Capítulo 11

Capitulo 11

de EM BUSCA DE JUSTIÇA, por Luhpereira

Tamanho do texto
2.398 palavras87 leituras2 comentários

As pessoas escalavam as pedras com muita dificuldade. Aqueles que conseguiam subir com um pouco mais de facilidade tentavam ajudar os que tinham dificuldade para encontrar apoio nas pedras molhadas e escorregadias.

Alexsandra, parecia não sentir a mesma dificuldade. Subiu com facilidade e, assim que alcançou um ponto mais seguro, começou a ajudar os demais.

Quando chegou a minha vez, estendeu a mão para mim.

Por alguns segundos, apenas fiquei olhando para ela.

Não sei se foi por causa do medo ou da situação em que estávamos, mas havia alguma coisa naquele olhar que me fez esquecer, por um instante, tudo ao nosso redor.

Segurei sua mão.

Seus dedos se fecharam firmemente ao redor dos meus, e ela me puxou para cima com cuidado. Quando finalmente consegui alcançar a pedra onde ela estava, nossos rostos ficaram próximos demais.

Prendi a respiração.

Alexsandra também ficou em silêncio por um instante. Seus olhos encontraram os meus e, por alguns segundos, nenhuma de nós pareceu se lembrar de que havia outras pessoas ao nosso redor.

Então ela desviou o olhar e estendeu a mão para ajudar outra pessoa.

Eu permaneci ali, tentando recuperar o fôlego.

Não sabia se era por causa do esforço da subida ou por causa dela.

— Vamos agilizar isso aqui! Quero todos e todas dentro desta caverna logo! — gritou um dos homens.

A voz dele me fez voltar à realidade.

Atrás da queda d'água, em meio à abertura rochosa, estava a entrada de uma caverna.

Continuei seguindo a fila, mas, antes de entrar, olhei mais uma vez para Alexsandra. Ela ainda auxiliava algumas pessoas a atravessar as pedras.

Um dos homens me empurrou pelas costas.

— Anda!

Fui obrigada a continuar.

Assim que atravessei a queda d'água e entrei na caverna, a pouca luminosidade das lanternas que vinham do lado de fora praticamente desapareceu. Em poucos segundos, quase não conseguíamos enxergar nada.

O lugar parecia ter uma grande extensão. O chão era úmido e irregular, e o som da queda d'água ecoava pelas paredes rochosas, tornando difícil distinguir qualquer outro ruído. De vez em quando, era possível ouvir o bater das asas de alguns morcegos escondidos no interior da caverna.

Meu coração acelerou.

— Quero todos sentados aí pelo chão! Vocês vão ficar aqui. Vamos trazer algumas roupas para vocês, porque não queremos ninguém doente.

O homem fez uma pausa e soltou uma risada irônica.

— Afinal, não queremos ninguém morrendo antes da hora.

Alguns dos outros homens riram.

Senti um arrepio percorrer meu corpo.

Aquelas palavras deixavam claro que eles não estavam preocupados com o nosso bem-estar. Aquilo era apenas mais uma forma de nos intimidar.

Comecei a procurar minhas primas no meio daquela escuridão até finalmente encontrá-las.

— Vocês estão bem? — perguntei, sentando-me ao lado de Nágila.

— Estou toda molhada... Perdi meu celular e todo o meu dinheiro. O que esses caras querem? Por que prenderam todo mundo aqui?

— Talvez queiram pedir resgate — respondeu Mônica.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Talvez fosse isso.

Mas alguma coisa dentro de mim dizia que havia algo errado naquela situação.

Havia homens demais, armas demais e organização demais para aquilo ser apenas um simples assalto.

E, mesmo tentando afastar aquele pensamento, meus olhos continuavam procurando por Alexsandra no meio daquelas várias pessoas que chegavam e eram empurradas para se sentarem no chão.

Os caras começaram a acender grandes tochas de fogo, espalhando uma luz trêmula pelas paredes da caverna e revelando, aos poucos, a imensidão daquele lugar.

— Não quero ouvir choros ou conversinhas aqui. Meus homens vão fazer guarda noite e dia, até decidirmos qual será o nosso próximo passo. — O líder se virou para um de seus homens. — Cadê ela?

