Capitulo 2 - No momento do desespero
Marcela
Entro no banho após fazer meus exercícios matinais e tento me preparar para mais um início de semana. Tenho fugido dos meus pais desde o desastre público que foi o fim do meu noivado, e a palavra “desastre” ainda soa pequena demais para a proporção que aquilo tomou. Não bastou ser traída. Não bastou descobrir que meu relacionamento de anos era, na prática, uma peça de teatro muito bem ensaiada. Não bastou perceber que eu estava prestes a me casar por pura conveniência social.
Ainda precisei lidar com a exposição, os tabloides, as mensagens falsas de solidariedade e, claro, a desaprovação da minha família, que enxerga a vida como uma sequência obrigatória de passos: namorar, noivar, casar, ter filhos, sorrir em fotos de Natal e fingir felicidade até o fim dos tempos.
A água quente escorre pelo meu corpo, e eu fecho os olhos, tentando imaginar que cada gota leva embora um pouco da pressão acumulada no meu peito. Funciona por aproximadamente três segundos. Depois, minha mente decide que é uma excelente ideia lembrar do rosto da minha mãe, decepcionada, e do tom de voz de Lúcio, dizendo que errou e quer perdão, como se eu devesse algum tipo de gratidão por ter sido um péssimo ser humano.
Inclino a cabeça para trás.
Respiro fundo.
Uma semana.
Sete dias desde que arranquei aquele curativo de uma ferida que já estava infeccionada há anos, algo que já deveria ser resolvido muito antes.
Sete dias fingindo que estou ótima, e não me entenda mal, eu não estou triste ou sofrendo por conta dele, só estou assim por tudo que preciso enfrentar daqui para frente.
Sete dias provando, para mim mesma e para o mundo, que não preciso de ninguém. E talvez seja verdade, sempre me dei melhor sozinha.
Ou talvez seja só o tipo de mentira confortável que eu conto para conseguir sair da cama todas as manhãs.
Desligo o chuveiro com mais força do que o necessário, como se isso fosse algum tipo de declaração simbólica de independência. Me seco, visto um robe e caminho até o closet, observando a organização milimetricamente calculada que sempre me deu uma sensação ilusória de controle. Ternos alinhados por cor. Camisas separadas por tecido. Sapatos dispostos como soldados prontos para a batalha.
Abro espaço entre os cabides. Hoje não quero parecer inacessível, o que é irônico, considerando que passo a maior parte da vida tentando parecer exatamente isso.
Escolho uma saia preta, ajustada, mas não sufocante. Uma camisa branca de botões, simples, elegante, sem esforço. Nada que grite “poderosa”, mas tudo que sussurre “não mexa comigo”. Deixo meu cabelo solto, como de costume, passo um pouco de maquiagem, coloco perfume.
A imagem refletida no espelho é impecável e completamente desconectada do turbilhão que existe atrás dos meus olhos.
Na cozinha, Rodolfo me espera sentado ao lado do pote vazio, como se fosse um pequeno fiscal da rotina.
— Bom dia, amor da minha vida — digo, e ele abana o rabo como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
Coloco ração no pote, troco a água, me abaixo e faço carinho atrás das orelhas levemente amarronzadas.
— Se comporte, proteja a casa e não aceite visitas inesperadas, principalmente se forem parentes.
Ele pisca.
Interpreto como concordância.
Pego a bolsa, as chaves e saio.
No trajeto até a editora, meu celular vibra mais vezes do que eu gostaria de admitir. Não olho, sei exatamente quem é. Minha mãe, meu pai ou talvez uma tia que eu nem lembrava que existia, mas que agora se sente no direito de opinar sobre minha vida amorosa.
Ignorar é um ato de autopreservação.
Quando chego à Editora Tavares, respiro fundo antes de atravessar as portas de vidro. Este prédio é meu território, aqui, pelo menos, eu sei exatamente quem eu sou. Ou acho que sei.
Subo até meu andar e, assim que saio do elevador, vejo Victoria sentada em sua mesa.
