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Filha da Noite por Maysink

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Palavras: 1179
Acessos: 36   |  Postado em: 20/08/2026

Epílogo

Meses haviam se passado, mas o silêncio que preencheu a clareira na noite que sentenciei uma das maiores bruxas da nossa era ainda ressoava por entre as ruas de Eradia. Parecia uma canção perigosa, mas também acolhedora.

Elizabeth fora exilada da comunidade bruxa, incapaz de voltar. Seu nome fora marcado nos anais da história como a única bruxa desfavorecida pela Deusa. Ainda que ela tentasse, jamais conseguiria encontrar o caminho de volta para o mundo que ela havia tentando moldar com as próprias mãos. Um lembrete vívido do alto preço que ir contra a Deusa das bruxas significava.

As matriarcas, agora, carregavam apenas um título simbólico, mas sem o valor que outrora impunha tanto respeito. Todas as bruxas tinham voz, devido ao governo recém-instituído. Assembleias eram feitas com as representantes de todos os covens. Todas eram ouvidas, porque a liberdade e igualdade eram as novas leis supremas.

Ainda assim, algo dentro de mim havia mudado. Estava nos olhos das bruxas que passavam por mim. Na forma como um frio inexplicável cobria meus ossos. As fases da lua brilhando vermelho em minha fronte incitavam medo, fazendo da confiança algo frágil. Como uma barragem trincada prestes a explodir com uma simples chuva fina. Não as culpava, por muito tempo também temi o que eu era capaz de fazer, da volatilidade do poder que residia dentro de mim.

Esse tipo de coisa define irreversivelmente o jeito como as pessoas te veem, eu sabia disso. Porém, nada me preparou para as consequências de ter tanto poder. Minha palavra tinha um peso perigoso, minhas ações carregavam promessas ameaçadoras. Ninguém ousava me contrariar, ninguém… exceto ela!

Amélie Fairfall.

E naquele momento ela fazia aquilo com uma maestria irritante.

— Você não vai usar coturnos no meu casamento! — declarou, não dando brecha para contestação, me fazendo rir, desacreditada.

— Não sabia que seu casamento tirava minha liberdade de expressão. — rebati, pirraçando.

A verdade era que se ela dissesse que queria que usássemos um saco de batata eu aceitaria de qualquer forma, mas o prazer de implicar com Amélie era tentador demais. Nas primeiras semanas, minha amiga ainda remoía a culpa pelo que sua avó havia feito ao coven Mayclair. Tê-la de volta ao seu habitual humor descontraído era o maior dos presentes para mim. Então não perdia a oportunidade de mostrar a ela que aquela página havia sido virada, que ela podia se libertar de um sentimento que não lhe pertencia.

— É meu casamento, era de se esperar que pudesse mandar em algumas coisas. — declarou, arrancando um bufar tedioso de mim.

— Qual sua sugestão, senhora? — perguntei, irônica, servindo outra dose de vinho em nossas taças.

— Saltos! Já falei para Diana e ela, como uma boa madrinha de verdade faria, aceitou numa boa. — comentou, dando de ombros, aceitando a taça cheia.

— Você coagiu minha mulher com seus caprichos de noiva? — brinquei, estreitando os olhos em falsa ameaça.

— Óbvio! Ela sabe quem tem o poder de verdade nesse caso. — debochou, rindo enquanto tomava mais um gole do líquido rubro que dividíamos sentadas na varanda da minha casa. O entardecer estava bonito, tons laranjas escureciam o céu, substituindo os raios do sol que se escondia devagar no horizonte.

— Ok, tudo bem! — eu disse, vencida.

— Boa garota! — provocou, me olhando convencida. Nossa risada cúmplice acalmando meu coração, que andava tão agitado desde os dias turbulentos que havíamos passado.

No dia do casamento de Amélie e Phillip, como de costume, fizemos uma pequena oferta à Deusa antes da cerimônia, pedindo sua bênção. Estávamos nós quatro de frente ao altar do jardim da casa Mayclair. Não sei em que momento o tempo pareceu desacelerar, quando os sons ao nosso redor se silenciaram, quando a fumaça da vela queimando parou estática. Eu sabia muito bem o que aquilo significava, e a ansiedade que por muitas vezes agitava meu coração não fez sua visita costumeira.

O cheiro característico da flor de acônito se intensificou no ar, o arrepiar involuntário varreu cada sentimento da minha pele como o prelúdio da sua presença inegável. Hécate em sua forma mais jovem surgiu por detrás do altar, andando ao redor dele com satisfação brilhando nas íris escuras. O vestido negro ondulava em camadas infinitas, como sombras a seus pés.

— Minha filha, vejo que sua mágoa se abrandou. — disse, passando as pontas dos dedos despretensiosamente pela chama da vela, que voltou a se movimentar.

— Não faz sentido me embriagar com algo tão efêmero. — A risada rouca e indiferente preencheu o vazio do jardim. Hécate voltou seus olhos para mim, o sorriso pequeno e conspiratório formado em seus lábios avermelhados.

— Palavras sábias… — disse, se aproximando lentamente. Eu ergui meu rosto quando seus dedos tocaram meu queixo, delicadamente. Meus joelhos protestaram pelo desconforto da posição, por estar ajoelhada. — Você verá com o passar do tempo o quão passageiros são certos sentimentos. É o efeito de ser imortal.

— A imortalidade não é nada. — falei, desgostosa.

— A imortalidade não é agradável por vivenciar grandes feitos, mas pela imprevisibilidade com que lida com eles. — garantiu Hécate, antes de desaparecer. Deixando o eco da sua voz se perder no vento como todas as vezes.

A cerimônia foi linda como imaginávamos. Todos estavam dançando e se divertindo na festa que se seguiu. Eu, no entanto, brincava com as flores do arranjo pousado no parapeito do jardim da mansão Fairfall, enquanto observava absorta a comemoração acontecendo diante de mim. Foi a quentura familiar da presença de Diana que acalmou meus pensamentos inquietos, como num abraço acolhedor. Seu cheiro delicioso embriagando minhas veias, muito mais eficiente do que o álcool ingerido há pouco.

— Um beijo pelos seus pensamentos! — sussurrou cuidadosa, envolvendo minha cintura com ambas as mãos.

— Só um? — questionei, virando-me devagar, ficando ciente da proximidade da outra mulher. Diana estava com um maldito vestido vinho, responsável pela insanidade que eu domava com verdadeira dificuldade. As alças finas mal cobriam a pele dourada tão convidativa. Meus dedos formigavam desde que pus meus olhos nela, ansiando sentir seu calor.

Ela se aproximou, fazendo seu hálito adocicado queimar minha pele de expectativa. Só um pouco mais perto, e sua boca, tingida da mesma cor que o tecido que a cobria, tocaria a minha. Céus, será que em algum momento iria me acostumar com os efeitos devastadores que aquela mulher me causava? Meu peito parecia um mar revolto em plena tempestade. Contraditório e inevitável.

Rompendo minha batalha interna entre ceder e lutar, Diana sorriu endiabrada. Aquele repuxar de lábios conspirador, como se carregasse consigo todos os segredos mais pecaminosos, destruiu de vez minha frágil resistência. Tomei sua boca com a minha, reivindicando aquele pedaço seu com desejo latente. As mãos dela se apertaram firmes sob o frágil tecido do vestido, de tom semelhante, que protegia meu corpo. Eu senti as chamas, que ela domava com maestria, cobrirem cada curva do meu corpo com posse desvelada.

Se a imortalidade mostrasse o peso da efemeridade, eu implorava que não fosse naqueles sentimentos.

Fim do capítulo


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