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Ela genuinamente não entende, achou que havia deixado o recado muito claro quando não compareceu ao jantar semanal, não quer se envolver nessa bagunça que Diana criou para si mesma e nem estender o drama. Que haviam acordado mutuamente que havia acabado, então não faz sentido que tenha aparecido no bar tarde da noite, uma parte diz que pode ser apenas a preocupação natural, enquanto a outra, mais lógica e menos ingênua, sabe que não é isso e as mensagens trocadas são mais do que provas disso. Houve momentos, especialmente antes dele aparecer, que ela fez o mesmo, ou quase, ao aparecer em festas apenas para lhe conduzir para casa e nunca demonstrou irritação, já que se recusa a chamar de ciúmes. Desta vez é diferente, Marcela pode dizer pelos nós dos dedos brancos com a força que aperta o volante e os lábios que tentam segurar um sorriso falso para Theo, mas se desmancha assim que a atenção se volta para ela. A morena realmente não entende o que fez de errado, não havia prometido aparecer e ela estava ciente disso. Não entende e nem sabe se quer entender o que Diana espera dela.

- Então você não estava jogando Minecraft? - pergunta ao filho, sabendo da resposta.

- Um pouquinho sim, depois de ligar para a Dinda. A senhora estava muito triste.

Marcela suspira e desvia o rosto para a janela, escondendo-se deles, é claro que ela tinha que ter um menino sensível e genioso em casa, talvez fosse sua culpa não prever o próximo passo dele. De repente, a cidade é mais interessante do que manter essa conversa, mesmo que não haja quase nada para se ver além de prédios antigos, comércios fechados e parquinhos vazios, ainda há quinze minutos de trânsito sem sinaleiras. Nem percebe que o aparelho de som é ligado e uma música infantil toca ao fundo, com a playlist de Palavra Cantada, que sempre anima Theo nos primeiros minutos de uma viagem de carro e o coloca para dormir como um sonífero. Ele nem mesmo chega à segunda canção e roncos suaves são ouvidos. Com cuidado, Marcela decide colocar as pelúcias que estão aos seus pés ao lado dele, para que não se sujem.

- Você se divertiu? - Diana a questiona, fazendo a curva para sair da avenida.

- Sim.

A empresária apenas acena em reconhecimento e continua a dirigir em silêncio, até chegar à última curva e assim ao beco onde a residência dos Martins está localizada. Quando seus pais morreram os irmãos herdaram a casa onde nasceram e cresceram, Marcela terminou o contrato de aluguel de seu apartamento minúsculo e foi um alívio ter espaço extra ao descobrir a gravidez, já Marco não queria continuar ali e aceitou a proposta da irmã em, ao menos, pagar sua mensalidade. Na pandemia, Diana passou mais tempo ali do que em qualquer outro lugar, no início era por ser mais prático por causa de Theo e do trabalho, depois das liberações continuar morando juntas acabou se tornando por conveniência e preferência de ambas. Mas as coisas se complicaram com aquela noite de bebedeira, pouco tempo depois Diana voltou para sua casa e a brincadeira de casinha de bonecas acabou mais rápido do que começou. Todos os cantos e paredes cheias de memórias compartilhadas, que, vendo onde estão, se tornam dolorosas.

- Mar... - a mais velha a chama e pousa a mão livre em sua coxa, um movimento recorrente que em outro momento lhe traria conforto, desta vez é a sensação de queimar sua pele com o toque gentil - Fale comigo.

- Não agora, não hoje.

- Por favor! - por um breve momento ela se vira e há o vislumbre dos olhos verdes com um brilho esperançoso, como uma criança usando as palavras mágicas para conseguir o que quer - Precisamos conversar.

A morena quer responder com ironia que elas sempre precisaram, desde o início dessa bagunça, mas não quer deixar a amargura escondida tomar conta agora e, por consequência, piorar a situação. Não tem energia para lidar com isso e muito menos com uma Diana na defensiva. Nenhuma delas nunca gostou de confrontos e talvez isso seja parte das razões de estarem onde estão, queria poder voltar no tempo e dizer firmemente que não concordava com as condições e que queria algo mais do que uma companhia na cama, ela a queria por inteiro, em todos os sentidos e ser mais do que apenas sua amiga muito próxima e sócia. Não era suficiente e ainda não é, as migalhas continuam a ser jogadas e é sua escolha segui-las ou não.

- Está tarde. - sussurra a ruiva, tentando encontrar o fio de algum assunto que a faça conversar - Isso não é seu habitual.

- Pois é, as coisas mudam.

- Não você.