Ela já está trabalhando. Claro que está, Victoria sempre está focada em seus afazeres.
Há algo quase irritante na maneira como ela parece levar tudo a sério, mesmo estando em um cargo que claramente não é onde ela quer permanecer. Os dedos se movem rápidos sobre o teclado, o cenho levemente franzido, os lábios pressionados em concentração.
Ela não percebe minha presença e eu... fico alguns segundos a mais do que deveria observando.
O cabelo autêntico que ela tem, a camiseta larga que parece um número maior que ela, o tênis que definitivamente não combina com o figurino corporativo, mas que ela usa mesmo assim.
Existe uma liberdade silenciosa nela, um tipo de coragem que não precisa de explicações, que não precisa da aprovação de ninguém. Ela simplesmente é.
E talvez seja isso que me incomode ou talvez seja isso que eu admire. Desvio o olhar e sigo para minha sala antes que meu cérebro comece a fazer perguntas inconvenientes.
Mergulho no trabalho pelas próximas horas: revisões, contratos, e-mails, planilhas. Respondo tudo no automático, como se estivesse assistindo à minha própria vida de fora.
Horas passam.
Meu estômago ronca, mas ignoro. Estou lendo um relatório quando ouço uma voz sussurrada e, instintivamente, paro o que estou fazendo e me levando para ir ver o que está acontecendo, mas quando abro um pouco da porta reconheço a voz de Victoria.
— Eu sei que está atrasado..., mas eu vou pagar.
Meu corpo fica rígido, do que será que ela está falando? Algum aluguel atrasado?
— Não, eu não estou fugindo da responsabilidade, só preciso de mais tempo, você sabe como anda minha vida e eu não tenho como arranjar esse dinheiro todo do dia para a noite.
Pausa para ouvir o que a outra pessoa tem a dizer.
— Por favor, só estou te pedindo mais um tempo para dar um jeito.
Algo no tom dela me incomoda profundamente, não é fraqueza, é desespero contido.
Abro a porta devagar e consigo vê-la, ela está de costas, segurando o celular com força, os ombros tensos, como se estivesse tentando manter o mundo inteiro no lugar usando apenas a força de vontade.
— Eu prometo que resolvo.
Desliga, mas permanece parada por alguns segundos. Ela não me vê e eu não digo nada, apenas volto para minha sala.
Fecho a porta e, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não é confortável.
O resto da manhã passa arrastado, almoço sozinha na minha sala mesmo, não estou com paciência para sair e encontrar seres humanos.
Quando volto ao trabalho, Victoria anuncia que minha mãe está aqui. Fecho os olhos com mais pressão do que deveria e, por um instante, considero fingir um incêndio ou um desmaio, qualquer coisa que me livre desse momento.
— Mande entrar. — Me rendo.
Ela entra como se ainda fosse dona de mim e editora-chefe dessa empresa, como se eu não fosse nada além de uma substituta que não está fazendo o trabalho direito.
— Você não atende minhas ligações. — Começa o drama.
— Estou ocupada. — Continuo prestando atenção nos documentos à minha frente.
— Ocupada demais para a própria mãe? — Joga a bolsa caríssima em cima da cadeira à minha frente.
— Sim.
Ela cruza os braços esperando que eu fale algo, mas sinceramente, não estou em um bom dia.
— Que pouca vergonha foi aquele teatro que você armou? Precisava expor o rapaz?
— Eu fui traída. — Sorrio em direção a ela, sem qualquer humor.
— Isso não justifica jogar fora um noivado.
— Justifica jogar fora um homem que não presta. — Começo a perder o pouco de paciência que me resta.
— Você precisa de estabilidade. — Insiste.
— Eu preciso de honestidade.
— Precisa de um marido.
— Preciso de um psicólogo depois dessa conversa.
Ela ignora e eu baixo meu olhar para os papéis novamente. Definitivamente, o meu trabalho é muito melhor que o de certas pessoas.
— Você tem quase quarenta anos. — Diz como se minha vida fosse acabar amanhã.
— Tenho trinta e oito. — Retruco.
— Está atrasada.
