Capítulo 1

Você tem a mim.

de Meu algodão doce, por Scrafeno

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Marina sempre imaginou que, quando acontecesse, ela saberia exatamente o que sentir, alegria. Era isso que deveria sentir. Afinal, durante anos assistira mulheres chorando de felicidade em filmes, abraçando maridos, mostrando ultrassonografias para familiares emocionados. Parecia tão simples. Mas sentada no chão frio do banheiro, com o teste de farmácia repousando sobre a pia, tudo o que Marina conseguia sentir era nervosismo. Seu joelho balançava sem parar. Ela olhou para o celular. Dois minutos, ainda faltavam três. Quem tinha inventado aqueles cinco minutos de espera era uma pessoa cruel. Tentou outra vez ligar para Lilian, sua amiga, mas o celular parecia está desligado. Abaixou a cabeça e passou as mãos pelo rosto. E se desse positivo? Seu coração acelerou. E se desse negativo? Seu coração acelerou ainda mais, não sabia qual resposta a assustava mais. 
Nos últimos dias vinha desconfiando. O atraso. O cansaço. A sensibilidade estranha nos seios. Pequenos sinais que seu corpo parecia estar espalhando como pistas. Ela se levantou pela quarta vez, aproximando-se da pia. Dois minutos e quarenta segundos. Suspirou. Voltou a sentar. Levantou-se novamente. Olhou outra vez. Nada. Estava ficando maluca. 
Uma risada nervosa escapou de seus lábios. 
— Pelo amor de Deus, Marina... 
Aquela espera estava sendo mais difícil do que ela imaginara. Pensou em Rodrigo, imaginou a expressão dele, imaginou os olhos arregalados, o sorriso, o abraço, talvez chorasse. 
Ela sempre brincava que ele seria um pai melhor do que ela seria mãe. A ideia a fez sorrir, pela primeira vez desde que entrara naquele banheiro. 
Então o alarme do celular tocou, seu estômago afundou. O mundo inteiro pareceu ficar silencioso, Marina respirou fundo, e finalmente estendeu a mão para pegar o teste. 
Grávida. 
A palavra parecia grande demais para caber dentro daquele banheiro simples do apartamento que dividia com Rodrigo havia quase três anos. 
Uma risada nervosa escapou de seus lábios, seguida por lágrimas inesperadas. 
— Meu Deus... 
Sentou-se na tampa do vaso, levando uma das mãos ao ventre ainda completamente plano. Ela pegou o celular, mais de uma vez pensou em mandar uma mensagem. 
Mas algo dentro dela queria ver a reação dele pessoalmente. 
Durante o resto da tarde, Marina limpou a casa sem necessidade, tentou assistir televisão, preparou café e deixou esfriar. A ansiedade ocupava cada espaço de seu corpo. 
Quando ouviu a porta se abrir, pouco depois das sete da noite, seu coração disparou. 
— Amor? — chamou ela, quase correndo para a sala. Rodrigo entrou tirando os sapatos. 
— Que foi? — Marina sorriu. 
Um sorriso verdadeiro, cheio de expectativa. 
— Eu preciso te contar uma coisa. — Ele ergueu uma sobrancelha. 
— Você tá me assustando. 
— Eu... eu tô grávida.  
Rodrigo soltou um suspiro pesado, não um suspiro de felicidade, um suspiro de preocupação, de incômodo.  
— Sério? — A palavra caiu como uma pedra. 
— Sim — respondeu ela, confusa. — Eu achei que... 
— Marina, agora? — Ela franziu a testa. 
— Como assim "agora"? — Rodrigo passou a mão pelos cabelos. 
— A gente mal se estabilizou financeiramente. 
— Você tá brincando, né? 
— Não estou. — A alegria dentro dela começou a desaparecer, substituída por uma sensação estranha de frio. 
— Você não está feliz? — Ele desviou o olhar. 
Do outro lado da cidade, Liliane saía da clínica com uma pasta azul apertada contra o peito, o sol do fim da tarde iluminava a calçada, mas ela mal percebia. Seu coração estava leve. 
A primeira inseminação tinha sido realizada naquela manhã, depois de anos esperando. 
Anos vendo relacionamentos terminarem quando mencionava o desejo de ter uma família. Agora ela estava fazendo aquilo sozinha, por escolha, ou talvez por falta de opção, entrou no carro e ficou alguns segundos parada antes de ligar o motor. Sorriu para si mesma. 
— Então é isso. 
Seu celular vibrou, ligação de Marina, Ela não mencionou que iria fazer aquilo tinha feito tudo escondido da própria família, da melhor amiga, que nunca tinha apoiado ela nessa ideia louca. Ser mãe solo não é para tudo mundo. Não, aquela decisão era dela. Somente dela. 
Marina apertou o botão da chamada, enquanto ainda lembrava da briga.  
— Eu só pedi um pouco de tempo pra pensar! — Rodrigo dizia. 
