Capítulo 2

Entre a dor e a saudade e o vestigio de quem ficou

de Sob o mesmo céu, por Ayelet

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Capítulo 2 — Entre a saudade e o abismo e o vestigio de quem ficou 

O apartamento estava silencioso quando Bruna abriu a porta.

Silencioso demais.

Ana entrou logo atrás, observando a penumbra espalhada pela sala, iluminada apenas pelas luzes da cidade atravessando as enormes janelas de vidro.

E então viu.

Sobre o sofá, cuidadosamente dobrado, estava um casaco feminino.

Ao lado dele, uma caixa aberta revelava perfumes, lenços e algumas peças de roupa que ainda pareciam guardar a presença de quem as havia usado.

Natália.

Bruna sentiu o peito apertar imediatamente.

Laura estava sentada no chão da sala, descalça, uma garrafa quase vazia apoiada perto das pernas.

Nas mãos, segurava uma fotografia.

Os dedos acariciavam o rosto da esposa na imagem como se o toque pudesse atravessar o tempo.

— Eu tentei, meu amor…

A voz embargada atravessou a sala.

— Deus sabe que eu tentei…

Ana levou a mão até a boca, emocionada.

Laura sequer havia percebido que elas tinham chegado.

— Todo mundo fala pra seguir em frente… — ela continuou, os olhos fixos na foto. — Mas como é que eu faço isso sem você aqui?

Bruna fechou os olhos por um instante.

Aquilo não era apenas saudade.

Era alguém afundando lentamente.

Ela caminhou devagar até Laura e se ajoelhou diante dela.

— Laura…

Laura ergueu os olhos marejados, perdida por alguns segundos até reconhecer a amiga.

E então desabou.

Bruna a abraçou sem dizer nada enquanto Laura chorava contra seu ombro como alguém cansada demais de continuar suportando o próprio vazio.

Ana observava em silêncio, sentindo o peso daquela dor espalhado pela sala inteira.

Bruna trocou um olhar rápido com a esposa.

Foi ali que decidiu.

Ela pegou o celular.

 

Rio de Janeiro.

Eleanor revisava alguns contratos no escritório de casa quando o telefone vibrou sobre a mesa.

Ela estranhou ao ver o nome de Bruna no visor.

Sera que havia acontecido algo com sua irma 

Atendeu imediatamente.

— Alô?

Do outro lado da linha, houve um breve silêncio antes da resposta.

— Sou eu… Bruna.

Eleanor imediatamente percebeu a tensão na voz dela.

— O que aconteceu?

Bruna respirou fundo.

— Você precisa vir buscar a Laura.

O coração de Eleanor apertou.

— Ela esta bebendo outra vez 

Bruna olhou discretamente para a sala.

Laura permanecia abraçada à fotografia de Natália, completamente destruída pelo álcool e pela saudade.

— Não só…..ela indo aos pouco perdendo a batalha contra a propria dor 

Eleanor fechou os olhos por um instante.

Como se, no fundo, já soubesse.

— Eu pego o primeiro voo amanhã.

A ligação terminou, mas Eleanor permaneceu imóvel por alguns segundos, encarando os documentos espalhados sobre a mesa sem realmente enxergá-los.

Então desviou o olhar para a fotografia das filhas sobre o escritório.

Talvez tivesse chegado a hora de trazer sua irma Laura de volta para casa.

 Na manha seguinte 

 

Laura despertou lentamente, sentindo a cabeça latejar como se uma escola de samba inteira atravessasse seu crânio.

 

Fez uma careta ao abrir os olhos.

 

A claridade suave entrando pelas cortinas do quarto parecia agressiva demais para aquela manhã.

 

Por alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando entender como havia ido parar na própria cama.

 

A última lembrança que tinha era da fotografia de Natália entre suas mãos… e da dor.

 

Depois disso, tudo era um borrão.

 

Ela levou a mão à testa, respirando fundo antes de se levantar.

 

Ainda tonta, caminhou devagar pelo corredor do apartamento, guiada pelo som distante de vozes.

 

Foi quando passou pela sala.

 

Laura parou imediatamente.

 

A caixa.

 

As roupas de Natália ainda estavam ali, cuidadosamente organizadas como se a qualquer momento ela pudesse voltar para buscá-las.

 

O peito apertou.

 

Devagar, Laura sentou-se novamente no sofá e pegou a fotografia apoiada sobre a mesa.

 

Os dedos tocaram o rosto da esposa na imagem.

 

— Desculpa, meu amor…

 

A voz saiu rouca. Baixa.

 

— Bom dia.

 

Laura ergueu os olhos rapidamente.

 

Eleanor estava recostada no batente da porta, observando-a em silêncio.

 

Havia preocupação em seu olhar. Mas também carinho.

 

Laura tentou sorrir de leve.

 

— Oi, Leo…

 

Eleanor se aproximou devagar.

 

— Precisamos conversar, meu amor 

 

Laura desviou o olhar para a fotografia outra vez.

 

— Eu tô péssima irmã .

 

— Eu sei.

 

A resposta veio sem julgamento. Só verdade.

 

Então Eleanor inclinou levemente a cabeça na direção da cozinha.

 

— Suas sobrinhas estão te esperando. Elas prepararam café da manhã pra você.

 

Laura soltou uma pequena risada cansada.

 

— Leo… deixa eu pelo menos tomar um banho antes.

 

Eleanor caminhou até ela.

 

— Venha, Laura Fernanda. Elas te amam acima de tudo.

 

A forma como pronunciou o nome inteiro da irmã fez Laura fechar os olhos por um instante.

 

Como se, mesmo destruída, ainda existisse um lugar no mundo onde ela era amada sem condições.

 

Eleanor estendeu a mão.

 

Depois de alguns segundos, Laura aceitou.

 

A irmã a puxou devagar para um abraço breve antes de conduzi-la até a cozinha.

 

 

---

 

O cheiro de café fresco tomou Laura antes mesmo de entrar no ambiente.

 

A cozinha estava iluminada pela luz clara da manhã, contrastando violentamente com a escuridão emocional que ela carregava dentro de si.

 

— TIA!

 

Micaela praticamente saltou da cadeira ao vê-la.

 

Letícia veio logo atrás, abraçando Laura pela cintura com força suficiente para fazê-la perder o ar por um instante.

 

E talvez fosse exatamente disso que ela precisava.

 

Laura fechou os olhos enquanto abraçava as duas meninas.

 

Ali. Naquele instante.

 

A saudade ainda existia. A dor também.

 

Mas pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu algo além dela.

 

Ao erguer os olhos, percebeu Bruna e Ana sentadas à mesa em silêncio respeitoso.

 

Bruna lhe lançou um olhar cuidadoso.

 

Não de cobrança. Nem de pena.

 

Só preocupação.

 

Laura respirou fundo, ainda abraçada às sobrinhas, enquanto Eleanor observava a cena discretamente ao fundo.

 

Talvez sua irmã tivesse razão.

 

Talvez ela realmente não pudesse continuar sozinha daquele jeito.

 

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
S

Socorro

06/07/2026 às 08:18

Emoção pura .... nda como o amor puro de uma criança 

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