Depois disso, os dois seguiram em direção à saída da caverna.

— Talvez... — disse Mônica, abraçando as próprias pernas e tremendo de frio.

Homens armados continuavam nos vigiando, enquanto outros traziam mais pessoas para dentro da caverna. Lá dentro, era possível ouvir o som de uma água corrente que ecoava pelas paredes. O lugar era enorme e parecia se estender muito além do que conseguíamos enxergar.

— Aqui tem várias roupas. Troquem as roupas molhadas agora! — ordenou um dos homens, jogando uma sacola preta cheia de roupas no chão. — Andem! Não vou falar de novo.

As pessoas começaram a pegar as roupas às pressas.

Foi então que avistei a garota que estava ao lado de Alexsandra no ônibus.

Ela pegou algumas roupas da sacola e começou a entregá-las às amigas. Depois, procurou um canto mais afastado para se trocar da maneira que conseguia.

Por algum motivo, aquela cena me deixou desconfortável.

Talvez fosse apenas o frio, o medo ou toda aquela situação absurda em que estávamos. Tentei convencer a mim mesma de que não havia motivo para me importar.

Abaixei os olhos.

Eu mal conhecia Alexsandra.

Não tinha motivo algum para sentir qualquer coisa.

 

Após longos minutos, avistei Alexsandra entrando com um grupo de pessoas. Ela pegou algumas peças de roupa e foi em direção às amigas.

Ela se abaixou diante da moça que eu havia visto antes e trocou algumas palavras com ela.

Desviei o olhar.

Não sei por que aquilo me incomodou.

Talvez fosse apenas o cansaço. Talvez fosse o frio. Ou talvez eu estivesse apenas procurando alguma coisa para me distrair de tudo aquilo.

Deitei-me ao lado de Nágila e tentei me acomodar no chão úmido e frio da caverna.

Meu corpo inteiro doía.

Fechei os olhos por alguns segundos, ouvindo as vozes das pessoas ao redor e o som constante da água correndo pelas pedras.

— Estou muito cansada... Acho que vou pegar no sono. - Nágila.

— Dorme um pouco — respondi, baixinho.

Respirei fundo e tentei relaxar.

Mas, mesmo de olhos fechados, a última imagem que insistia em aparecer na minha cabeça era a de Alexsandra.

 

Não consegui pegar no sono. Não me sentia segura naquele ambiente e conseguia sentir uma atmosfera de medo e tensão no ar. Todos ali pareciam compartilhar o mesmo sentimento.

Sentei-me, encostando as costas nas pedras. Já não sentia tanto frio, embora a temperatura ainda estivesse muito baixa. Eu vestia uma calça de moletom alguns números maior que o meu e uma blusa de manga comprida.

Minha roupa molhada, torci da melhor maneira que consegui e a estendi sobre algumas pedras próximas, na esperança de que secasse.

Aos poucos, meus olhos se adaptaram à pouca luz da caverna. Olhei ao meu redor.

Minhas primas estavam dormindo. Muitas pessoas permaneciam deitadas pelo chão, enquanto outras continuavam acordadas, tentando vigiar o sono daqueles que haviam conseguido descansar.

Os homens continuavam mantendo a guarda, mas percebi que nem todos estavam dentro da caverna. Havia apenas cerca oito deles próximos à entrada.

Fiquei observando em silêncio.

Eles conversavam entre si, mantendo a voz baixa. De vez em quando, um deles apontava para a estrada, enquanto outro parecia explicar alguma coisa.

Tentei prestar atenção.

— Precisamos colocar aquela pedra logo... — ouvi um deles dizer.

— Antes que alguém apareça por aqui — respondeu outro.

Meu coração acelerou.

Eles estavam planejando bloquear a estrada.

Mas por quê?

Se a intenção deles era pedir um resgate, não fazia sentido esconder completamente o acesso àquele lugar.

Continuei observando.

Foi então que avistei Alexsandra alguns metros à minha frente. Ela estava sentada próxima às amigas, vestindo um top preto e uma calça da mesma cor.

