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Entre Votos e Silencios por anonimo2405

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Palavras: 7402
Acessos: 602   |  Postado em: 02/04/2026

Ameaças

Motel Solaris — Quarto 42, 22h13

O caco de vidro escorregou dos dedos manchados de Verena. Caiu no tapete com um baque surdo. Ela afrouxou o peso do corpo, recuando milímetros. Sob ela, a tensão nos músculos de Lilian desapareceu de uma vez. Os olhos escuros reviraram, a respiração pesada falhou num suspiro rasgado, e a cabeça da jornalista tombou mole para o lado.

O coquetel de álcool, química, falta de ar e adrenalina finalmente cobraram a conta. Lilian apagou completamente. O silêncio caiu como uma bigorna. O pânico perfurou a névoa na mente de Verena. O sangue na própria mão pareceu queimar.

Eu matei ela. Eu sou uma assassina.

A deputada se jogou para trás, caindo sentada no chão sujo, arranhando a pele exposta nos cacos do espelho. A respiração saía em jorros curtos e desesperados. Com as mãos tremendo incontrolavelmente, engatinhou de volta até o corpo imóvel. Pressionou dois dedos na base do pescoço da jornalista, bem ao lado do corte superficial que havia feito.

Batia. Acelerado, arrítmico pela droga, mas batia. Estava viva.

Verena fechou os olhos e soltou o ar num soluço seco. O alívio bateu forte, mas o asco veio logo atrás. Ela odiava aquela mulher com cada fibra do seu ser, mas não carregaria o peso de um cadáver nas costas.

Ela precisava sair daquele buraco. Agora.

Com um esforço físico que drenou o resto da sua sanidade, agarrou Lilian por baixo dos braços. A mulher era um peso morto, a cabeça pendendo frouxa. Verena rosnou pelo esforço, os músculos das costas queimando, até conseguir içar o corpo dopado para cima do colchão de lençóis vermelhos.

Jogou as pernas da jornalista para cima da cama. Lilian parecia apenas adormecida, um contraste bizarro com o caos que havia causado. Verena ficou de pé, cambaleando. O sutiã estava coberto de poeira do carpete, a calça manchada de uísque, a mão direita pingando sangue.

Ela olhou em volta. O quarto parecia ter sido palco de um furacão.

O espelho estilhaçado. Os pedaços do celular destruído espalhados no chão. Sua camisa caída perto do criado-mudo. A arma jogada perto da porta. Verena engoliu o choro e a dor. Precisava limpar aquela bagunça antes de sumir na noite de São Paulo. Ninguém podia saber que Verena Castilho esteve ali.

Motel Solaris — Quarto 42, 22h30

A respiração de Verena ainda rasgava a garganta, mas o pânico animalesco começava a recuar, empurrado à força pela frieza calculista que a mantinha viva nos corredores da ALESP. Ela não precisava montar uma cena de crime impecável. Aquele era o Motel Solaris, um buraco úmido e decadente onde o silêncio era comprado por hora e a polícia era o pior pesadelo da gerência. Um espelho quebrado e uma hóspede dopada não renderiam uma investigação criminal, no máximo, uma taxa extra de danos no cartão de crédito de Lilian.

Verena caminhou até a camisa caída perto do criado-mudo. Ao pegá-la, o tecido frio deslizou por seus dedos machucados. Vestiu a peça com urgência, ignorando a dor aguda na palma da mão. Os dedos ensanguentados deixaram pequenas manchas escuras nos botões de madrepérola enquanto ela fechava a roupa apressadamente, escondendo a pele arranhada e o sutiã empoeirado. O sangue grudava, espesso e metálico.

Ela precisava das próprias coisas. Apenas das próprias coisas.

Foi até a porta. Ajoelhou-se com um gemido contido, os joelhos latejando do impacto no chão, e apanhou a pistola calibre .22. O metal escuro ainda parecia guardar o calor doentio da mão da jornalista. Com a barra da própria camisa, Verena esfregou o cano e a coronha de forma rústica, limpando qualquer traço de suas digitais, e jogou a arma no fundo da bolsa de grife de Lilian, abandonada aos pés da cama.

Os cacos do espelho e a mancha de uísque no tapete ficariam ali. A prova de uma briga era irrelevante se não houvesse ligação direta com ela. Mas o celular... Verena se abaixou novamente. Juntou a carcaça partida ao meio e os maiores pedaços de vidro da tela trincada. Colocou os restos do aparelho no fundo do bolso da calça. Aquilo afundaria no primeiro bueiro que cruzasse seu caminho.

Com passos rápidos, entrou no banheiro minúsculo. A luz fria piscou sobre o azulejo encardido. Abriu a torneira gasta e deixou a água gelada bater na pele, lavando o excesso de sangue da mão rasgada. O ardor foi imediato. Ela arrancou um pedaço de papel toalha áspero, enrolou-o com força ao redor do corte para estancar a hemorragia e apertou o punho. No reflexo manchado do espelho da pia, Verena encarou a própria ruína. Estava pálida. O cabelo alinhado agora grudava no rosto suado. Um vergão avermelhado florescia na base do pescoço. O verniz de mulher inabalável havia rachado.

Voltou para o quarto e parou na beira da cama redonda. Lilian continuava jogada sobre os lençóis. O corte na panturrilha já começava a coagular, a respiração superficial embalada pelo narcótico. O segredo sobre o verdadeiro dono do dossiê estava trancado na cabeça daquela psicopata. A vontade irracional de sacudi-la até ela falar latejou nos nós de seus dedos, mas o instinto de autopreservação falou mais alto. Pegou as chaves do carro em cima da mesinha.

Envolveu a maçaneta interna com o papel toalha sujo, girou a tranca e saiu.

O ar gélido da noite bateu contra o seu rosto como um tapa físico. O corredor externo estava deserto, banhado por uma luz néon fraca que cheirava a fuligem e poeira úmida. Verena caminhou apressada, os músculos das pernas tremendo sob o tecido da calça, o som dos próprios saltos soando alto demais na quietude do pátio.

Lá fora, camuflado na penumbra do estacionamento, seu Audi preto a esperava. Um santuário blindado no meio do inferno. Verena destravou o veículo, abriu a porta pesada e desabou no banco de couro do motorista. Quando a porta bateu, isolando o som distante da rodovia, o silêncio opressivo do habitáculo a engoliu.

