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  • Dolce Felicitá : Pequenas Doses de Amor
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Dolce Felicitá : Pequenas Doses de Amor por jmalchanceux

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Palavras: 4969
Acessos: 165   |  Postado em: 06/06/2026

Capitulo 02

A impaciência talvez seja seu maior defeito, claro, depois de uma dezena de outros que nunca admitiria em voz alta, mas o atraso de quase duas horas de Marcela está começando a lhe estressar do mesmo jeito que a preocupa. Muitas mensagens não foram lidas e as ligações vão direto para a caixa postal, pelo menos vinte de cada, talvez um pouco mais, além de mensagens a Marco perguntando a última vez que havia a visto, sabe que ela sempre corre para o irmão quando algo acontece ou há algum tempo livre pela manhã. Eles sempre estão juntos, mas eles se viram pela última vez horas antes, quando o deixou na faculdade e partiu em direção ao trabalho. Diana odeia e ama saber da rotina e maneirismos da melhor amiga, os mínimos detalhes que lhe assustam quando mudados, afinal, ela não é uma pessoa de mudanças ou que gosta delas, costuma se irritar com a simples ideia de mudar a marca de amaciante. Uma pessoa previsível, confiável, estável e todos os sinônimos cabíveis, por isso mesmo está assustada.

“É por causa…” ela começa a escrever e logo apaga a mensagem de texto, não quer dar esse passo, nem discutir sobre o que acontecera “Por favor, me responde, estamos todos preocupados.” reescreve e parece quase satisfeita consiga mesma por ter algum pingo de autocontrole.

Esta é finalmente visualizada e quase imediatamente, o que faz seu coração pular do peito e então pesar com o digitar longo que termina em nenhuma resposta real. Está sendo ignorada e não é algo com o que está acostumada. Quase dói. Quase. O choque é maior do que qualquer outra coisa que borbulha em seu âmago. Passam-se dez, vinte, trinta minutos e então uma hora sem respostas, ela pondera se deve enviar outra ou apenas esperar, o que, todos sabem, um de seus maiores desafios.

“Mar, eu estou falando sério.” envia pouco antes da porta ser aberta em súbito, espera ver sua assistente consternada com notícias como um acidente de carro ou assalto no caminho, que a amiga está no hospital, qualquer coisa do gênero, mas é Marcela. Em carne, osso e roupas sujas.

- O que diabos aconteceu com você?

- Enterrei dois cães. - ela diz simplesmente e dá de ombros se dirigindo até a própria mesa, cardigan e camiseta são desfeitas no caminho, ainda está cheirando a terra e lixo, além de suor - Filhotes na verdade. - complementa e se joga na cadeira de rodinhas.

- Estou falando do seu atraso, Marcela. Você nem me respondeu, na verdade, me ignorou. - Diana murmura entre dentes, ignorando quaisquer palavras que não respondam exatamente o que quer ouvir - Você nunca me ignora.

- Eu não te ignorei. - rebate imediatamente e foca em encontrar alguma das roupas extras que sempre deixa no escritório em caso de acidentes na cozinha, não é a mais habilidosa quando se trata de panificação e assar - Apenas estava ocupada.

- Marcela… Você sumiu. E então deixou minha mensagem sem resposta.

- Como eu disse: estava ocupada. - a morena suspira e luta para não revirar os olhos - No telefone com a seguradora do carro.

- Não era algo com cães?

- Sim, eu praticamente atropelei a mãe dos cãezinhos e alguém bateu no meu carro.

A mulher mais velha finalmente percebe que a calça flare tem um rasgo na altura do joelho e a camiseta descartada tem manchas marrons enormes, assim como algumas gotas de vermelho. Imediatamente ela se levanta e caminha até Marcela, que finalmente encontra algo decente para vestir. Antes que ela possa se cobrir, lhe toma nos braços, correndo as mãos pela cintura, esterno e rosto lentamente, verificando cada pequeno pedaço de pele de onde o sangue poderia vir. Os dedos longos correm a pele macia, todas as curvas que conhece de cor e lhe guiam em busca de algo que explique o porquê. Teme que esteja ferida, sabe que isso seria sua culpa de um jeito ou de outro. Não deveria ter lhe contado logo pela manhã, não daquela forma, mas apenas saiu como todas as palavras venenosas anteriores, é uma mestre das palavras erradas e do time mais errado ainda. Sua mãe lhe diz que até mesmo um relógio quebrado acerta duas vezes ao dia, então porque seus ponteiros sempre escorregam ou só acertam no escuro? A culpa lhe corrói e os olhos lacrimejam em relutância, quer se afastar, que evitar aquele olhar que sempre a puxa de volta, não tem nenhum direito de lhe tocar assim, ainda mais agora, mas sabe que se a soltar vai lhe perder de vez. Pode sentir isso. Pode ver através dela. Pode prever. Com cuidado a puxa para si em um abraço desajeitado, mas suave, assim não vê os lábios dela se contraindo enquanto luta contra as próprias lágrimas, ainda que possa ouvir os soluços sôfregos. 