— Para quê? Para a infelicidade?
Ela suspira como se eu fosse uma criança fazendo birra.
— Você quer morrer sozinha? — Sua voz mostra uma preocupação que não é real.
— Todo mundo morre sozinho, mãe.
A porta se abre, quase como um estrondo, e Lúcio passa por ela. O universo claramente me odeia, o que fiz para merecer isso?
— Amor... — Ele tenta se aproximar.
— Não. — O repreendo com minha voz firme de sempre.
Victoria surge atrás dele, aflita, posso ver o medo estampado em sua cara, provavelmente pensando que vou demiti-la por deixá-lo entrar. Talvez em outro momento eu faria isso, mas hoje entendo o quanto esse homem é insistente quando quer.
— Desculpa, senhora Tavares, eu tentei impedir — diz apressada.
— Tudo bem. — A encaro. — Ele vai sair logo, logo.
Lúcio se aproxima novamente, me fazendo levantar e ir para o outro lado da minha sala, procurando ficar o mais longe possível.
— Eu errei, eu sei que errei e estou muito arrependido, meu amor — Começa a tentar justificar o injustificável.
— Você me traiu. — O acuso com um pesar que eu não sinto.
— Foi um deslize, ela me seduziu.
— Foi uma escolha. — Sou direta.
— Eu te amo, Marcela. — Vejo lágrimas em seus olhos. — Eu não vou sobreviver sem você.
— Você ama meu sobrenome e como a mídia nos amava juntos.
Minha mãe segura o braço dele, mostrando um apoio que nunca recebi dela. É sempre a mesma coisa, todo mundo está certo e a Marcela, errada.
— Filho, converse com ela. — Diz compreensiva.
Olho para os dois e não os deixo voltar a falar.
— Acabou, Lúcio. — Puxo o ar com mais força — Você sabe que já faz tempo que acabou, não temos mais uma relação verdadeira, no mínimo, nos últimos três anos.
— Mas podemos consertar as coisas, você ainda é o amor da minha vida.
Lúcio ajoelha. Sim, ele ajoelha para tornar seu teatro ainda mais dramático.
— Me dá outra chance, por favor! — Implora.
Minha mãe me encara, com uma cara de compaixão que não me engana nem um pouco.
— Pense na família, minha filha — diz em prol do ex-genro.
— Eu estou pensando em mim e na minha felicidade.
Lúcio se levanta, irritado, vendo que está perdendo a batalha cada vez mais. Nem que eu o amasse, aceitaria uma traição, imagina não o amando.
— Existe outro, não é? Alguém tomou meu lugar para você estar me descartando assim.
— Sim, existe outra pessoa — digo sem pensar, quem sabe assim eles me deixem em paz.
Um silêncio absoluto toma conta da sala. Percebo os três pares de olhos me encarando.
— Quem? — Lúcio fecha as mãos com força.
— Isso não é da conta de vocês, ainda estamos nos conhecendo e prefiro manter em segredo.
Minha mãe estreita os olhos, ela sabe quando estou mentindo, mas agora que comecei, vou precisar ir até o fim. Talvez eu tenha que ouvir o conselho de Chica e achar um namoro falso o mais rápido possível.
— Você está mentindo. — Minha mãe me acusa. — Quem é essa pessoa tão misteriosa?
— Já falei que não irei contar agora.
— E você acha que eu vou acreditar nessa desculpa esfarrapada?
Engulo em seco e tento achar uma saída, passo os olhos pela sala e encontro o único rosto que não está tentando me controlar.
Victoria.
Ela me encara, confusa, esperando alguma ordem que a faça chamar os seguranças ou qualquer coisa do tipo. Volto a olhar para minha mãe e ela está esperando uma resposta minha.
— Vamos, Marcela — Sua voz já não é nada calma — Me diga quem é essa pessoa que fez você pôr um ponto final em um noivado de cinco anos?
— Estou namorando a Victoria.
As três pessoas à minha frente congelam, e segundos depois, Lúcio e minha mãe encaram minha assistente enquanto seu olhar está fixo em mim.