A raposa política havia sobrevivido à emboscada física. Mas, enquanto dava a partida no motor silencioso, o terror absoluto se instalou em suas veias. Ela dirigiria de volta para casa, para a cama quente onde Silvia a esperava, carregando não apenas o fantasma de Valentina, mas um alvo gigantesco e letal pintado nas próprias costas.

Apartamento de Verena e Silvia — Jardins, 06h15

Dormir tinha sido uma piada de mau gosto.

Verena passou a noite encarando o teto de gesso do quarto. Cada vez que fechava os olhos, o cheiro de sangue e cigarro de menta invadia as narinas, misturando-se ao pânico sufocante do que havia descoberto.

Agora, a luz branca e cirúrgica do banheiro de mármore iluminava o estrago.

Ela estava escorada na pia. Na mão esquerda, o bastão de corretivo de alta cobertura. No espelho, o pescoço exibia as marcas dos beijos de Lilian. Um roxo sujo, escuro. Verena espalhou o cosmético com batidas rápidas e irritadas. Cobre essa merd*. Cobre logo.

A pele ficou com um tom uniforme e pálido, mas a textura entregava o inchaço. Teria que usar camisa de gola alta. No calor de trinta graus de São Paulo. Ótimo. Sua mão direita estava enrolada numa tira grossa de fita micropore branca. Latejava num ritmo constante.

O som de passos descalços no piso de madeira a fez travar a mandíbula por um milésimo de segundo, mas ela logo recompôs a postura. A máscara precisava ser de aço.

A porta do banheiro abriu mais. Silvia apareceu no reflexo do espelho.

O cabelo estava amassado do travesseiro. A presença reduziu a frieza do mármore instantaneamente. Dona de si, afetuosa, a advogada entrou no banheiro vestindo apenas uma camiseta velha de Verena, que mal cobria as coxas.

— Caiu da cama, amor? — Silvia murmurou, a voz ainda rouca de sono.

Ela se aproximou por trás, os braços quentes envolvendo a cintura da deputada. O rosto de Silvia afundou na curva do ombro ileso de Verena, depositando um beijo demorado ali. Um toque seguro e transbordando carinho.

O estômago de Verena deu um solavanco, a memória tátil do motel ameaçando envenenar o momento. Mas ela bloqueou a repulsa com uma força mental descomunal. Não podia hesitar. Virou-se de frente, abrindo um sorriso suave e aparentemente cansado. Deslizou a mão esquerda, ilesa, pelas costas de Silvia, puxando o corpo da esposa contra o seu num abraço que simulava uma entrega perfeita.

— Insônia. A cabeça não desligou. — Verena mentiu, beijando o topo da cabeça da mulher com ternura calculada.

Silvia levantou o rosto. Os olhos atentos e perspicazes escanearam Verena com a atenção de quem lê entrelinhas de contratos milionários todos os dias. O olhar desceu e parou direto na fita branca ao redor da mão direita da deputada.

O sorriso sonolento sumiu. A postura relaxada evaporou, substituída instantaneamente por uma preocupação aguda.

— Vê... o que aconteceu com a sua mão? — O tom engrossou de apreensão. Silvia segurou o pulso de Verena com extrema delicadeza, erguendo a mão machucada como se fosse de cristal.

Verena sustentou o olhar. A raposa já tinha ensaiado o roteiro de madrugada.

— O jantar foi um inferno de tenso. Um dos assessores idiotas do Barros se exaltou na discussão. Bateu na minha taça de vinho. Fui tentar segurar no reflexo, o cristal estourou na minha mão.

Silvia franziu a testa, os olhos brilhando de indignação e cuidado.

— Ele jogou uma taça em você? Amor, isso está passando de todos os limites. — A mente jurídica da advogada começou a girar, protetora. — Se essa gente acha que pode te intimidar fisicamente num jantar, a gente precisa agir. Eu ligo agora para os sócios do contencioso cível do escritório. A gente monta uma notificação extrajudicial pesada, pede as câmeras do restaurante, documenta esse assédio. Você não pode ficar exposta a essa selvageria.

— Ei, ei. Calma. — Verena interrompeu, a voz aveludada. Ela levou a mão esquerda ao rosto de Silvia, o polegar acariciando a bochecha da esposa para desarmar a tensão. — Foi burrice do cara, não agressão calculada. O garçom limpou na hora, foi só um corte. Eu não vou transformar um esbarrão num circo jurídico que o Barros vai usar pra dizer que sou histérica. Eu resolvo ele politicamente. Confia em mim.

Silvia fechou os olhos ao toque, suspirando. A raiva cedeu espaço para o cansaço emocional de quem dividia o amor de sua vida com a política. Ela cobriu a mão da esposa que estava em seu rosto.

— Eu confio em você. Mas eu me preocupo, Vê. — Silvia abriu os olhos, encarando o fundo da alma da esposa. — Eu sinto você distante. Tensa o tempo todo. Nós combinamos que a nossa família vinha antes do mandato, lembra? Não deixa essa corja sugar toda a sua energia agora.

A palavra família rasgou o peito de Verena ao meio. O olhar amoroso e vulnerável de Silvia era a coisa mais preciosa que possuía. E a coisa que estava prestes a destruir se Lilian abrisse a boca ou se os verdadeiros donos do dossiê resolvessem agir.

Engolindo o nó na garganta, a deputada puxou Silvia para mais um abraço, afundando o rosto no pescoço quente da esposa. Inalou o cheiro dela como se fosse oxigênio puro.

— Eu lembro. Me desculpa. — Verena sussurrou contra a pele dela, a voz falhando uma fração milimétrica que Silvia atribuiu à exaustão. — Eu só quero proteger o que é nosso. Prometo que isso vai acabar logo.

Silvia correspondeu ao abraço com força, acariciando as costas da esposa, crente de que o único monstro naquela história era um deputado ruralista.

— Vai tomar um banho quente. Tira essa tensão dos ombros. — A advogada sussurrou de volta, afastando-se apenas o suficiente para beijar os lábios de Verena com calma e doçura. — Vou preparar aquele café duplo que você gosta. 

Verena assentiu com um sorriso que exigiu cada gota de sua energia vital.

Assim que Silvia saiu e a porta encostou, o sorriso sumiu. Verena abriu a torneira no máximo, apoiou as duas mãos na borda da pia e abaixou a cabeça, o ar escapando dos pulmões de forma trêmula. A mentira, agora, era o único teto que sustentava aquele apartamento. E ele estava desabando.

