SE ATENTEM AOS GATILHOS.
Chapitre Unique.
As famílias Dorléac e Devereaux são possuidoras de grandes feitos entre seus descendentes e para seu país. Enquanto os Dorléac consolidaram seu nome nos cenários artísticos e da perfumaria parisiense, os Devereaux, na Normandia, reconstruíram sua grandeza, após inúmeras baixas sofridas devido a invasões inglesas.
Em uma tarde, às margens do rio sena, Etienne Devereaux, que havia sido enviado por seu pai a Paris em busca de um contrato que pudesse auxiliar a mudar o status da família, se apaixonou perdidamente pelos olhos verde-esmeralda da jovem Louise Dorléac sem saber que ela seria o passaporte para a escalada social e melhora do status de sua família quase falida. Sem que os pais de ambos soubessem, planejaram fugir juntos para um país que ninguém os conhecia e assim poderiam viver esse amor pueril.
Ao voltar para sua cidade, Etienne descobriu que o pai havia lhe arranjado uma pretendente que atenderia aos requisitos de bote salva-vidas para a honra da família. Desolado, o rapaz não conseguiu avisar a sua amada.
Em Paris, Louise recebeu uma notícia similar. Seu pai, um influente nobre francês, havia firmado um acordo com Auguste Devereaux e a garantia de que tudo ocorreria conforme desejado era a união das duas famílias através do casamento. Discordando dessa decisão, a moça tentou fugir, sem sucesso, pois Genoveva, sua madrasta, percebeu suas intenções e frustrou os planos. Implicando em sua proibição de ausentar-se da residência familiar até a viagem para o jantar de apresentação.
O tempo, entidade imparcial e imparável, cumpriu sua função de aquietar pessoas e amainar dores. Louise havia se conformado com seu destino e Etienne não possuía mais forças para enfrentar seu pai. O jovem casal seria obrigado a enterrar no fundo de sua alma aquele belo sentimento.
Mas o destino, um rapazote brincalhão, gosta de pregar peças nos desavisados. Ao se verem, frente a frente, para o jantar de noivado, Etienne e Louise sorriram discretamente. Genoveva, com olhos de lince e uma inveja silenciosa da enteada, captou que a moça se mostrava contente em demasia com tal arranjo. Entendeu tarde demais que sua manobra e manipulação para se livrar da moça dando-lhe um futuro de agruras havia falhado.
Seguindo o que foi combinado às margens do rio, os recém casados mudaram-se para o Brasil. Louise passou a cuidar da filial de perfumaria do país, elevando-a à excelência em toda a rede. Com o passar do tempo, a Dorléac Parfum passou a desenvolver essências únicas sob encomenda. Etienne, graças a sua habilidade em blefar nas mesas de jogos de azar confundindo seus adversários, se tornou dono de casas noturnas de luxo, que ofertavam inúmeros tipos de entretenimento para os bons pagantes.
Conforme o sobrenome de ambos despontavam em seus cenários, as brigas entre o casal tiveram início. Denominando-se macho alfa, Etienne se sentia no direito de ter quantas mulheres lhe conviesse e as exibia constantemente em colunas de fofoca. Sabine, a única filha do casal, já havia sido alvo de bullying no colégio bilíngue onde estudava, agravando cada vez mais a relação conturbada entre pai e filha.
O estopim foi um dia após a adolescnte completar dezesseis anos. Sabine havia chegado das aulas de boxe junto com Elise, sua namorada, e escutou o barulho de objetos sendo arremessados e se espatifando através da acústica da mansão. As vozes alteradas indicavam que era mais uma briga dos pais, mas quando se aproximava do corredor de acesso à suíte do casal escutou a mãe pedindo para que Etienne parasse, o que intencionava realizar. Ao adentrar estancou. Seu pai havia arriado as calças e tentava forçar o corpo de Louise contra o recamier.
