Capitulo 1 - Mais um dia comum (ou não)
Victoria
Pego a lancheira de Heloisa e a chamo pela milésima vez, todo dia é a mesma coisa. Minha amada filha não gosta de acordar cedo para ir para a escola, mas como nem tudo são flores, ela precisa ir do mesmo jeito.
— Já estou aqui — diz ela com a carinha emburrada.
Heloisa é uma menina de ouro, quase não me dá trabalho para uma criança de sete anos, somente quando inventa de querer usar um penteado diferente e eu preciso ficar um dia todo vendo vídeos no Youtube para conseguir fazer.
Detalhe: sempre sai errado.
Nossa vida envolve apenas nós duas. Dizemos que somos a melhor equipe de duas pessoas que poderia existir.
Algumas amigas me perguntam como uma pessoa, de 30 anos, na flor da idade, não quer uma companheira para dividir a vida e a resposta é sempre a mesma: Já caí nessa burrada uma vez, e acabei com uma filha nos braços vendo a outra mãe dela indo embora após dar à luz, então não quero mais relacionamentos.
Todos os dias, a levo para a escola antes de ir trabalhar, mas infelizmente não posso buscá-la, então eu pago uma van que leva as crianças para casa, e ela me espera até eu chegar. Dona Florinda — não, não é a mesma do seriado Chaves, é apenas a nossa vizinha — me ajuda, ficando de olho nela até que eu chegue em casa.
Algumas noites eu preciso trabalhar no restaurante da esquina, para complementar a renda, então a deixo com minha melhor amiga Francisca, mais conhecida como Chica, pois ela odeia seu nome e acha que o apelido é um pouco melhor.
Chica sempre tratou minha filha como uma sobrinha, desde que a conheci quando comecei a trabalhar na Editora Tavares, uma das mais conhecidas no Brasil.
Faz quatro anos que trabalho como assistente da editora-chefe, mas sigo esperando uma vaga para trabalhar no design gráfico, mas enquanto não consigo, me sujeito a esse cargo, pois preciso ganhar dinheiro e sustentar a casa.
— Vamos, pulguinha — digo, ajudando minha filha a carregar sua mochila.
— Fazia tempo que você não me chamava de pulguinha — ela faz a observação.
— Faz tempo que você não anda tão saltitante pela casa, aconteceu algo para você estar tão animada assim?
Tranco a porta de casa e seguimos a pé para a escola. O vento da manhã bate no meu rosto, gelado o suficiente para me acordar de verdade. Heloísa segura minha mão com força, arrastando um pouco os pés pelo caminho, mas já menos emburrada do que minutos atrás.
— Hoje tem educação física.
Isso explica tudo, minha pequena ama aulas em que ela pode gastar suas energias.
— Então a animação é porque vai correr que nem uma gazela desgovernada? — Falo tentando me inteirar de sua pequena vidinha.
Ela solta uma risadinha, como se eu tivesse acertado em cheio.
— Eu corro rápido — diz, orgulhosa de si mesma.
— Corre mesmo. Igual quando foge da hora do banho.
— Isso não vale — ela protesta.
A escola aparece na esquina, aquele prédio amarelo que já conheço de olhos fechados. Paramos em frente ao portão, me agacho para ficar da altura dela e ajeito uma mecha rebelde do cabelo castanho atrás de sua orelha.
— Se comporte, preste atenção na aula e nada de trocar lanche por figurinha, combinado?
— Combinado — Revira os pequenos olhinhos — Mas você vai ter que comprar para mim, falta pouco para eu completar minha coleção.
— Você já me fez gastar demais com figurinhas esse mês, vai precisar esperar eu receber.
— Então, por que não posso trocar na escola?
— Porque seu lanche é para você comer e não para servir como moeda de troca.
— Tá bom — diz, cabisbaixa.
Ela me dá um beijo estalado na bochecha e sai correndo antes mesmo que eu consiga dizer mais alguma coisa. Fico observando até vê-la sumir no meio das outras crianças.
Todo santo dia meu coração aperta um pouco, ser mãe solo não estava nos meus planos, mas Heloísa foi a melhor surpresa que a vida me deu. Porém, sinto medo de não estar sendo a mãe que ela precise que eu seja.
Solto um suspiro, coloco os fones de ouvido, mas nem aperto o play. Caminho até o ponto de ônibus pensando no que me espera.
Editora Tavares.
Minha segunda casa, ou melhor, meu inferno.
O ônibus chega lotado, como sempre. Entro espremida, consigo um lugar perto da janela após alguns minutos e finalmente me permito pegar o celular.
Instagram.
Abro sem pensar muito, e a primeira postagem que vejo é a do Tabloide Brasil, com uma foto enorme, que facilmente eu reconheço a mulher que está nela.
