• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Entre Votos e Silencios
  • Foto 42

Info

Membros ativos: 9614
Membros inativos: 1622
Histórias: 1995
Capítulos: 21,124
Palavras: 53,576,158
Autores: 816
Comentários: 109,191
Comentaristas: 2603
Membro recente: OutroMundoLA123

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • O e-book do Desafio das Imagens do Lettera — Maio de 2026 chegou!
    Em 25/06/2026
  • Desafio das Imagens 2026
    Em 23/04/2026

Categorias

  • Romances (886)
  • Contos (478)
  • Poemas (236)
  • Cronicas (232)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Um amor que tinha que acontecer!
    Um amor que tinha que acontecer!
    Por adoravelpsi
  • Gelo Sob o Fogo
    Gelo Sob o Fogo
    Por Lady Texiana

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Maldito Platão
    Maldito Platão
    Por Carol Barra
  • O visitante
    O visitante
    Por caribu

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (886)
  • Contos (478)
  • Poemas (236)
  • Cronicas (232)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Entre Votos e Silencios por anonimo2405

Ver comentários: 10

Ver lista de capítulos

Palavras: 4510
Acessos: 376   |  Postado em: 31/05/2026

Foto 42

Casa da Família Moraes — Ipiranga, 16h15

O silêncio na casa térrea era uma raridade sufocante.

Ana Paula tinha levado Isadora ao posto de saúde para tomar vacina, e Carlos só voltaria do bico na obra depois do anoitecer.

Valentina estava sentada na mesa da cozinha, cercada por apostilas do terceiro ano. A caneta esferográfica barata com a tampa mastigada repousava inerte sobre o caderno de História. A cabeça não conseguia reter uma única linha. A lembrança do carro escuro na saída da escola ainda a assombrava, misturando-se à dor humilhante do abandono.

O som agudo de uma buzina quebrou o silêncio da rua. Em seguida, duas palmas fortes ecoaram na frente do portão de ferro enferrujado.

Valentina piscou, despertando do transe. Arrastou os chinelos pelo piso de ardósia da sala e espiou pela fresta do muro. Um motoboy de capacete escuro, montado numa moto desgastada, segurava um envelope pardo pequeno.

— Entrega pra Valentina Moraes! — A voz dele saiu abafada pelo acrílico.

A garota franziu a testa. Abriu o portão de chapa de aço apenas o suficiente para passar a mão. Assinou uma prancheta amassada sem fazer perguntas, pegou o pacote e trancou o cadeado assim que a moto arrancou, sumindo na ladeira.

Caminhou de volta para a cozinha, girando o envelope nas mãos.

Não havia remetente. Apenas o nome dela impresso numa etiqueta adesiva branca. O papel pardo era forrado com plástico bolha por dentro. Um pacote pequeno. Leve, mas com um volume rígido no centro.

Valentina sentou à mesa. A respiração acelerou sem motivo lógico. Com os dedos trêmulos, rasgou a ponta do papel e virou o conteúdo sobre a toalha de plástico.

O objeto deslizou e bateu na mesa com um clique metálico.

Era um estojo fino de veludo preto.

O coração de Valentina parou.

A cautela sumiu. Ela puxou a tampa do estojo. Repousando sobre o forro claro, havia uma caneta executiva. Metal escovado, pesada, com detalhes em prata. Exatamente igual à que Verena havia ganhando da deputada, meses atrás, quando sua vida virou de cabeça para baixo.

O ar desapareceu dos pulmões da garota.

As lágrimas, represadas por dias de vergonha e medo, finalmente transbordaram. Desceram quentes e silenciosas pelo rosto pálido.

Valentina tocou o metal frio da caneta com a ponta dos dedos.

Ela não me esqueceu. A rejeição imaginária desmoronou como um castelo de areia. O silêncio repentino de Verena, a humilhação no carro com Silvia no viva-voz... tudo foi engolido pela certeza avassaladora de que a deputada ainda pensava nela. Em sua cabeça, aquele não era um pacote anônimo. Era um pedido de desculpas. Uma promessa silenciosa de que, apesar da esposa perfeita e do cargo no Planalto, Verena Castilho ainda pertencia a ela.

O peso da culpa religiosa e o senso de autopreservação desapareceram, varridos por um alívio doentio.