Sabine retirou o cinto decorativo de seu short e chicoteou as nádegas do pai. Com o barulho do estalo e sentindo uma dor lancinante, o homem virou e percebeu que havia sido agredido pela filha. Sem tempo para raciocinar, sentiu outra dor profunda ao ser atingido por um soco no rosto que o nocauteou. Sabine e Louise fizeram as malas e saíram deixando o homem desacordado.
Após se instalarem no apartamento que Sabine havia ganhado de presente ao debutar, localizado na Avenida Oceânica, próximo do Ondina Apart Hotel, Louise ligou para o escritório Monteiro & Martinez Advogados Associados pedindo que dessem início a ação de divorcio. O mesmo destino que havia juntado o jovem e inocente casal descruzou os caminhos daqueles que, agora, soavam como estranhos. Quando pensou em dificultar, Louise o lembrou que poderia manchar sua reputação de maneira irreversível.
E assim, alguns pares de anos passaram. A relação entre Etienne e Sabine era uma linha frágil que poderia romper a qualquer instante. A linha foi tensionada novamente quando a jovem completava vinte e um anos. E saia de um famoso shopping na região do Caminho das Árvores com mais três amigas quando foram cercadas por três vans pretas. Homens armados desceram e colocaram as jovens distribuídas entre os carros.
Após perceber que o carro estava em movimento, apertou o pingente de sua pulseira. Ele era um micro rastreador entregue por sua mãe como medida cautelar. Os homens não falavam nada, dificultando uma possível identificação pela voz. Rodaram cerca de vinte minutos até chegar no local que estava preparado para recebê-las.
As jovens foram separadas de acordo com as ordens. Sabine foi colocada nos fundos do galpão, longe das outras. Jesin Maltez, sobrinha neta do Comendador Maltez, a figura aristocrática e emblemática no mundo das artes em Salvador, foi colocada em um cubículo com alguns lanches e água mineral sobre a mesa. Laura Souto, neta de um político influente, ficou no segundo cubículo onde havia uma poltrona e uma coberta dobrada na embalagem, uma mesa com lanches e água. Por fim, Marina Millet, sobrinha da percussionista Monica Millet e uma das herdeiras de um dos mais tradicionais e famosos terreiros de candomblé da Bahia, foi deixada nas mesmas circunstâncias que as anteriores.
Três famílias receberam um pedido de resgate. A de Sabine recebeu o silêncio. Enquanto Louise se desesperava com a iminência de perder sua única filha, Etienne, que estava sentado no luxuoso sofá de sua mansão trajando um conjunto de alfaiataria italiano feito sob medida e nos pés, seu velho mocassim, permanecia tranquilo.
-Eles irão mandar alguma mensagem. O rastreador está funcionando?
-O sinal está fraco, mas a equipe de segurança está vendo outras formas. Eu espero que não seja ninguém querendo retaliação por algo que você tenha feito.
-Mon Dieu! Sempre para em mim. - exasperou-se o homem.
-Por cerca de 75% das vezes, de alguma forma, é responsabilidade sua. E não coloque Deus nessa conversa. Você é ateu.
Na parte superior do galpão, Anísio Vieira Lima olhava Sabine sentada na cadeira com uma mordaça na boca e os olhos vendados. Pensou em sua irmã e, em quantas vezes, ela pediu para que seu algoz a deixasse em paz. O francês a cercou de todas as formas possíveis até que conseguiu capturá-la e lhe tirou a inocência. A jovem ficou tão aterrorizada, desnorteada que se trancava no quarto e só saía quando a mãe a levava para dar uma volta no jardim. A menina cheia de vida parecia um espectro do que um dia fora. Na véspera de Natal, ao tentar se comunicar com a irmã por bilhetes como fazia na porta do quarto, não obteve resposta. Ao encostar o ouvido na porta, escutava ao longe, barulho de água. Pegou a chave reserva com sua mãe e, ao entrar no quarto, o encontrou vazio. Percebendo o piso molhado, seguiu para o banheiro e ficou em choque ao deparar-se com o corpo de sua irmã, sem vida, submerso na banheira, abraçada a uma pelúcia. Anísio chorou igual a uma criança que perdeu seu tesouro mais precioso. Não houve Natal na família Vieira Lima. Não havia mais família. Diante do túmulo de sua irmã, ele jurou que faria o homem sentir a mesma dor que ele a infringiu.