- Eu estou cansada. - Marcela admite pela primeira vez em voz alta - Tão cansada.

Elas sabem o que aquelas palavras significam, honestamente, acham que demorou muito para finalmente acontecer. Um longo caminho trilhado em cima de promessas quebradas. Nunca iriam se apaixonar. Foi a principal condição imposta depois daquela noite anos atrás, era uma promessa que nunca deveria ser quebrada, que parecia poder ser controlado e a vida seguiria como se nada tivesse acontecido. Nos filmes parecia mais fácil, talvez não, dormiam antes do final e nunca descobriram como terminava. Agora têm um pequeno gosto do que deve ter sido, pelo menos a parte não comédia romântica da comédia romântica. 

- Eu sei. 

É tudo o que ela consegue responder, não esperava que esse momento chegasse tão cedo, adiou o máximo que pôde e ainda assim parece irreal. Quer fazer tantas perguntas, saber tantas coisas, entretanto as palavras estão presas na garganta e teme que se tentar elas vão sair em forma de choro. Não se pode permitir isso, tem que ser a mais forte das duas, afinal, é seu noivado que fomenta o ponto final na não nomeada coisa que têm. As lágrimas quentes umedecem o tecido da blusa e por instinto lhe aperta mais próxima de si, quer sentir o calor da pele dessa forma uma última vez antes de voltarem a ser aquilo que nunca deveria ter parado de ser, sentirá falta da intimidade que levou o melhor de si, a deixando faminta e nunca saciada.

- Sabe, você tem que me deixar ir.

- Eu sei.

- Eu estou falando sério, tenho que lavar minhas mãos e ir ajudar no atendimento. O bebê da Raquel ficou doente novamente.

Ela ri genuinamente e finalmente lhe solta, um pouco envergonhada do momento emocional que acabaram de compartilham. Já tiveram muitos destes antes, quando Marcela se formou na faculdade alguns anos depois dela, quando descobriram a gravidez, a chegada de Theo, a morte dos pais dela, o início da pandemia quando tudo era assustador, Beatriz mudando de país, a abertura do primeiro negócio juntas que viria a ser a grande padaria que dividem, a bebedeira que as levou a isso, todas as vezes que uma quis desistir e a outra puxou a corda até que estivessem juntas na mesma cama novamente, mas desta vez é diferente, há um casamento a frente e sabe que Marcela já aguentou muito para passar por mais esta provação por algo que ela guarda a sete chaves como um segredo sujo.

- Mas você ainda vai ao jantar com meus pais hoje à noite? - há uma ponta de esperança, quer sua presença, não sabe se consegue fazer isso sem ela.

- Não sei.

A resposta é sincera, realmente não sabe se irá comparecer, mesmo que seja praticamente uma tradição ter jantares semanais com os Albuquerque. Comida caseira, conversas triviais e união, com filmes de comédia depois, outras vezes jogos de tabuleiro ou simplesmente se sentam no jardim enquanto Theo brinca. Marcela se pergunta se ainda será convidada para essas noites agora que Amauri irá tomar seu lugar de direito como membro da família. O filho irá sofrer mais ainda com essa ausência, então não saberia como negar isso a eles. Muitas decisões precisam ser tomadas e sabe que não irá conseguir, não agora, não com seu menino tão envolvido e apegado.

- Mamãe disse que farão almôndegas, do jeito que o Tetéo gosta. - Diana faz uma última tentativa, os dois não resistem à comida de Dona Ada, uma vez voltaram da praia cansados e ainda assim os visitaram por alguns pedaços de torta de limão - E Luísa quer uma revanche da última competição.

