verena não tinha tocado havia uma hora. Estava diante do computador, o cursor piscando sobre um parágrafo que não avançava. Duas linhas novas. Uma terceira palavra apagada tantas vezes que já tinha perdido a conta de qual fora a primeira tentativa.

Passou a mão pelo rosto e tirou os óculos. Deixou-os sobre a mesa, fechou os olhos por um instante e tentou recuperar, na ordem, tudo o que havia acontecido desde a noite anterior.

O celular vibrou contra a madeira da mesa, um zumbido curto que ela sentiu antes de ouvir. Pegou sem olhar, do jeito automático de quem espera mensagem de assessoria. Só quando a tela acendeu, um retângulo de luz branca, é que percebeu o número estranho. Sem nome salvo. Sem foto de perfil. E, abaixo, uma fotografia anexada, o ícone de carregamento girando por um segundo antes de revelar a imagem inteira.

Abriu por hábito. E parou.

Não porque tivesse entendido o que estava vendo, mas porque reconheceu, num átimo, quem estava ali.

Valentina.

O nome chegou antes de qualquer raciocínio — um reflexo do corpo antes da mente — e foi essa velocidade que a deixou sem chão um segundo depois. Porque não era só reconhecimento. Era o que vinha tentando, havia tempo, transformar em outra coisa: em afeto administrável, em distância bem-educada, em qualquer palavra que não fosse a única verdadeira.

Levou o telefone mais perto do rosto, os dedos gelados de repente contra a lateral quente do aparelho. Valentina saía pelo portão da escola, fotografada do outro lado da rua, num ângulo baixo, paciente, de quem tinha esperado o horário certo — talvez encostado num poste, talvez dentro de um carro parado, o retrovisor ajustado. A mochila pendurada de um ombro só, puxando o corpo um pouco para o lado. O cabelo preso às pressas, uma mecha solta caindo sobre a orelha, quase tocando o colarinho da camisa do uniforme. O corpo de perfil, o olhar fixo em alguma coisa fora do enquadramento — um celular na mão, talvez uma amiga chamando de longe.

Uma cena tão comum que levou alguns segundos para Verena aceitar que alguém a tinha fotografado de propósito. E o primeiro pensamento não foi sobre perigo nenhum. Foi mais simples, e por isso mais insuportável;

Ela está linda

Detestou-se por pensar aquilo antes de qualquer coisa. Detestou-se pela velocidade com que o corpo reagiu antes que a razão pudesse intervir — o peito apertando não de medo, mas de uma saudade tão física que doía como fome, uma pontada real, localizada, logo abaixo do esterno. Fazia tempo demais que não a via de perto. Tempo demais desde que tinha se obrigado a manter a distância exata, calculada, cruel consigo mesma, porque era a única coisa decente que sabia fazer com um sentimento que não tinha nome autorizado.

Era casada. Tinha um nome público, uma vida montada sobre certas peças que não podiam ser tocadas sem desabar tudo. E, mesmo assim, ali estava, sozinha na sala vazia, o zumbido baixo do ar-condicionado como único som, ampliando a fotografia de uma garota de dezessete anos com o mesmo cuidado com que se toca algo frágil — sem procurar nada, só para vê-la melhor.

Detalhes que não deveriam importar ficaram gravados: a alça torta da mochila, o jeito de segurar o celular com os dois polegares, a curva do pescoço quando ela virava a cabeça para o lado, o brilho fraco do brinco que Verena não lembrava de ter visto antes.

Foi só na terceira vez que abriu a imagem que percebeu o que estava fazendo — não investigando, apenas olhando, do jeito que se olha alguém que se ama e do qual se foi obrigada a se afastar. O celular continuava mudo na mão, a tela ainda acesa, o brilho competindo com a luz alaranjada que entrava pela janela. Nenhuma legenda acompanhava a foto. Nenhuma ameaça escrita. Só a imagem, pousada ali como uma pergunta que ainda não tinha coragem de fazer.

Foi então que o mal-estar chegou — não aos poucos, mas de uma vez, subindo pela nuca e descendo direto para o estômago, um frio que não tinha relação nenhuma com a temperatura da sala. Não era a tensão que sentia antes de uma sessão difícil no plenário, nem o cálculo frio que precedia uma decisão política complicada. Era outra coisa.

Quem tirou essa foto?

A pergunta veio tarde, como se tivesse esperado educadamente enquanto ela ainda estava ocupada demais sentindo para poder pensar. Tocou no número. Nada — nenhuma outra mensagem no histórico, nenhum indício de conversa anterior. Voltou à imagem: uma mensagem vazia, uma fotografia, nada mais. O silêncio ali era proposital — reconheceu isso quase de imediato, com a parte da mente que ainda funcionava como deputada mesmo quando o resto dela desmoronava por dentro. Quem mandou aquilo não precisava explicar nada. A imagem falava sozinha.