Passou a frequentar as casas luxuosas de Etienne. Ia nas festas, jogava em seus cassinos e o estudava sempre que possível. Um dia, por acaso, encontrou Sabine saindo da casa do homem. Através do segurança descobriu que a jovem era filha e herdeira única de tudo. Era a oportunidade que ele precisava. Ordenou a seus homens que a seguissem, traçaram a logística dos passos da jovem e aguardaram até a fatídica tarde no shopping. Naquela noite, Alicia Vieira Lima seria vingada.
Com passos tranquilos, o homem desceu os degraus de ferro, fazendo barulho e provocando mais medo na jovem. Andou em volta da cadeira enquanto fumava seu Montecristo. Deu uma última tragada antes de se pronunciar.
-Boa noite, Sabine.
-Anísio?! Mas…
-Te contarei uma pequena história. Eu tinha uma irmã, que era jovem e bonita, assim como você. E ela despertava a cobiça de muita gente, incluindo seu pai. Ele passou a segui-la e assediá-la, embora houvesse muitas negativas. Numa noite, ele prometeu que a levaria em segurança para a casa da minha família. - o homem respirou fundo. - Mas ele mentiu. Ele a trouxe para esse mesmo galpão. Rasgou seu vestido. - antes que a menina pensasse, o homem fez o mesmo com ela - Passou as mãos nojentas dele pelo corpo dela assim como estou passando pelo seu.
Sabine sentiu-se nauseada. Escutou o barulho do zíper da calça do homem abrir. Sentiu seu corpo jogado no chão com fúria e violência. Suas pernas abertas de maneira bruta, sua calcinha arrancada e sentiu aquele nervo rijo sendo empurrado em sua intimidade com força enquanto lhe era contada a história de uma jovem que tinha idade para ser sua irmã e foi violentada por seu genitor. A mordaça a impedia de gritar e chorar. As mãos amarradas não a deixavam se defender e sentia que ali seria seu fim.
Após findar o hediondo ato de extrema violência, um dos seguranças gritou ao patrão, pois carros e um helicóptero se aproximavam. Antes de fugir, o homem tirou uma fotografia da jovem naquele estado e guardou como seu troféu e vingança.
Comandante Ribeiro foi o oficial que encontrou a jovem caída no galpão. Chamou a equipe médica e, assim que a direcionaram para o helicóptero na maca, ele foi em busca das outras jovens. As libertou do cativeiro e as levou para suas residências. Alguns dias depois, as jovens prestaram depoimento, mas nenhuma delas sabia nada relevante. Sabine permanecia internada no Hospital Aliança. Dois seguranças ficaram prostrados na porta do quarto e só estava autorizada a entrada da equipe médica do hospital e os pais da jovem.
Etienne havia passado a noite e boa parte do dia sentado numa poltrona dentro do quarto. Se maldizia pelo que havia ocorrido com sua princesinha. Tirou sua carteira Louis Vuitton da sua calça e abriu. Acariciou uma fotografia de Sabine com cinco anos e um sorriso sapeca no rosto. A menina havia ganhado um pônei de presente dos pais e estava extremamente feliz. Saiu do torpor provocado pela lembrança ao escutar um gemido.
-Mon jour..
-Muito tempo atrás você me chamava assim… Meu Dia.
-Seu nascimento havia sido meu melhor dia. - o homem puxou a poltrona e sentou-se bem próximo da jovem.
-Por que você fez o que fez com aquela jovem?
-Eu… não… - deparando-se com a crueza de seu próprio ato, o homem não teve uma resposta minimamente convincente para dar.