Assembleia Legislativa de São Paulo — Plenário Juscelino Kubitschek, 10h15

O burburinho do plenário soava como um enxame de abelhas dentro do crânio de Verena.

Sentada em sua poltrona de couro no fundo do salão, ela mantinha a postura impecável. O terno de alfaiataria azul-marinho e a camisa de gola alta de seda branca eram uma armadura tática. Ninguém via os roxos no pescoço. Ninguém via o corte fundo sob o curativo discreto na mão direita.

Mas a blindagem externa não impedia o colapso interno. A paranoia a devorava viva.

Verena varreu o plenário com os olhos escuros. Barros estava a duas fileiras de distância, rindo de alguma piada imbecil com um deputado do interior. O escravocrata do Planalto parecia relaxado. Confiante demais. Tinha sido ele a encomendar o dossiê?

Não. A voz rouca de Lilian ecoou na sua mente. Tem peixes muito, muito maiores que eu querendo a sua cabeça num prato.

Barros era um trator chucro. Ele não operava nas sombras com sutileza jornalística. Ele gritaria aos quatro ventos se tivesse os papéis do esquema na mão.

O olhar de Verena saltou para a mesa diretora. O presidente da casa? O líder do seu próprio partido, que sorria para ela nos corredores? Os laranjas e as planilhas ocultas que ela ajudou a arquitetar sustentavam metade das campanhas de quem estava ali sentado. Qualquer um poderia ter vazado a informação para Lilian e guardado a cópia. Todo mundo ali sorria. Todo mundo ali tinha uma faca escondida.

O ar no plenário acabou. A sensação de estar na mira de um atirador de elite no escuro a fez levantar de supetão. Caminhou a passos duros até a saída lateral. Cumprimentou dois deputados com acenos secos de cabeça. O corredor parecia interminável.

Assembleia Legislativa de São Paulo — Gabinete de Verena Castilho, 10h22

Verena empurrou a pesada porta de madeira e trancou a maçaneta por dentro no mesmo segundo.

Rafaela estava sentada na beirada da mesa principal da deputada. Segurava um iPad na mão esquerda e um copo térmico de café na direita. O cabelo preso num coque bagunçado, o blazer escuro aberto. Estava revisando a pauta de votações da tarde.

Quando ouviu o clique da tranca, levantou os olhos.

Bastaram dois segundos. O olhar cínico varreu a deputada da cabeça aos pés e estacionou no rosto pálido. Rafaela baixou o iPad devagar na mesa.

— Gola alta fechada até o talo num calor de trinta e dois graus. — A voz da assessora cortou o silêncio do gabinete, seca, sem um pingo de humor. — Mão enfaixada. E essa cara de quem acabou de atropelar alguém e jogar o corpo na represa.

Verena caminhou até o frigobar. Pegou uma garrafa de água com a mão esquerda. A direita latejou em protesto.

— O que você fez, Castilho? — Rafaela cruzou os braços, assumindo o papel de consciência crítica e executora de crises.

— Deixa o celular na gaveta. — Verena murmurou, encostando a testa no vidro gelado da garrafa. — Desliga primeiro.

Rafaela não hesitou. O tom da amiga era letal. Pegou o aparelho, apertou o botão lateral e jogou na primeira gaveta da mesa.

— Pronto. Acabou o sigilo. Desembucha. E não tenta dividir a pílula pra mim.

Verena virou-se. Encarou a melhor amiga. A única pessoa ali dentro que mataria e morreria por ela.

— A Lilian me chamou num motel ontem à noite.

Rafaela revirou os olhos com tanta força que quase viu o próprio cérebro. A irritação foi instantânea.

— Puta que o pariu, Verena! O idiota do Barros na sua cola, e você foi encontrar aquela sem noção pra uma recaída? Você tem merd* na cabeça?

— Não foi recaída, Rafaela. — Verena bateu a garrafa de água na mesa de centro, o som estalando forte no ambiente. — Ela me chantageou. Tava com cópias do nosso esquema. — Verena mentiu por omissão, jogando a carta maior primeiro. — O dossiê das licitações. Ela me encurralou. Quando eu cheguei lá, ela tava completamente dopada. Me ameaçou com uma arma. Tivemos que... resolver na força. Destruí o celular dela.

Rafaela descruzou os braços. A acidez habitual deu lugar a um choque controlado. Ela apontou para a mão de Verena e depois para a gola da camisa.

— Vocês saíram no soco? Arma? Caralh*, Verena! Você tem noção do risco? Se a polícia bate lá…

— Eu não bati lá pra brincar, Rafaela! Acha que eu queria? — Verena alterou a voz, caminhando até a janela com persianas fechadas.

Rafaela ficou em silêncio por um segundo. A mente brilhante e estratégica começou a rodar. Os olhos escuros cravaram nas costas da chefe. O faro para mentira apitou alto.

— Espera aí. — A voz baixou um tom. Fria. Cortante. — A Lilian te chamou pra um motel pra falar de um esquema de corrupção milionário? Ela podia ter te chamado num estacionamento. Num galpão. Por que um motel? O que ela usou pra te arrastar pra dentro de um quarto, Verena?

Verena travou a mandíbula. Continuou olhando pelas frestas da persiana.

— Verena. — Rafaela deu um passo na direção dela. — A gente tá com a corda no pescoço. O nosso esquema, o seu mandato. Se tem mais alguma merd* rolando, eu preciso saber de tudo. O que ela usou contra você?

A deputada fechou os olhos. Soltou a respiração pesada.

— Uma foto.

— Foto de quê?

— Minha. — Verena engoliu em seco, virando de frente para a assessora. — Com a Valentina.

O silêncio que caiu no gabinete foi absoluto. Rafaela piscou, tentando processar a informação.

— A estagiária? — Rafaela franziu o cenho, confusa. — A menina saiu daqui há meses. Que foto é essa, Verena? Uma montagem? Uma foto antiga de vocês no corredor?

— Uma foto de uns dias atrás. Saindo do meu carro.

O cérebro de Rafaela finalmente conectou os pontos. O choque sumiu, sendo engolido por uma explosão de raiva pura, visceral e incrédula. A assessora bateu as duas mãos com violência na mesa de madeira.

— Você continuou vendo a garota?! — O grito rasgou o gabinete. — Você tá me dizendo que, enquanto a gente tá aqui se fodendo pra esconder planilha de laranja, você tava se encontrando com uma adolescente do ensino médio escondida?!

— Fala baixo! — Verena rosnou, avançando um passo.