Num impulso febril, Valentina pegou o celular com a tela trincada. Abriu o chat que vinha encarando como um cemitério nos últimos dias. Os dedos tremiam tanto que ela errou as letras duas vezes antes de conseguir digitar. A barreira do medo não existia mais.

“Chegou. Obrigada por não esquecer de mim. Eu sinto tanto a sua falta.”

Apertou enviar.

Um tique cinza. Dois tiques cinzas.

Valentina bloqueou a tela e abraçou o estojo de veludo contra o peito, fechando os olhos, chorando de alívio no silêncio da cozinha simples. Ela se sentia amada. Escolhida. E não fazia ideia de que acabara de puxar o pino de uma granada.

Assembleia Legislativa de São Paulo — Gabinete de Verena Castilho, 16h32

O silêncio no gabinete era quebrado apenas pelo som áspero dos dedos de Rafaela esmurrando o teclado do laptop.

A assessora estava sentada na ponta da mesa, os olhos cravados nas planilhas criptografadas. O cerco do dossiê parecia um labirinto sem saída. Verena estava de pé perto do frigobar, de costas para a amiga. A mão esquerda massageava a têmpora latejante. A direita, enfaixada, repousava sobre o mármore frio.

O celular de Verena, esquecido sobre a mesa de centro de vidro, vibrou. Um zumbido curto. A tela acendeu. A parlamentar virou o rosto com lentidão, a exaustão pesando nos ombros. Deu dois passos e pegou o aparelho.

A notificação brilhava na tela de bloqueio. O nome Valentina atravessou a retina de Verena como uma agulha. Ela não havia mandado nada. Nem um ponto final. Havia cortado o contato com a força de quem amputa o próprio braço. O polegar trêmulo tocou a tela, expandindo a mensagem.

“Chegou. Obrigada por não esquecer de mim. Eu sinto tanto a sua falta.”

O sangue de Verena congelou nas veias. O oxigênio sumiu do gabinete. A bile subiu à garganta, ácida e violenta. Suas pernas cederam uma fração de polegada, o joelho esbarrando no vidro da mesa com um baque surdo.

O barulho do teclado parou.

Rafaela ergueu os olhos da tela. Viu a postura travada da deputada e caminhou rápido até a amiga. Sem pedir licença, arrancou o celular da mão frouxa de Verena.

Os olhos cínicos da assessora desceram para a tela iluminada. Ela leu a mensagem. Uma vez. Duas vezes. O maxilar de Rafaela travou. A preocupação evaporou, substituída instantaneamente por uma fúria ácida e incrédula.

— Você é inacreditável, Verena. — Rafaela rosnou, jogando o aparelho na mesa de vidro com um estalo violento. — Eu te dou uma ordem expressa de manhã pra cortar a porr* do contato. Eu te aviso que a menina é um alvo. E o que você faz? Manda um presentinho romântico no meio da tarde?!

Verena continuou paralisada, os olhos arregalados cravados no aparelho apagado.

— Responde, caralh*! — Rafaela avançou um passo, apontando o dedo na cara da deputada. — Você quer foder a gente de propósito? Quer acabar na cadeia por causa de um capricho com uma adolescente?!

A acusação bateu no rosto de Verena e estilhaçou a paralisia. O pânico puro se misturou a uma raiva visceral.

— Desde quando você ficou tão burra, Rafaela?! — Verena explodiu. O grito rasgou o gabinete, gutural e desesperado. Ela empurrou a mão da assessora para longe. — Eu não mandei nada! Eu não liguei, eu não escrevi, eu não mandei porr* nenhuma pra ela!

Rafaela recuou meio passo, o cenho franzido numa máscara de ceticismo puro.

— Ah, claro. O presente se materializou na casa dela por milagre. Para de mentir pra mim, Verena! Assume a merd* que você...

— Olha pra minha cara! — Verena avançou, agarrando os ombros de Rafaela com as duas mãos, a direita enfaixada apertando o tecido do blazer da amiga com uma força descomunal.

Rafaela parou.

As palavras da assessora morreram na garganta. Ela olhou para o rosto da mulher a sua frente. A raposa política não estava ali. A mulher arrogante e calculista tinha sumido. O que restava era uma pessoa em choque profundo, pálida como cera, tremendo da cabeça aos pés. Havia terror real nas pupilas dilatadas de Verena.