-Etienne… no dia em que você quase fez isso com minha mãe, eu parei de chamá-lo de pai, mas ainda tinha o respeito… o carinho… - a jovem olhou-o profundamente nos olhos. - Dias atrás sua filha morreu nas mãos de um homem que queria lhe ferir, lhe atingir onde, supostamente, doeria. E sabe o que é pior?! - lágrimas vertiam de ambos. - é que eu tenho ciência que ela não foi a primeira e não será a última. Só que eu não estarei mais à disposição para ser, novamente, usada em prol de uma vingança nojenta entre machos que, no fundo, se igualam. Um pela certeza da impunidade e o outro pela sede de algo que só destroi quem sofre na pele.
-Minha filha…
-EU JÁ DISSE QUE ELA MORREU!
O grito assustou Louise que caminhava pelo corredor do andar em direção ao quarto da jovem. Acelerando os passos, encontrou Sabine exasperada e Etienne tentando contê-la para que os fios e acessos medicamentosos não se deslocassem do lugar. O olhar desesperado do homem mostrava arrependimento sincero e amor genuíno pela filha. Uma pena que veio tarde demais.
-Por gentileza, Etienne. - Louise abriu mais a porta do quarto.
-Mas eu… - olhava a filha encolhida na cama chorando em silêncio. - se é assim que você quer… mas saiba que continuará sendo Meu Dia.
Cabisbaixo, o homem saiu. Louise fechou a porta e o acompanhou em silêncio até o elevador. Assim que a caixa metálica chegou, o homem virou para a ex mulher e a abraçou. Não de maneira desrespeitosa, mas como quem pede uma fração de apoio. O abraço foi retribuído.
Dias depois houve a alta e Louise decidiu levar a filha para passar um tempo na cidade de São Paulo, em um apartamento de luxo na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima. Os primeiros dias foram de adaptação e silêncio. A partir da primeira semana, os pesadelos e gritos na madrugada tiveram início. Com muito esforço, Louise convenceu a filha a fazer acompanhamento psicoterapêutico e as coisas começaram a ganhar tons de normalidade, dentro do possível.
Em uma das sessões com a psicóloga, Sabine relatou que, muitas vezes, ela tinha a sensação de ter despertado, mas percebia estar dentro de outro sonho tão real quanto a vida e seus momentos. O que a fazia observar e identificar se tratar de um sonho em detalhes como a aparência das pessoas ou um objeto que não deveria estar no espaço.
Sabine entendeu também que não se curaram completamente do trauma e que, poderiam tentar desenvolver uma qualidade melhor de vida. De comum acordo, mãe e filha decidiram passar uma temporada na França.
Dez Anos Depois
Louise havia chegado ao décimo terceiro andar do Edifício Salvador Trade Center, onde ficava localizada a parte administrativa das perfumarias. Havia deixado Sabine no laboratório, dois andares abaixo.
Havia marcado uma reunião com Minerva Monteiro, filha do seu querido amigo e advogado, Carlos Monteiro. Ao sair do elevador, observou que Maria de Lourdes, sua secretária, já havia instalado a jovem na sala de reuniões e providenciou um lanche.
-Bonjour, Louise.
-Bonjour, Minerva. Desculpe o atraso, mas passei no laboratório e Sabine estava tentando tirar nosso perfumista do sério.
-Imagino. Quanto tempo ela ficará? - inquiriu interessada. Há tempos que não encontrava a herdeira do império Dorléac.
-Ela nunca diz. Simplesmente vai embora e me avisa quando chega na França. Creio que quando a cidade passa a sufocá-la. - uma centelha de tristeza cruzou o olhar da mulher. - mas me conte de você. Já está com alguma moça ou moço em vista?!
-Longe de mim. Gosto da… - foi interrompida por uma voz que lhe tirou a concentração.
-Maman... pardonne-moi. Je ne savais pas que tu avais une visite d'une beauté exceptionnelle. (Mãe... me desculpe. Não sabia que estava com uma visita de beleza ímpar.)
