A estrada parecia não ter fim.
Megan Dean gostava disso.
Gostava da sensação de não saber exatamente onde terminaria o dia, de sentir o vento bater contra o corpo e o ronco da Harley preencher o silêncio. Durante anos, aquele som havia sido o mais próximo que tivera de uma casa.
A placa indicando a fronteira dos Estados Unidos surgiu alguns quilômetros à frente.
Megan diminuiu a velocidade.
Por um segundo, pensou em dar meia-volta.
Seria fácil.
Sempre fora.
Bastava virar a moto e seguir em outra direção. Canadá. México. Talvez pegar um avião e desaparecer novamente em algum canto da Europa. Qualquer lugar serviria, desde que não fosse ali.
Mas continuou.
— Você não vai fugir dessa vez, Ghost — murmurou para si mesma.
A Iron 883 respondeu com o ronco grave do motor.
Megan sorriu de lado.
— Eu sei. Você também está cansada.
A motocicleta era provavelmente a coisa mais preciosa que possuía.
Não pelo valor.
Pela história.
O pai lhe entregara a Harley anos antes, junto com o colete de couro que agora descansava sobre seus ombros. Nas costas, já desbotado pelo tempo, ainda estava o símbolo do antigo grupo de motociclistas ao qual ele pertencera.
Megan raramente tirava aquele colete.
Era como carregar uma parte dele consigo.
Os cabelos cacheados estavam presos de qualquer jeito por baixo do capacete, e os olhos verdes denunciavam as muitas horas sem dormir. Megan tinha trinta anos e um rosto que parecia ter vivido um pouco mais que isso.
Talvez tivesse.
Aos dezessete, aprendera que algumas pessoas envelhecem pelos anos.
Outras, pelas despedidas.
E Megan havia se despedido demais.
Horas depois, estacionou diante de uma pequena lanchonete de estrada.
Desligou a Iron e permaneceu alguns segundos sentada sobre ela.
O silêncio veio de uma vez.
Era estranho.
Depois de tantas horas ouvindo apenas o motor e o vento, qualquer silêncio parecia grande demais.
Ela retirou o capacete e passou a mão pelos cabelos bagunçados.
— Café — decidiu. — Antes que eu morra em cima de você.
Entrou.
O lugar era simples. Algumas mesas, um balcão comprido e uma atendente que parecia tão cansada quanto ela.
Megan pediu um café bem quente e um waffle com mel.
Sentou-se perto da janela, de onde podia continuar observando a Harley.
Era um costume antigo.
Sempre escolhia mesas de onde pudesse enxergar a moto.
Talvez por segurança.
Talvez porque olhar para ela fosse quase como olhar para o pai.
Megan levou a xícara à boca.
O café estava quente demais.
Perfeito.
Fechou os olhos por alguns segundos enquanto sentia o líquido descer.
Depois de tantos anos, estava de volta.
San Diego.
Sua cidade.
Sua casa.
Seu passado.
Só pensar nisso foi suficiente para apertar seu peito.
Mais de dez anos haviam passado desde que partira.
Nesse tempo, cruzara fronteiras, aprendera idiomas pela metade, dormira em quartos baratos, casas de desconhecidos, hotéis, praias e até algumas noites ao lado da própria moto.
Conhecera mais países do que conseguia contar rapidamente.
Tivera amantes.
Amigos.
Histórias.
Acidentes.
Despedidas.
Mas nunca tivera raízes.
Não de novo.
Porque as únicas raízes que realmente importaram estavam naquele país.
E uma delas estava enterrada em um cemitério.
A outra...
Megan abriu os olhos.
Não.
Não iria pensar nela.
Não agora.
Pegou o garfo e cortou um pedaço do waffle.
Durante anos, conseguira manter certas lembranças longe o suficiente para continuar andando.
Um sorriso.
Cabelos ruivos.
Uma voz chamando seu nome de um jeito que ninguém mais chamara.
Meg.
Megan apertou o garfo entre os dedos.
— Para com isso.
A atendente lançou um olhar rápido em sua direção.
Megan fingiu não perceber.
Comeu mais um pedaço.
Ela voltara por causa do pai.
Era isso.
Depois de tantos anos, devia a ele pelo menos uma visita.
Queria sentar ao lado de sua sepultura e contar sobre tudo que havia visto.
Sobre as estradas.
Sobre os lugares.
Sobre as vezes em que quase morreu.
E talvez sobre as vezes em que desejara ter morrido também.
Depois iria para casa.
Se ainda conseguisse chamar aquele lugar de casa.
A última lembrança que possuía dali não era boa.
O pai debilitado.
O cheiro de remédios.
As janelas fechadas.
A tosse.
Depois a cama.
O silêncio.
Megan empurrou o prato para a frente.
Perdera a fome.
Pagou a conta e voltou para a estrada.
Antes de colocar o capacete, tirou um maço de Marlboro do bolso interno do colete.
Olhou para ele.
Soltou uma pequena risada sem humor.
— Grande ideia, Dean.
O pai fumara aquela mesma marca durante anos.
E o câncer de pulmão fora justamente o responsável por levá-lo cedo demais.
Megan sabia disso.
Sabia tudo sobre os riscos.
Sabia o que os médicos diziam.
Sabia como a história podia terminar.
Mesmo assim, colocou um cigarro entre os lábios.
Acendeu.
A primeira tragada queimou sua garganta.
Era familiar.
Talvez fosse justamente esse o problema.
Megan se encostou na moto e deixou a fumaça escapar lentamente.
— Você me mataria se estivesse aqui, velho.
O vento levou a fumaça.
Ela imaginou a resposta do pai.
Provavelmente alguma piada.
Depois um sermão.
Depois outro cigarro.
Megan sorriu.
A saudade tinha dessas coisas.
Fazia a gente rir no mesmo lugar em que doía.
Terminou o cigarro, apagou-o no cinzeiro ao lado da entrada e colocou o capacete.
O GPS mostrava o caminho.
Cemitério.
Megan ficou alguns segundos encarando aquela palavra.
Por muito tempo, viajara acreditando que distância curava alguma coisa.
Descobrira que não.
A distância apenas ensinava a conviver com a ausência.
Montou na Iron.
Ligou o motor.
O som familiar preencheu novamente o espaço ao redor.
Dessa vez, porém, Megan não sentiu liberdade.
Sentiu medo.
Porque cada quilômetro percorrido a aproximava da única coisa que sempre evitara:
o passado.
E, sem saber, também a aproximava da pessoa que havia passado todos aqueles anos tentando esquecer.
O destino, aparentemente, tinha outros planos para Ghost.
Fim do capítulo

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