O ceticismo de Rafaela rachou. A mente conectou as peças no escuro, e a verdade despencou sobre ela como uma bigorna.

— Puta que pariu... — Rafaela sussurrou. A cor fugiu do seu próprio rosto. Ela olhou para a mesa, para o celular, e de volta para Verena. — Não foi você.

— Alguém foi até lá. — A voz de Verena saiu esganiçada, quebrando no final. Ela soltou os ombros da amiga, as mãos caindo inertes ao lado do corpo. — Alguém parou na porta da casa dela. Entregou um pacote nas mãos dela e fez ela achar que era meu.

O silêncio que se seguiu foi asfixiante. A gravidade da situação esmagou o gabinete.

— Eu preciso ir até lá. — O instinto primitivo assumiu o controle. Verena recuou um passo, tropeçando no próprio pé, ofegante. — Eu preciso tirar a Valentina daquela casa, eu preciso...

— Não! — Rafaela agarrou o pulso esquerdo da deputada com brutalidade. A assessora já estava em modo de guerra. — Seja lá quem for que tá operando isso, não tá pra brincadeira. É exatamente isso que eles querem. Querem você desesperada, correndo pro Ipiranga, confirmando o seu ponto fraco. Se você aparecer lá, eles detonam a bomba. 

— Eu não posso deixar ela lá sozinha achando que o pacote é meu! — Verena rebateu, a angústia rasgando a garganta. — Eles podem voltar!

— Se eles quisessem entrar, já tinham entrado. Eles são profissionais, Verena. Tão jogando xadrez. E acabaram de te dar um xeque. — Rafaela soltou o pulso de Verena, o olhar cravado no dela, implacável.

— A gente espera. — A assessora repetiu, a voz carregada de pragmatismo. — Não vamos fazer nenhum movimento brusco.

Mas a ordem soou distante, como se viesse do fundo de um aquário. Os olhos de Verena continuavam cravados no celular deitado no vidro da mesa de centro.

ALESP — Gabinete de Verena Castilho, 17h03

O silêncio do ambiente blindado era absoluto, quebrado apenas pelo ar-condicionado. No centro da mesa de vidro, o aparelho descansava como uma ogiva não detonada.

“Eu sinto tanto a sua falta.”

A frase queimava o ar. A racionalidade política de Verena exigia a inércia total. Era a única defesa plausível. Mas a mulher por baixo do terno de alfaiataria estava esfacelada. A imagem de Valentina sozinha na casa simples, abraçada a um pacote letal, implorando por afeto, estraçalhou a última barreira de autocontrole da deputada.

Se esperasse no escuro, o próximo movimento do chantagista seria fatal. Ela precisava de um rosto. De um rastro. De qualquer migalha que iluminasse a identidade de quem havia cruzado aquela linha.

Verena caminhou até a mesa. Agarrou o celular.

A respiração saía curta, rasgando a garganta seca. Os dedos longos deslizaram pela tela, abrindo o chat clandestino. O que estava prestes a fazer era abjeto. Manipularia a carência da garota, vestir a pele da amante saudosa para arrancar uma confissão sem que Valentina percebesse a teia macabra em que estava metida.

O fundo do poço moral de uma mulher encurralada.

Verena:

Eu também sinto muito a sua falta, pequena. Queria ter entregado pessoalmente.  Foi tranquilo receber? O entregador foi discreto com você?

O polegar hesitou por uma fração de segundo. E apertou o botão azul.

Verena fechou os olhos, o peso do próprio cinismo esmagando o peito. A mão direita, sob o curativo, apertava a borda da mesa até os nós dos dedos ficarem brancos. O celular vibrou. A resposta de Valentina era a prova nua e crua de uma devoção cega.

Valentina:

Foi sim. Um motoboy, não tirou nem o capacete. Ninguém em casa viu. Eu amei a caneta. Muito obrigada. Eu não paro de pensar em você.

A tela do celular apagou, deixando Verena no escuro de seus próprios pensamentos. A palavra caneta ecoava em sua mente como um alarme de incêndio. O inimigo não era um fantasma contratado por terceiros. Era uma testemunha ocular da sua intimidade.

Ela jogou o aparelho no sofá de couro e caminhou a passos rápidos até a mesa principal. O mouse de acrílico deslizou sob a mão ilesa. A luz fria do monitor de vinte e sete polegadas iluminou o rosto pálido e as olheiras fundas da deputada. Verena acessou o servidor interno da equipe de comunicação, digitando a senha com pressa.