-Merci pour le compliment. Comment vas-tu, Sabine ? (Agradeço o elogio. Como vai, Sabine?)
Sabine arqueou a sobrancelha em nítida surpresa ao escutar sua língua mãe em timbre de voz rouco, porém aveludado. Sua mãe deu um sorriso discreto.
-Estou bem. E vossa senhoria?! Que conhece minha alcunha, porém desconheço a sua.
-Minerva Melik Monteiro, ao seu dispor.
-Ah! A filha do tio Monteiro.
-Como posso auxiliar minha filha intempestiva?! - Louise cortou o clima de flerte no ar.
-Terminei a essência. Armand está digitando o que faltou. Vou me entreter na loja.
-Não atrapalhe! Já telefonou para seu pai?!
-Eu não tenho pai. - fechou a porta e se foi.
As mulheres se olharam e um suspiro foi emitido por Louise. Voltaram a tratar da documentação da nova filial que seria inaugurada no shopping ao lado. Minerva, por vez ou outra, se distraía pensando na audácia da outra jovem.
-Algo mais?
-Falta organizar o testamento em conjunto com Etienne. Ele já anexou a parte dele?
-Terei uma reunião com ele no fim da tarde para tratar disso.
-Até breve, querida.
Horas depois, Minerva encontrava Etienne claramente embriagado no escritório da mansão que morava, no bairro do Corredor da Vitória. A governanta havia conduzido a jovem e permaneceu, de maneira discreta, ao fundo da sala. Além das tentativas baratas de galanteio, o homem portou-se como a muito não fazia. Conteve seus ímpetos de macho alfa.
As páginas do tempo passaram em silêncio, mas não despercebidas. Minerva e Sabine passaram a se encontrar “ocasionalmente” na sala de Louise, que sempre sorria da desfaçatez e peraltice da filha. Já havia sugerido um convite para jantar, que era prontamente ignorado pela jovem. O que a fez mudar de ideia foi o incidente ocorrido no dia da nova loja de perfumes.
O shopping escolhido havia sido o mesmo onde a jovem foi sequestrada, uma década atrás. Enquanto a mãe discursava, Sabine sentia que poderia se afogar em sua própria transpiração. As extremidades corpóreas estavam gélidas e ela começava a ofegar em busca de ar. Minerva, observando sua quase paquera, a conduziu discretamente para fora do evento.
Ao sentar Sabine no banco do carona de seu carro, iniciou exercícios de respiração e presentificação com a jovem. Havia aprendido com seu irmão, um psicólogo famoso da capital baiana. Aos poucos, a moça voltava para o momento presente.
-Como se sente?
-Melhor! Graças a minha heroína. Como posso agradecê-la?!
-Um café, talvez. Se não tentar me ludibriar novamente.
-Aceita iniciar esse café em um jantar intimista na minha casa?! Eu cozinho.
-Mande o endereço, dia e horário.
Tanto a francesa quanto a brasileira já haviam percebido a reciprocidade de um possível interesse por caminhos afetivos. Sabine havia terminado um relacionamento de três anos na França por entender que sua, então namorada, queria muito mais do que um namorico. Falar em casamento era proibido para a moça, pois a fazia lembrar dos últimos anos turbulentos do matrimônio de seus pais. Em contrapartida, Minerva completava meses divorciada. Havia casado cedo com uma paixonite que havia conhecido na universidade; João Leão Neto, um dos herdeiros da política na região do centro oeste e advogado por sonho de infância.
Os primeiros anos foram tranquilos. A partir do segundo ano, teve inicio uma leve pressão por filhos e que Minerva deixasse o escritório, além de um ciúme desmedido do sócio que trabalhava junto com a moça no escritório. Antes que piorasse, Minerva apresentou a documentação do divorcio.