- Está se tornando difícil negar. - a morena sorri e ajeita a blusa no corpo, está limpo, não cheira a escritório e é apresentável - Irei pensar sobre isso.

- Promete?

- Prometo.

- Mantenha sua palavra, Mar.

Se fosse de propósito, teria sido cruel, Marcela conclui. Afinal, foi com esse mesmo diálogo que começaram tudo isso.

- Manterei.

Ela sorri e deixa o escritório sem olhar para trás.

 

Diana se pergunta se é outro episódio de atraso, mais do que incomum para a outra mulher, raramente se atrasa e se envergonha quando faz. Aos poucos a sala de estar se enche, toda vez que a campainha toca seu peito afunda em expectativa. Seu pai está sentado perto da televisão assistindo algum programa aleatório da Discovery Channel, atividade favorita desde a aposentadoria, enquanto come alguns petiscos. Ele não parece muito situado, talvez esteja com sono ou cansado, o jantar está atrasado e raramente passa das nove, caso contrário teria percebido seu estado. A mãe termina de preparar a refeição com a ajuda da cozinheira, ela mesma diz que não tem mais idade para cozinhar tanta comida, ainda assim tenta recriar todas as receitas que fazem todos derreterem nas cadeiras. As irmãs estão absortas nos próprios universos também. Luísa, como sempre, está em volta da mãe beliscando tudo o que pode antes do jantar e contando fofocas da faculdade. Já Isadora está deitada no sofá, os pés perigosamente próximos dela e a cabeça no colo da namorada, que lhe acaricia o couro cabeludo com as unhas prestando atenção no mesmo programa.

Normalmente, a sala estaria cheia de alegria e conversas paralelas, mas eles parecem sentir seu mau humor e intuitivamente saber que não devem lhe dar corda para discussões. Por isso, Isadora não lhe dá um segundo chute no braço quando ela a empurra e a chama de Abaporu, nem mesmo retruca, apenas revirando os olhos. Da cozinha, Dona Ada as observa com reprovação e nenhuma surpresa. Elas brigam a maior parte do tempo.

- Romeu! - o senhor finalmente tira os olhos da tela e a encara em confusão, tentando descobrir o que fez de errado - Controle seus dois monstrinhos!

- Mas elas são seus monstrinhos também! - ele rebate e se vira para as filhas, obedecendo a esposa - Ouviram a mãe de vocês, se comportem ou vamos fazer vocês usarem a camiseta da amizade.

- Não, eu vou puxar a orelha delas.

- Ela vai puxar a orelha de vocês. - ele reitera e as assiste o ignorar ao trocar socos no braços, até serem levantadas do sofá pelas orelhas por Ada - Eu avisei! Ainda bem que não fui eu dessa vez.

- Papai! - Isadora chama e tenta desvencilhar-se do aperto firme, mas desiste de obter alguma ajuda dele, já que como qualquer Albuquerque que se preze tem medo de Adalgisa - Não da frente da Cami, Mamãe, por favor! - sussurra e faz a cara mais fofa que consegue, tentando lhe convencer.

Camila apenas dá de ombros e se diverte com a cena, sabe como a namorada pode ser mimada, irritante e implicante quando está junto às irmãs, além de que desde que começou a frequentar a casa deles mais do que a própria também passou a temer a matriarca.

- Se largar ela tem que me largar também. - Diana resmunga, o rosto ficando vermelho de raiva.

- Vocês irão parar de brigar?

- Sim, mamãe! - respondem em uníssono e se encaram fazendo um acordo silencioso, é paz… por enquanto.

- Ótimo! - ela finalmente lhes larga, não antes sem algumas ameaças extras por precaução, até suavizar e finalmente fazer a questão que a filha mais quer se  esquivar - Diana, onde estão Marcela e Tetéo? Eles nunca se atrasam, não assim.

- Hum… - a ruiva pensa em uma resposta convincente, como poderia explicar que talvez não venham? E que isso é inteiramente, completamente e inegavelmente sua culpa - Acho que ela já tinha um compromisso ou algo assim.