Vejo a mais nova apontar em sua própria direção e dizer “eu?” sem se importar com as pessoas nos olhando.
Sinto um frio na espinha, achando que ela vai me desmentir na frente deles, mas algo em meu olhar implora para ela ficar quieta.
— Você está de brincadeira, Marcela? — Lúcio grita — É por essa pessoa que você está me trocando?
— Não entendi o que você quis dizer com isso, mas sim, é exatamente por uma pessoa maravilhosa como a Victoria que estou te trocando.
Sigo para o lado dela e a puxo para perto de mim, ela ainda está petrificada e assustada.
— Dona Marcela... eu... é... — Ela tenta dizer algo.
— Amor — A encaro novamente, pedindo socorro — Não precisa ter vergonha, uma hora ou outra iríamos precisar assumir.
Minha mãe quase desmaia, mas eu permaneço abraçada ao braço de minha assistente, sustentando a minha mentira.
Quando os dois percebem que não há mais nada para ser dito, eles deixam a sala extremamente irritados e eu percebo, tarde demais, que acabei de mudar o rumo da minha vida.
Victoria
Demoro alguns segundos para entender que a sala está vazia. Que o barulho da porta batendo ainda ecoa nas paredes caras do escritório. Que Lúcio e a mãe da Marcela realmente foram embora.
E que eu continuo presa ao braço da mulher que acabou de destruir qualquer noção de sanidade que ainda existia dentro de mim.
Meu corpo inteiro está duro. Não consigo respirar direito. Meu cérebro parece um rádio quebrado, repetindo a mesma frase em looping: Estou namorando a Victoria.
Ela disse isso, em voz alta, para o ex-noivo e para a própria mãe, criando um relacionamento inexistente comigo.
Sinto o peso do silêncio cair entre nós como uma bigorna. O abraço dela ainda existe, quente, firme demais para ser acidental. Posso sentir o perfume de Marcela, caro, sofisticado, invasivo. Posso sentir o calor do corpo dela através da roupa. Posso sentir o meu coração tentando escapar pela garganta.
Devagar, como se qualquer movimento pudesse causar um terremoto, viro o rosto. Ela está me olhando, não como chefe, nem como empresária implacável, mas com algo estranho nos olhos. Uma mistura perigosa de urgência, súplica e determinação.
Puxo meu braço com força.
— Que merd* foi essa, Marcela? — Minha voz sai mais alta do que eu pretendia, e nem me importo em chamá-la de Senhora Tavares.
Ela pisca, como se estivesse saindo de um transe, mas não perde sua pose de superior.
— Victoria, eu posso explicar. — Tenta.
— Não. — Dou um passo para trás. — Você não pode.
Minhas mãos estão tremendo, minhas pernas estão bambas. Se eu não estivesse tomada pela indignação, estaria provavelmente sentada no chão ou desmaiada.
— Você acabou de dizer que nós estamos namorando! — Eu continuo andando de um lado para o outro. — Você tem noção do tamanho da loucura que acabou de fazer?
— Eu precisava de uma saída. — Passa a mão pela testa.
— Uma saída que usa a MINHA VIDA como escudo?
Ela passa a mão pelo cabelo, claramente nervosa, mas não arrependida. Isso me irrita ainda mais.
— Você podia ter inventado qualquer pessoa, um nome aleatório, um amor de infância, um estrangeiro misterioso que nunca vai aparecer — abro os braços. — Por que EU?
Ela me encara em silêncio por alguns segundos. Tempo demais, como se esperasse meu chilique acabar.
— Porque você estava ali. — Diz simples.
— Essa é a pior resposta possível. — Reviro os olhos.
— E, por que você não me desmentiu?
Sinto como se tivesse levado um tapa, pois ela está mais do que certa.
— Eu fiquei em choque! — rebato. — Eu não tive tempo de raciocinar, você me jogou num penhasco e esperou que eu aprendesse a voar!
Ela se aproxima um passo, para tentar me acalmar, entretanto eu não quero ser acalmada, eu quero pegar essa megera pelos cabelos e fazer ela desmentir essa história absurda.