O Condomínio Pedra da Gávea, ficava localizado no bairro de Stella Maris. Quando Sabine recebeu as fotos da casa pela imobiliária achou fantástica. Estilo moderno, a sala e cozinha são integradas e harmonizam perfeitamente. No quintal, uma piscina com mesas laterais, um quiosque com churrasqueira e uma região mais recuada com sauna e banheira de ofurô preencheram todos os requisitos. Minerva chegou pontualmente às dezoito horas e Sabine recebeu com um vestido de estampas florais azuis, pés descalços, cabelos presos em coque alto e avental.
-Venha! Vai me auxiliar. - caminhou para a cozinha e trocou a playlist para um jazz suave, pegou outra taça e serviu um pouco de frisante a sua convidada.
-O que farei?!
-Lavar as mãos e me ajudar. A Pâte Brisée já está pronta e pré aquecida, vamos despejar aos poucos o recheio nela. Com cuidado, coloque os pedaços de Bacon, o queijo e a mistura de creme de leite. - se posicionando atrás de Minerva, guiou sua mão para que o recheio ficasse uniforme. - prontinho. A quiche Lorraine está no forno.
-Cheff Sabine Dorléac. Não sabia desses seus dotes culinários.
-Uso apenas quando quero impressionar. Vamos para a varanda?! O forno está programado para tocar no tempo.
Seguiram para uma aconchegante varanda externa, na lateral da casa. O jazz, o frisante e a brisa suave noturna eram condutores de uma conversa tranquila que arrancava risos e pequenos toques entre ambas. Foram despertadas pelo forno avisando que era hora do jantar. A mesa posta para duas e mais vinho em um balde com gelo. Os assuntos iniciaram com o elogio a iguaria e Sabine ligeiramente envergonhada. Flutuavam por gostos em comum, música, artes e um pouco de conhecimento histórico. De volta a varanda, a anfitriã, por instantes, tornou-se mais séria e inquiriu a jovem.
-O que aconteceu… dez anos atrás?
-Com o homem?! - recebeu um aceno positivo. - foi preso, após ser atingido pela equipe de segurança. Os jornais noticiaram que o motivo da prisão tinha a ver com corrupção. Uma clara manobra da família dele. Ficou uns dias internado sob vigilância da polícia e lá morreu de infarto fulminante. Nota oficial da imprensa.
-E a extraoficial?!
-Assassinado. - deu um gole em seu vinho e analisou a expressão da outra. - mas acredito que você me convidou para tomar café. Não vi nada para preparar. - sorriu.
Ao invés de oferecer uma resposta irônica ou dúbia, Sabine avançou tal qual uma pantera que avista sua presa. Beijando os lábios carnudos e convidativos de Minerva como quem prova uma fruta extremamente viciante.
Mãos se prenderam em cabelos enquanto aproximavam os corpos. Em um momento de pausa para fôlego, Sabine guiou Minerva para uma sala preparada com colchas e almofadas formando uma tenda improvisada. Havia frutas, suco e mais vinho dispostos em uma mesa próxima ao local.
-Pelo visto, você pensou em tudo.
-Para nosso conforto e prazer.
Entre descobertas de peles e tatuagens, sensações novas e gostos ímpares, a lua cruzou o céu sem que o recém casal de amantes percebessem a passagem do tempo. Quando os primeiros raios solares atravessaram os vidros da casa, encontrou as duas mulheres com sua nudez coberta por uma manta de lã azul marinho.
A primeira a despertar foi Sabine, que sentiu o cheiro da essência de âmbar floral que havia criado especialmente para a mulher que ressonava em seu abraço. Com cuidado, se desvencilhou. Foi ao banheiro tomar uma ducha, vestiu um robe de seda azul marinho e voltou à cozinha para preparar o café da manhã. Quarenta minutos depois, Minerva era despertada com suaves beijos e uma canção em francês em seu ouvido.
-”...Moi/Je t'offrirai des perles de pluie/… Pour couvrir ton corps d'or et de lumière/ Je ferai un domaine où l'amour sera roi/ Où l'amour sera loi/ Où tu seras reine…”
-Serei sua rainha?! Hum! Gostei disso.