— Você pediu para eu não contar para ninguém! 
— Porque eu não quero que as pessoas comecem a comentar! 
— É seu filho! 
— E daí?... Vou sair. — Ela o encarou. 
— Sair? 
— Vou encontrar os meninos. 
— Você vai me deixando sozinha depois disso? 
— Eu preciso esfriar a cabeça. 
Com um bebê crescendo dentro dela e sem saber o que fazer, as lágrimas vieram sem controle. Por instinto, pegou o celular, a lista de contatos apareceu diante dela. 
— Oi, Mari... — Bastou ouvir aquela voz, Marina desabou mais ainda. 
— Eu vou me separar dele. — Silêncio, do outro lado da linha, Liliane nem havia ligado o carro ainda.  
— O que aconteceu?  
Entre soluços, Marina contou tudo. 
— Eu não tenho para onde ir — confessou. 
Liliane fechou os olhos, seu apartamento tinha apenas dois quartos, sua vida acabara de entrar em uma fase completamente imprevisível. Mesmo assim, a resposta saiu sem hesitação. 
— Vai lá pra casa 
— O quê? 
— Arruma uma mala eu vou te buscar. 
— Lili... 
— Você não vai ficar sozinha essa noite. — Marina começou a chorar novamente, mas dessa vez havia alívio misturado às lágrimas. 
— Tem certeza? 
Lilian olhou para a própria barriga, ainda sem qualquer sinal da possível gravidez que talvez estivesse começando naquele exato momento, depois sorriu. 
—Absoluta. 
Ao chegarem Marina que já havia estado naquele apartamento tantas vezes, já havia dormido nos dois quartos, na sala, no chão e no sofá, se sentia estranha, como iria começar uma vida nova com uma criança a caminho? Como colocaria o peso disso em cima de Lilian, logo Lilian, que sempre sonhou em ter uma família, que era com toda certeza a lésbica mais lésbica possível, se apaixonava fácil, três meses depois a namorada estava no apartamento dela dividindo até o sabonete em barra. Como ela iria conciliar trabalho e um filho? Como ela diria isso para a mãe? Caralho, minha mãe. 
—Minha mãe vai me matar, Lili.  
Lilian que estava alheia, vivendo dentro da sua própria cabeça, com sua imaginação aflorando, já pensava numa pretinha de sua cor, com um cabelinho cacheado, um lacinho na cabeça, ela queria tanto isso. Despertou com a fala de Marina, que além de se sentir completamente estranha, seus olhos denunciavam a quão apavorada ela estava.  
—Ela não vai, o sonho da sua mãe é ser avó, ela só vai lembrar pra você que ela não queria que você namorasse o Rodrigo, mas fora isso... — Lilian se aproximou abraçando a amiga. —Vai ficar tudo bem, eu estou com você, hein? — continuou balançando a sobrancelha tirando um pequeno riso no meio de tanto apavoramento que Marina sentia.  
—Por que não vai tomar um banho enquanto eu preparo um café? Tem toalha, sabonete e uma escova de dentes nova no armário do banheiro. Qualquer coisa me chama.  
—Você pode fazer aquela sopa que você faz? — Lilian sorriu para ela e afirmou.  
—Claro, mal está gravida e já está com desejos, isso tem cara de aproveitamento.  
Lilian esperou Marina desaparecer pelo corredor antes de respirar fundo. Assim que ouviu a porta do banheiro se fechar, caminhou lentamente até a cozinha. Encostou as duas mãos na bancada e fechou os olhos. Seu celular ainda estava sobre a mesa. A pasta azul permanecia dentro da bolsa, escondida como se pudesse desaparecer caso ninguém a visse. 
Ainda era cedo demais para criar expectativas. Ela sabia disso. Os médicos tinham repetido diversas vezes. Mesmo assim, era impossível impedir a imaginação. Um bebê, seu bebê. A ideia fazia seu peito aquecer.  
O barulho do chuveiro ligando a trouxe de volta. Poucos minutos depois, Marina apareceu usando uma camisa enorme que parecia ser de algum time de basquete, com os cabelos molhados e o rosto inchado de tanto chorar. Lilian sabia a quem pertencia aquela camisa, e não gostava muito disso.  
— Você não estava brincando... — disse ao sentir o cheiro da sopa. — Você realmente fez. 
— Eu nunca brinco quando o assunto é sopa.  
 As duas se sentaram no sofá em frente a tv, Lilian ainda usava a roupa que chegou da rua, cada uma com uma tigela, Lilian colocou em uma série qualquer, ela sabia que nenhuma das duas conseguiria prestar atenção de verdade. 
— Obrigada. — Marina falou cortando o silencio entre elas.  
— Pelo quê? 
— Por não me deixar sozinha. 
— Você faria o mesmo por mim. — Lilian deu de ombros como se fosse obvio. 
— Sempre! — Marina respondeu sem pensar. 

Fim do capítulo

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