“Marcela Tavares flagra noivo em traição com empregada doméstica e rompe noivado de cinco anos.”
Quase deixei o celular cair.
Clico na notícia e vejo outras fotos e links de outras matérias relacionadas a essa.
“Lucio Fernandes, empresário bilionário, aos beijos com uma mulher dentro da própria casa que dividia com Marcela.”
O texto detalha tudo: filmagem anônima, discussão, Marcela saindo da mansão com uma mala. Noivado oficialmente encerrado.
Leio os comentários: “Chocada, mas nem tanto.” “Mulher linda demais para homem frouxo.” “Rico também trai, viu?”
Engulo em seco.
Minha chefe.
A mulher mais fria, elegante e inacessível que já conheci. Traída. Humilhada. Exposta.
Uma parte minha sente... satisfação? Não. Talvez curiosidade. Marcela nunca fala da vida pessoal, nunca comenta nada, não se permite ser humana. E agora está estampada em todos os sites.
— Karma existe — murmuro sem perceber.
Mas logo me sinto meio babaca por pensar isso. Ela pode ser uma chefe insuportável, mas ninguém merece isso. Guardo o celular quando o ônibus se aproxima do meu ponto.
Respiro fundo, provavelmente o dia será bem longo.
Empresa enorme. Salas envidraçadas. Gente rica. Gente falsa. E eu: a assistente invisível.
Desço, atravesso a rua, entro no prédio espelhado que carrega o sobrenome da família que manda em metade do mercado editorial do país.
Passo pela catraca, cumprimento o segurança, subo pelo elevador com mais cinco pessoas, ninguém fala nada. Climinha corporativo padrão em plena terça-feira.
Quando chego ao meu andar, vejo Fernanda e Cássia praticamente correndo na minha direção.
— VOCÊ VIU? — Fernanda grita antes mesmo de chegar perto.
— Bom dia para vocês também — respondo.
— A Marcela, Vic! A Marcela! — Cássia segura meu braço.
— Vi — respondo, pendurando minha bolsa na cadeira e me sentando, e na sequência ligo meu computador enquanto elas ficam em frente à minha mesa. Fernanda se inclina sobre minha mesa.
— Eu sabia. Aquela mulher tem uma energia péssima. Aposto que o ricaço se cansou da megera.
— Nanda! — Cássia repreende. — Ninguém merece ser traída.
— Merece sim, quando trata todo mundo como lixo.
Cruzo os braços e deixo as duas discutirem se Marcela merecia ou não a traição. Fernanda é a amiga que fala tudo na lata, sem se importar com nada. Cássia é a amiga inocente, que vê positividade em tudo, e que não costuma falar mal de ninguém. E tem a Chica, a qual é a mais sensata, porém ela é mais próxima a mim do que das meninas.
— Gente, ela é minha chefe. E mesmo que não fosse, isso é pesado.
Fernanda revira os olhos, ela esperava que eu concordasse com ela.
— Você defende porque nunca teve que aguentar ela te humilhar na frente de todo mundo.
Quase solto um riso, mal sabe ela que sou a pessoa mais humilhada por aquela megera.
— Eu só acho que a gente devia focar no trabalho antes que ela chegue e acabe sobrando para mim vocês estarem aqui.
— Hoje ela vai vir possessa — Cássia diz.
— Ela sempre vem possessa — respondo. — Cadê a Chica? — pergunto.
— Reunião cedo com o financeiro — Fernanda responde.
Ótimo, minha aliada não está. Enquanto elas continuam falando, vejo Beatriz se aproximando.
Alta. Magra. Salto fino. Rosto bonito e expressão convencida.
Beatriz é do marketing e se acha melhor que todo mundo. Ela para na minha frente e estende um papel, e espera que eu pegue, mas quando vê que não digo nada, ela resolve falar.
— Dá para você pedir para Marcela assinar isso? É sobre a nova campanha digital.
Pego o papel e deixo ao meu lado. Hoje eu gostaria de não ter que enfrentar a fera, provavelmente ela estará um docinho em pessoa, porém um doce de limão.
— Deixo na mesa dela.
Ela não vai embora, fica ali, me olhando fixamente e confesso que fico um pouco constrangida.
— Você mudou o cabelo? — pergunta.
— Não.
— Ah... então deve ser a luz, mas essa camisa é nova, né? — Tenta novamente.
Silêncio constrangedor, Fernanda observa com interesse, como se estivesse assistindo a um filme no cinema.
Cássia arregala os olhos e faz o sinal da cruz, sinto vontade de rir, mas acredito que não seja o momento apropriado para isso.
— Sim, comprei ela há um ano, então a considero ainda nova.
As meninas soltam uma gargalhada e Beatriz tenta disfarçar o incômodo em não ter conseguido acertar uma sequer.