-Sim. E como boa serva que sou, trouxe o café de Sua Majestade. - colocou a bandeira com duas xícaras de café e croissants na cama improvisada.
Um banho a duas regado ao molho de ontem, foi a deixa da manhã. A partir daquele dia, ficou acordado que iniciaram uma relação, a princípio discreta e com poucos conhecedores. Louise ficou genuinamente feliz ao saber da novidade. Talvez Minerva ajudasse a filha a entender que nem todas as relações teriam o mesmo fim que a sua e Etienne.
Sabine esteve com o pai em duas ocasiões, ao longo dos meses. A primeira na inauguração da perfumaria e a segunda quando os pais lavraram em cartório o testamento deles. Exigência de seu avô paterno já que o pai estava se afundando cada vez mais em bebida e envolvendo-se com mulheres interesseiras que fariam de tudo para obter alguma vantagem.
Observou o olhar lascivo de Etienne em direção a sua namorada e a mesma aparentava não retribuir. Em uma das noites de revezamento entre as casas, conversaram sobre e acordaram que Murilo Martinez, o sócio do escritório de advocacia, cuidaria das próximas tratativas com Etienne.
Em quatro meses, a perfumaria teve um retorno monetário impressionante para Louise. Sabine pensava cada vez menos em sair do Brasil por períodos prolongados. Foi até Paris poucas vezes organizar questões importantes e, em ambos os casos, passou apenas cinco dias na cidade luz. Na última viagem, Antoine Devereaux pediu que a neta entregasse um baú antigo ao pai.
Pensando em se livrar dessa missão, assim que pegou seu carro no estacionamento do Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, seguiu pela orla até o corredor da vitória, especificamente na rua da Graça, número 1313, Mansão Devereaux. Os seguranças habituais não estavam na portaria. Apertou seu controle e o portão abriu.
Ao estacionar seu carro na entrada da casa viu o carro de sua namorada também. Imaginou que o pai havia feito alguma exigência maluca que obrigasse a mulher a ir. Pelo menos, anteciparam o reencontro. Assim pensou. Empurrou a porta e tudo estava silencioso. Deixou o baú no aparador e caminhou com passos leves pela casa em direção ao escritório do pai. Antes de abrir a porta escutou a voz do homem em desespero, quase gritando.
-Acorda, Minerva! ACORDA! Merda. - o homem balançava o corpo da moça tentando despertá-la em vão.
-Mon dieu! - Sabine irrompeu intempestiva na sala tentando acordar a namorada. - o que você fez, Etienne?! Minerva, acorda, querida. O QUE VOCÊ FEZ?! - exasperou-se.
-Eu não… ela… nem a toquei.
-Claro, claro! Você e sua doença.
-NÃO! Ela tropeçou na borda do tapete e caiu… isso! Caiu.
O homem falava nervoso enquanto andava pelo espaço com um copo de whisky na mão. Aos poucos, a advogada foi recobrindo a consciência e, imediatamente, levou a mão à nuca. Onde a dor estava concentrada. Ao focar sua visão em Sabine, a mulher desabou em um choro que misturava alívio e dor. Com calma, Sabine a levou para seu carro e, após se certificar de que a moça estava segura, pediu que aguardasse. Voltou para dentro da casa e encontrou o francês afundado em sua poltrona.
-Não bastava ter estragado minha vida anos atrás. A vida de outra moça e sua família. Agora queria fazer o mesmo com a advogada. VOCÊ NÃO PENSA NAS CONSEQUÊNCIAS DA PORRA DE SEUS ATOS. - gritou. - Eu tenho marcas que jamais se apagarão por mais que eu faça terapia, por mais que eu tente levar uma vida normal. Por sua culpa. Só sua.
-Terminou de despejar suas frustrações em mim?! O balde de merd* aqui serviu. - levantou cambaleando devido ao excesso de álcool em seu organismo. - A princesa não aceita que eu sou assim.
