Capítulo 1

Capitulo 1

de Sob o mesmo céu, por Ayelet

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Capítulo 1 — O peso da ausência

 

A chuva fina deslizava pelos vidros do apartamento enquanto São Paulo seguia viva do lado de fora.

 

Luzes. Buzinas distantes. Prédios intermináveis.

 

E ainda assim, tudo parecia absurdamente silencioso.

 

Laura permanecia afundada no sofá da sala, uma taça de whisky esquecida entre os dedos e os olhos presos à fotografia apoiada sobre a mesa de centro.

 

Natália sorria na imagem como se o tempo não tivesse passado.

 

Como se três anos não significasse nada.

 

Laura passou o polegar devagar pela moldura.

 

A saudade vinha sempre assim. Sem aviso. Brutal.

 

O telefone vibrou sobre o sofá.

 

Ela demorou alguns segundos até atender 

 

— Oi…

 

— Os relatórios dos últimos noventa dias já estão no seu e-mail, Laura — a voz firme de Bruna surgiu do outro lado da linha. — Você conseguiu revisar os números do Rio?

 

Laura fechou os olhos por um instante.

 

— Ainda não.

 

Houve silêncio.

 

Bruna conhecia aquele silêncio.

 

— Você está bebendo outra vez?

 

Laura soltou uma risada fraca, cansada demais para negar.

 

— Bru… eu estou com saudade dela.

 

A frase saiu baixa. Quebrada.

 

— Eu não sei mais o que fazer. Já faz três anos… e ainda dói como se tivesse acontecido ontem.

 

Do outro lado da linha, Bruna respirou fundo.

 

— Eu estou indo pra aí.

 

— Não precisa…

 

— Precisa, sim.

 

A ligação foi encerrada antes que Laura pudesse insistir.

 

 

---

 

Bruna fechou o notebook sobre a mesa do escritório e pegou as chaves do carro.

 

Ana ergueu os olhos do celular ao vê-la caminhar apressada pela sala.

 

— Laura?

 

Bruna assentiu.

 

— Ela está bebendo de novo.

 

Ana suspirou devagar, já imaginando o estado da amiga.

 

— Você devia avisar a Eleanor.

 

Bruna parou por um instante.

 

— Eu pensei nisso.

 

— Da última vez que veio a São Paulo, ela praticamente implorou pra Laura voltar pro Rio.

 

Bruna passou a mão pelos cabelos, cansada.

 

— Eu sei… acho que a Eleanor percebeu antes de todo mundo que a Laura não está vivendo aqui. Só está existindo.

 

Ana se aproximou devagar, pegando a bolsa sobre o sofá 

 

 

— Então vamos buscá-la antes que ela se afunde mais uma vez.

Fim do capítulo

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