Três cliques secos.

Pasta: Arquivos_Gabinete > Eventos_Externos > Visita_Escola_Ipiranga.

Dezenas de miniaturas carregaram na tela. Fotos em alta resolução do dia em que a ruína havia começado a ser desenhada.

Verena começou a passar as imagens. A lente do fotógrafo oficial capturara tudo. O pátio descascado, os alunos da escola pública enfileirados, o diretoria suando para se mostrar competente. E lá estava ela, sorrindo com a falsa benevolência de uma política em campanha constante.

Seta para a direita. Seta para a direita. O coração batendo na base da garganta.

A respiração de Verena travou.

A foto número quarenta e dois mostrava o momento exato. Verena levemente inclinada, o braço estendido, entregando a caneta executiva para uma Valentina tímida, que abaixava os olhos, nitidamente encantada com a proximidade da deputada.

Mas Verena não olhou para si mesma, nem para a garota. O olhar treinado varreu o fundo da imagem.

O desfoque da lente não foi suficiente para esconder quem estava a menos de três metros de distância. Encostada numa pilastra do pátio, com os braços cruzados e uma expressão de puro tédio calculista, uma mulher observava a interação.

Jéssica.

O sangue de Verena ferveu de forma instantânea. Soltou o mouse. Recostou-se devagar na cadeira de couro, os olhos escuros cravados no rosto da jurista congelado no monitor.

— Filha da puta. — A voz de Verena saiu num sussurro ríspido, rasgando o silêncio do ar-condicionado.

Passou a mão ilesa pelo rosto, uma risada seca e sem o menor traço de humor arranhando a garganta. O cinismo da situação era quase poético. Passara dias no plenário procurando atiradores de elite, enquanto o carrasco tomava café expresso no mesmo corredor.

O pânico asfixiante que a dominava começou a recuar, empurrado por uma raiva gélida, densa e absoluta. Verena Castilho não era mais uma presa correndo no escuro. Finalmente tinha um rosto para o qual mirar. E no jogo político, saber o nome do adversário era metade da execução.

Assembleia Legislativa de São Paulo — Gabinete de Verena Castilho, 17h30

A trava eletrônica da porta zumbiu e a madeira foi escancarada com um puxão brusco.

Rafaela, que passava pelo corredor com uma pasta de arquivos, parou no meio do passo. A expressão de censura já estava pronta no rosto da assessora, mas morreu antes de ser verbalizada.

A mulher apavorada de dez minutos atrás não existia mais. Verena estava de pé na soleira, os ombros tensos, o olhar escuro brilhando com uma lucidez afiada e febril. A adrenalina substituíra o pânico.

— Entra. — A ordem de Verena foi seca. Cortante.

Rafaela franziu o cenho, empurrando a porta com o ombro e entrando no gabinete. O trinco girou logo em seguida.

— Tranca essa porta. — A ordem de Verena foi um chicote.

— O que foi agora? — A assessora perguntou, o tom desconfiado. — O Barros convocou coletiva?

— Foda-se o Barros. — Verena caminhou a passos duros até a escrivaninha. A postura exalava a urgência de um predador que finalmente farejou sangue. — Eu sei quem montou o dossiê. Eu sei quem entregou a porr* do pacote pra ela.

Rafaela estacou no meio da sala. Os olhos cínicos varreram o rosto da deputada, buscando o fio solto daquela loucura.

— Como você sabe? — A voz da assessora baixou, perigosa. — Verena. O que você fez?

Verena sustentou o olhar, o maxilar rígido. Não havia espaço para recuar.

— Eu mandei mensagem pra ela.

A pasta de couro escorregou da mão de Rafaela e bateu no tapete com um baque surdo. A fúria que tomou o rosto da assessora foi instantânea, uma explosão de puro ódio contido.

— Sua irresponsável do caralh*! — Rafaela avançou, o dedo em riste. — Você quer destruir a sua vida de propósito, caralh*?! Quer levar todo mundo pro buraco junto com você?! Eu acabei de te dizer pra sumir, pra não dar a confirmação que eles queriam...

— Cala a porr* da boca e olha pra essa tela, Rafaela! — Verena cortou o sermão num grito rasgado, batendo a mão ilesa no tampo da mesa com tanta força que os porta-canetas tremeram.