Ela tenta se controlar, mas Marcela solta um suspiro exasperado e desvia o olhar mais uma vez, tentando ignorar o toque ainda persistente em sua perna, dedos longos apertando a pele nua antes de desenhar círculos invisíveis. É tão íntimo que dói. E dói ainda mais saber que, talvez, no fundo, ela saiba exatamente o que isso causa, escolhendo deliberadamente fazer isso. Diana é como o mar, por vezes é revoltada, calma em dias de luz, mas cheio de marés que a puxam para sua bagunça, prestes a lhe afogar e então lhe cospe de volta à praia, ao ponto de deixá-la acreditar que está aprendendo a nadar. 

- As pessoas também mudam.

Em um movimento rápido, empurra a mão dela e cruza as pernas. O gesto é interpretado com rapidez e, ao invés de uma resposta verbal, recebe apenas um olhar confuso que se torna reprovador em questão de segundos. Diana a respeita o suficiente para não repetir o toque, mas ainda insiste em conversas que não passam de uma terceira sentença fracassada que deixa o assunto morrer. É assim até alcançarem a garagem coberta, as pedrinhas brincam tentando desequilibrar Marcela de seu salto alto, não esperava ter que passar por ali, então confia na amiga para carregar Theo para dentro por estar usando sapatos mais confiáveis, além disso, não sente que tem condições de conseguir atravessar o caminho sem levar os dois ao chão.

- Você é inacreditável. - sibila ao abrir a porta e deixar a ruiva entrar, o menino babando contra o ombro coberto por um suéter de tricô.

- Obrigada! - a resposta é irônica, não maldosa, soa quase como arrependimento sob a fachada de indiferença.

Sem precisar perguntar, Diana o leva até o banheiro compartilhado, conversando suavemente e acariciando os cabelos castanhos até Theo mostrar algum sinal de consciência. Aos poucos tirando seu casaco de frio sobre o conjunto de pijamas de dinossauro, o mesmo que elas haviam comprado no último passeio pelo centro da cidade, e o ajuda a escovar os dentes, depois penteia os fios rebeldes, caso contrário irá acordar como um porco espinho. Marcela assiste a rotina escorada no batente da porta, não tem forças para fazer o mesmo consigo, talvez depois de um banho quente com uma grande xícara de café.

- Quer colocá-lo na cama? Vou preparar algo para comer. - é como se a mulher pudesse ler sua mente com uma precisão irritante.

- Okay.

Marcela amarra os fios em um coque sem prendedor e abandona os saltos no lugar para alcançar o filho, que instintivamente se joga contra seu colo, aninhado enquanto cai em outro sono pesado. São raras as vezes que Theo fica acordado até tarde, tendo uma rotina centrada e seguida quase religiosamente, fazendo com que a intervenção de Diana seja mais invasiva e inconveniente.

- Conversaremos sobre suas traquinagens amanhã. - ela começa, ao cobri-lo com o edredom, e sorri ao ouvir mais roncos fofos - E você ficará de castigo. Durma com os anjinhos, meu amor. - então se despede com um beijo na testa.

Atrás dela, desliga as luzes do quarto e do corredor, até chegar na sala onde se permite sentar por alguns segundos ignorando o barulho, baixo e ainda presente, dos equipamentos de cozinha sendo usados. O cheiro de ovos a deixa um pouco enjoada, tem certeza que é a famosa omelete de espinafre com tomates cereja que Diana inventou em uma manhã preguiçosa. O barulho da chaleira também a irrita e se pergunta porque a empresária simplesmente não usou a máquina para uma xícara de sua cápsula mais forte. Demorou, mas os sinais de sua futura ressaca já começaram a aparecer pouco a pouco, acabou se deixando levar pela boa conversa e diversão mesmo não sendo um exemplo de força no quesito álcool.

- Aqui está. - Diana coloca o prato na mesma de descanso, seguido de um chá de camomila, o que quase lhe faz gemer de decepção - Nada de cafeína. Você vai dormir querendo ou não, amanhã temos um compromisso.

- Não lembro de marcar nada num sábado.

- Você sabe como Estela é. Mas ela também é uma ótima investidora, está tão difícil conseguir contatos assim. - a empresária divaga e serve a si mesma com um pedaço da omelete do prato - Ela voltou ao Brasil mês passado e nega espaços na agenda.

- Talvez seja por tudo o que aconteceu.

Logo Marcela se arrepende de deixar os pensamentos falarem mais alto, entretanto, é algo que as duas compartilham. Na verdade, foi uma surpresa que ela atendeu ao telefonema pessoal de Diana e aceitou conversar sobre negócios. Pelo que soube, já havia ignorado tentativas de reuniões de três famílias importantes de sua roda social, até mesmo dos Zambrano.