- Mar nunca marca compromissos às quartas, ela sabe que é nossa noite de família. Será que Marco quebrou a clavícula novamente? Vou ligar para ela! Ela teria me ligado se tivesse de desmarcar…

- Não! - Diana diz firme e se senta, evitando os olhos escuros e profundos que conseguem arrancar quaisquer respostas dela, inclusive a verdade - Ela… Ela teve um dia difícil, bateu o carro a caminho do trabalho, talvez só esteja cansada…

- Ela está bem? - Seu Romeu é o primeiro a perguntar, seguido por Luísa, que ainda mastiga uma almôndega grande - E Tetéo? - ela complementa, com medo.

- Theo estava comigo, o levei para a escola hoje. E sim, ela está bem. Nenhum corte ou arranhão.

- Você tem certeza? - Camila questiona aflita - Ela pode ter batido a cabeça, isso é perigoso.

- Mila tem razão, minha filha. - o senhor acena positivamente para a nora e parece refletir - Temos que verificar isso, ela pode ter uma convulsão e isso é perigosíssimo.

Ele se levanta ignorando os protestos e busca por seu casaco, que nunca está no cabideiro, a esposa lhe ajuda, logo todos estão se preparando para sair enquanto Diana não sabe como se livrar dessa situação. Dizer a verdade não teria feito uma bola de neve assim, talvez rendido alguns puxões de orelha e sermões, mas não todos planejando uma pequena visita que de pequena não teria nada e com o perigo de ainda assim descobrirem a verdade.

- Eu meio que discuti com ela. - ela finalmente murmura quando Isadora começa a digitar uma mensagem de texto para Marcela.

- O que?! - Dona Ada ouve bem, entretanto não acredita no que acabara de ouvir - O que você fez, Di-ana Al-bu-quer-que?

- Bem, isso explica tudo. - o pai ergue os ombros e se desfaz do casaco, o perdendo imediatamente - O que aconteceu?

- Ela deve ter fodido tudo. - Isadora murmura e se joga no sofá, puxando a namorada para sentar no seu colo - Como sempre.

- Olha o linguajar, Isa-do-ra.

- A senhora está brava com ela, não comigo.

- Você está se colocando no fogo cruzado. - Luísa suspira e senta entre as irmãs antes que voltem a brigar, encarando os pais, então se volta para a primogênita - Mas ela tem razão, você deve ter feito algo muito ruim para a Mar não vir no jantar semanal.

- Eu não…

- O que aconteceu? - Seu Romeu repete a pergunta, tentando não entrar no pequeno espiral de provocações e acusações, isso apenas vai fazê-la acuar - Ela rejeitou?

- Rejeitou o que? - Diana rebate confusa e fica tensa, se sente desconfortável, está perdendo algo dessa conversa? Ou é um desses momentos que tem certeza que o pai deve consultar-se urgentemente com um médico?

- A proposta de casamento, ué. - ele dá de ombros como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Que proposta de casamento? - agora ela está mais confusa ainda, assim como suas irmãs e Camila.

- O que você entendeu quando eu disse que você precisava casar?

- Que… eu precisava casar?!

- Então! - ele gesticula e se vira para a esposa, procurando por alguma ajuda nesse diálogo.

- Papai, Amauri me pediu em casamento. - murmura a mesma coisa que contou a Marcela pela manhã e desvia o olhar para o chão, não consegue, não, não quer lhes encarar ao contar isso, os suspiros longos e profundos são o suficiente para saber de suas reações, exceto pelos pais.

- O quase careca cabeça de ovo? O PENTELHO?

Seu Romeu nunca se exalta, o que falta de paciência na esposa ele tem em dobro e mais um pouco, mas está desacreditado no que acaba de ouvir. Assim, pela primeira vez em anos, desde que Beatriz bateu o carro na entrada e quase atropelou a própria avó, ele ergue a voz.

- Por favor, me diga que você negou. - é Luísa quem quebra o silêncio angustiante.

- Eu… - ela começa e engole seco, finalmente levantando o rosto para encontrar todos lhe encarando com expectativa - O que?

- Diana, eu achei que você fosse… Meu Deus, você não tem jeito… Eu… Ada, acho que vou me deitar.

- Vou preparar um chá para o senhor. - Isadora levanta proativamente e puxa a namorada até a cozinha, desde que começaram o relacionamento é como se não pudesse fazer nada sozinhas, sempre estão lado a lado, até nas tarefas mais simples como colocar água para aquecer na chaleira - Pode ser de camomila? Vai precisar.