A violência do gesto paralisou a assessora. Verena apontou para o monitor, a respiração pesada, ofegante.

— Eu mandei a mensagem porque precisava saber com o que a gente tava lidando e você tava cagando de medo de agir! Ela respondeu. Foi um motoboy de aplicativo e ela disse que "amou a caneta".

O cenho de Rafaela franziu, a raiva freando no meio do caminho, atropelada pela confusão.

— Caneta? Que caneta, Verena?

— A exata caneta executiva que eu tirei do meu bolso e dei pra ela no dia do evento na escola dela. — A voz da deputada desceu para um tom ríspido, gélido. — O dono do dossiê não é um hacker. Não é o Fontes. É alguém que sabia desse detalhe microscópico. Alguém que estava lá. Assistindo.

Verena girou o monitor com brutalidade. A foto quarenta e dois brilhava na tela. O momento da entrega. O braço estendido. E, no fundo, perfeitamente nítida em seu tédio calculista, a chefe do departamento jurídico.

Rafaela olhou para a imagem.

Por um segundo, o gabinete pareceu perder a gravidade. A pele de Rafaela perdeu a cor. Os olhos da assessora congelaram no rosto de Jéssica encostada na pilastra. Um espasmo quase imperceptível de pânico cruzou seu rosto antes que a máscara de pragmatismo voltasse, dura e rígida como concreto.

— É a Jéssica. — Verena sentenciou, a certeza absoluta pingando de cada sílaba. — Ela odeia a minha sombra. Ela revisa cada vírgula dos nossos contratos. Ela não tá no esquema, mas é a porr* da advogada do gabinete. Ela lê as entrelinhas. Viu o que não devia lá e montou a guilhotina pra limpar a casa e tomar o controle.

Rafaela engoliu em seco. Seu olhar da assessora, tão focado e implacável, oscilou. Ela desviou a visão do monitor com uma rapidez não natural e cruzou os braços com força, como se tentasse segurar a própria estrutura.

— Você tá delirando. — A voz de Rafaela soou áspera. Defensiva demais. — A Jéssica não tem estômago pra isso.

Verena estreitou os olhos. A resposta não desceu.

— Estômago? — A deputada deu a volta na mesa, parando a centímetros da assessora. — Ela é uma cascavel, Rafaela. Acha que eu não sei qual é o jogo daquela doente?

— Ela não é suicida! — Rafaela rebateu, o rosto manchando de vermelho, a veia do pescoço pulsando. — Se ela expõe o esquema, ela joga o próprio departamento jurídico na fogueira! A OAB dela vira pó, Verena! Você pegou uma foto de uma agenda pública, juntou com uma crise de paranoia e tá tentando achar um bode expiatório pra merd* que você fez!

— Bode expiatório?! — Verena riu, uma risada ríspida, incrédula. A raiva começou a transbordar. — Ela tava a três metros de distância! Ela sabia da caneta! Ninguém mais além dela teria como cruzar essa informação com as fotos da Valentina e amarrar tudo num dossiê perfeito!

— Qualquer assessor de merd* teria visto você babando na menina Verena, acorda! — Rafaela gritou, empurrando o ombro de Verena para trás. — O seu problema é que você não assume a sua culpa! Você quer foder a Jéssica porque ela não baixa a cabeça pra suas ordens! Porque ela é a única pessoa nesse andar que não bate palma pro seu ego!

O tapa moral desferido por Rafaela atingiu Verena no estômago. O clima no gabinete apodreceu de vez.

— Você tá defendendo ela? — A voz da deputada baixou para um sussurro letal. O olhar escuro varreu o rosto tenso da amiga, farejando a fraqueza. — Você tá defendendo a filha da puta que armou a minha forca, com a porr* da prova na sua cara? Por quê?

O silêncio era uma bomba-relógio.

— Você ainda tá fodendo com ela, Rafaela? — Verena cuspiu a pergunta, nojenta e direta. — O "caso terminado" é mentira? Você ainda tá afundando a cara no meio das pernas  da mulher que quer me colocar na cadeia?

Foi a faísca na dinamite.

Rafaela avançou. Não foi um empurrão, foi um ataque. Ela agarrou as lapelas do blazer de seda de Verena com as duas mãos, prensando a deputada contra a quina da escrivaninha de madeira com uma força brutal. O monitor balançou.