— Vai se foder, Verena! — Rafaela não recuou um milímetro. Apontou o dedo no rosto da parlamentar. — Eu te avisei! Eu te avisei desde o primeiro dia que essa obsessão ia destruir tudo! Você é louca? Como você esconde um buraco desse tamanho de mim no meio de uma guerra dessas?!

— Eu tentei cortar, Rafaela! Mas eu não consegui. — Verena explodiu de volta, a dor real vazando pela rachadura da armadura política. — Eu não consegui, tá legal? Eu perdi a mão. Mas a foto da Valentina não é o pior.

Rafaela soltou uma risada histérica, sem nenhum humor. Passou as mãos no rosto com força.

— Não é o pior? A foto te joga na cadeia por corrupção de menor, acaba com o seu casamento e destrói o seu partido. Como caralh*s não é o pior?

— Porque a Lilian confessou antes de apagar! — Verena cortou, firme. — Ela não descobriu nada disso sozinha. Alguém entregou o dossiê das licitações pra ela, Rafa. Alguém grande. Alguém que sabia do meu ponto fraco, vazou a porr* do dossiê pra Lilian e usou ela de cão de guarda pra me destruir sem sujar as próprias mãos.

Rafaela congelou. A raiva pessoal ainda fervia nas veias, mas o instinto de sobrevivência bateu mais forte. Ela deixou os braços caírem ao longo do corpo.

— Alguém de dentro? — A chefe de gabinete sussurrou, a respiração curta.

— Eu não sei. Provavelmente. — Verena caminhou até a mesa de centro. — Por isso não podemos confiar em ninguém desse lugar. Ninguém. Eu preciso que você puxe as planilhas do esquema de novo. Revisa cada assinatura, cada repasse. Quem tá perdendo dinheiro? Quem quer me queimar viva e herdar a minha parte?

Rafaela ficou em silêncio, processando o tamanho do abismo em que estavam. Ela olhou para Verena, o ressentimento e a lealdade brigando no mesmo espaço.

— Eu vou trancar a nossa rede. Faço isso do meu laptop pessoal de casa. — Rafaela assentiu devagar, a mente já dividindo as tarefas. Ela cruzou os braços de novo, o olhar duro e implacável cravando na deputada. — Mas escuta bem o que eu vou te falar, Castilho.

Verena sustentou o olhar.

— Se quem tá com o dossiê tem foto sua com a Valentina, eles sabem onde ela mora. Sabem a rotina da menina. — Rafaela foi brutalmente honesta. — Essa garota é o seu calcanhar de Aquiles e eles descobriram. Se você chegar perto dela agora, se você mandar uma única mensagem pra ela, você entrega a menina de bandeja pros tubarões. A partir de hoje, a Valentina morreu pra você. Fui clara?

A menção ao perigo real sobre Valentina foi um soco direto no estômago de Verena. A imagem da garota sozinha, queimou em sua mente. Mas Rafaela estava irredutivelmente certa. O distanciamento não era mais uma escolha moral. Era uma sentença de sobrevivência.

O silêncio de Verena pesou uma tonelada.

Ela não desviou o olhar, mas não confirmou. A respiração da deputada ficou curta, o peito subindo e descendo sob a seda branca, a mente calculista travando uma guerra sangrenta contra o coração imaturo e irresponsável que batia ali dentro.

Rafaela estreitou os olhos. A paciência evaporou.

— Eu fiz uma pergunta, Verena. — A voz da amiga desceu uma oitava, dura, batendo como um martelo. — Fui clara?

O maxilar de Verena estalou. Ela abaixou a cabeça por uma fração de segundo, engolindo em seco. A possibilidade se afastar da garota em definitivo, era uma tortura física.

— Rafaela... — A voz de Verena saiu rasgada. Vulnerável. Um tom de súplica quase imperceptível que ela não usava com ninguém.

Foi a faísca no barril de pólvora.

— Não. — Rafaela deu um passo brutal para frente, invadindo o espaço pessoal da deputada. O dedo indicador em riste, quase encostando no nariz de Verena. — Não usa esse tom de voz comigo. Você tá de brincadeira com a minha cara?

— Eles sabem quem ela é! — Verena rebateu, o tom subindo, a angústia virando fúria. — Se eles têm a foto, eles sabem onde ela mora! Eu não posso simplesmente virar as costas e deixar ela desprotegida no meio de uma guerra de milícia política!

— Você é a guerra, sua idiota! — Rafaela gritou, empurrando o ombro da amiga com força.

Verena cambaleou para trás, chocando as pernas contra a mesa de centro.

— Você é o alvo radiotivo! — Rafaela continuou avançando, o rosto vermelho, as veias do pescoço saltadas. — Cada mensagem, cada passo seu na direção dela é você amarrando a porr* de um alvo na testa daquela menina! Você quer proteger a Valentina ou quer aliviar a sua culpa de merd* por ter fodido a cabeça de uma adolescente?

— Cala a sua boca! — Verena rosnou, avançando de volta, os olhos injetados. Ela cravou o dedo no peito de Rafaela. — Você não sabe do que tá falando! Não ouse reduzir o que eu sinto...

— O que você sente?! — A risada de Rafaela foi um latido histérico. Ela estapeou a mão  da deputada para longe com violência. — Eu cago pro que você sente! Nós estamos falando de Tremembé, Verena! Cadeia! Cassação! Isso na melhor das hipóteses.

Rafaela agarrou Verena pelos braços do blazer, chacoalhando a mulher com uma força que vinha do puro desespero.

— Você quer afundar? Afunda! — Rafaela cuspiu as palavras na cara dela. — Pega o seu carro, dirige até lá e assume o seu tesão inconsequente! Mas não arrasta a minha vida pro ralo junto! Não arrasta a Silvia! Ela não merece essas merd*s todas que você faz com ela! Dando a vida pelo casamento de vocês. Enquanto você tá aqui, arriscando a sua mulher, arriscando a minha liberdade, arriscando a vida de vinte pessoas, porque não consegue manter a porr* das pernas fechadas pra uma estagiária?!

O tapa de Verena não acertou porque Rafaela foi mais rápida e segurou o pulso esquerdo da deputada no ar. O aperto foi ossudo, implacável.

As duas ficaram ali. Travadas. A centímetros de distância. A respiração de ambas saindo como jatos de vapor, o ódio e o pânico se misturando no ar denso do gabinete.

— Bate. — Rafaela sussurrou, os olhos escuros brilhando em lágrimas de raiva absoluta. — Bate na única pessoa que tá tentando te manter fora de uma cela.