- Sim, sim, Dora. Sem açúcar.

- Tá bom! - Camila responde por ela do outro cômodo.

O homem nem mesmo acena antes de se virar para subir as escadas, se sente decepcionado, achou que a conversa que tiveram dias antes fosse ajudá-la a finalmente tomar coragem, assim como o empurrãozinho com a condição para herdar seu antigo lugar na empresa familiar. Diana é sua primogênita, sua primeira herdeira e também a mais competente, sabe que ela é inteligente e brilhante, que não poderia haver pessoa melhor para ser a nova cabeça do negócio que lhe custou anos de trabalho duro. Mas também sabe que pode ser teimosa e obtusa em alguns aspectos, especialmente o amoroso. O que era para ser um empurrãozinho para o lugar certo se tornou um chute direto para o penhasco da decadência.

Dias antes, no final de semana, haviam se reunido em um café da tarde demorado no jardim, ao terminar a refeição Dona Ada se retirou deixando os dois nos banquinhos. Havia algum tipo de entendimento silencioso entre o casal, como se tivessem discutido e ensaiado esse momento dezenas de vezes antes. O senhor esfrega as mãos no tecido da calça, na altura do joelho, e suspira, tentando lembrar quais palavras usar, nada veio a sua mente, então decidiu por improvisar.

- Você já tem quarenta anos, Diana…

- Obrigada, papai, eu sei a minha idade. - ela brincou e bebericou um pouco de água gaseificada.

- Quarenta e um em alguns meses. - complementou, desconcertado - Claro, você sempre vai ser minha garotinha, sardentinha e com dentes tortinhos.

- Eu não quero nem imaginar quanto foi gasto com dentistas naquela época. - ambos riem e Diana ponderou, o pai é nostálgico, entretanto parecia diferente, havia algo mais por trás - Papai, onde o senhor quer chegar?

- Bem, seu avô trabalhou muito duro para termos a mercearia, eu era um molecote e seu tio era um bebê, não tínhamos muito, mas éramos privilegiados. Fui à escola, me formei na faculdade e ajudei ele quando decidiu comprar a primeira pousada. Você lembra daquele poço?

- O que fazia eco no meio da noite e me assustava?! - a ruiva sorriu e colocou o copo na mesinha de centro, agarrando um pedaço de bolo de milho - Me lembro muito bem, eu mal conseguia dormir.

- Esse mesmo! Cássio e eu cavamos aquele poço, acho que fiquei cheirando a terra por meses. - ele ri das memórias que guarda com carinho, o irmão mais novo era alto e forte, mas morria de medo de escuro - Meu pai já estava quase desistindo de transformar aquela terra na sonhada pousada, estava doente, com febre, e quando se levantou quase caiu novamente ao ver que tínhamos terminado aquilo por ele.

- Mas papai, tio Cássio tinha mais medo daquele poço do que eu!

- E mesmo assim ele entrava naquele buraco para fazer o que era necessário. Tivemos muitos calos nas mãos, um carrapato me mordeu também. 

- Vovó deve ter ficado louca com isso.

- Com razão! Era um perigo, qualquer hospital era muito longe dali. - ele sussurrou e tentou se encontrar no assunto novamente, estava começando a se distrair com a nostalgia - Onde quero chegar é que você me lembra muito de como eu era quando jovem.

- Eu não sou mais tão jovem assim, papai.

- Não seja boba! Como que dizem mesmo sobre a nova geração? - Seu Romeu estalou os dedos tentando acender a lâmpada das ideias e murmurou uma sequência de frases que poderiam ser a que estava a procurar - Ah! Os quarenta são os novos vinte.

- Tenho quase certeza que na verdade é “Os trinta são os novos vinte”.

- Que seja! - ele riu, mas um brilho mais melancólico surgiu nos olhos azuis - Diana, você é minha primogênita, ainda lembro de quando te segurei pela primeira vez nos braços, tão pequena, cheia de cabelo e tudo o que eu conseguia pensar é que você herdou minha cabeça grande.

- Papai!

- É verdade! Sua mãe diz que demoramos para ter a Bia por sua causa. 

- Isso é injusto!

- Para sua mãe, sim. Mas valeu a pena, você foi a coisa mais linda que eu já havia visto na minha vida, era minha, para cuidar, proteger, amar. E enquanto crescia se mostrava ainda mais Albuquerque que qualquer uma de suas irmãs.