— Não ousa. — Rosnou a um palmo do rosto de Verena, cuspindo as palavras, os olhos brilhando em puro ódio, insanos. — Não ousa abrir a sua boca suja pra falar da minha vida!

— Me solta! — Verena tentou quebrar o aperto, mas Rafaela a prensou com mais força, a veia do pescoço saltando.

— Eu limpo a sua sujeira há cinco anos! — O grito de Rafaela rasgou a garganta. — Eu minto pra sua esposa! Eu seguro o seu casamento de fachada! E você tem a audácia de questionar a minha lealdade?!

— Ela é a traidora! — Verena gritou de volta, presa contra a mesa.

— Você é a traidora! — Rafaela sacudiu Verena com violência. — Você traiu a Silvia! Você traiu a campanha! Você colocou a porr* do nosso mandato numa bandeja pra qualquer um degolar a gente! Se você acha que a Jéssica é a mente criminosa só porque você é uma covarde incapaz de olhar pro próprio umbigo, vai em frente! Esfola o jurídico! Mas não joga a sua imoralidade de merd* pra cima de mim!

Rafaela soltou a deputada com um solavanco que fez Verena bater o quadril na mesa.

A assessora deu um passo para trás, a respiração saindo em jatos quentes, o peito subindo e descendo descontrolado. O asco no rosto de Rafaela era absoluto.

Verena não piscou. O distanciamento entre as duas nunca havia sido tão abissal.

— Eu vou provar. — A deputada sussurrou, a frieza tomando o lugar da raiva. — Eu vou esfolar o jurídico inteiro até achar o rastro desse dossiê. E quando eu esfregar a prova na sua cara, eu espero que você saiba escolher de que lado da mesa você senta.

Rafaela deu as costas, pisando duro em direção à porta. Destrancou o trinco com violência e olhou por cima do ombro uma última vez, o rosto esculpido em puro desprezo.

— A diferença entre mim e você, Verena, é que eu não preciso destruir a vida dos outros pra me sentir viva. Vai pro inferno com as suas provas.

ALESP — Departamento Jurídico, 21h15

O silêncio do Palácio 9 de Julho à noite era um monstro de concreto.

Sem o burburinho de engravatados, o zumbido das negociações e o flash das câmeras, os corredores do terceiro andar pareciam um mausoléu banhado pela luz fria e intermitente das lâmpadas fluorescentes de emergência.

Verena caminhava como um fantasma.

O blazer de alfaiataria azul-marinho havia ficado no sofá do seu gabinete. As mangas da camisa de seda branca estavam dobradas até os cotovelos, o tecido amassado grudando na pele coberta por um suor frio e doentio. A mão direita, sob a fita micropore manchada nas bordas, latej*v* no compasso de uma taquicardia que ela não conseguia controlar.

Parou diante da porta de vidro fosco no final do corredor.

Jéssica Trindade — Chefe do Departamento Jurídico.

A sala da arquiteta da sua forca.

Verena olhou para os dois lados do corredor vazio. As câmeras de segurança do andar focavam apenas nos elevadores e na recepção principal. O ponto cego perfeito, uma falha estrutural que ela mesma havia exigido anos atrás para blindar as reuniões sigilosas de seu mandato. A ironia era ácida: sua própria proteção agora servia de manto para invadir o território inimigo.

Digitou o código mestre de acesso no teclado digital da fechadura. A luz verde piscou. O trinco estalou com um som metálico que pareceu um tiro no silêncio. Verena empurrou a porta e entrou, trancando a fechadura por dentro imediatamente.

A sala estava mergulhada na penumbra. O cheiro de aromatizador de lavanda e papel impresso pairava no ar gelado. O escritório de Jéssica era a antítese do caos que habitava sua mente: minimalista, estéril, milimetricamente organizado. Os livros de Direito Administrativo alinhados por altura. A mesa de tampo de vidro sem uma única mancha de dedo.

Verena caminhou até ela. A respiração saía pela boca, curta e áspera.

Precisava de um rastro. Qualquer coisa. Um celular descartável jogado no fundo de uma gaveta, uma impressão de página de internet com o endereço da escola, um pedaço de papel com a placa de seu carro, um extrato de transferência bancária para o aplicativo do motoboy. A prova de que a mulher metódica que dormia com sua assessora era o seu carrasco invisível.