E, aos poucos, veio a culpa — mais afiada, de certo modo, do que o próprio medo. Porque a primeira pergunta que deveria ter feito era sobre a segurança de Valentina. E a que realmente atravessou sua cabeça primeiro foi outra.

Será que descobriram sobre nós?

Não havia "nós" — não do jeito que a palavra sugeria, não havia nada que pudesse ser fotografado ou provado. Só havia o que Verena sentia, guardado com o mesmo rigor com que se guarda uma arma carregada, longe de qualquer lugar onde pudesse disparar sozinha. Mas alguém tinha o número dela — seu número pessoal, trocado com poucas pessoas, guardado com cuidado de segredo de Estado — e sabia o suficiente para escolher exatamente essa fotografia, exatamente esse ângulo, exatamente essa maneira de dizer, sem dizer nada.

Eu sei o que ela significa pra você.

A mão fechou em torno do aparelho com uma força que só percebeu depois, quando os dedos já estavam brancos na borda do telefone e uma marca leve tinha ficado impressa na palma. Valentina não sabia de nada. Não sabia que era observada. Não sabia o tamanho exato do que Verena sentia por ela. Nunca teria permitido que soubesse. Tinha se esforçado, dia após dia, para que aquilo nunca ultrapassasse os limites de um afeto que pudesse ser explicado em público sem que ninguém precisasse fazer perguntas.

E alguém tinha adivinhado de qualquer jeito. Ou pior: tinha visto. Se levantou sem perceber o próprio movimento — só notou que estava de pé quando a cadeira raspou no chão atrás dela, um chiado agudo que pareceu alto demais para a sala vazia. Pegou as chaves do carro sobre a mesa e ficou olhando para elas por um segundo comprido demais, o metal frio pesando na palma da mão.

É tão simples.

Bastava sair, atravessar a cidade. Podia esperar num ponto qualquer, discreta, só para ver se Valentina estava bem. Podia, ao menos, permitir-se aquele minuto de proximidade que vinha se negando havia tanto tempo — um pretexto perfeito, disfarçado de cuidado, para fazer exatamente o que o corpo inteiro implorava. O corpo inteiro parecia puxado para a porta.

Mas o raciocínio, mais devagar, foi se impondo sobre o impulso — e doeu quase tanto quanto a vontade de ir. Porque não era só o risco político. Era saber que, se fosse até lá, não conseguiria se comportar como deveria. Não conseguiria olhar para Valentina só como alguém que precisava ser protegida. Ia querer tocar o rosto dela, confirmar com as próprias mãos que estava inteira, e isso — isso seria exatamente o tipo de gesto que vinha negando a si mesma havia tempo demais para desmoronar ali, num canto de uma rua mal iluminada.

Ir não é proteção. É exposição.

Da pior espécie — não só política, mas da verdade inteira que vinha enterrando. As chaves voltaram para a mesa com um som seco, metal contra madeira, mais alto do que ela pretendia. Sentou-se de novo. As mãos ainda tremiam o suficiente para precisar apoiá-las sobre os joelhos antes de tocar em qualquer coisa. A culpa por sentir o que sentia, a culpa por ser casada e ainda assim carregar aquilo com tanta força, a culpa por, mesmo diante de uma ameaça real, ter pensado primeiro na beleza de uma jovem inocente antes de pensar no perigo — tudo isso formava um nó que ela não sabia mais separar do medo puro.

Abriu os contatos. O nome estava onde sempre esteve, num lugar da agenda que ela conhecia de cor mesmo sem precisar procurar. Olhou a última mensagem — cada vez mais raras, cada uma delas escrita e reescrita antes de ser enviada, sempre um tom abaixo do que realmente queria dizer. O polegar ficou suspenso sobre o nome por tempo suficiente para doer.

Não faz isso Verena.

Não depois de tanto esforço para manter essa distância que era, ao mesmo tempo, a única prova de amor que sabia dar. Fechou os olhos por um instante — a sala às escuras por dentro das pálpebras parecia, por um segundo, mais segura do que qualquer coisa lá fora. Quando abriu, o número desconhecido continuava ali, imóvel na tela, esperando alguma reação que ela ainda não sabia dar.