— Você consegue fazer com que ela assine assim que chegar? — Muda de assunto.
— Acredito que sim.
— Você sempre tão eficiente... acho isso sexy.
Meu cérebro trava, ela está me paquerando mais uma vez. Isso acontece com bastante frequência aqui dentro, as garotas acham que é superlegal me usar como experimento para testarem sua sexualidade. Sempre me esquivo, não quero problema para minha vida, ainda mais dentro da empresa.
— O quê?
Antes que ela responda, o elevador apita e todas nós olhamos, sabemos o que isso significa.
Marcela Tavares surge.
Terninho preto impecável. Camisa branca. Salto alto. Cabelos loiros soltos de forma elegante. Óculos escuros mesmo dentro do prédio, sinal de que não quer contato com ninguém.
Ela caminha como se estivesse pisando num tapete vermelho invisível. E sinceramente, ela sabe fazer isso perfeitamente.
Fernanda puxa Cássia pelo braço.
— A gente esqueceu uma coisa! — inventa.
As duas praticamente correm. Covardes. Beatriz permanece, cometendo um erro fatal. Eu finjo que estou fazendo algo no computador.
Marcela se aproxima, para, tira os óculos, olha para mim e depois para Beatriz. Silêncio mortal, daqueles que dá medo em qualquer um.
— Espero que esteja acontecendo algo extremamente profissional aqui. — Ela encara mais a moça à minha frente do que a mim.
— Eu só estava... — Beatriz começa.
— Não me interessa. — Marcela, corta. — A senhorita é paga para trabalhar, não para flertar com a minha assistente.
— Mas...
— Não é a primeira vez que vejo você rondando aqui, e já escutei seus flertes baratos e cafonas, então, se eu te pegar aqui novamente sem um motivo profissional, estará no olho da rua.
Meu rosto pega fogo, Beatriz fica vermelha e decide ficar quieta.
— Peço desculpas, senhora Tavares.
— Pode se retirar.
Beatriz praticamente foge e Marcela me encara, eu espero a bronca ou a demissão, mas me surpreendo quando ela fala.
— Entre na minha sala.
Engulo em seco, pego o documento que ela precisa assinar e sigo atrás dela, fecho a porta assim que entro.
Ela larga a bolsa na mesa, mas não se senta. Segue para a parede de vidro, ficando de costas para mim e olhando uma das vistas mais lindas da cidade.
Confesso que, desse ângulo, não é só a vista da cidade que fica perfeita.
— Liste meus compromissos de hoje. — Sua voz interrompe meus pensamentos.
— Reunião com autores às dez. Almoço com o conselho ao meio-dia. Ligação com a gráfica às quinze. Entrevista às dezessete. — Digo tudo com naturalidade.
— Você confirmou a reserva do restaurante?
— Ontem à noite.
— Mandou os contratos revisados?
— Estão na sua caixa de entrada.
— Separou os relatórios?
— Em ordem alfabética na pasta azul.
Ela para. Me olha. E, pela primeira vez, vejo que ela está sem palavras.
— Você ligou para a agência sobre a capa nova?
— Sim.
— E?
— Eles mandaram três opções.
Silêncio, ela apenas suspira e continua.
— Desmarque tudo.
— Tudo?
— Tudo.
— Ok, só vou deixar esse documento para que a senhora leia e assine. Me avise quando estiver pronto que venho buscar, o setor de Marketing tem certa urgência com essa assinatura.
— Eles sempre têm. — Diz irritada.
Levanto uma sobrancelha, mas já era de se esperar que hoje ela iria querer se isolar do mundo.
— E não deixe ninguém entrar.
Ela aperta um botão, que faz as cortinas descerem automaticamente, fechando a vista que dá à repartição entre sua sala e a minha mesa, dando a privacidade necessária.
— Pode sair.
Saio. Meu coração está acelerado, ela parece... Quebrada.
Marcela
Vejo a garota do marketing praticamente babando na frente da minha assistente. Não é a primeira vez que isso acontece e me sinto irritada com a falta de profissionalismo.
Quando Victoria entra na minha sala e começa a listar tudo perfeitamente, percebo o quanto ela é eficiente, o quanto eu dependo dela para que tudo aqui funcione perfeitamente. Mas isso não quer dizer que preciso dela, se ela não se comportar, é daqui para o olho da rua.
Após um tempo sozinha, pensando em tudo que aconteceu ontem à noite, ligo para a única pessoa que sabe da verdade.
Chica.
— Na minha sala. Agora. — Digo e desligo sem esperar uma resposta sua.
Minutos depois, ela entra, apressada, e fecha a porta. Ela sempre carrega um sorriso, não importa a situação.
— Você viu o circo? — Pergunto.