A deputada puxou a primeira gaveta.

Pastas suspensas com etiquetas impressas em máquina. Apenas minutas de projetos de lei em tramitação. Verena começou a folhear os papéis com uma brutalidade contida. O papel cortou a lateral do seu polegar esquerdo, mas ela não sentiu.

Abriu a segunda gaveta. Materiais de escritório. Clipes, post-its, um estojo de canetas grifatexto alinhado por cor.

— Onde você escondeu, sua desgraçada? — O sussurro de Verena rasgou a penumbra, a voz trêmula, rasgada pela falta de juízo e pelo esgotamento psicológico.

Ela passou para os armários baixos atrás da mesa. Ajoelhou-se no tapete felpudo, ignorando a dor nos joelhos. Escancarou as portas duplas de laca preta. Caixas arquivo. Arrancou a primeira tampa. Contratos de licitação do ano anterior. Papelada oficial, limpa e auditável. Nada das planilhas paralelas. Nada da Lilian. Nada de Valentina.

O desespero começou a turvar a visão da deputada. O ar da sala encolheu.

Ela jogou a caixa no chão. Os papéis se espalharam pelo tapete. Ela não se importou. Agarrou a segunda caixa. A terceira. Virou tudo no chão, caçando feito um cão acuado, revirando o ventre do departamento jurídico. Vasculhou debaixo do teclado, tateou o fundo falso da lixeira de metal, ergueu os quadros com diplomas na parede procurando um cofre embutido.

Cinco minutos se passaram. Dez. Quinze.

O escritório outrora impecável de Jéssica parecia ter sido atingido por um furacão de categoria cinco. Arquivos espalhados, gavetas escancaradas, cadeiras fora do lugar.

Verena parou no meio da destruição. O peito subia e descia violentamente.

Suas mãos estavam vazias.

Não havia nada.

Nenhum celular. Nenhum dossiê. Nenhuma foto do motel ou da garota. Apenas a limpeza asséptica de uma advogada que não deixava rastros, nem pontas soltas, nem digitais na cena do crime. Jéssica era um fantasma jurídico.

A compreensão bateu em Verena com a força de uma marreta.

Ela havia perdido.

A exaustão mental e o pânico absoluto colidiram, criando uma massa crítica insuportável no estômago da deputada. Um grito entalado na garganta a sufocava, espesso e doloroso. Ela estava no escuro, sangrando, amarrada à sua própria culpa, enquanto a inimiga passeava livre sob a luz do sol, controlando a porr* da mente da sua melhor amiga.

O instinto de autodestruição atingiu o pico. Verena quis destruir o monitor de vidro com as próprias mãos. Quis arrancar os livros da estante e jogar tudo pela janela. O desejo visceral, quase incontrolável, era pegar um isqueiro, encharcar aquela sala de álcool, trancar a porta e riscar o fósforo.

Uma bomba. Era isso que queria soltar ali dentro. Deixar tudo queimar até virar cinzas, mesmo que o fogo a engolisse junto. Se iria afundar, que o Palácio inteiro derretesse com ela.

Ela cravou as unhas da mão esquerda na própria palma até a pele ameaçar rasgar, fechando os olhos com força, o corpo inteiro tremendo num colapso de adrenalina inútil e impotência absoluta.

 

Verena Castilho estava de joelhos no chão, esmagada pela certeza de que cavara a própria cova e, de alguma forma sádica, havia perdido até o direito de saber quem jogaria a última pá de terra.

Fim do capítulo

Notas finais:

Gente, boa noite!

Vamos lá, quanto tempo. 2 meses né. Não esperava ficar tanto tempo fora. Sei que vcs estão impacientes e com razão. Infelzimente, nãom posso prometer que conseguirei atulaizar com uma frequência alyta, pelo menos não por en1quanto. Mas obviamnete tbm não demorar tanto tempo pra atualziar.

Bom, quem continou até aqui, peço mil deculpas, em nenhum momento pensei em abandonar a história, mas sei que deixei vcs na mão. Bom, espero que gostem e vem mais emoção por aí rsrs.

OBS.: Um olho aqui e no jogo do Barsil rsrs, não sou ligada em futebol, mas é Brasil né rsrs.

Abraço pessoal! Fiquem com Deus! :)


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior

Comentários para 55 - Foto 42:
N@ty
N@ty

Em: 08/06/2026

Eu gosto assim totalmente visceral...