-Você é um doente. Se mantenha longe de Minerva. É o único aviso que te dou.
-Ou vai fazer o que?! Me bater?! Denunciar seu pai?! Não… me matar! Acertei?!
Álcool, deboche e mágoas antigas se misturavam criando uma combatente altamente inflamável. Etienne abriu uma gaveta trancada em sua mesa, retirou seu revólver Taurus RT 856 calibre .38 SPL e o colocou sobre a mesa.
-Se lhe faltava a arma… aí! Atira! - olhava no fundo dos olhos da jovem, acreditando que leria hesitação. - Vamos lá, Sabine. ATIRA! Termina de acabar com esse sofrimento. Já estou morto em vida. Só vai oficializar. ATIRA! -puxou a mão da jovem com a arma engatilhada e colocou em seu peito, na direção do coração. - Je n'ai plus envie de vivre ma vie.
Um estampido abafado ecoou pela casa. Sabine desceu as escadarias da entrada em poucos segundos e dirigiu o carro tentando se acalmar e disfarçar aos olhos da namorada. Foram direto para Stella Maris e lá, em seu refúgio, Sabine contou o que aconteceu dentro da casa.
Ao final do dia era noticiado a morte do empresário Etienne Devereaux no que aparentava ser um acerto de contas. As câmeras da casa estavam desligadas e não haviam testemunhas que pudessem colaborar com a investigação. Sabine recusou-se a ir no sepultamento. Louise assumiu a função de organizar o funeral e receber os ex-sogros em sua casa.
Após a leitura do testamento, a mansão foi vendida por Sabine e os antigos sócios das casas noturnas ofereceram fortunas pela parte que cabia a Etienne. Tudo que poderia ser um legado atribuído ao homem foi transformado e sua existência foi relegada ao esquecimento.
Um Ano Depois
Sabine havia acordado de mais um pesadelo. Minerva, agora sua esposa, ressonava ao seu lado. Saiu da cama sem movimentos bruscos para não acordar a outra e desceu o lance de escadas em direção a cozinha de sua casa. Abriu a geladeira e pegou um pouco de suco de laranja.
Olhou a lua cheia através da janela da cozinha e se preparava para voltar à cama quando escutou um assobio na sala. Sentado com a postura relaxada que apenas o consumo excessivo de álcool proporciona, a jovem viu alguém que, definitivamente, não deveria estar ali. Ao vê-la, o homem sorriu.
-Pensou que se livraria tão fácil de mim?! Vim te buscar, mon jour. - engatilhou a arma que estava em sua mão e disparou.
FIM
Fim do capítulo
Merci!
Comentar este capítulo:
Zanja45
Em: 25/05/2026
Oi, esse jeito bem fluido de escrever me deixa envolvida, principalmente quando você traz na sua narrativa os nomes das ruas e avenidas da cidade de Salvador.
Que história, heim? Ettienne não se contentou com o que resultou do abuso dele no passado, que resolveu repetir com a mulher da filha dele?
Queria saber o que tinha no baú que Sabine trouxe da França.
Lily Porto
Em: 25/05/2026
A mulher some e quando volta é com uma bomba em forma de texto dessa.
Um bom enredo, uma mistura de mistério com falta de paciência, kkk. E claro a cereja do bolo que gostamos mais que tudo na vida: uma personagem destilando deboche e humor ácido.
Leitura um tanto quanto tensa, eu diria, porém, valeu muito a pena.
Parabéns, mana.
Agora tá devendo pouca coisa ????.
Nay Rosario
Em: 25/05/2026
Autora da história
Voltando aos poucos e sacudindo a ferrugem da escrita. Esse lance de academia acaba com a gente.
Que bom que curtiu o enredo. Foi um desafio a parte pra mim: escrever e produzir numa linha completamente fora da minha zona de conforto.
Pra mim ficou ok.
Posso melhorar.
Humor Ácido e deboche - okay
Obrigada, mana.
Agora devo terminar CDA em nome de Cher.
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