Verena paralisou. O braço erguido tremeu.

A fúria homicida escorreu pelos ralos, deixando para trás apenas a exaustão e a verdade nua e crua. Rafaela estava certa. Cada palavra ácida era um fato irrefutável. Ela era o epicentro da destruição de todos ao seu redor.

verena puxou o braço com força, soltando-se do aperto da amiga. Recuou dois passos, esbarrando na parede forrada de madeira, o ar faltando nos pulmões. A mão enfaixada foi direto para o rosto suado.

— Eu sou um lixo. — A voz estava quebrada. Um sussurro patético no meio do gabinete luxuoso. — Eu estraguei tudo.

Rafaela continuou parada. Ofegante. As mãos tremendo ao lado do corpo. Ela olhou para a mulher poderosa reduzida a cacos encostada na parede. A raiva ainda queimava, mas a lealdade maldita que as unia falou mais alto.

— Você estragou. — Rafaela concordou, a voz seca, recuperando o fôlego devagar. — Mas ainda não estamos mortas. Arruma essa postura. Hoje à tarde você vai subir naquela tribuna e vai sorrir pra todo mundo como se fosse a dona do estado. Eu vou achar quem vazou esse dossiê.

Rafaela foi até a porta e destrancou a maçaneta. Antes de sair, virou a metade do rosto por cima do ombro.

— Mas se eu pegar você indo atrás daquela menina... eu mesma entrego a sua cabeça pro Conselho.

Escola Estadual — Ipiranga, 12h05

O sinal esganiçado rasgou o barulho das conversas.

A multidão de adolescentes começou a escoar pelos portões de ferro descascados. O sol do meio-dia batia no asfalto quente da rua estreita, misturando o cheiro de poluição com o perfume doce e barato dos alunos.

Valentina caminhava no piloto automático, ajeitando a alça da mochila desgastada no ombro.

Carol falava sem parar ao seu lado, gesticulando sobre as matérias acumuladas para o vestibular e o calor insuportável da sala sem ventilador. Valentina apenas balançava a cabeça, oferecendo sorrisos fracos que não chegavam aos olhos.

A verdade era que não estava ali. A mente estava presa no estofado de couro de um Audi, ouvindo a voz de Silvia saindo pelo viva-voz.

A dor física da saudade era uma âncora pesada no estômago. A razão gritava o tempo todo. Carol estava certa. Verena era o erro, o abismo, a humilhação de ser o segredo sujo de uma mulher casada. O pecado que a corroía por dentro.

Valentina sabia que devia bloquear o número. Sabia que devia fugir se a visse de novo. Mas quando pisou na calçada do lado de fora da escola, o instinto foi mais forte que a moral. Os olhos escuros varreram a rua, caçando um milagre.

E então, seu coração parou.

Estacionado do outro lado da rua, debaixo da sombra de uma árvore grossa, havia um sedan preto. Comprido. Limpo demais, caro demais para estar parado na frente de uma escola pública no Ipiranga. Os vidros eram escuros como piche, impenetráveis.

O sangue fugiu do rosto de Valentina. O ar sumiu.

Ela veio. Ela não me esqueceu.

A lógica evaporou. A humilhação sumiu. O peso do pecado e da rejeição derreteu sob a esperança desesperada de uma menina perdidamente apaixonada. Suas pernas fraquejaram, os pés quase dando o primeiro passo em direção à rua antes de o cérebro autorizar. Ela sentiu as lágrimas quentes já se formando na beira dos olhos. Queria correr. Queria abrir aquela porta e se esconder dentro do cheiro do perfume caro dela.

— Valen? — A voz de Carol cortou a bolha de transe.

Valentina piscou, paralisada na beira da calçada. O peito subindo e descendo rápido.

Carol parou de falar sobre as provas. A melhor amiga apertou os olhos, notando a palidez repentina e a respiração curta de Valentina. Seguiu a direção do olhar dela, varrendo os estudantes até o outro lado da rua.

O olhar cravou no sedan escuro.

A garota não era boba. Conhecia a rotina da rua, conhecia os carros do bairro. Aquele veículo executivo gritava poder. Gritava outro universo. Carol arregalou os olhos. O instinto protetor acendeu na mesma hora. Ela segurou o braço de Valentina com firmeza, puxando a amiga ligeiramente para trás, para o meio dos outros alunos.

— Val... — Sussurrou, a voz trêmula, carregada de apreensão. Ela olhou para a amiga, depois para o carro escuro, juntando as peças do quebra-cabeça com uma precisão assustadora. — Aquele carro ali... É ela? É a Verena?

Valentina engoliu em seco. A garganta arranhava. Ela não conseguia ver a silhueta no banco do motorista através do insulfilm escuro. Não era exatamente o carro que conhecia, parecia um pouco maior, mais intimidador. Mas quem mais poderia ser?

— Eu... eu não sei. — Valentina respondeu num fio de voz, os olhos brilhando. A saudade estúpida e imensa vencendo o medo. — Parece... não é o carro que eu conheço, mas…

— Valen, vamos embora. Agora. — Carol ordenou, a voz baixa, puxando a mochila da amiga. — Se for ela, você não vai entrar naquele carro de jeito nenhum. Você me prometeu. E se não for... esse carro tá estranho demais.

Valentina deu um passo relutante para trás, sendo puxada pela amiga. Mas não conseguia desviar o olhar do vidro escuro. O motor do sedan ligou. O ronco foi baixo, potente e contido. Carol apertou o braço da amiga, o pânico real substituindo a curiosidade. O veículo não avançou. Apenas ficou ali. Com as setas apagadas.

Valentina deu um passo à frente. O coração batendo na garganta. Queria que a porta abrisse. Queria aquele sorriso de canto de boca, o perfume, qualquer coisa que provasse que ela não era apenas lixo descartável.

Mas a porta não abriu.

No instante em que pisou no asfalto, o veículo simplesmente deslizou para fora da sombra com uma precisão fria, afastando-se do meio-fio. Passou reto pelas garotas, os vidros negros refletindo apenas a rua suja, e virou a esquina de forma calculada, sumindo no trânsito pesado do meio-dia. Valentina ficou paralisada. O calor do chão de repente pareceu gélido.

— Foi embora... — Carol murmurou, confusa, soltando a alça da própria mochila. Olhou para o rosto devastado da amiga. — Você acha que era ela e desistiu quando me viu? Ou só um engravatado perdido por aqui?