Fez uma captura da conversa. Encaminhou a fotografia para si mesma, num outro dispositivo. Guardou o original intacto. Só então, com esforço quase físico, tentou voltar a pensar como deputada — e não como a mulher que passava noites inteiras se convencendo de que aquilo ia passar, de que era só uma fase, de que dava para conviver com um sentimento contanto que ele nunca saísse do lugar onde o mantinha trancado.

Pegou o telefone. Abriu a conversa com seu segurança.

Digitou:

Preciso que você descubra a origem de um número.

Parou. Apagou. Escreveu de novo, mais devagar, o polegar hesitando sobre cada palavra:

Tenho um número para verificar. Preciso disso com discrição, e rápido.

Não enviou. Ainda não. Olhou uma última vez para a fotografia. Valentina saindo da escola, alheia a tudo, sem saber que tinha acabado de ser usada como o ponto exato onde Verena mais podia ser ferida. Porque não era vulnerabilidade política. Era o coração inteiro, exposto sem que ela tivesse dado permissão.

E foi só então que entendeu o que havia de mais cruel naquela mensagem: quem a enviara não precisara escrever uma única palavra. Bastava lembrar que, se um dia quisesse chegar até ela, já não precisava mais procurar por ela. Bastava procurar por Valentina.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

9
Z

Zanja45

24/09/2026 às 11:51

É a primeira vez que faço comentários pós - reformulação do site. -- Estou amando essa nova configuração.

E, autora seja bem vinda de volta. Demorei pra comentar, pois estava envolvida em outros projetos que demandaram meu tempo no entanto marquei presença hoje.
Z

Zanja45

24/09/2026 às 11:51

Aguardando os próximos capítulos.
Abraços!
Z

Zanja45

24/09/2026 às 11:50

É a primeira vez que faço comentários pós - reformulação do site. -- Estou amando essa nova configuração.

E, autora seja bem vinda de volta. Demorei pra comentar, pois estava envolvida em outros projetos que demandaram meu tempo no entanto marquei presença hoje.
Z

Zanja45

24/09/2026 às 11:43

Valentina como sempre ainda com saudades da deputada. E até o ato dela escrever a letra " V" já faz lembrar de Verena, dos beijos e de tudo que houve entre as duas.
Mas também não tem como não pensar, pois apesar da distância física, ela ainda nutre sentimentos por Verena.
Z

Zanja45

24/09/2026 às 11:39

Essa reorganização que Verena está fazendo no gabinete, pra tentar filtrar as coisas, os eventos que vem direcionada a ela. Tem cunho preventivo, né isso?

Essa foto que enviaram de Valentina, já diz tudo sobre essa medida. No entanto balançou o coração da deputada. Todavia ela já sabe que os adversários sabem com chegar até ela.
Z

Zanja45

24/09/2026 às 11:34

Quero ver como Verena reagirá diante da confirmação da gravidez. Porque Silvia já não cabe em si de tanta felicidade, mas Verena é controvérsia nas emoções. Apesar de ela ter participado ativamente no processo, contudo foi meio na pressão para sustentar uma situação que ela não tem coragem de resolver. -- E não quer.
T

Thalita31

08/09/2026 às 18:36

Na minha opinião, Sílvia é aquela que, ao longo da história, foi a que mais foi humilhada, traída e enganada. E eu compreendo esse desejo dela de ter uma família com aquela com quem ela compartilha uma vida há tanto tempo e que seu coração ainda pulsa de amor. Que mal há nisso?

Por isso, torço pela Silvia e pela possível gravidez dela também; ela merece realizar esse sonho. Muito embora ela vá carregar os genes da cidadã.

Devo ser sincera e dizer que achei que você estivesse romantizando a traição, sim..

Inclusive, acho essa história com algumas semelhanças com o caso do jogador Hulk. Há especulações de que ele traiu a esposa e mãe dos três primeiros filhos com a sobrinha dela e ainda a jogou para escanteio para assumir a moça.

A moça é bem mais nova que a esposa. Tal como a bandida e a santinha.

Mas fico contente em saber que estava enganada e que você é justa e não romantiza essas situações.

Particularmente, sou apreciadora da premissa que diz que o que é plantado também é colhido. Respiro a paz porque agora sei que as consequências virão. No final, eu torço por elas, sempre.

No mais, te parabenizo pela descrição muito bem feita dos estados psicológicos das personagens e agradeço pela atenção e respostas aos comentários anteriores.

Até o próximo capítulo!
S

sky

07/09/2026 às 07:02

Liz!!! Caramba...quase que dava uma de samurai na sua direção garota!
As coisas não serão fáceis apartir daqui...
Foto de Deméter

Deméter

06/09/2026 às 23:18

Que bom que voltou.
Espero que esteja tudo bem.
Que aflição...
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