Foi nesse momento que reparei melhor em seu braço. Havia uma tatuagem que começava mais acima e descia pelo braço, estendendo-se até próximo do cotovelo. O desenho acompanhava o contorno da pele e se destacava sob a luz fraca das tochas. Eu não conseguia enxergar todos os detalhes de onde estava, mas algumas linhas pareciam se entrelaçar, formando um desenho delicado e, ao mesmo tempo, marcante.

Por alguns segundos, nossos olhares se encontraram.

Senti meu coração acelerar de uma maneira que não consegui entender. Talvez fosse apenas o nervosismo daquela situação, pensei. Afinal, estávamos todos presos dentro daquela caverna, cercados por homens armados e sem saber o que aconteceria conosco.

Mas havia alguma coisa diferente no olhar daquela mulher.

Por um instante, senti uma estranha sensação de segurança, como se encontrar os olhos dela naquele lugar fosse suficiente para me lembrar de que eu não estava completamente sozinha.

Alexsandra sustentou meu olhar por mais alguns segundos.

Desviei os olhos primeiro.

Baixei a cabeça, tentando afastar aquela sensação estranha que havia surgido dentro de mim.

Eu mal conhecia aquela mulher.

Ainda assim, por algum motivo, meu olhar sempre acabava procurando por ela.

Voltei minha atenção para os homens próximos à entrada.

Alguma coisa naquela situação não estava certa.

Havia homens demais. Armas demais. Organização demais.

E, quanto mais eu observava, mais tinha certeza de que aquele lugar escondia alguma coisa que nenhum de nós ainda conseguia compreender.

 

 

Acordei depois de finalmente conseguir dormir.

Despertei com o barulho de vozes e uma grande agitação dentro da caverna. Minhas costas doíam muito.

Abri os olhos devagar e avistei Mônica ao meu lado. A luz que vinha da entrada começava a clarear o interior da caverna.

Estava amanhecendo.

Sentei-me lentamente, sentindo cada parte do meu corpo reclamar depois de tantas horas dormindo sobre aquele chão duro e frio.

— O que está acontecendo? — perguntei, ainda sonolenta.

Mônica apontou para a entrada.

Algumas pessoas estavam de pé, amontoadas diante da enorme pedra que agora bloqueava completamente a passagem.

Meu coração acelerou.

— Os desgraçados prenderam a gente aqui dentro — respondeu ela. — Colocaram a pedra por fora.

Levantei-me com dificuldade e me aproximei.

— Será que foram embora?

— Não.

Mônica abaixou a voz.

— Eles avisaram que, se alguém tentar empurrar a pedra, vão começar a atirar.

Olhei para a entrada bloqueada.

Aquela pedra parecia ainda maior agora.

— Que droga...

Permaneci alguns segundos observando o lugar.

Foi então que percebi uma coisa.

O som da água.

Era baixo, mas estava ali.

O mesmo som que eu havia escutado durante a noite.

Virei lentamente a cabeça para o interior da caverna.

Talvez estivéssemos procurando no lugar errado.

— Mônica, vem comigo.

Ela me olhou sem entender.

— Para onde?

— Vamos olhar mais no fundo da caverna.

Ela arregalou os olhos.

— Eu não vou.

— Por quê?

— Porque eu não estou com vontade de acordar aqueles morcegos para começarem a voar na nossa cabeça.

Apesar do medo, quase sorri.

— A gente precisa fazer um reconhecimento da área.

— Reconhecimento?

— Sim. Precisamos descobrir quais são as nossas possibilidades.

Nágila, que estava sentada alguns metros atrás, ouviu nossa conversa e se aproximou.

— Possibilidades de quê, Cecília?

— De sair daqui.

Ela olhou para a entrada bloqueada.

— Não temos a menor condição de sair por ali.

— Eu sei.

Apontei para o interior da caverna.

— Mas eu ouvi água corrente durante a noite. Se existe um curso de água lá dentro, pode existir uma passagem.

Nágila permaneceu em silêncio.

— E se não existir? — perguntou Mônica.

Respirei fundo.

— Então voltamos.