— Victoria — Sua voz sai quase como um sussurro.
— Não se aproxime de mim. — Ela para. — Você precisa desmentir isso. Agora. — Aponto para a porta. — Chama sua mãe, chama aquele homem com cara de metido, diz que foi um mal-entendido, que você falou qualquer coisa no calor do momento.
— Não posso. — Ela se afasta e se senta em sua cadeira.
— Pode e vai.
— Não. — O tom dela é firme.
Cruzo os braços, tentando impedir meu corpo de tremer, essa mulher é impossível.
— Então você enlouqueceu de vez.
— Eu estou sendo prática.
Dou uma risada incrédula, ela está mais maluca do que nunca se acha que vou cair nesse papinho de praticidade.
— Prática? Você acabou de me transformar, oficialmente, na namorada secreta da herdeira mais rica desse país.
— Victoria, meu noivado acabou de acabar, a imprensa vai ficar em cima, minha família não para de me pressionar, investidores estão perguntando o quanto isso vai afetar a imagem da editora. Se eu aparecer sozinha agora, eles vão achar que falhei, que fui abandonada, quando obviamente eu nem vivia um namoro de verdade.
— E você acha que inventar um namoro comigo resolve isso?
— Sim — diz na maior cara de pau.
— Como? — digo, impaciente.
— Porque muda a narrativa. — Ela fala com calma, como se estivesse explicando um plano de negócios. — Não é “Marcela foi traída e deixada”. É “Marcela se apaixonou por outra pessoa e deu a volta por cima”.
— Às custas da minha paz. — Sou sarcástica.
Ela se aproxima de novo, mais devagar.
— Eu só preciso disso por um curto período.
— Não.
— Pouco tempo.
— Não.
— Até essa história do fim do noivado esfriar.
— Marcela, você não está ouvindo.
Ela inclina a cabeça, me observando com atenção, e eu me preparo para a nova jogada de negócios que ela dará. Eu conheço essa cara, quando ela está perdendo um contrato, ela sempre tira uma carta da manga.
— Eu ouvi você hoje mais cedo. — Sua voz está menos fria. — Ouvi sua conversa no corredor.
Engulo em seco, torcendo para que ela não esteja falando do que eu acho que está.
— Sobre você precisar de dinheiro. — Explica ao notar minha confissão.
Meu corpo inteiro reage, só pode ser mais uma pegadinha de mau gosto. Merda.
— Eu não sei do que você está falando. — Me faço de desentendida.
— Sabe sim, você estava discutindo com alguém ao telefone, disse que precisava pagar algo urgente e disse que não sabia de onde ia tirar.
Meu silêncio me trai, não sou boa em mentir. Ela respira fundo, pronta para me fazer uma proposta.
— Eu posso ajudar com isso.
— Ajudar como? — Levanto os olhos lentamente.
— Financeiramente. — Responde.
— Não. — Meu coração erra uma batida.
— Victoria — Respira fundo e tenta manter a calma.
— Não ouse usar isso contra mim.
— Eu não estou usando contra você, estou oferecendo uma solução.
— Em troca da minha dignidade? — Volto a me exaltar.
— Em troca de um acordo.
Fecho os olhos por um segundo, é exatamente assim que pessoas como ela fazem negócios, oferecem algo que você precisa quando está fraca, quando você está desesperada, ou quando suas opções são quase inexistentes.
Abro os olhos de novo e a encaro em seus olhos para que ela veja que não sou a tola que ela pensa.
— Você quer me comprar. — Acuso.
— Eu quero te compensar. — Se defende.
— Pelo seu caos.
— Pelo nosso acordo.
Balanço a cabeça, isso é só um pesadelo e eu vou acordar a qualquer momento e voltar para minha vida medíocre onde ninguém me faz propostas desagradáveis.
— Isso é errado em tantos níveis que eu nem sei por onde começar.
Ela se levanta de onde está e se aproxima.
— Victoria, eu não estou pedindo para você se apaixonar por mim.