O estômago de Valentina afundou. A ilusão desmoronou completamente. Se era Verena, ela a olhou de longe e decidiu ir embora. Se não era, ela continuava sozinha. De um jeito ou de outro, a rejeição era absoluta.

— Não era ninguém. — Valentina sussurrou, a voz quebrando. Ela abaixou a cabeça, escondendo os olhos marejados, e deu as costas para a rua. — Vamos pra casa, Carol.

Assembleia Legislativa de São Paulo — Plenário Juscelino Kubitschek, 14h30

O ar-condicionado do plenário estava cravado nos dezoito graus, mas, por baixo da seda branca da gola alta, a pele de Verena suava frio.

O painel eletrônico marcava o início da sessão. O burburinho dos deputados ecoava no teto alto, uma sinfonia cínica de acordos sussurrados e risadas ensaiadas. Verena estava sentada em sua poltrona de couro, a postura ereta, o rosto esculpido numa máscara de gelo impenetrável.

A mão direita  repousava sobre a mesa de madeira. Latejava.

Os olhos varriam o salão. Barros esbravejava no microfone de apartes sobre pautas rurais, a veia do pescoço saltada. Um cão raivoso que latia para a plateia. Rafaela tinha razão. Barros era barulhento demais para ser o dono do dossiê. Quem a queria morta estava no escuro. Sorrindo.

— Cansada, minha querida?

A voz macia e aveludada soou logo atrás do seu ombro. Verena controlou o instinto de sobressalto. Virou o rosto devagar.

O deputado Cássio Fontes estava de pé ao lado de sua poltrona, segurando um copinho de plástico com café expresso. Setenta anos, cabelos perfeitamente alinhados, terno de corte italiano. Era um dos decanos do partido. Um aliado histórico. O homem que a havia apadrinhado nas primeiras negociações do esquema das licitações. O avô benevolente da base aliada.

— Apenas focada, Cássio. — Verena forçou um sorriso polido, os músculos do rosto rígidos. — A pauta de hoje é densa.

Fontes sorriu de volta. Os olhos caídos, escondidos por trás dos óculos de aros de tartaruga, desceram com uma lentidão calculada até a mão direita de Verena repousando na mesa.

— Vejo que tivemos baixas na linha de frente. — Ele apontou o queixo para o curativo grosso de micropore. — O que houve com a mão?

Verena sustentou o olhar do veterano. A mentira já estava pronta na ponta da língua.

— Um jantar desagradável ontem à noite. Um dos assessores do Barros se exaltou, esbarrou na minha taça de vinho. Tentei segurar. O cristal quebrou.

Fontes fez uma expressão de lamento, balançando a cabeça devagar. Bebeu um gole curto do café.

— O Barros precisa colocar coleira nessa equipe. Selvageria não tem lugar na política civilizada. — Suspirou, o tom paternal impecável. Ele inclinou o corpo ligeiramente para frente, diminuindo a distância entre os dois, a voz caindo para um sussurro que apenas ela poderia ouvir no meio do barulho de fundo.

Verena travou a respiração.

— Mas tem que tomar muito cuidado com o que você segura, Verena. — Os olhos dele perderam qualquer traço de doçura. O olhar ficou vítreo. Opaco. — Vidro quebrado corta muito fundo. Deixa rastros sujos de limpar.

O coração de Verena bateu tão forte que doeu nas costelas.

— E nós precisamos proteger os nossos... investimentos. — Fontes continuou, a voz macia deslizando sobre as palavras como uma lâmina fina. — Principalmente os mais novos. Eles são imaturos. Frágeis. Se quebram à toa quando ficam expostos na rua, não é?

O ar nos pulmões da deputada acabou.

Os mais novos. Expostos na rua.

O cheiro do café misturou-se com a memória do cheiro de pólvora e cigarro de menta do motel. A chantagem não era uma teoria. Era real. Estava ali, vestindo terno italiano, bebendo café no copo de plástico a trinta centímetros do seu rosto.

O homem se endireitou antes que Verena pudesse formular qualquer sílaba. O sorriso afável voltou ao rosto enrugado num piscar de olhos. Ele deu dois tapinhas leves e condescendentes no ombro esquerdo da deputada.

— Cuide desse ferimento, minha querida. E mande meus cumprimentos afetuosos à Silvia. — Piscou um olho, complacente. — Boa sessão para nós.

Deu as costas e caminhou tranquilamente pelo corredor acarpetado, cumprimentando outros parlamentares com acenos de cabeça. Verena ficou congelada na poltrona. O sangue fugiu completamente das suas extremidades. O frio na barriga se transformou em náusea pura.

A mensagem tinha sido entregue com laço de fita. Fontes sabia do motel? Sabia da foto? Sabia de Valentina? 

Assembleia Legislativa de São Paulo — Gabinete de Verena Castilho, 16h10

O trinco da porta do gabinete girou com um estalo seco.

Verena entrou como um furacão, trancando a fechadura por dentro e puxando a última fresta da persiana. A respiração saía curta. O suor frio colava a seda branca na base das costas.

Rafaela ergueu os olhos da tela do laptop, o cenho franzido diante do estado da chefe. A sessão no plenário ainda rodava na TV muda pregada na parede.

— É o Fontes. — Verena disparou, a voz saindo num sussurro áspero, quase engasgado. Ela apoiou as duas mãos em sua mesa, inclinando o corpo para a frente. — O dossiê. A foto. É o Cássio Fontes.

Rafaela piscou. Os dedos pararam sobre o teclado. A assessora olhou para a amiga por longos três segundos antes de encostar as costas na cadeira de couro.

— O Fontes? — Rafaela repetiu, o tom rasgado de incredulidade. — O decano Cássio Fontes? Setenta e dois anos de pura preguiça legislativa? Você enlouqueceu de vez, Verena?

— Eu tô te falando! — Verena bateu a mão esquerda na mesa. — Ele veio falar comigo no meio do plenário. Parou do meu lado e disse que eu tinha que tomar cuidado com o que segurava. Falou que vidro quebrado corta fundo e que a gente precisa proteger os "investimentos mais novos" que ficam "expostos na rua". E o desgraçado ainda falou da Silvia.

Rafaela cruzou os braços. A acidez característica voltou ao rosto, mas agora misturada com uma ponta de pena. A assessora não comprou a paranoia.

— Verena, escuta o que você tá dizendo. — Rafaela gesticulou com a mão livre. — Você tá em choque. Tá traumatizada com a noite de ontem, tomou um susto no motel e agora tá vendo fantasma em todo lugar.