Diana pisca os olhos tentando afastar as lágrimas que insistem em se formar nos cantos, tudo estava se tornando muito emocional, mais do que geralmente é. Ao mesmo tempo um sorriso se formou nos lábios, seu pai sempre foi muito aberto sobre seus sentimentos e com uma tendência a lembrar tudo com aquele ar de saudade que a fazia querer voltar no tempo apenas para viver aqueles momentos novamente.

- Você é teimosa, herdou isso de mim, essa foi a razão para eu demorar tanto a me aposentar e isso só aconteceu quando começou a afetar minha saúde. - reconheceu ele com pensar, ainda assim não demonstra arrependimentos - Por enquanto, deixei nas mãos do seu tio, ele ainda tem um pouco mais de vigor que eu, mas logo planeja se aposentar também. 

A conversa começou a se guiar por um assunto que ela nunca achou que chegariam a conversar sobre, afinal, o negócio era dividido entre o pai e tio, além do primo que demonstrava mais interesse na rede de pousadas do que ela mesma. Apesar de praticamente ter sido criada na matriz, aquela primeira em que sua família tinha colocado suor e sangue para construir com as próprias mãos, depois que começou a faculdade nunca mais foi assídua em suas visitas como antes. O pai dedicou grande parte de sua vida a fazer esse projeto vingar, assim como os outros de sua companhia e se orgulha de cada um deles.

- Cássio e eu conversamos, nós dois concordamos, sem dúvida alguma, que você, minha filha, é a mais capacitada e inteligente para assumir nosso lugar como diretora administradora das pousadas Celeste.

- Papai, eu não… nem…

- Não só isso, eu te quero como presidente da companhia

- Da companhia? Eu seria… a CEO?

- Bem, se isso significa ser presidente, sim. Eu quero que seja você a cuidar dos negócios da família. - ele abriu um grande sorriso, em expectativa, sabia que isso seria uma grande responsabilidade, da mesma forma que sabia que Diana poderia ser a única a conseguir lidar.

- Papai, eu estou hon…

- Eu não terminei ainda, querida. - Seu Romeu a interrompeu com delicadeza, estão na parte mais difícil da conversa - Você é inteligente, determinada e com um tino que te levou ao sucesso que tem agora. Não consigo nem contar de quantos negócios paralelos você é sócia, sem falar da padaria.

- Padaria e Café. - corrigiu ela, um pouco nervosa, ainda está sem acreditar no que acabara de ouvir - Ou Café e Padaria, ainda não decidimos.

- Sim, sim, exatamente. É magnífico, você construiu uma vida boa para si mesma.

- O senhor acha?

- Claro, é um negócio bem sucedido. E Marcela é maravilhosa.

- Ela é sim. - Diana sussurrou, sentindo as bochechas corarem, não haveria melhor parceira comercial que ela.

- Muito! Ela é gentil, esperta e cheia de vida, você ganhou até mais cor depois de a conhecer.

Ao mesmo tempo que é estranho ouvi-lo falar tão abertamente sobre suas escolhas de sócios, algo que nunca havia interposto ou discutido, é reconfortante. Ele fez isso apenas uma vez, quando disse que seria uma boa ideia ter Marcela por perto, era boa com negócios assim como um pé de coelho dá sorte, não entendeu muito na época, mas Marcela se tornou seu pé de coelho. O carinho na voz dele a faz se sentir menos culpada de estar tendo esse relacionamento sem definição e sem nome pelas costas de todos, incluindo sua família, que a reprovaria mais do que poderia suportar. Não apenas por ter uma “amante”, todos condenam isso veementemente, também por colocar Marcela nessa posição. Desde que a conheceram, quando ainda era caloura na faculdade e pegava caronas com sua irmã, a colocaram sob suas asas. Como se fosse outra filha, uma “Albuquerque postiça”, como definiu Luísa uma vez ao descobrir o significado da palavra no dicionário. 

- E Tetéo é um amor de criança, ele é tão bem criado, cuidado e amado.