— Ainda bem. — Digo apavorada.
— Só para fingir.
— Fingir para sua mãe, para seu ex, para a imprensa e para a sociedade inteira.
— Sim.
— Você tem ideia do tipo de mundo em que vive?
— Eu vivo nele. — Ela arqueia uma sobrancelha, passa a mão por sua roupa tentando arrumar algum amassado inexistente.
— Exatamente, você vive nele e eu não — Dou um gesto vago para mim mesma. — Eu sou... isso aqui. — Engulo em seco. — Eu não me encaixo no seu círculo, não sou elegante, nem venho de família tradicional. Não sei me portar em jantares chiques, não sei falar três idiomas e não sou interessante aos olhos da mídia.
Ela me analisa de cima a baixo, sem pressa, sem vergonha, e eu sinto vontade de mandá-la parar, mas não faço isso.
— Nós damos um jeito.
— Um jeito como? Me transformando em quem eu não sou? Você viu a cara de nojo que sua mãe me olhou?
— Te ajudando a ser vista e eu não me importo com minha mãe, ela nunca aprovará qualquer relacionamento meu que não seja com um homem rico.
— Eu não pedi isso. Já nem sei mais o que dizer. — Eu não quero que me tratem como a assistente que se aproveita da chefe.
— Victoria, você é inteligente, é competente, bonita.
— Não mude de assunto — meu estômago revira.
— Não estou mudando, estou dizendo que você não é um problema, o problema é que você se enxerga como um.
— Você não me conhece. — Meu maxilar trava.
— Você trabalha há anos para minha família, eu conheço o suficiente para saber que você merece mais do que viver contando moedas.
A frase me atravessa, porque é verdade e isso dói, e eu odeio que ela tenha razão.
— Isso não significa que eu vá vender minha vida pessoal. — Consigo falar.
— Não é venda, é parceria.
— Para você salvar a própria imagem.
— E você resolver seus problemas financeiros.
O silêncio volta a reinar na sala, sufocante, e eu me sinto em uma sinuca de bico. Meu cérebro começa a listar contas:
Aluguel atrasado.
Despesas com a escola da Heloisa.
A dívida gigantesca que preciso pagar com o agiota.
Ela percebe a mudança no meu olhar, ela sabe que estou pensando em tudo que me assombra, só um cego não conseguiria ver o quão perdida estou em minha própria vida.
— Eu cubro tudo isso. — Fala como se lesse meus pensamentos.
— Não. — Fecho os olhos.
— Victoria.
— Para.
— Só por um tempo.
— Para.
— Ninguém precisa saber que é falso.
— Para! — Minha voz sai mais alta, quebrada. — Você está me pedindo para viver uma mentira.
— Todos vivemos mentiras.
— Nem todas são tão grandes.
— Pense nisso. — Ela se aproxima até estar a poucos centímetros.
Abro os olhos, ela está perto demais, consigo ver cada detalhe do rosto dela, os olhos firmes, a expressão determinada, a mulher que não está acostumada a ouvir não.
— Eu preciso de uma resposta amanhã. — Avisa.
— Claro, porque você já decidiu tudo sozinha mesmo. — Dou uma risada sem humor.
— Eu decidi o que eu posso oferecer, apenas isso foi decidido nessa conversa. — Dá de ombros.
— E eu decido se aceito ou não. — Volto a andar pela sala de um lado para o outro.
— Exatamente.
— Isso é uma péssima ideia. — Passo as mãos pelo meu cabelo.
— Talvez.
— Vai dar errado.
— Provavelmente.
— Vai machucar alguém.
— Quase certeza.
— Incluindo eu.
— Mas também pode salvar você. Ela sustenta meu olhar.
Essa é a frase que me destrói, porque eu não sei se estou mais assustada com a proposta... ou com o fato de uma parte de mim estar considerando.
Fim do capítulo
Olá pessoal!
Mais um capitulo quentinho para vocês. Espero que tenham gostado e estejam curtindo esse inicio.
Não esqueçam de comentar muito.
Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia. Até breve.
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