— Não foi coincidência, Rafaela! As palavras exatas...

— As palavras exatas do Fontes são sempre um amontoado de clichês de velho raposo! — Rafaela a cortou, elevando a voz, pragmática e implacável. — "Investimento novo" é o eufemismo que ele usa pra base eleitoral jovem desde noventa e oito! 

O ar nos pulmões de Verena hesitou. A certeza absoluta começou a tremer nas bordas, atingida pela lógica fria da melhor amiga.

— Rafa... o jeito que ele olhou...

— O jeito que ele olhou é o de um abutre sentindo cheiro de sangue. Você tá sangrando, Castilho. — Rafaela levantou da cadeira, contornando a mesa até parar de frente para a deputada. O tom ficou mais brando, mas não menos direto. — Todo mundo ali sabe que o Barros tá na sua cola. Eles sentem que você tá vulnerável. Mas o Fontes não é o dono do dossiê.

Verena esfregou o rosto com a mão esquerda, a mente girando num redemoinho.

— Por que você tem tanta certeza? — Ela sussurrou, a exaustão cobrando a conta.

— Porque ele é uma baleia gorda e preguiçosa. — Rafaela respondeu, cirúrgica. — Ele tira dois milhões limpos por semestre com as nossas licitações. Ele construiu essa estrutura com você. Ele tem mais de setenta anos, mora numa mansão no Morumbi e tá a um passo de aposentar e passar a cadeira pro filho. Me dá um, só um motivo racional pra ele entregar a porr* da própria aposentadoria pra uma jornalista maluca como a Lilian usar como chantagem. Porque se ela roda, ele roda junto. Ele não assumiria esse risco nem sob tortura.

O silêncio tomou o gabinete.

A lógica de Rafaela era irrefutável. Fontes não tinha o perfil suicida necessário para arquitetar aquela emboscada. Ele era um acomodado. O dono do dossiê precisava ser alguém com fome. Alguém com ódio. Alguém disposto a queimar a própria casa só para ver Verena Castilho arder nas chamas.

A deputada recuou devagar, encostando na borda da mesa. A mão enfaixada formigava. A teoria tinha caído por terra, mas isso não trazia alívio. Trazia um pânico ainda maior.

— Se não é o Fontes... — Verena murmurou para o chão encarpetado, o olhar perdido. — Então quem foi?

Rafaela não respondeu. A assessora olhou para a tela do laptop, onde as planilhas criptografadas do esquema rodavam. O campo minado era vasto, e elas estavam pisando no escuro, esperando o próximo clique de detonação.

Apartamento de Verena e Silvia — Jardins, 19h45

A fechadura eletrônica apitou.

Verena entrou e encostou a porta de carvalho maciço. O silêncio do apartamento era denso, cortado apenas pelo zumbido contínuo do ar-condicionado central. Tirou os escarpins. Cada músculo do corpo gritava por socorro. A mão direita, sob o curativo sujo de suor, latej*v* no ritmo do próprio coração. A cabeça latej*v* ainda mais. 

Mas ela não podia desabar agora.

Caminhou pelo corredor de luzes baixas até a sala de estar.

Silvia estava encolhida no canto do sofá modular, vestindo uma calça de moletom cinza e uma blusa de lã fina. O notebook estava aberto no colo, a luz azul da tela iluminando seu rosto exausto. Ao seu lado, na mesa de centro de vidro, uma cartela vazia de óvulos de progesterona e um copo d'água.

A advogada implacável, que destroçava cláusulas de contratos milionários sem piscar, estava reduzida a uma mulher à beira do colapso pela espera. Os infames quinze dias até o exame de sangue Beta hCG.

— Oi. — Silvia ergueu os olhos da tela. Um sorriso fraco, vulnerável.

— Oi, meu amor. — Verena forçou o tom aveludado. A máscara de esposa inabalável caindo sobre o rosto como uma placa de chumbo. Deixou a pasta na poltrona e sentou na ponta do sofá.

Silvia fechou o notebook com um suspiro trêmulo.

— Fóruns de tentantes. Eu sei, é patético. — Ela esfregou o rosto com as duas mãos, a voz embargada pela enxurrada hormonal. — A Beatriz mandou eu parar de pesquisar sintomas na internet, mas eu senti uma cólica no pé da barriga de tarde. Fiquei meia hora trancada no banheiro chorando, achando que era a menstruação descendo. Que a transferência tinha dado errado e eu tinha perdido nossos filhos.

O coração de Verena estilhaçou. Ela engoliu a seco o gosto metálico da própria saliva. Com a mão esquerda, puxou Silvia pelo ombro. A esposa escorregou pelo sofá e deitou a cabeça em seu peito. O corpo da advogada estava quente e absurdamente tenso.

— Lembra que ela falou que cólica é normal? É o embrião fixando. O nosso filho tá lutando pra ficar. — Verena murmurou contra o cabelo dela. O cheiro de xampu de amêndoas invadiu seus sentidos, misturando-se à culpa corrosiva. — Vai dar tudo certo, Sil.

Silvia soltou um soluço baixo e agarrou o tecido da gola alta de Verena com força.

— Eu tô com tanto medo, Vê. — A voz saiu abafada contra o peito da deputada. — Parece que qualquer coisinha vai quebrar isso que a gente tá construindo. Se o sangue vier... eu não sei se aguento o processo todo de novo. A frustração.

A palavra quebrar cortou Verena como uma navalha.

A ironia era de um sadismo doentio. Silvia estava aterrorizada com uma pontada no útero, enquanto a verdadeira ameaça que destruiria aquela família respirava no mesmo sofá. Uma foto num celular estraçalhado. Um dossiê. Uma milícia política rastreando os passos de uma adolescente no Ipiranga.

Verena afagou as costas da esposa. O nó na garganta a sufocava.

— Ei. Olha pra mim.

Silvia levantou o rosto. Os olhos claros e afiados estavam marejados e inteiramente entregues. Uma versão frágil que se permitia apenas na frente da esposa.

— Nós somos uma rocha. — Verena disse, segurando o queixo da mulher com firmeza. Foi a mentira mais bonita e cruel que já proferira na vida. — Nada vai quebrar a nossa família. Nada. Eu tô aqui. Eu protejo vocês.

Silvia fechou os olhos, respirando fundo, agarrando-se àquela falsa sensação de segurança como se fosse oxigênio.