Olhei novamente para a entrada.

— Mas ficar aqui esperando eles decidirem o que vão fazer com a gente também não é uma opção.

Nenhuma das duas respondeu.

Comecei a caminhar.

Dei apenas alguns passos quando percebi que não estávamos sozinhas.

Olhei por cima do ombro.

Alexsandra estava alguns metros atrás de mim.

Ela me observava.

Por alguns segundos, ficamos apenas nos olhando.

Aquela sensação estranha voltou.

Mesmo naquele lugar, cercada pelo medo, meu corpo parecia reconhecer a presença dela antes mesmo que minha cabeça pudesse entender o motivo.

Ela se aproximou.

— Vão explorar uma saída?

Assenti.

— Vamos.

Alexsandra olhou para o corredor escuro à nossa frente.

— Eu ouvi a água durante a noite.

Fiquei surpresa.

— Você também?

Ela fez que sim.

— Também ouvi.

Por um instante, nenhuma de nós falou.

— Então venha com a gente — falei.

Alexsandra olhou rapidamente para as amigas.

— Vou avisá-las.

Ela se afastou por alguns segundos e voltou logo depois.

Mônica lançou um olhar desconfiado para mim, como se quisesse perguntar por que, de repente, Alexsandra estava vindo conosco.

Ignorei.

Seguimos pelo interior da caverna.

A cada passo, a luz das tochas ficava mais distante. O barulho das pessoas também desaparecia aos poucos.

O chão era úmido e irregular. Precisávamos caminhar com cuidado para não escorregar.

— Por aqui — disse Alexsandra, apontando para uma passagem estreita entre as pedras.

Olhei para ela.

— Como você sabe?

Ela se abaixou e tocou o chão.

— Essas pedras estão molhadas.

Passei os olhos pelo caminho.

Ela tinha razão.

Quanto mais avançávamos, mais úmido ficava o chão.

O som da água também estava ficando mais forte.

Meu coração acelerou.

— Está ouvindo? — perguntei.

Alexsandra assentiu.

— Sim.

Continuamos andando.

De repente, um morcego saiu de uma abertura na parede e passou voando muito próximo às nossas cabeças.

Mônica gritou.

— Meu Deus!

— Fica quieta! — sussurrei.

O morcego desapareceu na escuridão.

Nágila respirou fundo.

— Eu avisei.

Alexsandra soltou uma pequena risada.

Olhei para ela.

— Está achando graça?

— Um pouco.

— Você não tem medo?

Ela me encarou.

— Tenho.

— Não parece.

Por alguns segundos, ela sustentou meu olhar.

— Talvez eu só não queira demonstrar.

Não consegui responder.

Havia alguma coisa naquele jeito de falar que me desconcertava.

Desviei os olhos e continuei caminhando.

Depois de alguns metros, parei.

Uma corrente de ar frio tocou meu rosto.

— Espera.

As três pararam.

Fechei os olhos.

O vento veio novamente.

Fraco.

Quase imperceptível.

Mas estava ali.

— Vocês sentiram?

Alexsandra se aproximou.

— Senti.

Passei a mão pela parede.

Havia uma formação de pedras à nossa frente.

O som da água vinha de trás delas.

— Tem alguma coisa aqui.

Alexsandra se abaixou e observou o chão.

— Cecília...

— O quê?

Ela apontou para a lama.

Havia marcas.

Pegadas.

Recentes.

Meu coração disparou.

— Essas marcas não são nossas.

Ninguém respondeu.

Alexsandra se levantou lentamente.

Olhou para mim.

Depois para a passagem escura.

— Então alguém esteve aqui.

Um silêncio pesado tomou conta do lugar.

Foi quando ouvimos um ruído vindo do outro lado das pedras.

Um som metálico.

Como se alguma coisa tivesse acabado de ser arrastada.

Mônica segurou meu braço.

— Cecília...

Olhei para Alexsandra.

Ela também tinha ouvido.

Por alguns segundos, nenhuma de nós se mexeu.

Então, bem baixinho, Alexsandra disse:

— Acho que não estamos sozinhas.

 

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

2
Informar violação das regras