Eu já não consigo tentar imaginar qual será o desfecho de Verena, Valentina.

Verena vive um castelo de mentiras

Está merecendo passar pelo inferno

Só está colhendo seus frutos

Valentina tem 17 anos, é vítima de certa forma

Porém também refém das próprias escolhas

Você está nos deixando ansiosa demais

Eu fiquei 1 mês sem olhar o site

Entrei apenas um capítulo 

Mas o que me conforta é saber que você pretende ir até o fim.

E vamos torcer pro Brazuca

Que façam por merecer!

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Thalita31
Thalita31

Em: 05/06/2026

Torço muito para que a pessoa que está amedrontando a víbora mais velha não hesite e torne público os podres dela logo. A cobrinha mais nova também deve arcar com as consequências de suas escolhas, é tanto quanto a criminosa. Ambas merecem ser desmascaradas, principalmente por fazerem a digníssima de idiota por mais de 50 capítulos. Aguardo com expectativa por isso. 

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 01/06/2026

A pergunta que ficou na minha foi essa : __ Será que a megerea da Jéssica quis apenas mandar um recado para Verena ? Ou ela implantou algum circuito de vigilância naquela caneta? Por exemplo um microfone embutido ou uma micro câmera ou até um localizador? Ou estou assistindo a muitos filmes de espionagem e estou viajando onde não tem ? Kkkk!

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 01/06/2026

Eh, Autora, mas sua ida foi magistral, foram muitos capítulos seguidos. E agora retorna de forma avassaladora, com um episódio eletrizante. Eu esperava que em meio a bagunça que Verena fez achasse algo que incriminassr Jéssica. Fiquei na torcida até os últimos minutos do segundo tempo, igual você aí torcendo pela seleção brasileira. E aí o Brasil ganhou pelo menos? Porque Verena não encontrou nadinha de nada. Mas também, uma pessoa metódica e meticulosa não iria deixar pontas soltas no local em que ela trabalha.

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 01/06/2026

A discussão entre Verena e Rafa foi bem enérgica, a prensada que a deputada sofreu e o dedo em riste foi uma reparação. Vamos colocar assim, pois Rafa passou por maus bocados muitas vezes nas mãos de Verena. Então, ela não deveria reclamar de nada, porque o troco veio a galope, só faltou levar um coice. Rsrsrs!

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 01/06/2026

Verena está sem moral com Rafaella, depois de ter aprontado tanto, agora, apesar das evidências apontarem para Jéssica, ela foi desacreditada pela amiga. Que não quer enxergar o que a peguete é capaz de fazer para derrubar Verena e alçar ela no lugar. Ela mesma tentou alertar Verena algumas vezes do perigo que Jéssica representava. No entanto, agora ela que passar pano para Jéssica. Deve ser porque ela está comendo nas mãos de Jéssica ou entre as pernas como Verena colocou. Rsrsrs!

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 01/06/2026

O faro investigativo de Verena é muito bom, ela rastreou o momento até chegar ao suspeito. -  Quem diria que uma imagem poderia revelar tanto? O desprezo calculista de Jéssica por ter achado um ponto de fraqueza a explorar.


 

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 01/06/2026

Tadinha de Valentina, acreditando na ilusão que Verena não se esqueceu dela. - Esse caneta que ela recebeu de presente foi uma bomba - relógio, pois desistabilizou Verena que já estava com a corda no pescoço. Mas também fez com quem ela usasse a cabeça, mesmo com as restrições impostas pelo momento crítico. Ela furou o bloqueio, investigou e achou o suposto traidor.

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Zanja45
Zanja45

Em: 01/06/2026

Oi, Verena bagunçou geral o escritório de Jéssica. Quero ver como ela vai por tudo no lugar sem levantar suspeitas. Gostei da Verena terrorista querendo explodir tudo. Kkkk!

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Sem cadastro
Sem cadastro

Em: 01/06/2026

Oi, Verena bagunçou geral o escritório de Jéssica. Quero ver como ela vai por tudo no lugar sem levantar suspeitas. Gostei da Verena terrorista querendo explodir tudo. Kkkk!


Mony2509

Mony2509 Em: 30/06/2026
Não adianta acompanhar essa história, demora demais para atualizar, ruim de verdade.


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web