- É, ao mesmo tempo, não é nossa culpa.

Ela dá de ombros e toma o garfo da mão da mais velha, espetando um grande pedaço, o frango e as fritas não foram o suficiente para lhe saciar durante a noite. Não quer ter que voltar ao passado e muito menos ao fato que nem a envolve diretamente, ainda assim, os olhos verdes a encaram com a clareza de que ela não tem total escolha.

- Preciso mesmo ir?

- Ela quer ver o Tetéo. E a você também.

Marcela suspira pesadamente e termina a refeição, evitando o olhar atento que a acompanha a cada movimento. Nunca gostou muito das tais reuniões, sentindo-se totalmente deslocada enquanto Diana fala de números, previsões e burocracias, apenas esperando para dar seu toque criativo ao assunto e pousar o resto da reunião concordando com qualquer coisa. Pelo menos sempre há comida e bebida, que no final não sairia diretamente de seu bolso, já que a mulher, como uma orgulhosa Albuquerque, faz questão de pagar.

- Não me sinto à vontade.

- Imagine eu. - Diana solta uma risada falsa e se ajeita no sofá, se aproximando de forma que ela considera sorrateira - Então, não vai tirar essa jaqueta?

- Estou com frio.

Ela desliza as mãos pela cintura que alcançam os bolsos, escondendo-as no conforto do interior macio ao toque. Um tilintar preenche o ambiente, algo de metal bate contra sua pulseira, por instinto acaba puxando o que pode ser o objeto. É um isqueiro quadrado, com tampa, relevos na gravura formam o desenho de uma flor, é em preto com detalhes vermelhos. A curiosidade lhe é maior e tira o resto das coisas: uma carteira de cigarros amassada e um batom. No outro bolso, pelo menos uma dúzia de balas de menta.

- Por isso você está fedendo a essa merda. - Diana cospe com nojo e arranca a carteira de suas mãos, sem perder tempo em jogar na primeira lixeira a sua frente - Achei que fosse totalmente contra cigarros, lembra da bronca que me deu por tentar um?!

- Eu não fumei... - a resposta é quase um gemido, está voltando a se frustrar com a amiga - Ela apenas esqueceu.

A citação da mulher desconhecida faz o sangue de Diana gelar e fervilhar ao mesmo tempo, a criatura em seu ombro a lembra que não pode cobrar algo dela, muito menos se permitir sentir ciúmes, enquanto a contraparte defende que elas estão nisso há anos e é uma reação normal ao ver sua melhor amiga se divertindo com outra pessoa. Sua mente rodopia e quase a derruba antes de encontrar apoio na bancada, onde captura a imagem de Marcela com nitidez no reflexo da janela. Suas bochechas ainda estão coradas pelo álcool, o cansaço toma conta de suas expressões enquanto tenta manter algum desinteresse na conversa, os lábios comprimidos e os dedos brincando distraidamente com o zíper da peça.

Ela quer lhe perguntar, tanto que quase dói fisicamente, a sensação preenchendo seu peito e roubando o ar dos pulmões. Para seu alívio, Marcela continua enquanto caminha para colocar os pratos na pia, ao seu lado.

- É a moça do acidente de carro. Ela bateu no meu e depois resgatamos os cãezinhos.
- Muito altruísta da parte dela. - Diana não consegue segurar o comentário sarcástico e se arrepende imediatamente da falta de autocontrole, sabe que é um de seus maiores defeitos, assim como sabe que não irá conseguir parar - E ela por acaso estava no mesmo bar que você? Que coincidência.

- Não te devo explicações, mas sim, uma grande coincidência. 

O prato é praticamente jogado na superfície e o chá pela metade ao lado, o que assusta a empresária. Não apenas pelo barulho, mas também pelo ato em si, se conhecem há mais de dez anos e nunca a viu agir assim antes, nem mesmo nos momentos mais difíceis ou frustrantes. Pela primeira vez na noite elas se olham, realmente se olham, face a face, com uma vulnerabilidade que raramente experimentam juntas.

- Porque você foi até lá? Não me diga que apenas por causa de Theo, eu te conheço muito bem. - Marcela finalmente a confronta com a pergunta que vem martelando sua cabeça pela última hora.

- Porque você não foi ao jantar? - a pergunta é rebatida com outra, que ela considera muito mais importante.