Diana sorriu e pensou em como ele estava tão certo. Mesmo não sendo planejado e vindo ao mundo em um momento não tão propício, ele foi imensamente amado desde o primeiro segundo. Se lembra com clareza de como ele agarrou seu dedão no quarto do hospital enquanto Isadora e Luísa praticamente se matavam para serem as próximas a segurá-lo, como nunca havia visto Mar sorrir daquela forma e quase chorar por vê-lo sugar o ar á procura de seu peito por alimento. Ela quase chorou junto, da mesma forma que quase havia chorado no primeiro ultrassom e nos dez seguintes. O menininho delas havia chegado.

- Sempre quis uma família grande e consegui, Deus, tenho uma esposa maravilhosa e quatro filhas, que apesar de serem pestinhas são meu orgulho, o que mais amo e prezo neste mundo. E sempre desejei o mesmo a vocês.

- Eu sei, papai…

- Quero um jardim cheio de netinhos e netinhas, tudo bem se eles tiverem cabeças grandes e ruivas como você.- ele brincou e recebeu um empurrão leve acompanhado de uma gargalhada, que sabia ser falsa, consegue identificar o que cada risada de suas meninas significa - E podemos ir passar os finais de semana na pousada, andar a cavalo, nadar, até posso ensinar eles a jogar taco. O que me lembra que tenho que ensinar Tetéo, meu único neto precisa saber como jogar taco, talvez no próximo jantar. E nas férias dele podemos finalmente levá-lo para cavalgar na colina, nós três…

Seu Romeu, segundo as filhas, especialmente a mais velha, é um prolixo profissional e consegue colocar dezenas de assuntos dentro do principal. A mãe diz que ele é enrolador, não sabe como chegar ao cerne de uma conversa, principalmente as difíceis. É exatamente isso que estava a assustando. Qual seria o cerne senão se tornar sua herdeira?

- Papai, o que o senhor quer dizer?

- Está mais para pedir, na verdade, é uma condição que vou impôr para que você possa assumir as pousadas e a companhia. - o senhor desviou o olhar com medo de sua reação, mas sua esposa concordou e lhe apoiou com o plano que elaborou para ajudar a filha.

- Condição? Que tipo de condição?

- Você precisa se casar. Eu não estou duvidando de sua capacidade de gerir e administrar, mas preciso de uma prova de seu compromisso com a família e no que acreditamos. - ele tentou escolher as palavras certas, o que deixou a tarefa mais difícil ainda, a ideia de Ada era apenas dizer a ela com quem casar, quando, mas ele decidiu tentar ser mais suave - O que quero dizer é que você deve se comprometer com os negócios da mesma forma que se compromete com sua família. Você nunca falta a nenhum jantar semanal, mas eu quero que você também tenha jantares em sua casa, tenha carinho, amor e compreensão. Tudo o que sempre desejei a vocês, minhas meninas.

- Isso é por causa do que Beatriz fez? - o evento catastrófico de um par de anos antes ainda é intocado, eles tentaram antes, mas havia muita vergonha e alvoroço em torno disso.

- Bia é um caso à parte, ela vai ficar bem. Você também.

- Me casando?

- Finalmente se comprometendo.

Ele achou que ela tivesse entendido o que ele queria dizer e que isso se relacionava a uma pessoa em específico, a mesma pessoa com quem compartilha uma vida, um tipo de relacionamento que se mantêm entre negação e a familiaridade mais doce que já vira. Nem mesmo se lembrava da existência do Pentelho, já que a filha não havia havia se dado o trabalho de o apresentar formalmente, apenas lhe tendo como acompanhante em eventos neutros ou relacionados a Dolce Felicità em que Seu Romeu mal conseguia ouvi-lo falar sobre coisas entediantes e irritantes, fugiu de todas as interações sociais possíveis. Provavelmente seria um sinal se ela não estivesse tão cega com a ideia de agradar.

 

Diana suspira, repassando a conversa outra vez e outra vez tentando encontrar o que entendeu errado, que outras interpretações poderiam ter senão finalmente dar o próximo passo com Amauri.

Fim do capítulo


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Comentários para 3 - Capitulo 02:
Lea
Lea

Em: 06/06/2026

Diana não se aceita. E a família toda ama a Marcela,o Téo. 

Toda a família enxergando o relacionamento delas (mesmo não sendo um relacionamento),menos ela.

O que a Diana teme? Fazer a Marcela sofrer é mais gratificante doque,assumir um relacionamento com ela?

 

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