— Vi. O país inteiro viu. — Diz o óbvio.
Me jogo na cadeira e ela se senta do outro lado da mesa, esperando que eu comece a dar mais detalhes.
— Eu mandei filmar. — Começo a contar.
Chica arregala os olhos, realmente se espantando com a notícia.
— Você o quê?
— Eu mesma armei.
— Marcela...
— Eu não aguentava mais. Ele queria manter o noivado só para a imagem, eu queria acabar, já estava desconfiada do envolvimento dele com a garota que começou a trabalhar em casa. Então dei um empurrãozinho.
— Sua família vai surtar. — Diz mais uma vez o óbvio.
— Já estão surtando, meu pai me ligou já pela manhã, dizendo que não consegue acreditar que ele fez isso, mas que devo perdoar, porque isso é coisa de homem, que foi apenas um deslize. — Fico irritada só de lembrar.
— E você? — Se interessa ainda mais.
Engulo em seco, sei que não preciso esconder as coisas dela, mas falar isso em voz alta é como admitir para mim mesma que vivo uma farsa há anos.
— Eu estou cansada.
Chica presta atenção em todos os meus movimentos, me analisando como sempre faz, pronta para me acolher ou me corrigir.
— Do quê? — Diz com a voz baixa.
— De fingir.
— Fingir o quê? Preciso que você seja mais específica, amiga.
— Que eu quero a vida que eles querem para mim. Que quero um relacionamento com um homem com quem não sinto nada.
Silêncio, ela espera que eu continue, mas as palavras parecem fugir da minha boca.
— Eles querem casamento. Filho. Família perfeita. E eu não sou capaz de dar isso para eles.
— Por que você não se sente capaz de dar isso a eles?
Olho para o vidro fechado, penso na assistente do lado de fora, organizando meu caos, enquanto eu estou aqui querendo fingir que o mundo não existe.
— Você sabe o porquê.
E isso me apavora, me apavora que o mundo saiba e que eu precise enfrentar ainda mais pressão da minha família, mas começo a acreditar que essa é a única saída para eu ser um pouco feliz na vida.
— Você se refere a não amar o Lucio?
— Me refiro a não gostar de homens.
— Então está na hora de você ser quem você realmente é e não se enfiar em uma outra enrascada dessa.
— Eu sei — suspiro, sabendo que ela está certa — Mas não quero nem ver quando minha mãe me ligar e vir com aquele papinho de que eu já não sou mais jovem para ficar solteira, que está na hora de ter filhos para ter herdeiros para a empresa. Sempre é tudo sobre a empresa.
— Pelo menos seu namoro com o Lúcio te privava dessas baboseiras, mas você precisa ser firme com seus sentimentos.
— Minha cabeça está tão cheia ultimamente que não sei se tenho forças para enfrentá-los. Você sabe que estou focada em reerguer essa editora.
— Você pode contratar um namoro falso só para seus pais saírem do seu pé até você conseguir reestruturar tudo aqui.
— Você está louca — Quase pulo da cadeira.
— Qual é, Marcela? — Ela revira os olhos — Até parece que isso não acontece sempre nesse seu mundinho de granfina.
— Eu não vou fazer isso só porque outras pessoas fazem.
— Seu namoro com o Lúcio já era fachada.
— No começo não era, agora no final, que já não tínhamos mais nada e nem queríamos mais estar juntos.
— Bom, foi só uma ideia, te economizaria dores de cabeça.
— Ou me arrumaria mais ainda.
— Enquanto você fica aí pensando no que fazer daqui para a frente, eu vou trabalhar, que, diferente de você, não sou dona da porr* toda e não posso perder tempo pensando sobre a vida. Preciso mostrar serviço, senão minha patroa me demite.
— Sua patroa não vai lhe demitir.
— Isso é o que você diz, você não a conhece brava.
Solto uma risada, pois isso é a maior verdade. Vejo minha amiga sair da minha sala e a única coisa que consigo pensar é que estou muito ferrada.
Fim do capítulo
Olá pessoal!!!!!
estou voltando com uma nova história como prometido.
Espero que gostem e se divirtam acompanhando tudinho. Peço perdão pela demora de voltar aqui, mas minha vida estava extremamente corrida e eu não queria começar algo e não dar continuidade.
Você que ainda não me segue no Insta ou TikTok, corre lá e me segue: paloma.autora
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Ou me chamem no Insta que passo o link também.
Lá você pode interagir sobre a historia, ou dar boas risadas com as conversas. Sem contar que poderá ter contato direto comigo.
me comprometo a publicar um capitulo novo por semana, podendo ser mais caso minha rotina permita.
Não esqueçam de comentar muito, assim saberei como a história está chegando até vocês.
Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia. Até breve
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