Não há uma resposta para isso, ou talvez haja, ela apenas se recusa em colocar em palavras. Ela engole seco e luta contra a sensação de queimação atrás dos olhos, fracassando na tentativa de evitar as lágrimas que a atingem assim que vira o rosto para a janela. Ali assiste a si mesma fungar e tentar limpar sua dor líquida. Assiste Diana dar um passo à frente e pousar a mão delicada em sua bochecha, o polegar acolhendo as outras gotas como se fosse algo habitual, quase natural. Identifica a hesitação, a luta interna e, também, o amor através do gesto.

- Porque você aceitou casar-se com ele?

- Parecia certo. - Diana confessa e se arrepende das palavras usadas, isso apenas afasta Marcela de seu toque - Não estou dizendo que parece certo agora, você sabe que eu sou estúpida.

- Você é muitas coisas, mas não estúpida. - a frase não passa de um sussurro esganado, Marcela sente a garganta se fechar e tenta continuar sem falhar - Talvez eu seja, por sempre acreditar que você irá finalmente perceber.

- Perceber o que? 

A ruiva se aproxima novamente, sobrancelhas franzidas e lábios trêmulos, o brilho nas íris verdes lhes dão um tom azulado, o charme que faz Marcela se derreter toda vez que ela lhe olha assim. E assim ela tem certeza que a mulher está sofrendo tanto quanto ela, nunca foi sua intenção, também nunca foi se tornar uma amante, o segredo sujo que é abandonado na manhã seguinte e tomado de volta na escuridão. Está realmente cansada disso, acima de tudo, cansada de machucar a si mesma e a quem considera sua melhor amiga, independente do que são e do que já foram, ela ainda é sua pessoa.

- Que eu te amo, Diana. Eu quebrei a promessa há muito tempo.

A frase sai tão naturalmente, vulnerável e crua, que Marcela nem consegue processar as próprias palavras até perceber o quão chocada e atônita a outra está. Sem reação imediata. Sem lágrimas. Sem raiva. Sem felicidade. E esse é seu pior pesadelo, o nada.

- Mar... - Diana começa e é interrompida pelo próprio soluço, tentando respirar corretamente para descobrir que desaprendeu em questão de segundos - Mar, eu...

- Você não precisa dizer nada. Eu sei! Você também me ama, eu sei disso, mas ele ainda é aquele que parece o certo. - tudo aquilo que guardou por anos desaba junto a suas lágrimas insistentes - Realmente entendo. Não respeito, Deus sabe como eu odeio o Amauri e toda essa situação. Ainda assim, entendo.

- Me deixe explicar, por favor.

- Não, se você explicar vai doer mais e eu falei sério quando disse que estava cansada. 

Elas se encaram por longos segundos e Diana tenta se aproximar novamente, a diferença de altura entre elas faz Marcela parecer mais pequena e frágil do que é. Ela quer lhe tocar e dizer todas as coisas que nunca ousou em voz alta, mas nada sai, apenas um gemido lamurioso. Os dedos alcançam as pontas das madeixas escuras e as enrolam, ela não consegue levantar o olhar, apenas encara os fios que parecem seda em sua mão. Adora quando ela ondula o cabelo, adora beijá-lo e acariciá-lo. Apesar de ser muito boa no que faz no âmbito profissional, se considera um total fracasso em romances, não consegue ter a maestria com palavras que têm em reuniões, a sagacidade de perceber sinais e a iniciativa feroz. Se não consegue explicar, acha que talvez possa lhe mostrar e em um suspiro de coragem se inclina para que capture os lábios cheios contra os seus. Dura apenas um segundo, Marcela a empurra delicadamente e através das próprias lágrimas que se formam vislumbra os olhos castanhos cheios de melancolia.

- Acho melhor você ir para casa.

E Diana a obedece.

Pela primeira vez, é Marcela pedindo para que vá embora, e não implorando silenciosamente para que fique ao seu lado. Ela se encolhe e passa pela porta, lutando contra a vontade de olhar para trás, com medo do que pode encarar.

Tem consciência que ultrapassou seus limites e se aproveitou de seu amor como se fosse incondicional. A pessoa que sempre esteve ali por ela e confiou tudo de si, confiança que nunca achou que merecia totalmente. Agora é tarde demais. Ela quebrou Marcela. Ela a quebrou de vez e sabe que não tem como voltar atrás, é exatamente isso que lhe assusta. Um passado que não pode mudar, reescrever ou implorar por uma chance de recomeçar. Seria injusto pedir isso. Seria mais egoísta do que já é. E machucaria a mulher que ama outra vez.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

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E

Emma21

10/08/2026 às 09:44

Sinto muito pelas suas percas. 

R

RENATA32

09/08/2026 às 02:36

Olá. Não nos abandone .

A história está bem interessante.

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