— Como foi lá? — Sussurrou, ainda de olhos fechados. A mão desceu pelo braço da esposa e encontrou o pulso direito, acariciando os dedos ao redor da fita micropore. — O Barros encheu muito o seu saco hoje?

Verena travou a mandíbula para não retrair a mão machucada ao toque.

— O de sempre. Cão que ladra não morde. — Mentiu, a voz sem uma única oscilação. — A Rafaela já tá cuidando da estratégia jurídica. Esquece a Assembleia. O foco agora é você. Falta pouco pro exame.

 

Silvia assentiu, abrindo um sorriso sutil, um pouco mais relaxado. Ela ergueu o queixo e beijou os lábios de Verena com calma e devoção. Um contato quente, carregado de amor e de uma esperança cega. Verena correspondeu ao beijo, fechando os olhos com força. Enquanto beijava a esposa, pedia perdão em silêncio por ser o monstro que estava prestes a botar fogo na própria casa.

Fim do capítulo

Notas finais:

:)

S2


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Comentários para 54 - Ameaças:
Vpains
Vpains

Em: 12/05/2026

Que capítulo. Gostando da história. Parabéns.
Anciosa pelo próximos capítulos.

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Verena mostra se forte e inabalável quando está sangrando por dentro. E comparar ela e Silvia como se fossem uma rocha. — Foi como se a própria mentira sorrisse para ela de volta. — Ela estava encarando esse papel de uma forma tão verdadeira que é bem capaz que ela acabe acreditando.

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Então, pela lógica afiada de Rafaela, O tal do deputado Fontes foi descartado. Rapaz, a mulher conhece o pensamento e o perfil de um político. — Quando ela elucidou os fatos sobre Fontes. As suspeitas da deputada ruiram.

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Essa fala do deputado Fontes fora muito subjetiva. E muito condizente com o envolvimento dela com Valentina. Deixou a antever nas entrelinhas. "Os mais novos. Expostos na rua". Realmente leva a desconfiar que ela sabe alguma coisa.

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Quem será que estava a espreita de Valentina? E por um triz Valentina não cai numa cilada. — Ela nem parou para pensar que aquele carro não era o de Verena. — Agiu levada pelo dessespero de ver a deputada e quase cai na toca da raposa. Se não fosse por Carol o que seria dela?

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Quem será que estava a espreita de Valentina? E por um triz Valentina não cai numa cilada. — Ela nem parou para pensar que aquele carro não era o de Verena. — Agiu levada pelo dessespero de ver a deputada e quase cai na toca da raposa. Se não fosse por Carol o que seria dela?

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Essa cena de Rafaela com Verena foi excelente. A começar pela inqurição pela deputa estar usando gola alta em pleno 32 graus. Depois a revelação do quarto do motel com Lilian. E ela ter confessado que foi até lá por conta de uma ameaça. A descoberta que ela havia se encontrado com Valentina a poucos dias. E o dossiê. A parte em que ela fala que Verena fodeu com a mente de uma adolescente.— Essa fala incediou com tudo— A perda de controle de Verena e a reação de Rafaela foi eletrizante. Ela dizer que estava cagando para o que a deputada sentia, foi forte e ao mesmo tempo ate engraçado, porque Rafa foi direta e incisiva. Mas alguém tem que chamar ela nos eixos e esse teria que ser a amiga dela. — Porque há muita coisa em jogo, não só os sentimentos de Verena por Valentina.

Autora, esse capítulo foi espetacular. E ver esse embate de Verena e Rafa não teve preço. Tenho muito admiração por Rafa. — Ela é para Verena o que Carol é para Valentina.— E umas amigas como estas são dificeis de encontrar. 

 

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Qualquer um pode ter preparado o dossie. São muitos suspeitos. Por mais que ela elime alguns por não se r do perfil deles. Mas podem estarem coligados de alguma maneira.

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Viver na mentira não é coisa boa não. A pessoa tem que sustentar ela o tempo inteiro. Essa que ela inventou que o corte na mão foi causado pelo acessor, quase fez Silvia levar algo que não fora verdade para o tribunal. A mente jurídica de Silvia em ação quase desfaz toda a construção de Verena. — Porém ela sempre arruma um jeito de sair pela tangente.


O sorriso no rosto que ela teve que manter, fora a duras penas. — Acabou com a energia vital dela — Coitada da deputada, sangrando por dentro e ter que mostrar que tudo estava sobre controle fora demais mesmo.

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Lilian que arque com as consequencias do que ela mesma causou. "porque o silêncio naquele motel era pago por por hora".— E a dona do Solaris não ia querer a polícia se infiltrando por ali —, "Porque a polícia era o pesadelo da gerência". KKKKK!

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Zanja45
Zanja45

Em: 13/04/2026

Esse quarto 42 foi espectador de um verdadeiro caos. — A personificação de tudo isso podia ser visto, pelo estado em que se encontrava Verena, calca suja de wisky, sutian sujo de poeira, camisa jogada ao longe e a arma arremessada próximo a porta. E o que dizer da jornalista? Vitima dos próprios abusos dela — A junção de drogas sintetica, alcool e loucura.

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Zanja45
Zanja45

Em: 09/04/2026

Verena não ia levar a culpa por ter matado Lilian, mas teve que carregar um peso morto quando a jornalista estava desarcordada. Rsrsrsrs!

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Thalita31
Thalita31

Em: 02/04/2026

Esses últimos capítulos estão muito bons. Finalmente, as máscaras da criminosa estão rachadas e acho que logo vão cair ao chão e ela perderá tudo ou quase isso. Todo castigo é pouco para essa mulher. Porém, a santinha também precisa sentir na pele as consequências de suas escolhas. E torço para acontecer em breve. 


Mony2509

Mony2509 Em: 06/04/2026
Quem disse que está acabando? A autora falou foi? São quantos capítulos?



Sem cadastro

Sem cadastro Em: 06/04/2026
Quem disse que está acabando? A autora falou foi? São quantos capítulos?


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sky
sky

Em: 02/04/2026

Jéssica é o epicentro dessa palhaçada toda


Ela teve acesso através das transas que teve com a idiota da Rafaela.


É fácil acusar a deputada de não conseguir manter as pernas fechadas para uma adolescente enquanto faz literalmente sem saber que está sendo usada


Mony2509

Mony2509 Em: 06/04/2026
1 ano pra postar um novo capítulo aff



sky

sky Em: 06/04/2026
Ela também tem uma vida fora das telas galera. Não vamos pressionar a autora gente...


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